Mas ainda irregular...
Passei um mês inteiro em Moçambique. Visitei muito pouco os blogues e votei o meu próprio blogue ao esquecimento. Muitas das coisas que vivi no país são bem retratadas nos vários blogues que costumo ler. Os assuntos, a forma como eles são abordados, o patriotismo de muitos, a preocupação com os menos afortunados, o desespero, o entusiasmo, enfim, tudo quanto revela o pulsar firme de um país está bem retratado nos blogues. A estadia foi apenas uma espécie de continuidade da experiência, desta feita, porém, na realidade.
Li quase todos os jornais com a avidez de quem, como eu, que sabe que a oportunidade de ter esses meios de informação não é um dado adquirido. Conversei com jornalistas. Alguns entrevistaram-me e outros pediram-me para comentar assuntos que não domino. Participei num programa televisivo que debatia um dos assuntos políticos mais quentes do país, a saber a polémica à volta do candidato da Renamo às eleições municipais da Beira. Senti-me honrado por estar ao lado de pessoas conhecedoras da realidade e achei gratificante a experiência de trocar impressões com elas. Participei em lançamentos de livros (meu e do sociólogo italiano residente em Moçambique Luca Bussotti) e fiquei agradavelmente surpreendido com o interesse que eventos dessa natureza suscitam no público formado moçambicano. Proferi palestras na universidade Eduardo Mondlane, dei algumas aulas no mesmo sítio e no ISCTEM a convite de colegas docentes e confirmei a existência de um grande interesse pelas ciências sociais. Participei numa interessante mesa-redonda organizada pelo Grupo Moçambicano da Dívida para discutir os desafios de um orçamento soberano. Foi numa sexta-feira à tarde e mesmo assim acorreu ao evento muita gente. Impressionante!
Sem querer tirar os direitos de autor que o Presidente da República detém sobre a expressão diria que estas são razões suficientes para dizer que o estado da nação é bom. No âmbito de um pequeno trabalho de pesquisa que fiz durante a minha estadia conversei com gente muito interessante. Mantive conversas muito interessantes, esclarecedoras e intelectualmente estimulantes na Procuradoria Geral da República, no Tribunal Supremo, no Gabinete Central de Combate contra a Corrupção, na Unidade Técnica de Reforma Legal, no Centro de Integridade Pública, na Liga dos Direitos Humanos e no Grupo Moçambicano da Dívida. Encheu-me de orgulho o enorme potencial intelectual e probo existente nessas instituições ao mesmo tempo que a generosidade com que foi partilhado comigo me deixou em grande dívida.
Fui também à má vida e não fiquei arrependido. Um sociólogo que se preze precisa de ir aonde o país real se encontra...
As experiências do mês passado em Moçambique constituem um grande desafio para mim e para o entendimento que tenho das ciências sociais. Ganhei novas impressões, novos ângulos de visão, novas formas de ver as mesmas coisas. As teorias e os conceitos têm, de novo, que se pôr a pau, pois eles terão que sobreviver ao teste das experiências colhidas. Há, em particular, três assuntos que me vão ocupar nos próximos tempos.
O primeiro está relacionado com a articulação entre sistema político e sociedade ou economia. Ainda não sei muito bem o que me interessa reflectir a este propósito, mas há três vertentes promissoras. Primeiro, notei uma tendência de despolitização muito forte e que se tornou particularmente evidente na discussão das polémicas indicações dos candidatos dos principais partidos políticos às eleições municipais na Beira e em Maputo. Notei abordagens que só conhecia da indústria do desenvolvimento e que consistem na insistência no técnico em detrimento do político. O que significa isto para a relação que existe (ou deve existir) entre a esfera política e a sociedade/economia? Acho que vale à pena regressar à sociologia política e à filosofia política para identificar os instrumentos conceituais e teóricos que nos possam permitir colocar o problema devidamente. A segunda vertente diz respeito à capacidade que a nossa sociedade tem de penalizar os políticos por más decisões. Esta vertente levanta um problema sério de representatividade política que, neste momento, me leva a colocar a questão de saber se a democracia liberal com todos os seus pressupostos históricos e sociais pode constituir resposta aos desafios que se colocam a sociedades como nossas. Não quero com isto pôr em causa este modelo, nem dizer que precisamos de outros tipos de modelos. Mas a reflexão sobre os desafios que esta situação nos coloca pode dar pistas muito interessantes. Finalmente, a terceira vertente está ligada ao tipo de comportamentos que se tornam possíveis ao nível político em sociedades que atravessam momentos como são atravessados por Moçambique. Como se constituem interesses e, principalmente, como é que esses interesses são articulados estruturalmente no contexto da nossa sociedade? Que tipos de modelos mentais se desenvolvem e se constituem como referência obrigatória para as pessoas?
O segundo assunto que me vai ocupar diz respeito às coisas pequenas do nosso quotidiano. Durante a minha estadia em Moçambique comi bolachas Maria de pacotes completamente desorganizados. Umas bolachas estavam com o timbre em baixo enquanto que outras o tinham em cima. Não havia nenhuma ordem nos pacotes. Sei que isto é insignificante, mas se calhar não. Se calhar diz qualquer coisa sobre a natureza da nossa sociedade. A organização não me parece algo apenas respeitante à estética ou eficiência. Acho que ela tem também algo a ver com níveis de integração social e qualidade da divisão social do trabalho. Que outras coisas insignificantes fazem parte do nosso quotidiano? Como descrevê-las? Existem alguns padrões estruturais nos lugares e contextos onde elas se manifestam?
Por último, vai continuar a interessar-me a qualidade da intervenção pública. Fiquei surpreendido por ter encontrado muita gente que me disse ler com interesse o que escrevo. Muitos disseram-me que não concordavam com muitas das posições defendidas nesses escritos e envolveram-me em interessantes discussões. Notei um interesse genuino de discussão com vista a perceber melhor um fenómeno e não, como continua a ser frequente em alguns círculos, com vista a demonstrar que estou errado ou que a minha intenção argumentativa é outra. Duma forma geral, a qualidade do debate público no país é ainda muito problemática. O jornal Domingo continua, em minha opinião, a publicar os melhores editoriais que se escrevem no país, o semanário o País tem das melhores reportagens que se oferecem ao público leitor e um e outro semanário produzem crónicas interessantes e intelectualmente estimulantes. A tónica, porém, é demasiado agressiva e pouco propensa ao debate de ideias. O que é que condiciona esta orientação? Porque falamos assim politicamente? É coisa do sistema político? Da cultura política?
Portanto, muita coisa por reflectir e discutir. Na medida das minhas possibilidades vou trabalhar sobre estas coisas. A orientação geral vai continuar a mesma. Não se trata de difundir certezas, mas sim de reflectir sobre fenómenos convidando os que se interessam pela reflexão para contribuírem com as suas ideias para uma melhor qualidade de debate. As incompreensões vão, naturalmente, continuar, mas isso é inevitável. Hão de vir para aqui aqueles que ainda não querem perceber que é possível assumir a isenção e a objectividade como princípios norteadores da reflexão mesmo se cada um de nós tem as suas preferências ideológicas. Cada ano que acrescento à minha vida ensina-me, contudo, a ser mais condescendente e a ter mais paciência. Durante a estadia em Moçambique travei conhecimento com muita gente que vê na reflexão de outros uma oportunidade para perceber melhor determinados fenómenos que fazem a nossa vida. São pessoas que deixaram de se preocupar com as minhas contradições (quem não as tem), incoerências (idem), inclinações políticas (mesma coisa) e prestam simplesmente atenção à essência das coisas. Por essas pessoas vale à pena manter este tipo de espaço. Com essas pessoas aprende-se muito.
A minha presença vai continuar irregular por mais algumas semanas, mas sempre que puder vou postar.
9 comentários:
Professor,
permita-me fazer lhe uma questão que por congestionamento de linhas no dia que esteve no "5ª a noite" não consegui colocar.
A uma dada altura, o professor defendeu que Simango teria agido "mal" ao se candidatar como independente.
A minha questão é: tinha Simango outra saída airosa perante a decisão do seu partido, que não fosse o que fez?
Cruvando-se perante as estruturas do partido, não estaria ele a mostrar sua debilidade política e aceitar pôr a deriva os seus projectos, ambições e oportunidades de crescimento políticos?
Eu ainda não compreendi porquê é que alguns duvidam da possibilidade de um cidadão poder fazer política activa fora das balizas partidárias em Moçambique. Acho que os moçambicanos e sobretudo os das grandes cidades (como Beira) estão gradualmente a se politizar e são capazes de acolher indempendentes com projectos crediveis. Para mim, o maior desafio que Simango tem agora, é saber potenciar a sua experiencia e os apoios populares que tem.
Abraço
olá, perguntas difíceis essas. na verdade, o que eu disse foi que a decisão de se candidatar como independente era "capaz" de ter sido má. estava a pensar na possibilidade real de ele perder e, por via disso, inviabilizar o seu próprio projecto político. referi, nessa discussão, que o nosso sistema político conferia muitas prerrogativas aos detentores do poder e quase nenhuma à oposição. o que seria dele sem o aparato municipal? simango tinha três opções, as mesmas que comiche em maputo tem. 1. aceitar sem reclamar a decisão do partido; 2. aceitar a decisão, mas lutar de dentro para alterar os processos decisórios; 3. candidatar-se como independente, mas não insistindo cinicamente na ideia de que o faz pela renamo, pois a renamo, pelo menos do ponto de vista formal, é a que o preteriu a favor de manuel pereira.
vamos reflectir sobre porque se duvida da viabilidade de candidaturas independentes (eu também duvido). talvez a resposta esteja em perceber como é que um indivíduo deve potenciar a sua experiência e os apoios populares. abraços
SEJA BEM VINDO A BLOGOSFERA! FAZIAS FALTA!
UM ABRACO,
MANUEL DE ARAUJO
obrigado! vamos a isso.
Bem vindo! Professor
Bela questão essa de Jorge Saete, também fiquei suspenso com aposição do Professor, só que, mais adiante ficou me a ideia de que esta posição tem razões universalmente históricas (raridade de triunfos em situações semelhantes), sim, porque a vitória ou derrota é que vai ditar as estratégias futuras acho eu!
Outra coisa eu só aceito o cinismo do Daviz se a RENAMO for uma formação política de alguém! Lutar por dentro!!! a história deste Partido mostra claramente que não há casa branca para este Partido. Logo, fica de fora esta opção.
Agora,a candidatura independente,é inviável quanto marginalizar as Bases.
Enfim, acho que é melhor esperar pela reflexão dos outros.
PS: quanto às incoerências, cotroversões e posições ideológicas, acredito que o Sociólogo tem sabido digerir esta polémica, deixa para la...
caro chacate joaquim, obrigado por deixar registado o seu pensamento aqui. conforme prometi vou publicar oportunamente algumas reflexões sobre estas problemáticas. abraços
Caro Elisio,
Noto no seu excelente texto, baseado em vivencias "ca' na terra", que estas deveras preocupado! Preocupado pelo facto (assim entendo) da populacao nao estar a comportar-se conforme as balizas delineadas (nao sei por quem) ou modelos representativos da governacao e dos governados mocambicanos/africanos! Nao sei e, por isso, gostaria de saber o que exactamente nao esta a funcionar conforme o patronizado, na tua optica?
caro jonathan, sim, estou preocupado com o alcance dos conceitos e teorias que uso para apreender a nossa realidade. a realidade ela própria não me preocupa assim tanto. se calhar, o que está mal na realidade é apenas um efeito nefasto desses conceitos e teorias!
Boa tarde Senhor Professor!
Permita-me fazer uma pergunta: qual é a análise que faz em relação ao conceito de cidadania no Moçambique contemporâneo e a consciência política no seio dos moçambicanos, organizados de diferentes maneiras, quer como partidos políticos quer outras organizações da sociedade civil, correlação às últimas eleições autárquicas, cujos resultados oficiais foram divulgados ontem.
Espero ter colocado bem a questão e obrigado professor.
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