sexta-feira, dezembro 14, 2007

A mentalidade analítica (2)

A fala

A ideia que temos da sociologia remete-nos para duas vertentes. Uma é de que a sociologia se ocupa da sociedade; a outra é de que ela se ocupa do que as pessoas fazem. Ambas as ideias são um tanto ao quanto vagas. O que significa realmente ocupar-se da sociedade ou do que as pessoas fazem? Ocupar-se da sociedade é entendido como o estudo da estrutura e das funções dos elementos de uma sociedade. Esta é a visão macro da sociologia e tem o seu grande percursor em Emile Durkheim que insistia na importância do que ele chamava de factos sociais, isto é do que nos obriga a agirmos da forma como agimos. Ocupar-se do que as pessoas fazem é entendido como o estudo do significado que as pessoas atribuem à sua acção quotidiana e corresponde a uma visão micro da sociologia. O seu grande percursor foi Max Weber que, ao contrário de Durkheim, insistia na primazia de motivações sobre o que as pessoas fazem.

Esta tensão entre a estrutura e a acção tem estado no centro de todo o debate metodológico da sociologia. Curiosamente, embora nunca resolvido, mesmo com a tentativa corajosa de Anthony Giddens de propôr a ideia de “estruturação” (estrutura + acção), o debate tem sido o motor do desenvolvimento da reflexão sociológica. A tentativa de demonstrar a relevância de uma abordagem tem içado a actividade sociológica para patamares cada vez mais altos. O estudo sobre o suicídio que Durkheim fez não só fez publicidade à sua metodologia como também trouxe à superfície coisas muito interessantes sobre o que faz uma sociedade moderna. O mesmo se passou com o estudo sobre a ética protestante feito por Max Weber. É bem possível que até seja necessário que estas questões não se resolvam para podermos continuar a discutir e podermos continuar a descobrir novas coisas sobre a realidade que nos envolve. Quem sabe?

O que tem caído fora do âmbito destas discussões é o papel da língua, ou melhor ainda, da fala no trabalho sociológico. E isto é estranho. Muitos de nós quando fazemos pesquisa utilizamos como material o que as pessoas nos dizem ou o que se escreveu. Isto é, o nosso ponto de contacto com a realidade que nós chamamos de social é a reportagem que dela se faz. Mesmo assim, damos pouca importância a esses protocolos como objecto central da pesquisa sociológica. É verdade que existem correntes sociológicas que procuram desde há muito corrigir isso. A etnometodologia, por exemplo, tomou há muito a decisão de considerar a fala como objecto sociológico por excelência. Isto está particularmente desenvolvido naquilo que se convencionou chamar de “análise conversacional”. Parte-se aqui do pressuposto segundo o qual a capacidade de manter uma conversa revelaria a competência social dos interlocutores e documentaria a forma como a sociedade se constitui. Ou por outra, a fala seria uma forma de acção. Penso que é. Tentei em tempos seguir este raciocínio com um conjunto de artigos publicados no jornal Notícias e posteriormente reunidos em livro pela editora Ndjira com o título “O abecedário da nossa dependência”. Na esteira de algumas ideias de alguns filósofos da linguagem tentei pensar o vocabulário da indústria do desenvolvimento como uma forma de fazer coisas. Cheguei à conclusão de que esse vocabulário fazia a nossa dependência.

Acho que vale à pena prestar atenção ao que estas pessoas andam por aí a escrever. A fala, de facto, é mais do que isso. É uma forma de fazer coisas. A gente age quando a gente fala. E o mais interessante nisto tudo é que uma preocupação estudada com a fala ajuda-nos a desenvolvermos o que eu gostaria de chamar de mentalidade analítica, isto é a capacidade de perceber o que se passa à nossa volta e, sobretudo, de saber porque percebemos o que pensamos ter percebido. Explico-me. Prestar atenção à fala é desenvolver a nossa curiosidade, pois isso consiste em interpelar tudo quanto ouvimos. Quando lemos um comunicado de imprensa da Presidência a dizer que o Presidente da República “exonerou” o Ministro da Agricultura podemos nos interessar por essa escolha de palavras. Porquê “exonerar” e não “mandar passear” o Ministro da Agricultura? Porque não o “saneou”? Alguns vão dizer que a linguagem jurídica e a formalidade assim o exigem. Em resposta eu diria, sim, isso mesmo, mas porque existem essas diferenças linguísticas? Quando é que elas são observadas? Por quem? Com que consequências? E reparem que o comunicado emitido pelo gabinete de imprensa da Presidência não escreveu “o Presidente da República voltou a demitir o Ministro da Agricultura”. Nem escreveu “o Presidente da República exonerou mais este Ministro da Agricultura” muito menos escreveu “o Presidente da República exonerou o novo Ministro da Agricultura”. Não escreveu “o Presidente da República exonerou o Ministro que nomeou recentemente” e por aí fora. Porquê?

Reparem que com estas perguntas não estamos necessariamente à procura da verdade. Alguns estão, é seu direito, cada louco com a sua mania. Quando colocamos estas perguntas estamos no fundo a tentar perceber em que consiste a realidade social que nos envolve. Dito de outra maneira, estamos interessados em saber o que nos está a ser dito ou comunicado ou revelado como sendo a realidade. A fala, portanto, não é inocente. Isto não quer dizer que haja sempre má intenção por detrás da fala (o que é que o Elísio está a tentar dizer?). A sociologia não é a ciência que estuda as más intenções. Nada disso. A fala documenta a realidade social de várias maneiras. Primeiro, documenta o entendimento que cada um de nós tem sobre o que faz a realidade; segundo, a fala documenta os elementos que cada um de nós utiliza para recuperar a realidade; terceiro, a fala convida ao debate sobre o que é relevante na recuperação da realidade.

Isto tudo levanta a questão da validade das constatações que podemos fazer a partir do uso dessa mentalidade analítica de que falava mais acima. A resposta é simples. A questão da validade é importante, mas no caso concreto do seu uso quotidiano não se coloca. Na verdade, usamos a nossa mentalidade analítica, interpelando a fala, como uma espécie de convite ao debate. A mentalidade analítica não produz certezas, apenas cultiva o que o sociólogo Carlos Serra chama de mentalidade sociológica. A mentalidade analítica não é peremptória. Ela sugere, aventa hipóteses e, acima de tudo, admira-se. Vamos ver isto mais de perto nas próximas postagens. Bom fim de semana!

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