A inteligibilidade
Acabo de descobrir um escritor e poeta polaco falecido em 1966, Stanislav Jerzy Lec, com aforismos muito interessantes. Um deles reza o seguinte: “uns gostariam de compreender o que creem, enquanto que outros gostariam de crer no que compreendem”. De algum modo, este aforismo descreve a forma como alguns de nós tentamos abordar as coisas políticas do nosso país. Esta tensão entre a crença e a compreensão manifesta-se de forma vincada na maneira como, por exemplo, temos abordado a questão de Simango na Beira e Comiche em Maputo. Depois das tentativas imediatas de explicar o significado do que aconteceu nas duas grandes cidades moçambicanas é chegado o momento de distanciamento para descortinar o que mais pode estar em causa e que seria útil trazer à superfície para melhor compreensão do sucedido.
Vou tentar fazer isso nesta série de reflexão. Vou, contudo, subordiná-la a uma questão mais abstracta, nomeadamente a questão da inteligibilidade do político em Moçambique. Entendo por inteligibilidade do político três aspectos que fazem parte da nossa discussão na esfera pública, aspectos esses que abordamos por vezes sem a necessária distinção. O primeiro aspecto diz respeito simplesmente ao próprio referente do político, nomeadamente a questão de saber que bicho é esse ao qual damos o nome de “político”. Utilizo “político” no sentido do objecto político, não do sujeito político. Portanto, quando é que estamos em presença do “político” em Moçambique? Não me parece uma questão pacífica e a pouca atenção que a ela prestamos tem tido a tendência de tornar a nossa discussão e reflexão difícil.
O segundo aspecto é, talvez, mais metodológico e diz respeito à nossa capacidade de estabelecer relações entre fenómenos políticos ou, para não entrar imediatamente na confusão, estabelecer relações entre fenómenos sociais e a partir daí tirarmos ilações de âmbito político. Quando é que, por exemplo, perante dois fenómenos, a saber (a) o partido x optou por um outro candidato e (b) o candidato preterido era bom, posso dizer que o candidato preterido foi vítima dos interesses obscuros dos membros do partido x? Aqui reside uma boa parte do que fazemos em ciências sociais, nomeadamente descrever e analisar fenómenos sociais. Analisamos esses fenómenos estabelecendo relações entre os conceitos que usamos para recuperar a realidade. A questão é, portanto, simples: em que condições é que podemos, com propriedade, estabelecer certas relações? Tenho a impressão de que aqui também ainda não estamos a prestar a devida atenção aos problemas fundamentais.
Finalmente, o terceiro aspecto é filosófico no sentido em que nos convida (ou devia convidar) a dizer como a nossa percepção do objecto e das relações que (em nossa opinião) o constituem se enquadra numa visão mais global das coisas do mundo ou da vida. Muitos de nós temos uma visão científica da realidade, o que significa que na maior parte do tempo aceitamos como plausíveis apenas as manifestações dos fenómenos que são consistentes com uma visão científica do mundo. Ainda não ouvi, nem li descrições e análises da questão de Simango e Comiche que partissem do princípio, por exemplo, de que eles teriam sido vítimas, digamos, de actos de feitiçaria. Os vários “doutores cura-doenças sem cura” que, vergonhosamente, alimentam os nossos semanários em Maputo, devem, de certeza, entreter este tipo de convicções. É verdade que a apetência por explicações rápidas e conclusivas pode nos conduzir a afirmações que violam o nosso compromisso com a ciência, mas isso é assunto que deve ficar para outra ocasião. Aliás, tem sede própria neste blogue na rubrica “direito à razão”.
A minha preocupação nesta reflexão não é de, no fim, proporcionar uma explicação para o que aconteceu em Maputo e Beira, nem é mesmo de produzir um vocabulário através do qual deveríamos descrever e analisar o político em Moçambique. Estou mais interessado nas dificuldades de produção de conhecimento sobre estas coisas, dificuldade essa que não me parece estar a ser devidamente apreciada por muitos comentadores. Dirijo esta reflexão principalmente aos cientistas sociais entre nós, portanto, àqueles que deviam ter um interesse especial na clarificação dos critérios e conceitos através dos quais recuperamos a realidade social.
O grande escritor alemão, Johann Wolfgang von Goethe, escreveu uma vez que era mais fácil identificar erros do que descobrir a verdade. Ele explicou que isso se devia ao facto de que os erros se encontravam à superfície, enquanto que a verdade residia mais em baixo num mundo em que nem todos gostam de procurar. É, portanto, mais fácil dizer, como eu o fiz em programa televisivo em Maputo, que Deviz Simango me parecia o mau da fita ou cínico em todo o imbróglio que o envolvia, ou mesmo dizer, como algumas pessoas que comentaram as minhas afirmações, que estou enganado, do que dizer porque é o mau da fita, cínico ou eu estou enganado. A discussão sobre critérios é uma condição indispensável da actividade científica e, por acaso, acredito também que ela se tornou imprescindível ao debate na esfera pública. Poupar-nos-emos mais atritos, agressividade e confusão se dedicarmos um pouco mais de atenção a estas questões elementares.
Não vou percorrer tudo quanto há de interesse por reflectir e dizer nesta questão da inteligibilidade do político. Vou, simplesmente, concentrar a minha atenção numa questão fundamental que é de saber o que nos permite termos a convicção de que as coisas sobre as quais nos debruçamos, a análise que fazemos e a forma como explicamos os fenómenos se refere propriamente ao “político em Moçambique”. Interessa-me, repito, a questão da inteligibilidade.
2 comentários:
Não me parece muito difícil definir o político como objecto, principalmente quando o entendemos contextualmente. Pode-se complicar o assunto, obviamente, mas creio que nos beneficiamos do uso da navalha de Ockham quando discutimos qualquer tópico. No caso Comiche-Simango, por exemplo, a alegada falta de domínio das questões políticas por Comiche relaciona-se a forma de se fazer política em Moçambique. Aqui, política significa: a) manter um, digamos, contacto próximo com as bases (ou seja, eleitores influentes na sua região); b) estar atento às vontades dos demais actores do campo político; c)seguir o lema de que o interesse do povo é melhor servido quando se serve também ao interesse do partido. Romper com estes elementos é situar-se fora da política, ou do político. O Comiche, segundo consta, privilegiou outra dinâmica, dando atenção aquilo que ele, ou seu governo, acreditavam ser as prioridades. Para muitos, isto significa que ele foi mais técnico na sua governação, no sentido de que suas decisões não atenderam aos elementos acima. Eu diria que ele simplesmente optou por outra forma de fazer política, a qual, contudo, não foi bem recebida pelos demais políticos.
caro jonas, acho que o teu comentário é muito pertinente. recupero-o na terceira postagem desta série quando me debruço sobre as diferenças entre simango e comiche. a minha questão é de clarificação dos critérios de análise para que a análise se faça sem necessariamente tomar partido.
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