Ordem
Uma das principais preocupações da sociologia é a ordem. Como é que ela é possível? É assim como alguns sociólogos até colocam a questão. Como é que a ordem é possível? Outros falam simplesmente do problema da ordem. A questão é mais complexa do que eu a estou a colocar aqui. Na verdade, ela começa muito antes com o entendimento que a sociologia tem da própria noção de ordem. O que é ordem? Muitos sociólogos dão a ordem por adquirido, isto é partem do princípio de que grupos humanos existem em contextos normativos e estruturais que podem ser entendidos como “ordem”. Esses contextos podem ser chamados de comunidade, sociedade, meio social, estilo de vida, etc. Isto é, são contextos dentro dos quais se podem observar comportamentos mais ou menos padronizados, com relações de autoridade, hierarquias, exercício de poder, etc. Como é que isso é possível? Como é que a ordem emerge? O que garante a manutenção da ordem neste sentido muito lacto do termo?
Um olhar à história da sociologia revela o papel central ocupado por esta noção. Thomas Hobbes estava preocupado com as condições necessárias para que a vida em sociedade não se transformasse numa guerra de todos contra todos. Jean-Jacques Rousseau estava interessado em saber como é que as pessoas se submetiam voluntariamente ao controlo de outros através de um contracto social. Adam Smith estava interessado em saber como é que a interdependência produzia uma divisão social do trabalho que tornava a cooperação necessária. Émile Durkheim idem. Georg Simmel olhou mais, a partir de uma posição aristoteliana, para o todo que é maior do que as suas partes e como esse tudo era constituído por interacções. Max Weber olhou para a própria acção, isto é para a forma como as pessoas tomavam as outras em consideração naquilo que faziam. Karl Marx interessou-se pelo papel do conflito no movimento da história. Enfim, em qualquer indivíduo que identificamos como percursor da sociologia podemos encontrar uma preocupação com o problema da ordem. Talcott Parsons, o grande sociólogo americano, é que começou a tratar o problema desta maneira mesmo: o problema da ordem. Como é que ela é possível? Ele deu respostas importantes que continuam a alimentar debates apaixonados e apaixonantes na sociologia. Uma ideia importante que ele defendeu foi de que os indivíduos interiorizam normas e agem, portanto, de acordo com a sua socialização. Esta ideia é criticada por muitos outros sociólogos que acham que Parsons tinha uma concepção exageradamente socializada do indivíduo.
Este paleio todo é simplesmente para introduzir o texto que reproduzo logo a seguir. Acho que coloca um grande desafio aos sociólogos moçambicanos. Extraí-o do Jornal Notícias (aqui). É uma carta de leitora, Anália Manjate. Leiam-na, por favor:
Barracas nos subúrbios prejudicam descanso dos vizinhos
SR. DIRECTOR!
Escrevo esta carta para manifestar a quem de direito o quão tem passado mal população suburbana por causa das barracas. É claro que a barraca é um negócio para a sobrevivência. O que se tem verificado é que as ditas barracas são construídas em lugares por vezes impróprios, dentro de residências e não conseguem gerir o som. A barraca é um local de divertimento e para divertir-se melhor é preciso que haja som. Isto dá ânimo e gosto ao dono da barraca e aos clientes, mas para a vizinhança é uma grande irritação porque nem as suas aparelhagens não é possível ligá-las estando dentro do seu quintal. Tem que escutar a música da barraca, todo o quarteirão submete-se a esta situação.
Maputo, Quinta-Feira, 9 de Outubro de 2008:: Notícias
O que tem acontecido é que os proprietários dessas barracas quando metem pedido de licença não especificam melhor o negócio que pretendem fazer. Outros até especificam abrem como sendo uma mercearia e passados alguns dias a mercearia já tem bancos montados, estão lá copos de cerveja a barril, isto é uma cervejaria autêntico. Não quero ofender a ninguém, mas não duvido que alguns homens da inspecção têm-se deparado com estas situações e dinheiro que é bom é-lhes fechada a boca para não mandar fechar os estabelecimentos ou aplicarem as devidas multas.
Peço a quem de direito para tentar resolver estas situações de barracas caseiras, que incomodam a vizinhança, ligando aparelhos até ao amanhecer. Face a isto tudo já não há paz para a vizinhança. Essas barracas devem ter uma hora do fecho e não em plena segunda-feira, por exemplo, abrir-se das 8.00 horas às 22/23.00 horas com som alto, parece tratar-se de uma discoteca no meio de residências. Ainda se for sexta-feira podia se entender, mas também não com som tão alto.
Socorro, ajudem-nos, por favor passamos mal nas zonas suburbanas!
Aqui está uma oportunidade de nos tornarmos relevantes. Como é que isto é possível? Porque é tão difícil estabelecer a ordem nos nossos contextos urbanos? O que se está a passar aqui? A própria carta avança uma explicação, nomeadamente a corrupção dos inspectores. Mas não é explicação. É apenas a elaboração do problema. Avança também a ideia da luta pela sobrevivência. Mais uma elaboração do problema. É o problema da ordem simplesmente que inclui também a venalidade dos inspectores ou a luta pela sobrevivência. Como é que devemos colocar este problema? O que significa ordem neste contexto? Que ordem é possível neste contexto? Porque é que as coisas, entre nós, são assim? Reparem que as duas explicações avançadas na carta de leitores têm uma longa tradição também na história do pensamento social. Adam Smith está lá. Herbert Spencer também. Hobbes. Parsons. Todo o pessoal está lá.
Ofereço-me para apoiar com ideias e conselhos qualquer estudante de sociologia em Moçambique (e noutras partes do mundo, claro!) que queira fazer um trabalho de fim de curso que se debruce sobre esta matéria. Precisamos de muitos estudos sobre as condições de sociabilidade nos nossos meios urbanos. Acho que as perguntas que formos capazes de colocar vão nos dar algumas pistas para começarmos a perceber questões mais abrangentes de economia e política. As coisas pequenas são muito eloquentes. Vamos a isso!
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