Reparo que ultimamente o blogue está a assumir um carácter cada vez mais político. Esta não é a intenção. A intenção deste blogue é de proporcionar um espaço de debate e troca de ideias sobre a prática da sociologia em Moçambique. Lamento bastante que já ninguém contribua textos. Há muita coisa que podemos aprender uns dos outros apresentando as nossas ideias publicamente e aceitando os desafios do debate de ideias. Durante algum tempo pensei que o facto de a universidade estar de férias explicasse o silêncio. Espero que essa tenha sido a razão. A partir da próxima semana vou voltar a estar longe do blogue e isso vai ser assim até finais de Abril. Seria bom que o blogue continuasse vivo com as vossas contribuições.
Comecei o assunto da estrutura social, mas desde que escrevi o último texto sobre Bourdieu nunca mais voltei ao tema. Espero ainda poder continuar com isto. A viragem política que se nota no blogue tem a ver com o facto de haver temas políticos quentes que merecem ser discutidos. Espero, contudo, que ao discutir esses temas esteja também a explorar subsídios da sociologia que consistem basicamente na interpelação da forma como cada um de nós recupera o mundo. Eu tenho a convicção de que as ciências sociais têm um grande papel a desempenhar nos esforços do país de se desenvolver e proporcionar bem-estar ao seu povo. Esse papel não consiste necessariamente na criação de riqueza material. Consiste, talvez, na clarificação dos critérios que outros usam para abordar a realidade.
Gostaria de demonstrar, mais uma vez, o papel relevante das ciências sociais com uma breve discussão da notícia (extraída do País Online) que se segue. Ao que tudo indica, a Vice-Ministra da Educação baseou-se num estudo que foi feito sobre a qualidade do ensino geral. Se alguém tiver acesso a esse estudo, ou sabe onde eu posso encontrá-lo, agradecia que me dissesse. É bastante salutar saber que, pelo menos desta vez, há um governante que está a falar com base em informação sólida. Mesmo assim, a forma como ela é citada levanta, em mim, dúvidas sobre o seu entendimento dos desafios que se colocam ao ensino geral. Leiam primeiro e encontramo-nos logo a seguir do outro lado da notícia.
Ensino Geral está aquém do desejado
13/03/2007
O Ensino Secundário Geral em Moçambique está desfasado da realidade económica e social, segundo assumiu a Vice-Ministra da Educação e Cultura, Antónia Xavier, que falava na abertura de um seminário sobre Educação na capital do país, Maputo.
Antónia Xavier, coloca dedo na ferida, e põe em causa a adequação dos actuais currículos escolares, com as necessidades do mercado de trabalho.
O relatório de consultoria realizado sobre a qualidade do ensino é contundente na conclusão que chega, referindo que Moçambique despendia anualmente, rios de dinheiro pelo sector, mas os resultados são de qualidade muito aquém da pretendida.
Por outro lado, a directora Nacional do Ensino Secundário, Palmira Pinto, vai mais longe ao afirmar que o elevado fluxo de estudantes que todos os anos transitam do ensino primário para o secundário, está literalmente a asfixiar o ensino médio em Moçambique.
Num outro desenvolvimento, Palma Pinto deixa um alerta aos presentes, alegando que não pode dar-se ao luxo de preterir a qualidade do ensino, a favor da quantidade de alunos, a frequentar as escolas nos diversos níveis.
Entretanto, dados do Ministério de Educação, referentes ao ano de 2005, dão conta de que no ensino secundário geral, a taxa média de aprovação em Moçambique esteve um pouco acima dos 63 % em 2005, com a região centro a liderar a quantidade de alunos aprovados naquele ano, numa cifra de 64% enquanto no inverso da pirâmide, a região norte revelou-se ser a pior em 26%.
De referir que no capítulo das desistências, a zona norte dos país liderou com 11,8%, contra 5.7% da zona centro e 5% da zona sul.
A primeira coisa que devemos constatar é que a notícia é qualitativamente pobre. Este é, infelizmente, um problema grave do nosso jornalismo que torna o debate na esfera pública difícil. A notícia é breve e, por isso, não pode dizer mais do que contém. Contudo, seria de esperar que ao levantar a questão do desfasamento e ao citar um estudo sobre o assunto se detivesse para fundamentar as afirmações que faz. Como me apercebi de que alguns jornalistas visitam este blogue, gostaria de lançar um apelo para que melhorem os seus noticiários e que a necessidade de serem breves não prejudique a informação. O país é a informação que vocês veiculam. Muitos de nós, incluindo governantes, não têm outro acesso ao país real senão pelo vosso noticiário. Sei que é uma grande responsabilidade, mas quem escolheu a profissão foram vocês. Exerçam-na como deve ser, por favor!
Apesar da fraca qualidade da informação a notícia levanta problemas importantes relacionados com critérios, o nosso assunto enquanto sociólogos. O problema que a Vice-Ministra da Educação levanta é de que os currículos escolares não se adequam às necessidades do mercado. Este é um problema sério que levanta imediatamente a questão de saber o que se estava a pensar quando se elaborou os currículos que temos agora. Em que contextos foram elaborados, por quem, tendo em conta que necessidades e o que teria mudado de lá para cá? Estou, portanto, a colocar perguntas críticas, não estou a criticar. Não me interessa dizer que as coisas foram mal pensadas. Muito menos é do meu interesse proceder como alguns governantes actuais que justificam toda a mudança na base de que está tudo mal e poucas vezes como processo normal de ajustamento dos instrumentos de acção. Interessa-me perceber o que se está a passar.
Quando as pessoas nos apresentam o mundo – a sua versão do mundo – costumam fazê-lo estabelecendo uma relação entre dois conceitos. No caso vertente, a relação é entre qualidade do currículo, por um lado, e adequação ao mercado do trabalho, por outro lado. Interpelar criticamente significa (a) entender o que cada um desses conceitos significa – isto é, como se define qualidade do currículo e adequação ao mercado do trabalho – (b) entender a relação que se estabelece – isto é, se currículo influencia adequação, se ambos se influenciam reciprocamente ou mesmo se o mercado de trabalho é que influencia o currículo – e (c) saber se a informação que temos sobre o assunto descreve adequadamente o problema – isto é, a qualidade do estudo sobre o qual nos baseamos. Tenho notado em vários debates por aí que muitos dos nossos cientistas sociais descuram estas precauções e põem-se logo a “criticar”. Crítica sem informação e reflexão não é crítica. É perca de tempo e mau serviço prestado às ciências sociais que só vai alimentar a desconfiança que alguns governantes têm contra nós.
A partir deste pequeno exercício dá para ficar com algumas reticências em relação à forma como a Vice-Ministra da Educação coloca o problema. A primeira reticência é em relação à própria noção de ensino geral. É função do ensino geral preparar pessoas para o mercado de trabalho? Não creio, mas peço que me corrijam. Semprer pensei que o ensino geral preparasse basicamente para os escalões superiores do ensino. Pode acontecer que por razões que têm a ver com as dificuldades da vida no país muitas pessoas que estão no ensino geral abandonem a escola e procurem por emprego. O problema aqui não é da adequação do currículo, pois o currículo não terá sido feito para dar resposta a essas situações. O problema pode ser o que leva as pessoas a procurarem emprego para coisas em que não foram formadas. Mudar o currículo em função deste equívoco pode, talvez, piorar a situação.
A segunda reticência é em relação ao próprio mercado de trabalho. Que tipo de habilidades quer ele? Para sabermos isto temos que saber como este mercado de trabalho se estrutura, em que contexto ele opera e qual é a sua capacidade de absorção de mão de obra. Os nossos governantes têm falado muito sobre o auto-emprego como se fosse apenas uma questão de sair da escola e montar a sua empresa ou empreendimento. Nunca os ouvi a falar de tudo que, do lado institucional, é preciso fazer para que nasçam espaços de empreendedorismo. Parte-se do princípio de que uma formação sólida vai necessariamente produzir empreendedores. É pena que não nos preocupemos muito em aprender das experiências de outros países. Gente como Bill Gates é rara no mundo da mesma maneira que há poucas empresas de sucesso no mundo que foram criadas por gente formada. Muitas vezes, o empreendedorismo é resultado do desconhecimento e da falta de capacidade de avaliar riscos adequadamente. A ciência torna-nos mais cautelosos. Não há professores universitários que ficaram ricos por terem investido o seu conhecimento fora da universidade, daí que muitos deles, como é o meu caso, andem por aí a dizer que o mais importante na vida é o conhecimento... há poucos economistas bem sucedidos no mundo de negócios; os que há são-no por servirem outras pessoas, normalmente mais burras do que eles...
A terceira reticência é em relação ao ensino de uma forma geral. Aqui o questionamento devia começar pelo ensino técnico – industrial, comercial e agrário. Está ele a formar os quadros que o mercado de trabalho precisa? Como é que as pessoas formadas nestas áreas se integram no mercado de trabalho? Que sabemos nós acerca da sua sorte? Se nem mesmo os que são formados em áreas técnicas e práticas têm melhor sorte, então aí temos um problema mesmo sério que não é só da qualidade dos nossos currículos, mas também do nosso mercado de trabalho. Só com este tipo de exercício de reflexão é que poderemos procurar saber de que maneira é que o ensino geral pode ser ajustado para dar resposta a seja qual for o problema que achamos ter constatado.
Queria, portanto, com esta breve reflexão ilustrar o que é possível fazer a partir das ciências sociais. O desafio, repito, não é criticar e dizer que está tudo mal. O desafio é ajudar os decisores políticos e a sociedade a formular melhor os nossos problemas. Isto é algo que não precisa de rios de dinheiro. Precisa apenas de gente interessada em pensar, gente que, na sociedade, encontra espaço para formular as suas reflexões sem receio de represálias. Há dois blogues aqui ao lado, Olhar sociológico e Quotidiano de Moçambique – há outros evidentemente: Ideias de Moçambique, Diário de um sociólogo e Ideias para debate, mas refiro-me a intervenções recentes que me pareceram de alta qualidade – em que um sociólogo e um jurista simplesmente aplicam os instrumentos analíticos que aprenderam na universidade para interpelar a realidade. Não significa que estão certos em tudo quanto dizem, mas fazem pensar, provocam-nos e tiram-nos da letargia. É disto que o nosso país precisa para continuar a caminhar para a frente. É deste tipo de gente que os decisores políticos precisam para contextualizarem melhor as suas decisões e políticas.
Este tipo de gente não constitui nenhum impecilho. Está a prestar um grande serviço ao país sem grandes alaridos à volta de chavões do género “luta contra a pobreza absoluta”.
3 comentários:
professor! nao acho que esteja a ser politico. hoje a relacao entre a ciencia e politica (fazer), esta muito estreita. muitos dizem que e devido ao salto que ciencia deu na area cognitiva-comportamental, economica e tecnologia. por exemplo na area onde trabalho e de formacao (saude e apoio social)nao posso aplicar o meu conhecimento generico ( de orientacao humanista) e profissional ( de orientacao cientifica) sem olhar para aspectos de ordem politica e social.
o perigo do conhecimento cientifico, e quando ele se torna dogmatico, usa modelos de comunicacao de pouca compreensao, obriga-nos a cientificidade da nossa relacao com mundo nao deixando espacos para a convivencia do conhecimento generico.
e a tua luta pelos espacos de reflexao e legitima. e nao ha outra forma de fazer isso, sem um exercicio critico. a qualidade do pensamento nao esta so no curso que cursamos, mas no espaco social que esse pensamento esta enquadrado. e os espacos conquistam-se ou negoceiam-se.
um colega da universidade dizia, as ciencias sociais e as de direito, sao interpretadas como ciencias de combate intelectual e do pensamento critico do sistema politico e social nas sociedades modernas africanas, mas quando rebenta uma guerra, ou convulsao social, estes sao os primeiros a exilarem, e ficamos nos da saude e outras ciencias a tratar das feridas nos hospitais e ninguem pergunta se esta nossa pratica medica precisa tambem de um pensamento critico. e alguns dizem que ha ciencias combativas e ciencias conformitivas. um erro.
os desafios da ciencia em mocambique, esta na relacao com o conhecimento generico, que muitas das vezes esta muito ligado ao exercicio politico. a manifestacao e interpretacao do pensamento generico esta muito baseado no pensamento folk, relacoes pessoais, tradicao familiar do pensamento, orientacao para uma necessidade basica e pratica, usando referencias que focam no senso comum, faz com que o pensamento generico seja muito amado pelo politico. nao exige exercicio profundo para elaboracao, usa um aparelho comunicativo de facil operacao.
o discurso da pobreza absoluta enquandra-se neste contexto.
o conflito que hoje temos entre ajuda e control. esta muito evidente entre o campo politico e o campo cientifico. e a diferenca entre estes dois campos esta na tradicao deste dois campos. enquanto que a politica se reproduz dentro de um sistema de control, a ciencia se reproduz num campo de ajuda. mas hoje onde os recursos e os espacos de afirmacao sao escassos, havera conflitos. o que falta em mocambique, sao mecanismo de mediacao, ou espacos de negociacao ou transicao entre este dois campos.
interessante! acho sobretudo a última parte, a distinção entre controlo e ajuda, estimulante e susceptível de nos ajudar a perceber a esfera pública moçambicana. em tempos, brazão mazula falava, ecoando habermas, da razão comunicativa e da razão estratégica. será a mesma distinção? há muito que reflectir aqui. obrigado.
Fantástico!
Penso que as suas reflexões em torno da nomeação dos reitores das universidades públicas são muito profícuas. Na verdade, seria muito bom que este debate tivesse sido levantado no âmbito da Revisão da Constituição de 1990. Esta reflexão escapou aos deputados.
Parabéns, Dr!
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