Achei interessante fazer um pequeno exercício de reflexão sobre os critérios de avaliação da contribuição que a academia pode dar ao combate contra a pobreza absoluta. Para esse efeito resolvi imaginar três projectos de pesquisa sobre assuntos diferentes e que estudantes da universidade estariam a fazer no âmbito das suas teses de licenciatura. O projecto A é sobre aspectos da coreografia nos vídeo-clips do hip hop moçambicano. O projecto B é sobre o desemprego juvenil nos bairros da periferia de Maputo. O projecto C é de um jovem químico que quer saber como se pode produzir energia eléctrica a partir do lixo produzido na cidade de Maputo. São projectos diferentes e com graus diferentes de aproximação à prioridade número um do país que é a luta contra a pobreza absoluta.
Se houvesse uma comissão para decidir qual dos projectos deveria receber apoio financeiro de um fundo, digamos, de apoio à pesquisa relevante, qual dos projectos deveria ter prioridade? Os dois últimos parecem-me muito mais relevantes do que o primeiro. Penso que a decisão não seria difícil. Estou, é claro, a supor que a decisão está a ser tomada meramente sobre o ponto de vista de valor prático dos resultados. Estou também a levantar um problema que pode explicar porque acho que a subordinação da relevância da universidade a objectivos políticos pode ser perniciosa. Mas vamos continuar com a nossa especulação.
O projecto A parte da teoria das classes de lazer do sociólogo e economista americano Thorsten Veblein. Segundo esta teoria existem dentro de uma sociedade classes que chegaram à riqueza sem esforço, isto é não pela via do trabalho, e que, por conseguinte, essas classes valorizam o consumo conspícuo. A questão de partida que o estudo coloca é de saber até que ponto a coreografia dos vídeo-clips do nosso hip hop reproduz elementos de uma cultura de consumo conspícuo. Para esse efeito o trabalho propõe-se reunir vários vídeo-clips produzidos em Moçambique, analisá-los com recurso a técnicas de análise discursiva e semiótica, mas também conduzindo entrevistas de grupos com jovens produtores e consumidores desses vídeo-clips.
O projecto B é de natureza mais quantitativa e concentra a sua atenção no bairro de Magoanine em Maputo. Parte da ideia de que a formação é um recurso importante na procura de emprego e, por isso, coloca como pergunta de partida a questão de saber qual é a proporção de jovens desempregados naquele bairro que não tem nenhuma formação profissional. Para fazer isso o estudo vai fazer um levantamento estatístico, seleccionar uma amostra representativa e aplicar um questionário padronizado aos elementos dessa amostra. A análise factorial dos dados desse inquérito vão permitir tirar conclusões sobre a relação entre o desemprego juvenil e a formação nos bairros da periferia.
O projecto C é ainda mais concreto. Parte do conhecimento que se tem sobre a possibilidade de produzir energia eléctrica a partir do gás orgânico e levanta a questão de saber se é possível recolher quantidades suficientes de detritos orgânicos em Maputo para alimentar uma simples estação de produção de energia eléctrica com capacidade para cobrir as necessidades de energia eléctrica na vila de Marracuene. Para esse efeito, o estudo propõe-se analisar a composição do lixo e quantidades diárias produzidas pelos citadinos. Os dados obtidos a partir desta análise e da contabilização das quantidades vai permitir responder à pergunta de saber se um empreendimento desta natureza seria viável ou não.
Os três estudantes discutem os seus projectos com os respectivos supervisores (que são todos professores-turbos). Os três consideram os projectos interessantes, pedem financiamento ao Fundo Universitário de Apoio à Pesquisa Relevante e só os dois últimos são aprovados por ser evidente que fazem uma contribuição valiosa para a solução de problemas práticos. E, de facto, é assim mesmo. O projecto B apura que dois terços dos jovens desempregados não têm nenhuma formação, abandonaram a escola por razões diversas e que um terço desses jovens já teve problemas com a polícia. O estudo conclui, portanto, que é necessário formar os jovens, pois isso não só contribuirá para reduzir o desemprego juvenil como também para diminuir as taxas de crime. O supervisor recomenda o estudo ao Ministério do Trabalho que, em seguida, pede um financiamento aos doadores para um programa de formação juvenil.
O projecto C constata, pouco surpreendentemente, que há lixo que se farta em Maputo, todo ele de boa qualidade orgânica (porque nos vários restaurantes da capital sobra muita comida nos pratos que é pura e simplesmente deitada fora, mas também porque nos mercados apodrece muita fruta, na marginal estraga-se muito peixe por falta de condições de refrigeração, etc.). Este estudo é recomendado ao Ministério do Comércio e Indústria que tira do seu fundo de apoio ao Made in Mozambique algum dinheiro para a aquisição de equipamento simples de produção e purificação de gás para posterior geração de energia. Este trabalho é premiado pelo Conselho Nacional de Luta contra a Pobreza Absoluta e o estudante tem direito a um jantar à luz de velas com Yaqub Sibindy, seu patrono. O projecto A, por sua vez, constata duas coisas estranhas. A primeira coisa é que a coreografia do hip hop moçambicano só aparentemente é que é idêntica à americana; na verdade, constata o estudo, aquelas imagens todas de consumo desenfreado referem-se à celebração do fruto do trabalho árduo. A segunda coisa estranha é que os jovens que produzem esses vídeo-clips não têm nenhuma formação, trabalham no duro – 16 horas por dia! – e fazem-no, segundo os resultados das entrevistas de grupo, motivados pelo reconhecimento que recebem dos seus pares e por acharem que só pode festejar quem tiver trabalhado. O estudante conclui, a partir deste estudo, que a teoria de Veblen precisa de ser revista para incluir aspectos relacionados com motivações. Para esse efeito o estudante acha, apoiado pelo seu supervisor, que é necessário fazer mais um estudo, talvez noutra região e abordando outras formas de vida juvenil para contextualizar o apurado.
Em todos os anos de docência na Unidade de Formação e Investigação em Ciências Sociais na UEM mandei passear estudantes que me vinham com projectos de tese que terminavam com recomendações e acolhi espontaneamente todos aqueles que me propunham temas que elaboravam perguntas e procuravam enriquecer o conhecimento sociológico. Mesmo hoje faria o mesmo. Teria mandado passear os projectos B e C, e acarinhado o projecto A. Não é por não achar que os projectos B e C não sejam interessantes, mas trata-se de projectos que não contribuem, em minha opinião, para o enriquecimento do nosso conhecimento e para dar valor ao trabalho de uma universidade. Os projectos B e C podem ser feitos num Ministério ou numa organização qualquer e podem ser encomendados por este mais aquele organismo. Tudo quanto precisam é de um aparelho estatal que funciona e sabe o que quer saber para poder agir. O projecto A, contudo, contribui para o nosso conhecimento porque nos ajuda a aperfeiçoar os nossos instrumentos, mexe com as nossas teorias e ajuda-nos a ver o mundo de outras maneiras. Na opinião dos combatentes contra a pobreza, um projecto desta natureza de facto não contribui para esse glorioso combate, mas sem ele trabalhos como os dos projectos B e C muitas vezes não fazem sentido.
Deixem-me aprofundar isto mais um bocado. O projecto A, ao mostrar que a coreografia do hip hop moçambicano celebra o trabalho dedicado e que os seus produtores são pessoas altamente motivadas pode ajudar a explicar melhor porque os jovens sem formação no bairro de Magoanine não arranjam emprego. Os seus níveis de motivação são baixos e a sua atitude em relação ao trabalho em si é problemática. Não é a formação que é determinante, mas sim a motivação. Nesse sentido, o que interessa saber para poder se combater a pobreza absoluta com sucesso é como mudar a estrutura de motivação. O mesmo poderia dizer do projecto de lixo. Podia-se, por exemplo, iniciar esse projecto e constatar que o lixo não pode ser usado porque as pessoas não separam o orgânico do não orgânico. Se calhar se o projecto incidisse na recolha de lixo por jovens pudesse ter mais sucesso, sobretudo se utilizasse os elementos da cultura juvenil presentes nos vídeo-clips de hip hop para tirar proveito das motivações dos jovens.
É evidente que caricaturei muito os três trabalhos. Na verdade, muitos aspectos de qualquer destes “projectos” poderiam ser melhorados para que eles de facto contribuam melhor ainda para o grande combate. Não obstante, o meu objectivo ao caricaturar os “projectos” era apenas de problematizar as equações simples que se fazem no país sobre a utilidade das ciências sociais e, também, sobre a pobreza como critério de relevância. A universidade não obedece à lógica política e querer força-la a obedecer a essa lógica é um erro político gravíssimo. A universidade tem que manter espaços de produção intelectual independentes dos interesses imediatos da política, o que não significa que ela não possa ser chamada a contribuir com o seu conhecimento para a melhoria das condições de vida do país. Essa contribuição não pode ser determinada pelos políticos, pois eles não dispõem dos meios intelectuais para isso nem da paciência intelectual que a academia precisa de ter. No fundo, o discurso todo de subordinação da relevância da universidade ao combate à pobreza absoluta mostra apenas que o ensino ainda não está a ser pensado da forma mais adequada. Parece haver uma projecção do que escolas técnicas, politécnicas e investigação prática podem fazer para cima da universidade no geral. Parece haver uma substituição do que organismos técnicos e executivos estatais devem fazer em termos de uso prático do conhecimento produzido na universidade pelo verdadeiro trabalho da academia. Enfim, é a confusão legitimada pelo discurso normativo bonito.