quinta-feira, dezembro 27, 2007

À esquerda da direita ou à direita da esquerda?

Aos que ainda não se decidiram se querem ser da esquerda/direita ou de Moçambique

Durante o período revolucionário em Moçambique aprendi nas sessões de estudo político que Pierre-Joseph Proudhon, um dos maiores socialistas franceses do século XIX, era um reaccionário. Há cerca de dois anos li “A miséria da filosofia” de Marx e Engels e dei-me conta de que era uma resposta bastante polémica – mas de uma ironia muito subtil e gostosa! – ao livro de Proudhon com o título “A filosofia da miséria”. Li uma recensão crítica escrita por Friedrich Engels a esse livro de Proudhon e, apesar da elegância da escrita de Engels e da contundência dos seus argumentos, comecei a gostar de Proudhon. Já agora, um reparo muito interessante: Proudhon, tal como muitos socialistas franceses da sua época, alinhava com as ideias de Feuerbach!

Em 1846 houve uma troca de correspondência entre Marx e Engels, de um lado, e Proudhon, de outro. Os primeiros estavam a convidar o último a se juntar a um movimento continental de consciencialização do movimento operário através de uma publicação em que esperavam contar com Proudhon lá da França. Na altura Marx encontrava-se exilado em Bruxelas. A resposta de Proudhon ao convite formulado pelos grandes gurus do comunismo europeu é bastante instructiva em relação ao problemático entendimento que se tem do posicionamento ideológico na academia moçambicana. Repito: não há nada melhor que cada um de nós ler as fontes e tirar as suas conclusões. Proudhon respondeu a Marx no dia 17 de Maio de 1846. Após dizer que estava interessado em fazer parte dessa correspondência ele comenta vários aspectos contidos na carta de Marx. Vou pegar em alguns para contextualizar o que se pede de nós quando somos exortados a sermos da esquerda ou da direita. Depois decidam se ainda querem escolher...

Proudhon começa por dizer que é obrigação de todo o socialista – portanto, pessoa da esquerda – manter por enquanto uma atitude de crítica e dúvida. E desenvolve o seu pensamento nos seguintes termos: “claro que devemos trabalhar juntos na procura das leis da sociedade, da maneira como essas leis são aplicadas e do processo através do qual as podemos descobrir; mas por amor de Deus! Quando tivermos demolido todos os dogmas a priori, não devemos nós também indoctrinar o povo!”. Proudhon refere que não quer ser como Martinho Lutero que substituiu a teologia católica por uma teologia protestante e prossegue: “vamos ter uma discussão polémica boa e honesta; vamos dar ao mundo um exemplo de sabedoria e tolerância clarividente”. Mas só pelo facto de sermos a vanguarda do movimento, continuou este grande mandarim avant la lettre, “não vamos instigar uma nova intolerância, não nos vamos impor como apóstolos de uma nova religião, mesmo se se tratar da religião da lógica, ou da razão. Vamos dar as boas vindas e encorajar todos os protestos, vamos acabar com todos os exclusivismos e todos os misticismos. Não vamos considerar nenhuma questão completamente respondida e quando tivermos usado o nosso último argumento vamos começar de novo, se for necessário, com eloquência e ironia. Nesta condição posso me juntar a vocês com prazer, caso contrário, não!”.

Mais adiante nessa carta Proudhon debruça-se sobre uma expressão recorrente na carta de Marx – “au moment de l’action” (na altura da acção ou, para dizer as coisas em bloguês activista: na mudança do mundo!) – e adverte Marx contra os perigos de uma acção revolucionária e escreve: “o nosso proletariado [o francês] está tão sequioso de conhecimento que nos receberia muito mal se tudo quanto nós tivéssimos para lhe dar fosse sangue. Em poucas palavras, em minha opinião seria má política usar a linguagem da exterminação. As medidas rigorosas virão em seu tempo; nisto o povo não precisa de nenhuma exortação”.

Podia continuar a citar Proudhon, mas acho que estas passagens são suficientes para repetir o alerta: cuidado com as exortações à acção! São para vocês deixarem de pensar. É verdade que Proudhon ficou um dos piores inimigos do Marxismo, mas a história parece ter mostrado que a sua prudência não foi de todo má. Numa altura em que jovens cientistas sociais são chamados a se posicionarem à esquerda ou à direita (de quê?), talvez fosse bom fazerem um recuo histórico e inteirarem-se do que outras pessoas discutiram sobre os mesmos assuntos. É mais do que certo que a exortação ao posicionamento é política e tem como função sugerir a ideia de que agora é tempo de acção. Quando o nosso povo espera de nós reflexão séria e profunda o que nós – ou alguns de nós – lhe prometemos é sangue. As questões já foram exaustivamente respondidas. Agora é tempo de acção. Já foram? É mesmo tempo de acção?

No interesse da acção eu gostaria de formular o desejo de que o ano de 2008 nos traga académicos que antes de serem da esquerda ou da direita sejam directos no debate!

4 comentários:

Aguiar disse...

"Vou (...) contextualizar o que se pede de nós quando somos exortados a sermos da esquerda ou da direita."

Este trecho de seu texto, Prof. macamo, lembrou-me de imediato um comentario que fiz a um excerto da entrevista de Joaquim Fumo no Diario de um Sociologo. Permita-me que a transcreva:
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"Caro J. FumoConfesso haver lido este trecho de sua entrevista ontem, mas fiquei tao estupefacta que nao fui capaz de o comentar.
Mas, porque penso que um dos entraves para ao desenvolvimento é, a nossa falta de pré-disponibilidade para o dialogo, e, porque penso, ainda, que, ser sociologo, no país, que é o seu, significa “partilhar de um campo epistémico especializado” que nasceu no contexto de profundas transformaçoes sociais na Europa do sec XIX. Por conseguinte, suponho que “a complexidade da realidade social africana é feita da relaçao ambígua que o continente tem com a modernidade (kane 1995) Esta ambiguidade contudo nao postula uma ciencia do social fundamentalmente diferente. Ela exige apenas maior sensibilidade na utilizaçao dos conceitos” (Macamo, 2001). E, penso, ainda, que, ao expor as suas ideias num suporte fisico como a net, o J. Fumo, nao quer, obviamente, dirigir-se, exclusivamente aos moçambicanos. Por outro lado ha-de convir que, os demais internautas nao possuem a mesma sensibilidade na identificaçao dos conceitos. Por isto, considerando que, ha cerca de duas décadas, a esquerda europeia, em nome da modernizaçao, nao cessa de transportar para os seus programas uma panoplia quase completa das politicas economicas e sociais da direita. Considerando ainda que um dos desafios que se colocam às “novas esquerdas” numa economia globalizada é o de assegurar a competitividade economica. Noutros termos, o desafio maior que se coloca às “novas esquerdas” é o de ganhar a “guerra economica” (aumentar o poder de compra dos ditos oprimidos). Assim nao se trata pois de “humanizar a sociedade” evitando-se a “guerra” mas sim, de “humanizar a guerra” inevitavel (compreendendo e manipulando os intrumentos economicos). Eu pedia-lhe, por favor, Caro J. Fumo, à luz das dinamicas de tranformaçoes sociais, globais e locais, nos nossos dias, que me esclarecesse, por favor, sobre a a sua concepçao de sociologo de esquerda e de sociologos de direita."

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Porque transcrevo isto para aqui? simples, porque o debate está há já algum tempo circular, suponho, vejo todo o mundo falar em “esquerda” e “direita” mas ninguem me explica o que é ser de esquerda e de direita nos nossos dias em Moçambique! la onde escrevi J Fumo, penso, poder substituir por Prof Macamo e pedir-lhe que à luz das dinamicas de tranformaçoes sociais globais (as quais, penso, Moçambique, nao é indiferente) e e das transformaçoes no seio de Moçambique, o que é ser de esquerda e de direita hoje.

Qual o pensamento que rege a esquerda moçambicana hoje? É um pensamento unico e uniforme? A esquerda de hoje é a mesma do tempo do partido unico? o que mudou no seio da esquerda moçambicana? Existe realmente uma direita em Moçambique? Como apareceu? O que é a direita em Moçambique? A direita existe? Nao sera a direita moçambicana, apenas, fruto do imaginario colectivo? Teria sido necessario inventar uma direita para que a velha esquerda moçambicana continue a existir e a perpetuar-se? O que é a velha esquerda moçambicana?

“direita” e “esquerda” questao de attitude, questao de religiao?

Elísio Macamo disse...

iolanda, estás a pedir-me para fazer justamente o que eu também acho problemático. não acho sinceramente que essas categorizações sejam hoje pertinentes em moçambique, sobretudo se tomarmos em conta o que está a acontecer na europa donde essas categorias vêm. a pobreza e a desigualidade em moçambique ou noutras partes do mundo não me são indiferentes; não é por eu me declarar da esquerda ou da direita que vou tornar o meu trabalho académico relevante para a eliminação desses males. alguns dos jovens moçambicanos aplaudidos por carlos serra como sendo críticos sociais identificam-se com os ataques nojentos que sarkozy faz à "esquerda" francesa. antes mesmo de decidirmos de que lado queremos ficar devemos, talvez, ganhar clareza sobre o que significa fazer ciências sociais. eu sou pela justiça social e pela dignidade individual, mas não acho pertinente declarar-me de esquerda ou de direita. talvez o tal j. fumo te explique melhor o que queria dizer.

Basilio Muhate disse...

Caro Elisio Macamo

Peguei no último parágrafo do teu texto...para comentar tudo o resto e para cair no debate directo a que te referes...
Será mesmo que as exortações são para as pessoas deixarem de pensar ... ou são para orientar as tendências do pensamento global? Realmente a Priudência de Proudhon não foi de todo má, mas ...mas ... mas ....
Em relação a esquerda/direita...acho realmente que essa questão é complicadíssissima...sé é que se pode usar esse termo...
Os académicos tem que ser directos...ser académicos...e não esquerdistas ou direitistas...essa terminologia não tem cabimento na nossa "democracia" ou ciência política

Elísio Macamo disse...

caro basílio, bons olhos te vejam! não precisavas de perturbar o meu fim de ano com perguntas difíceis... o debate "directo" refere-se às constantes insinuações a algumas das minhas reflexões no blogue de carlos serra. eu acho que o debate franco, aberto e honesto é sempre melhor. veja os últimos aforismos e vais perceber do que estou a falar. sobre a esquerda ou direita: eu acho que antes mesmo de nos posicionarmos devíamos aprender a dominar os instrumentos científicos. a pressa de ser da esquerda ou da direita obriga-nos a esquecer as coisas mais elementares da nossa profissão. a minha sugestão é de que as coisas elementares são mais fundamentais. quando alguém anda a insistir nessas categorias só pode estar a querer impedir os outros de pensarem. não sei se essa terminologia não tem mesmo cabimento, o único que estou a dizer é que não me parece relevante neste momento. gostaria de discutir as tuas reservas em relação à prudência de proudhon, mas para isso terias que te expandir mais. eu acho que essa prudência de proudhon é particularmente pertinente no moçambique de hoje. mesmo sob o risco de ser acusado de pensar que só as minhas críticas é que são boas devo dizer que a forma como muitos criticam na nossa praça fecha, ao invés de abrir alternativas. fecha-as no sentido receado por proudhon. as coisas não estão perdidas em moçambique, mas com desabafos e denúncias dificilmente veremos a luz no fim do túnel...