segunda-feira, março 05, 2007

Demagogia

Regresso com algumas reflexões sobre a fala oca. Começo por citar um excerto de uma notícia publicada no jornal Notícias.

“Neste sentido, para Rosa da Silva, a UP e os seus graduados têm a responsabilidade de contribuir com planos estratégicos que sirvam como pólo de desenvolvimento, pois “as suas intervenções, na base, oferecem oportunidades para se encarar o futuro com optimismo”. Sublinhou que “com a formação de professores, em quantidade e qualidade, a Universidade Pedagógica dá o seu contributo na luta contra o subdesenvolvimento que interfere, negativamente, na esperança do povo. A vitória dos moçambicanos assenta no desenvolvimento acelerado da economia, que permitirá a redução das assimetrias do país, preservando, assim, a paz e a democracia”.
Num país como o nosso, em que a taxa de analfabetismo é ainda elevada e a economia se baseia na produção agrícola familiar, o sucesso do combate à pobreza absoluta e a sua incidência no desenvolvimento equilibrado estão condicionados à eficiência do sistema educativo. 
Neste processo, “a Universidade Pedagógica tem um campo ilimitado de acção. Ela deve assumir a responsabilidade de fazer da academia a base para que os graduados, ao se dirigirem às suas zonas de origem (distritos) se sintam capazes de criar o auto-emprego”, declarou Rosa da Silva. 
Por seu turno, o Reitor daquela universidade, Carlos Machili, explicou que, como qualquer instituição de ensino superior, a UP vive intensamente a questão da qualidade. “Esta é a característica universal das instituições de ensino superior, mas em Moçambique, na UP ainda não conseguimos definir os indicadores”, disse” (fim).
 
Nos gloriosos tempos da revolução a Frelimo chamava de demagogia a tudo quanto fosse apenas fala sem muito sentido analítico. Ela não era muito exacta ou consequente no uso dessa palavra, mas sempre dava para entender que se referia ao que não fazia muito sentido revolucionário ou pura e simplesmente tinha como objectivo agradar facilmente as massas. Esses tempos fazem saudades, pois este tipo de fala parece ter aumentado significativamente na nossa esfera pública, sobretudo a partir dos governantes. O nosso desenvolvimento passa por clareza nos pronunciamentos públicos, um dos poucos critérios que podemos utilizar para apreciar devidamente as intenções dos que se consideram habilitados a contribuir para o nosso bem-estar. 
Trago hoje dois exemplos do que a fala pública não pode ser. Extraí estes excertos de uma notícia publicada pelo jornal notícias no último sábado, dia 2 de março. Parto do princípio de que o que está entre aspas é citação directa. Sendo assim, gostaria de comentar as palavras da Governadora de Maputo que marquei para melhor identificação. Não percebo muito bem o que ela quer dizer com a ideia de que o subdesenvolvimento interfere com a esperança do povo. De que esperança está a falar? Refere-se, talvez, às expectativas de bem-estar do povo? É legítimo supor que a expectativa do povo seja acabar com o subdesenvolvimento? A questão não é filosófica. O povo quer o bem-estar individual – podemos supor com algum atrevimento – mas o político é que se encarrega de articular esse bem-estar individual com a luta contra o subdesenvolvimento. Sendo assim, compete ao político defender essa articulação através de argumentos que nos mostrem o que ele entende fazer e porque cada um de nós deve depositar a fé nessa visão. A demagogia aqui vem do facto de a Governadora transferir para o povo aquilo que é sua responsabilidade, nomeadamente defender o que ela própria defende.
Na mesma citação ela continua com um argumento em cadeia que não me parece bem pensado. Ela diz efectivamente que a vitória – na luta contra o subdesenvolvimento – assenta no desenvolvimento acelerado da economia, o qual por sua vez vai permitir a redução das assimetrias no país; esta redução, por sua vez, vai preservar a paz e a democracia. Este é um argumento muito complicado e que, no limite, faz pouco sentido. O desenvolvimento acelerado da economia por si próprio não me parece a única condição – e nem é necessário que seja “acelerado” – para lograr o objectivo da vitória. A economia pode se desenvolver, mas se não houver redistribuição, nada feito. O papel do político é de nos dizer como pensa utilizar o desenvolvimento acelerado da economia para satisfazer a esperança do povo, para usar as suas palavras. Não consigo perceber a relação exacta entre assimetrias e subdesenvolvimento nem mesmo desenvolvimento económico. A Governadora está a dizer que há assimetrias porque somos subdesenvolvidos? Ou o contrário? Está a dizer que logrando o crescimento acelerado da economia reduziremos também as assimetrias? Por último, o que é que isto tudo tem a ver com a paz e democracia, sobretudo num contexto em que os que estão no poder parecem ter elevado a luta contra a pobreza ao estatuto de algo inquestionável que coloca sobre quem questiona e critica o estigma de desmancha-prazeres e inimigo do desenvolvimento do país? Com demagogia não havemos de ir longe.
A última citação é simplesmente irresponsável. A Universidade Pedagógica não pode ter um campo ilimitado de acção. O seu campo é a formação de professores, o desenvolvimento do ensino e, talvez, a investigação dos desafios que a pedagogia nos coloca. Esse é que é o campo de acção da UP, tudo o resto é demagogia, demagogia essa bem patente na degradação contínua da qualidade da sua formação nos últimos anos. A UP não é nem pode ser base para que os graduados se sintam capazes de criar auto-emprego. Ela forma professores que na sua maioria serão integrados no sistema nacional de educação. A UP não pode andar a formar professores para criarem as suas escolas ou estabelecimentos de ensino. Esperar isso da instituição é simplesmente irresponsável, a não ser, claro, que a Governadora tenha dito isso só por dizer. Demagogia.
Mas como a demagogia não é apenas privilégio dos políticos, o Reitor da UP tinha que se pronunciar de forma também enigmática para confirmar o palpite. Diz que a UP “vive intensamente o problema da qualidade”, que é “característica universal das instituições de ensino superior” e que, em Moçambique, a UP ainda não conseguiu definir os indicadores. Isto é fraco e vergonhoso. Estou em supor que a UP viva, de facto, intensamente o problema da qualidade, mas que isso seja uma característica universal das instituições de ensino superior (suponho no mundo) não é verdade. É um problema da UP e o facto de volvidos tantos anos desde que ele está à frente dos destinos daquela instituição ainda não tenha definido nenhum indicador é prova mais do que evidente de que ele não está a cumprir a sua missão. Se não sabe definir a qualidade que formação está ele, então, a fornecer aos estudantes? Como é que sabe se é boa ou não? Que país é este onde até académicos falam de forma tão nebulosa como políticos? 
Ao reflectir sobre estas falas ocas não quero mostrar que os nossos políticos ou académicos são fracos. Isso não nos levaria a lado nenhum. O que quero mostrar é que a nossa esfera pública tem que ser mais exigente. As pessoas que usam da palavra em público têm que o fazer com conhecimento de causa. Ou calarem-se. 

6 comentários:

Egidio Vaz disse...

Apenas falata-me aferir a pertinência da presença de um político no acto de uma graduação acadêmica.

Egidio Vaz disse...

Sabia, Professor que está nos planos da UP ter escolas desde a pré primária até 12ª classe? Pois bem, aguarde para outras surpresas.
Um abraço.

Elísio Macamo disse...

caro egídio, não percebi o seu segundo comentário. a universidade pedagógica está com planos de ensinar nesses níveis também, isto é, não ser só universidade, mas também escola primária, secundária e pré-universitária? é isso?

Egidio Vaz disse...

SIM, isso mesmo. Segundo o Reitor, para constituir viveiro de praticas pedagógicas. Mas essas escolas farão parte do Campus da UP. (entrevistado pela TVM, sexta feira passada, Telejornal).

ninozaza disse...

Que bom termos as suas análises criticas de volta aqui no seu blog. Tenho muita pena que este espaço não seja acessivel a muito mais pessoas, porque talvez assim mais gente começa-se paulatinamente a indagar-se sobre determinados aspectos que parecem normais nos pronunciamentos dos políticos e académicos da nossa praça.

Elísio Macamo disse...

egídio, agora percebi. é uma brincadeira de mau gosto. muito mau gosto. ninozaza, espalhe a notícia e, acima de tudo, se acha que é bom procure fazer o mesmo na sua abordagem dos problemas do nosso país. obrigado pelas visitas.