quarta-feira, outubro 08, 2008

A inteligibilidade do político em Moçambique (4)

Os seguidores

“A multidão”, escreve Stanislav Jerzy Lec, “grita com uma única boca grande, mas come com milhares de boquinhas”. A multidão é um fenómeno crucial do político em Moçambique. O que vou escrever nesta reflexão é bastante especulativo, mas acho que vale à pena arriscar. A questão que me interessa é de saber o que explica a aderência a projectos políticos. Esta questão é importante para a inteligibilidade do político, pois para além da relação entre detentores do poder e implementadores da sua vontade, existem também os políticos de ocasião que, num sistema democrático, precisam de ser tomados em consideração e se crê serem os verdadeiros detentores do poder. É claro que não são, embora a ficção de uma soberania do povo seja crucial à ideia de democracia. Ou melhor, há coisas que acontecem no meio que tornam essa ficção realidade.

Acho que a nossa história nos legou um fardo pesado na determinação da natureza dos seguidores. Ao contrário da Europa onde a ideia de representação se institucionalizou com base numa cada vez crescente diferenciação social assente na industrialização, em África e, em particular, em Moçambique, os interesses na base da institucionalização da representação nunca foram suficientemente claros e sólidos para permitirem pensar o político como um equilíbrio de forças. A luta pela independência é que criou o nacionalismo, e não o contrário e conforme sempre nos foi dito nos livros de história. Os operários e camponeses da chamada revolução socialista dos anos a seguir à independência foram uma criação do partido de vanguarda, nem mesmo uma classe em si segundo a terminologia de Karl Marx. A cultura tradicional tida como estando sob a ameaça do projecto de colectivização da Frelimo foi, também, resultado da guerra terrorista da Renamo, e não a base social dessa mesma guerra.

Este legado criou uma situação em que não são verdadeiramente interesses que enformam as posições defendidas por partidos políticos, mas a mentalidade de grupo moldada historicamente pela necessidade de estar em companhia de alguém. Isto torna o nosso quadro político bastante curioso. Na verdade, ser da Frelimo ou da Renamo é muito mais importante do que concordar com as propostas políticas feitas por cada um desses partidos. Não é, como é óbvio, com todos que é assim. Mas uma parte considerável dos membros da nossa sociedade parece revelar este tipo de postura. Esta postura é do foro daquilo que psicólogos chamam de pensamento de grupo (groupthink), isto é a tendência de grupos muito coesos de se insularem dos demais para não comprometerem a sua própria coesão.

Os psicólogos que se ocupam destas coisas identificaram oito características do pensamento de grupo que me parecem estar, de algum modo, também presentes na nossa esfera política. A primeira característica é a da ilusão da invulnerabilidade que incute nos membros formas de acção bastante arriscadas ao mesmo tempo que define os espaços de actuação daquilo que identificamos com a arrogância do poder ou total desprezo pela opinião de outros. Isto acontece, em menor ou maior escala, em tudo quanto é formação política no país e pode explicar a atitude por vezes intransigente de alguns políticos em matéria que fere directamente o senso-comum. A segunda característica é a da racionalização de avisos que questionam as suposições na base da coesão do grupo. Neste pormenor a Frelimo, depois dos sustos eleitorais de 1994 e 1999, profissionalizou-se bastante, mas a forma bastante confortável como ganhou as últimas eleições pode ter trazido alguma complacência. A terceira característica constitui, provavelmente, um dos maiores entraves ao debate racional na nossa esfera pública. Ela consiste numa crença quase doentia na moralidade do grupo o que leva muitos a simplesmente ignorarem as consequências das suas acções já que partem do princípio de que o que fazem é correcto por eles serem membros do grupo do qual são membros. Esta atitude afecta mesmo aqueles que não se identificam abertamente com grupos políticos, nomeadamente os analistas que simplesmente partem do princípio de que têm uma prerrogativa para falar sem que os seus termos de análise sejam interpelados por seja quem for.

Estas características desembocam num conjunto de atitudes nefastas que se constituem, também, como características do pensamento de grupo. Assim, a quarta característica é a tendência de estereotipização daqueles que se opõem ao grupo. Temos visto isso na nossa esfera pública. Quem critica ou aprova, mas do lado “errado”, não está bom de cabeça, é bajulador, oportunista, corrupto, lambe-botas, regionalista, marxista, etc. No interior do grupo aquele que critica, esta é a quinta característica, revela falta de lealdade e sofre pressões no sentido de se conformar e seguir a linha. O resultado de tudo isto é a sexta e sétima característica, nomeadamente a auto-censura – dispensa comentários – e a ilusão de unanimidade que se manifestou de forma gráfica na última reunião do Conselho Nacional da Renamo quando a decisão de afastar Deviz Simango do partido foi tomada por unanimidade, mas criticada em anonimidade por membros desse mesmo orgão junto da imprensa. Finalmente, a oitava característica é de que o pensamento de grupo precisa de guardas, isto é de gente que dia e noite fica atenta a qualquer sinal de desvio para colocar o rebanho na linha.

Na próxima postagem vou prosseguir com esta reflexão concentrando a minha atenção na questão do comportamento eleitoral.

4 comentários:

Júlio Mutisse disse...

Nwana Mamane, estás, positivamente, a engravidar a minha cabeça. A cada número desta série que leio ocorrem me MILHENTAS de perguntas, mas fico sempre com a sensação de que o próximo post irá responder. Em alguns casos é assim.

Este post respondeu a muitas perguntas que trazia do post anterior. Quero igualmente cruzar este post com a série que começaste no notícias de hoje.

Tenho a sensação de que vais ficar com as orelhas a doer.

Um abraço.

Elísio Macamo disse...

júlio, deste o momento que não me puxes as orelhas. ainda bem que os posts vão suscitando perguntas. a ideia é um pouco essa. tento dar respostas, mas o valor da reflexão está nas perguntas que podemos, subsequentemente, colocar. coloque as perguntas, por favor, e eu vou dizer se a resposta vem ou não.

Patricio Langa disse...

Oi. Elísio
Pressuposto:[1] “A luta pela independência é que criou o nacionalismo, e não o contrário e conforme sempre nos foi dito nos livros de história. Os operários e camponeses da chamada revolução socialista dos anos a seguir à independência foram uma criação do partido de vanguarda, nem mesmo uma classe em si segundo a terminologia de Karl Marx”.
Pressupoto[2]:“A cultura tradicional tida como estando sob a ameaça do projecto de colectivização da Frelimo foi, também, resultado da guerra terrorista da Renamo, e não a base social dessa mesma guerra”.
Acho interessantes estes dois pressupostos. Fizeram-me lembrar leituras que fiz há alguns anos sobre a história dos nacionalismos com autores como (Ernest Gellner, Anthony Smith, Perry Anderson e Edgar Morin). Com abordagens diferentes cada um se questionou, em algum momento, sobre o que precedia o quê: o nacionalismo ou a estado-nação. As respostas vão variar, conforme acmpanhamos o movimento histórico–espacial do fenómeno. Se os li correctamente todos identificavam a construção do Estado-nação como consequência da expansão do capitalismo - industrial. No processo de expansão daquele nacionalismos emergiram ora por afirmação (anexão) ora por resistência a ocupação, desde a Europa, na segunda metade do século XIX, na Asia, na america-latina, nos balcãs e finalmente em África, na segunda metáde do século XX. O que quero dizer com este palavreado todo é que o nacionalismo foi, históricamente, produto desse processo. África e Mocambique, em particular, não são excepção. Parece-me que o teu argumento faz (de áfrica) de Moçambique excepção. Concordo que a estória do nacionalismo- como nos narra a história oficial, não passa de estória. Isso, porém, não exclui a possibilidade de alguns reivindicarem esse valor como a razão para a sua acção libertdadora. O precsso de libertação pode ter intensificado esse sentimento. Penso que Mondlane é um exemplo disso! No meu entender, os operários e camponeses, assim como a “dita base social da Renamo”, não só são produto da revolução socialista e da guerra da Renamo, como também da cabeça de analistas (como Geffray e Cahen). A classe para si ou a classe em si, de Marx, cai na mesma categoria. São “puras” categorias analíticas, com seu valor intrínseco enquanto tais. Será isto que explica o seguidores? Não sei? De resto concordo com as inferências que fazes em relação as implicações para cultura de debate. Se percebo bem o teu argumento é de que na nosso sociedade não houve um processo de diferenciação (Durkheim- passagem de formas de solidariedade mecânica para orgânica) suficiente para que se constituissem diferentes grupos de interesse a partir dos quais a política iria se articular na busca de equilíbrio (que seria o espaço de negociação desses interesses, distintos, de grupo). No processo iria surgir a institucionalização dos espaços e das práticas de representação desses grupos de interesse. Concordo, só não sei se insto é resultado dos pressupostos [1] e [2]. Penso que uma coisa é olhar para os níveis de diferenciação e a outra, diferente, é olhar para a causa ou, se quisermos, catalizador. Enfim, a conclusão plausível, o meu problema está no ponto de partida.

Elísio Macamo disse...

olá patrício, bela interpelação. na verdade, o meu pressuposto é de que os interesses na base da institucionalização da representação nunca foram suficientemente claros e sólidos para permitirem pensar o político como um equilíbrio de forças. os dois pontos que referes dizem respeito a este pressuposto, isto é são apenas uma ilustração do que quero dizer simplesmente para colocar em cheque a tentação que alguns poderiam ter de dizer, por exemplo, que a luta armada de libertação nacional foi o resultado de processos sociais abragentes. na postagem 6 ou 7 discuto estas questões articulando-as com o que chamo de espaços, isto é a cidade e o meio rural. embora diga nessa postagem que não quero fazer história por analogia do tipo de dizer que porque em moçambique não tivemos o que ocorreu na europa, então o nosso sistema político não pode ser bom, convido a todos nós para reflectirmos sobre o significado político de tipos de sociabilidade que se constituíram nestes espaços. portanto, a premissa sobre a qual assenta a minha conclusão de que temos seguidores e não interesses é de que a base social existente em moçambique não sustenta o tipo de sistema político que escolhemos. e tenho consciência de que esta conclusão é muito controversa, precisa de ser ainda mais reflectida, mas é para isso que serve a academia. não significa isto que estamos perdidos, mas o desafio de pensarmos o político em moçambique começa a ficar difícil quando começamos a mexer com ideias adquiridas.