O político
Podemos, pergunta Stanislav Jerzy Lec, o aforista polaco, falar de progresso quando um canibal começa a usar garfo e faca? A pergunta não é para menos. Existe alguma coisa essencial que define o político? Algo que independentemente das circunstâncias, do momento e dos homens, podemos identificar como fazendo parte do que é político? Começo com grandes interrogações para dar, no fundo, uma resposta muito simples. Apoio-me em Max Weber, o sociólogo alemão que produziu uma das abordagens mais interessantes de sociologia política, para dizer que o que identifica o político é a liderança sobre os meios que são específicos à comunidade política. A forma que a comunidade política assume nos nossos dias é a forma do estado. Alguns entre nós acham que o que define o estado são os fins por ele servidos, mas a definição que Weber nos proporciona aponta noutras direcções.
Com efeito, para Weber o estado é simplesmente uma comunidade política que logra monopolizar o uso legítimo da força física dentro de um determinado território. A legitimidade coloca-se ao nível da aceitação do dever de obediência a ordens. Não interessa para os nossos propósitos actuais descrever os três tipos básicos de legitimidade que Weber distingue, mas interessa reter a ideia de que o político é, neste sentido, tudo quanto tem como objectivo apropriar-se de ou influenciar a distribuição do poder, isto é da capacidade de emitir ordens e ser obedecido. Se concebermos o político na perspectiva de Weber, portanto, somos obrigados a perguntar, para o caso de Moçambique, quem de facto entre nós tem legitimidade para exercer poder, de onde vem essa legitimidade e como é que ela é garantida ao longo do tempo.
No contexto histórico que fez Moçambique é algo difícil colocar este tipo de questões. Os que fizeram a nossa independência tiveram, infelizmente, uma relação amorosa com outras formas de conceber o político que nos deixaram um legado muito pesado. Eles apaixonaram-se por Karl Marx que, na esteira de Saint Simon e de outros socialistas na história do pensamento social europeu, estavam agarrados à ideia de que uma sociedade ideal e justa era aquela onde não se exercia poder de qualquer espécie. Marx juntamente com os seus percursores e seguidores deixaram-se fascinar pela ideia de que o verdadeiro progresso era aquele movimento histórico que conduzia ao fim do estado, entidade que eles justamente identificavam com o exercício do poder. Daí aqueles slógans que conhecemos de criação do poder popular na base do escangalhamento do aparelho de estado colonial e das relações de exploração.
Esta paixão por Marx conduziu a uma visão bastante negativa do político, visão essa que, na prática, também teve efeitos bastante nocivos. As tendências totalitárias dos anos imediatamente a seguir à independência têm uma ligação intrínsica com esta visão do político. Os revolucionários iam acabar com o político para poderem devolver a felicidade à maioria. Iam acabar com o político constituindo-se, eles próprios e sem se aperceberem, nos detentores do poder ... político! A impaciência com opiniões divergentes e a obsessão com a ideia de que os “revolucionários” sabiam como tornar os outros felizes deu naquilo que deu no nosso país. E ainda nos ressentimos. Com isto não quero, contudo, e como já foi sugerido por um historiador francês, Michel Cahen, na sua análise das elites políticas moçambicanas, sugerir que os detentores de poder de então fossem gente cínica que se serviu do discurso marxista para abocanhar o poder. Não. Houve, entre eles, muita gente íntegra e sincera que acreditou honestamente na ideia de que a condição da nossa emancipação económica, social e política fosse mesmo o fim do político.
Muitos continuam ainda a acreditar nisso, mas munidos da experiência do pluralismo político podemos começar a apreciar os problemas teóricos e analíticos de que essa crença enferma. O professor Carlos Serra publicou até há bem pouco tempo no seu blogue “Diário de um sociólogo” uma série interessante sobre o “poder”, também reproduzida no jornal Savana, que reflecte esta visão do político que tantos problemas criou ao nosso país. Talvez deva logo de antemão dizer que ao comentar essa série não estou de nenhuma maneira a desqualificar o exercício intelectual que está na sua base; simplesmente não partilho, como alguns académicos e intelectuais da nossa praça preferiam que fosse, a ideia de que as ciências sociais moçambicanas só estão bem quando não se comenta o que colegas dizem, ou, quando se comenta, é apenas para manifestar concordância. O poder nessa série é definido como algo misterioso que assenta na decepção para que um grupo de indivíduos se reproduza à custa da credulidade de uma maioria que é levada a procurar a causa do seu infortúnio em tudo menos nos detentores do poder.
Esta visão das coisas explica, em parte, porque na análise das coisas políticas do nosso país prestamos mais atenção aos fins do que aos meios. Assim, porque identificamos Comiche e Simango com fins – fins esses que são bons – pensamos que os meios são simplesmente um impecilho que deve ser afastado. Queremos alguém que nos conduza aos fins e não nos preocupamos muito em domesticar o poder que conferimos a esse alguém. Associamos tudo quanto cria dificuldades à prossecução de bons fins ao que de mau existe no político e ansiamos, consequentemente, pelo fim do político como condição de realização dos fins. Estou, como podem ver, a levantar problemas à forma como descrevemos e analisamos o fenómeno político na nossa terra. A minha sugestão é de que essa forma está ligada à definição que temos do político. Uma definição que me parece problemática.
16 comentários:
"A legitimidade coloca-se ao nível da aceitação do dever de obediência a ordens"
Se percebo bem o que queres dizer, acho esta afirmacao bastante terrorista. Portanto,e independentemente se o individuo "cai" no poder de para-quedas, seja por golpe de estado, fraude eleitoral, etc, o seu poder sera' legitimado cada vez que ele emanar ordens e elas sejam obedecidas? Se forem ordens de fuzilamento, idem? Se for para desencadear uma "operacao murambatsivina", idem?
Bom, acho que deves estar a falar de um estado fascista/ditatorial e nao de um estado de direito. Nao admira que andes ultimamente preocupado com a adequacao dos pressupostos teoricos a realidade pratica!
Uma coisa que acho importante perceber e' que, ninguem gosta de cumprir ordens, principalmente quando elas sao injustas, irracionais, etc. Portanto, se a ordem for "falhada" entao o estado vira "falhado" porque deixa de haver sintonia entre quem ordena e quem cumpre.
Por outro lado, acho que "legitimidade" e' algo que deve estar primariamente cimentado na cabeca do politico ou detentor de poder, como medida do suporte que o levou a ascender a essa posicao e nao pelo mero facto das suas ordens serem obedecidas.
Achei tambem interessante o comentario que fazes em relacao as reais intencoes dos nossos "libertadores"! Se a tua afirmacao estiver correcta, o que dizer da realidade pratica no terreno? Eles perderam a orientacao ideologica ou foram capturados pelas "forcas do mercado"?
caro jonathan, acho que para efeitos analíticos é importante ter uma definição do objecto a partir da qual podemos introduzir nuances e distinções. a ideia de que a legitimidade se coloca ao nível da aceitação de obediência a ordens faz isso. a partir daí podemos perguntar em que condições é que se emanam ordens e se obedece. que condições devem estar reunidas para que as pessoas aceitem cumprir ordens? não há uma única resposta a esta questão, aliás, a democracia liberal proporciona apenas uma de várias respostas possíveis. por exemplo, a autoridade tradicional constitui uma fonte de legitimidade para alguns; a obediência militar também; a religião, etc. o perigo de confundirmos o que é essencial com as nossas expectativas normativas - de resto justas - é de nunca ganharmos a distância necessária à análise fria dos fenómenos que nos interessa analisar. a legitimidade, seja como for que for entendida, regula o político; é na sua base que cada um de nós decide se deve obedecer ou não e, para esse efeito, recorre às razões que o levam a aceitar cumprir ordens. quais são essas razões? são consensuais? temos todos consciência deles? no caso particular do nosso país, temos uma constituição que estabelece claramente que a legitimidade vem da observação do estado de direito, mas a pergunta que devemos colocar é se esse é o entendimento de todos nós. duvido. é aí onde começa a análise.
A definição do Weber que usas é circular. Imagino, conhecendo o trabalho do Weber e lendo o resto do texto, que ele queria dizer algo como domínio dos meios de dominação ou poder, que variam contextualmente. Nas sociedades modernas, vincula-se ao Estado.
não, não creio que a definição de weber seja circular. ele faz uma distinção entre poder (no sentido de força) e dominação. diz que a dominação é a socialização do poder (força), isto é a introdução de relações de autoridade no exercício da força. é a partir dessas relações de autoridade que se constitui a legitimidade. é por isso que ele define o estado como o monopólio dos meios legítimos de violência. trata-se de uma definição que nos permite apreciar o que está em jogo no exercício do poder dentro de uma sociedade. compreendo, contudo, que exista o perigo de circularidade se partirmos do princípio de que onde há ordens e obediência há também legitimidade. mas não é o que weber fez, ele utilizou a definição de forma heurística para começar a fazer perguntas. algumas dessas perguntas ajudariam bastante no contexto moçambicano.
Bom Elisio,
Voltando ao assunto de "legitimidade" acho que defendes a tua posicao sob o ponto de vista de quem detem o poder. Eu estou a falar do outro lado da muralha. Quando defendo que a legitimidade deve provir ou ser avaliada como uma medida do suporte que conduz um individuo a tomar o poder, e que isso pesa imenso na abordagem e empenho que esse "lider" ira' dar a resolucao dos problemas dos que o elegeram, acho que a nossa historia recente tem elementos bastante esclarecedores. Nao e' novidade que algumas provincias como Sofala, Zambezia, etc, andaram por longos periodos esquecidas, supostamente porque votavam sistematicamente para a oposicao. A pergunta que eu coloco e': se um lider vendo que nao tem o apoio do seu eleitorado, mas detem os meios e controla os organismos eleitorais, a ponto de inverter o veredicto eleitoral, se a sua governacao sera' muito diferente da anteriormente mencionada em relacao as "provincias esquecidas"?
caro jonathan, não tenho a certeza se percebo o teu comentário. parecem-me muitos assuntos ao mesmo tempo. na questão da legitimidade não vejo a utilidade de distinguir pontos de vista. para mim o que conta é a questão de saber o que faz com que pessoas obedeçam ordens durante muito tempo. a força é uma boa razão. mas historicamente a legitimidade fundada na autoridade tem sido mais duradoira. o empenho do líder é regulado pela noção de legitimidade que é subjacente à dominação. para mim é novidade que províncias como sofala e zambézia andaram por longos períodos esquecidas supostamente porque votavam sistematicamente para a oposição. na leitura que faço dos resultados eleitorais quem deu vitória à frelimo nas primeiras eleições foram essas províncias (que não votaram em bloco pela renamo); a frelimo tem gente estúpida, mas não até ao ponto de votar províncias ao esquecimento só porque votaram na renamo. de resto, não é possível ignorar essas províncias devido à sua importância económica e política. acho que a suposição que fazes não é correcta. até porque o facto de uma província votar na oposição seria razão suficiente para um governo nela investir.
Caro Macamo!
Devo concordar com as tuas ultimas linhas! Mas antes de mais, gostaria de realcar que aqui na blogsfera "mocambicana" gostamos de cantereolar sobre este pais, mas quantos de nos conhecem este pais na realidade? Muitos aqui falam de Mocambique, mas baseando-se apenas em Maputo e na vila de seus ancestrais! Se alguem viajou pelo pais a fora depois das 2 primeiras eleicoes sabe bem que as provincias que atras referi estavam completamente estagnadas! Alguns sectores proximos do partidao referem que as coisas comecaram a mudar apos um consultoria brasileira que aconselhou que essa nao era a melhor abordagem para lidar com esse eleitorado descontente! Como que a corroborar o que acabo de afirmar, num passado muito recente, quando o partidao estava a discutir a estrategia a implementar para as eleicoes autarquicas e foi defendida veementemente a abolicao do apoio a projectos a serem implementados em municipios como a Beira, porque o autarca estava a receber o credito por essas accoes quando na realidade se tratavam de iniciativas do governo central, e o camada Pachinuapa acabou sendo ovacionado pelas organizacoes da sociedade civil e inclusive pelos media por se levantar e se opor a essa abordagem porque "os citadinos dessas cidades eram tambem mocambicanos e alguns deles simpatizantes do partidao", porque achas que essa foi considerada uma accao heroica se, conforme apregoas, essa era a abordagem normal????
E' dificil dares assistencia a quem te espeta uma navalha no estomago, por isso e' fundamental que os governos africanos sejam eleitos legitimamente para que se sintam motivados a trabalhar pelos que os elegeram!
caro jonathan, devo confessar que sou um desses moçambicanos que não conhece o país muito bem. o ponto mais ao norte onde estive até aqui foi a cidade da beira, e isso também poucas vezes e só por alguns dias. quando estou em moçambique passo mais tempo em maputo e em xai-xai. creio até que nos últimos 10 anos passei mais tempo em xai-xai do que muitos moçambicanos provenientes dessa cidade e que se encontram a viver em maputo. não creio, contudo, que isso me confira alguma vantagem na abordagem dos assuntos dessa cidade, nem desvantagem na abordagem do país. ter estado em algum lugar, ou mesmo viver nesse lugar, não confere automaticamente, quanto a mim, melhor conhecimento. é possível estar num sítio e não ver nada. penso que devemos aceitar que as pessoas falem como quiserem sobre o país, desde o momento que estejam dispostas a entrar em discussão sobre os seus termos de análise. sobre a questão das províncias acho que estás a levantar um problema muito bicudo, mas, quanto a mim, sempre mal contado. devemos separar o problema do desequilíbrio regional do problema de um partido não querer implementar certos projectos para não beneficiar adversários políticos. sobre este segundo problema, parece-me uma atitude perfeitamente racional, ainda que muito arriscada do ponto de vista eleitoral. pessoalmente, nunca aconselharia nenhum partido a fazer isso, mas não seria pelas razões dadas por pachinuapa. seria por uma questão meramente estratégica que por razões de retórica teria que ser vestida em roupagem nacionalista. agora, a primeira questão, essa do desequilíbrio regional, receio que tenha sido sistematicamente mal discutida no nosso país. não disponho de números, mas a minha impressão é de que desde a independência até agora investiu-se muito mais (e com melhor qualidade) no centro e norte do país do que no sul. só nos últimos anos é que apareceram empreendimentos de grande envergadura no sul (maputo e gaza). o corredor da beira recebeu rios de dinheiro nos anos oitenta, em nampula construiu-se uma das maiores fábricas têxteis de áfrica, na zambézia e tete jorraram mares de dinheiro para empreendimentos económicos de vária ordem. niassa também com o projecto de unango esteve no centro das atenções políticas durante muito tempo. muito disso foi distruído ou inviabilizado durante a guerra da renamo ou simplesmente vítima da nossa ineficiência, desleixo e fraca capacidade económica. o que acharia interessante discutir, portanto, é porque apesar desse esforço todo essas regiões não registaram os níveis de crescimento e desenvolvimento desejados. responsabilizar o regionalismo da frelimo por isso é a maneira mais fácil de evitar pensar. em todos os anos da suposta hegemonia política de gaza essa província retrocedeu no tempo. a cidade de xai-xai é fantasma de si própria, o parque industrial que tinha desapareceu completamente, as pessoas vivem do pequeno comércio ou de empregos inseguros em projectos; o celeiro que chokwé era (e tão próximo do local de nascimento de machel) é um saco roto, os solos foram criminalmente destruídos por supostos técnicos amigos, enfim um declínio vergonhoso e deprimente que torna todo o discurso anti-sul promovido por alguns sectores da nossa opinião pública num insulto ao senso-comum. o que explica o declínio de gaza nestes anos de independência é o mesmo que explica a estagnação do centro e do norte. e a forma mais segura de nunca abordarmos esse problema é andarmos a insistir nessa história muito mal contada da dominação do sul.
Caro Elisio,
Tenho a graca de conhecer minimamente o pais e muito dos percursos feitos por via terrestre. Conheco bem a provincia de Gaza, desde Chokwe, Mabalane, Chicualacuala e ate' mesmo Massangena. Sei bem do espectro de pobreza em que vivem essas populacoes, que nao difere muito da das outras regioes. Quando referes a maior fabrica textil de Africa, penso que deves estar a falar da de Mocuba, na Zambezia. Naturalmente que a guerra inviabilizou muitos projectos que estavam a surgir um pouco por todo o pais, mas sou de opiniao que esse projecto particular estava bastante sobredimensionado, se quisermos, um autentico elefante branco. Volvida essa fase inicial do pos-independencia, acho que ha evidencia suficiente para suportar a inequidade de alocacao de recursos por regioes. As primeiras duas assembleias andaram bastante focalizadas nestas materias. Mas hoje, quando se fala em novas iniciativas, o sul aparece como o elemento prioritario, pese embora grande parte da riqueza nacional continue a ser produzida noutras regioes. Mas nao e' esse debate que pretendo fazer aqui. Tens razao quando mostras a tua indignacao pelo que esta a acontecer com Gaza. Inhambane, idem, sao das mais pobres provincias do pais. Mas tem as suas potencialidades que continuam sendo desprezadas ou inexploradas. Porque Chokwe nao pode ser reactivado e voltar a ser o celeiro do pais. Importamos metade do arroz que consumimos, mas nao se ve uma estrategia integrada de atacar esses problemas. Mas nota-se noutras regioes, uma tendencia de "sancionar" os "mismanagements" que tem ocorrido com a reactivacao da nossa economia, mas no sul, parece haver uma especie de "conformismo"! So' nao sei o que explica isso. Mesmo o amigo Elisio, dificilmente discute este tipo de problemas praticos que ocorrem no nosso dia a dia e que afectam seriamente as nossas vidas. Nao se trata de criticar por criticar, mas discutir estas tematicas e propor vias ou meios para que estes problemas sejam resolvidos. Acho que o exercicio da nossa cidadania nos obriga a isso. Uma coisa que propus numa postagem antiga no meu blog, e' que, se usa-se anualmente 1 de cada 7 ou 10 milhoes para construir uma represa/barragem de terra em cada distrito, e ja' se estaria a resolver um problema que afecta as populacoes e se estaria a incentivar a agricultura que continua a ser a nossa maior fonte de riqueza. Os distritos de Gaza que atras mencionei, tem serios problemas de agua. O governo, por exemplo devia reactivar e construir novos regadios por este pais todo, se se quer efectivamente impulsionar a actividade agricola.
Um abraco e tenha um optimo fim de semana que se avizinha.
sim, referia-me a mocuba. obrigado pela rectificação. podes ter razão em relação ao sobredimensionamento. é isso que estou a dizer: o que explica os desaires sofridos nos esforços de desenvolver o país não é o regionalismo da frelimo. não concordo com a ideia de que há maior concentração no sul agora. ao lado de grandes empreendimentos como mozal, gaz de pande e areias pesadas no sul, há também tete e zambeze com grandes projectos de infraestruturas e investimento mineiro. eu não vejo nenhuma prova de desequilíbrio regional intencional por parte do governo. vejo problemas ligados à nossa capacidade económica e de gestão que por ser baixa nos coloca na situação de falharmos e darmos lugar a esse tipo de especulação. toda a reflexão que faço no blogue e nos jornais em maputo constitui um contributo prático para a solução dos problemas do país. mostrar onde está um problema ou rejeitar uma determinada proposta de solução é contributo prático. se falo neste blogue da "fala sem consequência", do "direito à razão", do "fenómeno da bicha" e tudo isto enquadrado pela "caixa de ferramentas do sociólogo" é justamente para contextualizar melhor as condições em que propostas como a que tu fazes de construção de represas poderão de facto ter sucesso. se isto não é contribuição prática, então o que nos resta é calar a boca e ficar apenas a ouvir propostas atrás de propostas. para ti também um bom fim de semana!
Amigo Elisio,
Longe de mim, se pelas minhas palavras, transpareceu a ideia de achar que nao estivesses a contribuir de forma pratica para a resolucao de varios problemas que afectam a nossa nacao e que todos nos queremos ver resolvidos! De todo, nao foi essa a minha intencao!
E' verdade que a abordagem que um engenheiro da' a um problema especifico, sera' completamente diferente da de um sociologo. Por isso, nao faz sentido discutir o contributo que cada um da'!
Mas sabe Macamo, ha' muita coisa concreta que precisa de comecar a acontecer. Comecando pela producao agricola, julgo que tem havido falta de uma visao estrategica integrada para atacar varios problemas candentes. Temos que comecar a trabalhar, temos que comecar a produzir! Tivemos o Proagri que drenou rios de dinheiro, mas so' se fez agricultura no escritorio. Ha' que focar as accoes no terreno, nos agricultores. Os fazedores de politicas precisam propor e implementar coisas funcionais. Mas nos nao estamos isentos de responsabilidade. Nada impede que eu, o Elisio e todos bloguistas mocambicanos iniciemos um investimento agricola nas nossas areas de influencia e comecemos nao apenas a falar aqui dos outros, seus planos e suas politicas, mas partilhemos nossas experiencias de producao de horticulas, cereais, gado, etc. Julgo que nem tudo e' obrigacao do governo, mas nos cidadaos temos que comecar a ser agentes impulsionadores da economia! Mocambique precisa disso urgentemente!
Caro Jonathan
Sem querer menosprezar o que dizes, prefiro a lógica da especialização. A eficácia é maior quando cada “macaco” está no seu galho, ou seja, quando cada um concentra-se somente no que melhor sabe ou pode fazer. Suponho que o Elisio contribui melhor com suas abordagens critícas, do que se se convertesse em criador de Gado. O tempo disperdiçado no gado seria melhor aproveitado, na elaboração dos seus artigos. Este debate faz-me recordar, aquela velha história de que se “A” é bom professor, logo tem que ser ministro.
Relativamente as assimetrias regionais, corraborando Elisio, poderia acrescentar que a implantação dos grandes projectos no Sul, está associada à uma lógica transnacional, o complexo minero-energético (o professor Castel-Branco já escreveu tanto sobre este assunto), que infelizmente tem interesses diversos aos anseios do governo e ou dos Moçambicanos. Adicionalmente, O Jonathan há-de reparar, que as dinâmicas económicas do sul de Moçambique estão fortemente ligadas e condicionadas aos interesses dos agentes económicos Sul Africanos. Aliás quer me parecer que esta viragem iniciou com a descoberta das Minas de Diamante de Kimberley na Africa do Sul. Foi para aproveitar as oportunidades que a economia Sul Africana oferecia, que o governo colonial português transferiu em 1898 a capital da Ilha de Moçambique para Lourenço Marques.
Josue J. Muchanga
sim, cada maca(m)o no seu galho... o argumento sobre o complexo minero-energético é plausível. penso, contudo, que tem também muito peso o facto de o centro de decisão política se encontrar em maputo. se a capital estivesse em lichinga, com o tipo de sistema político que temos, mesmo se o governo fosse feito de machanganas, as outras regiões haveriam de passar mal, incluindo gaza, inhambane e província de maputo como é agora o caso. isto sugere mais uma linha de reflexão. vejo os governantes num dilema muito sério. se descentralizam (que é o que deviam fazer) correm o risco de serem censurados por estarem a despir-se da responsabilidade que têm pelo desenvolvimento do país. é uma situação difícil.
Estimado JJM,
Obrigado pelos seus centimos a este debate. A sua alusao a "cada macaco no seu galho" faz-me lembrar a recente interrupcao da campanha do candidato republicano "para ir resolver a crise financeira em Washington"! Portanto, que se deve fazer uma coisa de cada vez! Se se e' sociologo, e' apenas sobre materias de sociologia que devemos tratar. Devo discordar consigo neste aspecto. Concordo plenamente que a especializacao e' fundamental. Mas ela nao cai de para-quedas! E' antes um produto da maturacao de uma sociedade. O "mercado" mocambicano ha-de acabar por "exigi-la". Mas vivemos um momento em que mais de 50% da populacao e' analfabeta e pouco mais de 2% tem ensino superior. Acho que este sector nao pode apenas se limitar a uma coisa, se quisermos ver este pais a progredir. Ademais, nao vejo contradicao alguma que um sociologo tambem tenha gado ou uma farma. E' minha modesta opiniao. Em relacao as assimetrias regionais, antes queria um pequeno esclarecimento se a capital nao mudou primeiro da Ilha para a Beira. Segundo, nao nos devemos acomodar no que herdamos do legado colonial. Ha' sim interesses estrategicos com a Africa do Sul, mas isso nao justifica que o resto do pais continue refem disso. Cada regiao tem as suas potencialidades e e' fundamental que elas sejam capitalizadas. E' preciso planificar e implementar isso e o pais pode muito bem ter "clusters" dispersos pelo territorio e nao nos limitarmos a dizer ...."a africa do sul, ..os colonos, etc"!
Um abraco
Caro Elisio,
Devo concordar contigo quando te referes a particularidade das capitais. E' assim em todo o mundo: elas acabam tendo muita atencao, mas acho que e' em termos de localizacao dos orgaos directivos nao so' governamentais, mas tambem de empresas e homens de negocios. O sector produtivo, esse precisa de estar implantado pelo pais, senao estariamos implicitamente a defender que o pais inteiro tivesse que se mudar para a zona sul.
Devo concordar contigo tambem que o regionalismo nao e' a justificacao para as assimetrias regionais. Quem conhece o pais real, sabe bem que a situacao nao difere para o "average joe" mocambicano, esteja ele no sul, centro ou norte! Todo o mundo esta' votado a sua condicao. Isso, infelizmente, pode ser um indicio de falta de uma estrategia concisa e efectiva para levantar este pais e sua economia! Desenvolvimento nao acontece ao acaso. "Somos pobres", como se gosta de apregoar, mas ha' muita coisa que com os recursos de que dispomos, ja' deveria estar a acontecer. Por isso insisto que os cidadaos "lucidos" desta nacao devam comecar a ter mais participacao na economia. Da mesma maneira que podemos dominar os manuais e teorias de Bourdieu, podemos aprender a gerir uma farma!
Abraco
oh, jonathan, és muito optimista. mal domino os manuais de bourdieu! por acaso tenho gado, mas há anos que a manada não cresce... gostaria tanto de ir a moçambique, sacrificar uma cabeça e convidar todos os bloguistas, mas como se as vacas estão sempre a abortar? quem me diz isso são os pastores em boa demonstração das nossas planícies sem fim...
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