quinta-feira, março 08, 2007

Pobreza e parvoíce

Não resisto à tentação de comentar o artigo de opinião de Jeremias Langa do País Online sobre o estudo americano que acusa Moçambique de atropelar os direitos humanos. Eis alguns excertos, o artigo completo pode ser lido aqui.

... Não está, aqui, em causa o conteúdo do documento. Todos sabemos, como diz o relatório, que a nossa polícia ainda usa a força de forma excessiva, em várias ocasiões; que as condições dos nossos centros prisionais são extremamente duras; que continuam a se verificar detenções longas antes dos julgamentos, entre outras questões que, de forma acertada, levanta o relatório do Departamento de Estado americano em relação a Moçambique...”

“... O que está em causa é a legitimidade que um Estado se arvora de avaliar os outros. É uma questão de soberania; de, apesar de sermos pobres, nos fazermos respeitar perante aqueles que se dizem melhores que nós, por tão somente serem mais ricos que nós...”

“... Mas das atitudes dos americanos já devíamos estar habituados. Do que não nos devemos habituar nunca é do silêncio cínico dos que dirigem este país. Somos pobres, sim, mas não parvos. O Governo, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, ou alguém que os represente, devia, em nome da dignidade do nosso povo, ter reagido a este relatório. Não da forma tímida e teatral como o fez o vice-ministro Luís Covane, mas de um modo mais vigoroso, a vincar a auto-estima que o nosso presidente tão incessantemente nos convida a convocar. Mesmo que isso seja contra a superpotência do mundo...”

“... A política de ambiguidade, de com todos estarmos bem, não nos leva a lado nenhum. Portugal, que também é pobre, reagiu a este relatório com a dignidade patriótica que devemos invejar: disse respeitar as ideias dos americanos, mas que não lhes reconhecia legitimidade para lhes darem lições de direitos humanos...

Concordo com o articulista quando remata “somos pobres, sim, mas não parvos”. De facto, pelo menos no nosso caso não há nenhuma relação entre pobreza e parvoíce. Suspeito até que essa equação seja completamente irrelevante para o que está em questão. Ao aceitarmos dinheiro americano em grandes quantidades para combater a pobreza absoluta, desenvolver o sector privado, reforçar as instituições estatais, formarmos quadros e, sobretudo, ao repetirmos religiosamente os seus chavões sobre o “empreendedorismo”, “ciências que não combatem a pobreza”, “liderança” e não sei que mais, aceitamos, ainda que tacitamente, o direito americano de nos dizerem quando é que nos comportamos bem ou mal. A dependência é isso mesmo.

A parvoíce não está em nos calarmos se nos disserem que não somos perfeitos. A parvoíce, se é que parvoíce há, está em nunca nos termos preocupado em definir claramente o nosso caminho. Em tempos escrevi que uma das maiores ameaças à nossa independência era a perda progressiva do nosso direito de cometermos os nossos próprios erros. Portanto, a pobreza até nem é exactamente material. É espiritual. Os americanos não nos ajudam porque somos materialmente pobres. Isso é o que eles dizem e nós aceitamos porque é cómodo. A nossa pobreza está na nossa incapacidade de pensarmos o nosso país por nós próprios. E a diminuição da liberdade académica sob a falsa suposição de que o Presidente da República só tem verdadeiramente poder quando decide quem é o reitor de uma universidade pública não nos ajuda em nada a recuperar esta capacidade.

Eu acho que os americanos têm toda a legitimidade em dizer o que querem dizer sobre nós. Aí até eles nem precisam de ser coerentes. O mais forte, aquele que garante a nossa existência, não precisa de ser coerente em relação a nós. Eça de Queirós publicou em “Ecos de Paris” o texto “O 14 de Julho – Festas Oficiais – O Sião”. Num livro que estou a ler agora há uma citação de uma passagem desse texto:

Eu próprio, como disse, se possuísse exércitos e frotas, teria já empolgado o Sião. (...) Os países orientais são feitos para enriquecer os países ocidentais – e por isso com os Egiptos, os Tunes, os Tonquins, as Conchinchinas, os Siãos (ou Siões) se fazem para a Inglaterra e para a França boas e pingues colónias. Eu sou civilizado, tués bárbaro – logo, dá cá primeiramente o teu ouro e depois trabalha para mim. A questão toda está em definir bem o que é ser civilizado. Antigamente pensava-se que era conceber de um modo superior uma arte, uma filosofia e uma religião. Mas como os povos orientais têm uma religião, uma filosofia e uma arte melhores ou tão boas como as dos ocidentais, nós alteramos a definição e dizemos agora que ser civilizado é possuir muitos navios couraçados e muitos canhões Krupp. Tu não tens canhões, logo és bárbaro, estás maduro para vassalo e eu vou sobre ti!(...) Em virtude, porém de um respeito inapto pelas exterioridades (...) os homens criaram ao lado deste descarado direito internacional um outro, o direito ceremonial (...) segundo o qual não é permitido a qualquer nação apoderar-se de outra com a simplicidade com que numa estrada uma criança colhe um fruto. Hoje está estabelecido entre os povos civilizados que para que o forte ataque e roube o fraco é necessário ter um pretexto. Tal é o grande progresso adquirido”. A minha fonte é o livro de Margarida Calafate Ribeiro, Uma história de regressos – império, guerra colonial e pós-colonialismo, edições afrontamento, Porto, 2004.

A parvoíce, talvez, é ser pobre. Quando muito isso.

2 comentários:

Egidio Vaz disse...

Somos parvos Sim. Tao parvamente educados que o nosso Governo aceita o relatório quando, através do seu Porta-Voz Covane contra ataca o relatório referente ao ano 2005 com realizações de 2007!
Se calhar, parvamente Covane comenta num assunto, pela primeira vez, sem antes ter lido o documento. E tenho fortes convicções que ele leu-o com o jornalista que o entrevistou.
Parvamente o nosso Governo foi-se prostrar perante o Governo (através da Embaixada) para ainda se comprometer a melhorar o que eles chamaram de "Atropelos aos Direitos Humanos".
O nosso governo e nos próprios fizemos eco a esses documentos, reproduzindo-os e comentando sobre eles, se bem que de forma acrítica.
Não vejo como e que não somos parvos.Pobres que somos, ainda mancomunamo-nos aos nossos adversários e vendemos-lhe as nossas almas; aceitamos acríticamente os modelos de pensamenots que nunca se ajustam a realidade. Aceitamos conceitos falaciosamente formados como os de "empreendorismo, pobreza absoluta, governação inclusiva, participação" e ainda aceitamos falar em publico ideias de outrem fazendo-as passar por nossas!
Somos PARVOS SIM. E parece-me que a maioria gosta desta condição. A do caranguejo na panela de alumínio, em cima do fogão e que não se apercebe que em breve, será mortalmente cozido!.

Elísio Macamo disse...

oi gabriel, por enquanto estou apenas a ler as citações. mas já estou à procura dos livros para os ler directamente. abraços