Eis algumas reflexões sobre a qualidade da intervenção intelectual no nosso país a partir de um discurso do Procurador-Geral da República. Os problemas levantados pela nomeação do Reitor da UEM pelo Presidente da República levaram-me, nos últimos dias, a reflectir cada vez mais sobre a qualidade intelectual das contribuições de algumas personalidades públicas. Interessei-me em particular por personalidades da justiça, nomeadamente pelo Procurador da República e pelo Juiz do Tribunal Supremo. Trata-se de homens com larga experiência de trabalho e, de certeza, com um profundo conhecimento da área de direito. Contudo, não conheço nenhuma reflexão da sua autoria sobre o que o direito significa entre nós, o que ele deve ser e qual é a verdadeira contibruição que ele pode prestar. Será que eles fazem esse tipo de reflexão? Não me parece bom para o país que lugares tão importantes e que exigem capacidades intelectuais apuradas sejam ocupados por pessoas com pouco interesse – e, talvez, também tempo – para esse tipo de coisas.
Foi a pensar sobre estas coisas que deparei com um discurso proferido por Joaquim Madeira, Procurador-Geral da República, na abertura do ano judicial de 2007. Pareceu-me uma intervenção elaborada com cuidado e que, até certo ponto, reflecte o tipo de reflexão intelectual que as ocupações que ele tem lhe permitem fazer. Fiquei agradavelmente surpreendido com a profundidade das questões que ele levanta, embora a sua qualidade argumentativa deixe muito a desejar. Pior ainda, pareceu-me que ao lado do grande interesse que as questões por ele levantadas suscitam paira uma certa confusão em relação ao que é preciso – ou seria necessário – fazer para descortinar a justiça que se quer dar aos moçambicanos conforme o título que o jornal-fax Vertical deu ao texto na sua edição de 6 de Março de 2007. Estes problemas estão ligados à questão da qualidade intelectual das contribuições de algumas personalidades públicas. Um Ministro, em minha opinião, é político e não precisa de ter qualidades intelectuais acima da média – embora desejável – mas um Reitor, Procurador, Juiz Supremo e toda a gama de posições que exigem conhecimentos técnicos sólidos sim.
O Procurador-Geral da República faz uma defesa apaixonada da necessidade de tornar o sistema judiciário credível e recorre a argumentos plausíveis e coerentes, alguns dos quais se servem de lugares-comuns do direito do género “[A] justiça – a boa justiça – concorre para a estabilidade jurídica e até para a paz social, (sic) porque inspira confiança no Estado e na própria sociedade”. Segundo ele ainda, “... é por isso que ela [a justiça] deve ser transparente, intelegível, equilibrada e célere. A sociedade tem o direito de entender a justiça que lhe é administrada, não tanto nos seus meandros técnicos, mas no seu resultado final. Deve poder dizer foi feita a justiça, mesmo sem entender os gongorismos jurídicos dos nossos requerimentos, despachos ou sentenças”. Acho isto excelente, embora torça o nariz perante palavras como “gongorismos” (que eu não conheço) e, sobretudo, embora não esteja muito bem de acordo com a ideia de que a sociedade deva poder dizer que foi feita a justiça mesmo sem entender os tais gongorismos técnicos. Acho que para o bem do direito e da sociedade seria mesmo importante que a sociedade entendesse esses gongorismos (o que são meu Deus, não tenho dicionário!), pois direito activo tem que ser vivido pela sociedade em plena posse das suas faculdades.
Como dizia, porém, a intervenção levanta questões importantes e isto mostra, em minha opinião, uma característica particular do debate intelectual. Na verdade, quem reflecte intelectualmente expõe não só o seu pensamento como também propõe os critérios através dos quais a sociedade deve julgar o seu desempenho. Um intelectual digno desse nome de tanto repetir certos princípios acaba interiorizando-os e acreditando neles, mesmo se no início mantém uma certa distância afectiva. Ouvir o Procurador-Geral a dizer que a justiça tem que ser transparente, célere e equilibrada é bom nesse sentido, pois mesmo se pouco do que ele faz hoje reflecte essa preocupação um dia ele vai começar a acreditar nisso e, sobretudo, a acreditar que só é credível se no seu trabalho diário procurar emular esses princípios.
Voltando à intervenção gostaria de comentar um assunto que ele aborda longamente e que me parece revelar alguns problemas no entendimento do assunto. Refiro-me à questão dos linchamentos que ele explica com base no desconhecimento, por parte dos que ele chama de líderes comunitários, dos procedimentos jurídicos. Ele aceita que o desencanto com a justiça bem como a corrupção também contribuem para os linchamentos, mas o mais importante na sua óptica é a questão do desconhecimento. Acho que este entendimento é problemático por várias razões, as principais das quais são as fontes de informação que o Procurador-Geral usa bem como a sua aparente fraca sensibilidade para a relação entre justiça e relações sociais. Na verdade, já na introdução da sua alocução o Procurador-Geral disse uma coisa bastante curiosa que me pareceu revelar esta fraca sensibilidade. Ele disse “Todos estamos preocupados (devemos está-lo) com o fenómeno violência, que tende a acomodar-se na nossa sociedade, como que a pretender fazer parte do nosso ‘modus vevendi’: Violência dos crimes, violência dos linchamentos e até violência dos animais contra pessoas e seus bens”. Os itálicos são meus. Ele prossegue: “Se em relação à violência perpetrada pelos animais nada podemos fazer no foro, o mesmo não se pode dizer em relação às violências da criminalidade e da arruaça (outra palavra difícil!)”. Outra vez os itálicos são meus, desta vez para dizer que o Procurador-Geral se engana redondamente.
Numa sociedade moderna como a nossa, nenhuma violência pode ficar sem responsabilidade. Se ele se refere aos ataques de crocodilos, leões ou elefantes, então só não podemos fazer nada se as autoridades competentes tiverem criado condições de segurança para as populações, condições essas que a população depois ignora. Essas condições podem simplesmente envolver avisos de perigo. Toda a violência é assunto público, portanto, da responsabilidade de alguém. Agora, se se refere à violência de animais domésticos, aí também os donos têm que ser chamados à responsabilidade e, até certo ponto, as autoridades municipais que devem legislar sobre a manutenção de animais em aglomerados populacionais. Suponho que o Procurador-Geral quisesse apenas gracejar, mas enganou-se e, sobretudo, revelou fraca sensibilidade no que diz respeito à relação entre justiça e sociedade. Em artigos sobre o crime que publiquei há várias semanas neste espaço tentei mostrar até que ponto o crime tinha a ver com a nossa insegurança jurídica. Este pequeníssimo exemplo mostra o ambiente intelectual dentro do qual a insensibilidade para com esta questão se desenvolve.
E isto não é mesquinho, pois está directamente ligado à questão dos linchamentos. Segundo o Procurador-Geral, “[Q]uando um arguido preso é restituído à liberdade por termo de identidade e residência, ou por caução e não leva guia para se apresentar no seu local de residência, ou se trabalho (sic), a comunidade não entende, principalmente quando ele próprio se mostra arrogante, ou até profere ameaças contra aqueles a quem ofendeu com o seu comportamento”. E continua, “[U]ma guia ajuda a entender a razão e as circunstâncias da soltura, o seu controlo e, em caso de corrupção, a descobrir quem foi o corrupto que soltou, se for o caso disso”. Abro parêntesis para me rir do corrupto que revela a sua identidade... Finalmente, conclui o Procurador-Geral, “[E]sta é a sensibilidade que ouvimos dos líderes comunitários e de outras personalidades que, em nossa opinião, pode ajudar-nos a controlar os nossos criminosos. De outra maneira, serão eles a controlar-nos, impondo-nos a sua ordem de terror e insegurança”.
Há muita coisa que não está bem, em minha opinião, neste argumento. Primeiro, parece-me contraditório colocar o peso dos linchamentos no desconhecimento das razões de soltura de um arguido quando a mesma pessoa que defende este argumento disse na mesma alocução que a sociedade só precisa de dizer que foi feita a justiça. Como é que as pessoas podem dizer isso se não percebem como funciona (aí estão de novo os gongorismos...) a justiça? Não pode ser isto o que o Procurador-Geral quer dizer aos seus colegas. Ele tem razão em insistir que as pessoas precisam de perceber as razões de soltura condicional, mas isso passa pelo entendimento dos procedimentos legais. Este é o primeiro problema. O segundo é mais grave. Os linchamentos que ocorreram (e continuam ainda a ocorrer na cidade de Maputo) têm muito pouco a ver com guias de marcha. Os linchados não eram arguidos sem guia de marcha; quem ordenou (se é que foram ordenados) os linchamentos não foram líderes comunitários. E, acima de tudo, se se chega a uma situação em que linchamentos ocorrem a autoridade moral está tão abalada que não vai ser por ela perceber porque arguidos foram soltos que vai conseguir travar os linchamentos. Em suma: O Procurador-Geral da República não percebe o assunto sobre o qual está a falar, isto é, a pessoa que deve velar pela segurança dos moçambicanos está aquém do assunto. Mas há mais: A ideia de que o desafio é controlar os criminosos para não sermos controlados por eles é absurda. O desafio, em minha opinião, é criarmos uma ordem jurídica previsível e transparente. Se ela assim for, o problema do controlo dos criminosos nem se vai colocar. Quando muito a verdadeira questão que se coloca é de saber como controlar o sistema de justiça e os agentes da lei e ordem para que se não instale na nossa sociedade uma ordem de terror e insegurança. Qualquer que sejam as voltas que damos ao assunto, o desafio não se define pelo que os criminosos fazem ou não fazem, mas sim pelo que a nossa justiça faz. Ou não faz.
Se os nossos magistrados mais altos e todas as outras personalidades públicas falassem mais vezes dando largas à sua imaginação intelectual o país ficaria a ganhar. O debate é absolutamente necessário para podermos em conjunto apontar os erros de percepção. Enquanto as nossas políticas e o trabalho público permanecerem envoltos no segredo fechado dos que agem e fazem coisas – ao contrário de nós que só falamos e falamos – vai ser muito difícil ir para a frente. Qualquer análise dos problemas do nosso país remete-nos sempre para a qualidade do nosso debate. Criticar por criticar não ajuda. Apoiar por apoiar também não ajuda. Procurar bodes expiatórios do tipo “corrupção” também parece desperdício de tempo. Mas agora, trocar impressões sobre a forma como cada um de nós aborda a realidade é crucial. É ouvindo o Procurador-Geral falando mais vezes sobre questões intelectuais que poderemos perceber porque algumas coisas andam mal no sector que ele dirige. O acesso que ele tem à realidade é que é problemático e como ele raras vezes o coloca à disposição do público para debate ele persiste no erro. Não há como corrigi-lo. O debate é importante. É nosso direito e dever.