É melhor ser curioso do que intolerante
Esta “carta aberta” não é simplesmente fala. É também, e sobretudo, acção. Portanto, estamos aqui perante uma acção social. Nós que somos discípulos de Max Weber devemos, então, colocar a pergunta de saber o que torna esta acção numa acção social. Que sentido atribuem os próprios actores a esta acção? Ou por outra, que razões estão por detrás desta acção? O que fez com que estas pessoas agissem desta maneira? O que isso quer dizer? Quer dizer alguma coisa? Em que circunstâncias é que uma pergunta destas ou mesmo perguntas desta natureza fazem sentido? Para quem? De que maneira? Isto, como podem ver, é curiosidade. A mesma que, pelo que se diz por aí, matou o gato.
Vamos ver as coisas a partir de um outro ângulo. Vamos partir do princípio de que há pessoas em Moçambique que não estão satisfeitas com a nomeação desse fulano para o cargo de Vice Ministro da Mulher e Acção Social. Quais são as opções que as pessoas têm para manifestar o seu desacordo? Várias, como é evidente. Podem ir ter com o Presidente da República; podem levantar a questão na célula do partido no seu local de trabalho; podem levantar a questão no Comité Central; podem comentar isso com um Ministro conhecido ou com um veterano dos mais importantes para ele levantar a questão com os seus camaradas; podem pagar a um jornalista para escrever um comentário; enfim, há uma série de coisas que elas podem fazer para manifestar o seu desacordo e exigir a demissão do fulano. Reparem que todas estas maneiras são formas discretas, daquelas que parece serem privilegiadas pelo pessoal da Frelimo. Roupa suja não se lava em público. E o texto usa uma dicção que é própria de gente forjada e temperada no palavreado da Frelimo: “divisionismo”, “ensinamentos”, “espírito de tolerância”, “líder clarividente que de certeza não sabia”, etc.
Devo abrir aqui um parêntesis para chamar a vossa atenção para o problema de sociedades fechadas, isto é, de sociedades onde o debate de ideias não é visto com bons olhos. Qualquer pessoa esperta pode fazer uso de linguagem da Frelimo – e este texto tem todo o estilo da Frelimo – para falar como se fosse alguém da Frelimo. O tipo de esfera pública que temos dá muito campo de manobra a oportunistas. A “carta aberta” pode muito bem ser da autoria de alguém da oposição que quer embaraçar o Presidente da República. Porque não? E o embaraço é mesmo grande, pois a bola está agora do seu lado. Se demite, aliás “exonera”, pode estar a “ceder” a pressões públicas; se não “exonera”, pode estar a confirmar a sua imagem de homem duro que não ouve a opinião dos tagarelas da imprensa. É uma situação chata, posso imaginar. Igualmente, a própria Ministra ou mesmo o próprio Presidente ou ainda alguém influente dentro daquele partido pode ter encomendado a “carta aberta” para forçar ou facilitar a decisão ou, simplesmente, para dar ao Presidente a oportunidade de mostrar que ele decide sozinho. Um país com um sistema político que dá muito campo à especulação é um país problemático. Fecho o parêntesis.
Os subscritores optaram por escrever uma “carta aberta” publicada num semanário independente. Será que o jornal Domingo ou o jornal Notícias recusaram publicar a carta? Que gente da Frelimo é esta que não tem bons contactos com esses jornais? Savana? Qual é o pessoal da Frelimo que tem bons contactos com o Savana e fica chocado quando se ofende Machado da Graça – por acaso também fiquei chocado com os artigos indecentes contra a sua pessoa – a memória de Carlos Cardoso e levanta o espectro do divisionismo? Que gente usa “taberna” ou “taverna” e não “barraca”, “esquina”, “botequim”? Mais importante ainda é a forma como manifestam o seu desacordo. Podiam ter escrito uma “carta aberta” assim: Exma camarada Ministra, pela presente vimos manifestar a nossa preocupação pela nomeação do camarada fulano de tal como seu vice ministro. Esse camarada tem assumido posições contrárias à linha ideológica do nosso partido. Gostaríamos de solicitar à camarada Ministra que levantasse esta questão nos órgãos competentes. Se a decisão for tomada, tem que ser cumprida. A luta continua!. Mais ou menos assim. Mas nada, preferiram florear, e bem, o seu protesto. Daí a questão: porquê? O que é que isto significa? Cisões na Frelimo? Mais uma manifestação da qualidade da nossa esfera pública?
A mentalidade analítica consiste num exercício paciente da reflexão crítica. Não crítica no sentido de dizer que está tudo mal ou mesmo que uma coisa está mal. Crítica no sentido de procurar saber se há mais alguma coisa que eu devia saber antes de poder formar uma opinião sobre uma determinada coisa. É um exercício sempre inacabado porque cada pergunta suscita sempre mais perguntas. Pensar, repito, dói, pois nunca acaba. Quando alguém tira conclusões não é porque já lá chegou. É porque decidiu parar de pensar. E o que isto significa é que nós os cientistas sociais não podemos fazer o nosso trabalho na forte convicção de que estamos a revelar a verdade das coisas. Isso é arrogante e, lá está, “pretensioso”. É, para usar mais um rótulo que me foi atribuído por um dos maiores intelectuais da nossa praça, “déficit epistemológico”.
Então, a intervenção pública que nós fazemos consiste em alimentar o debate com ideias a serem discutidas, melhoradas e rejeitadas, se for caso disso. Vocês não imaginam quão emancipatória essa atitude é. Se eu não tenho nenhum investimento emocional numa ideia, não tenho nenhum problema se ela for rejeitada. Estar enganado é o mal menor. Tenho problemas se ela não for discutida segundo os seus próprios méritos. Tenho problemas se as pessoas se concentrarem em mim, embora as minhas motivações pessoais sejam por vezes relevantes para entender o que quero dizer. Recentemente, li no blogue de Carlos Serra uma postagem que citava uma jurista, Benvida Levy, que dizia que há muita corrupção no sistema de justiça. Carlos Serra chamou a atenção dos seus leitores para o facto de que há gente que diz que o conceito de corrupção não está claro e que, logo, a corrupção não existe. Pareceu-me estar a zombar dessa gente e eu senti-me naturalmente visado, pois tenho insistido muito na necessidade de clarificação desse e de outros conceitos. Não sei o que leva colegas que eu julgava bem abalizados metodológica e teoricamente a pensarem que a plausibilidade de uma coisa reside no número de pessoas que a repetem. Duas ou três rãs num riacho fazem um barulho infernal e se quiséssimos avaliar o número de rãs pelo nível de décibeis que elas emitem ficaríamos com a impressão de dezenas delas. Igualmente, o número de relatórios e pessoas que falam de corrupção em Moçambique não diz nada sobre a utilidade do conceito, nem, acima de tudo, sobre a sua plausibilidade. Muito mais importante do que dizer “mais alguém diz que há corrupção” seria aceitar o convite de debater as questões metodológicas que são levantadas pelos que criticam o uso inflacionário dessa palavra. Para além da insistência na ideia de que “só não vê quem não quer ver” nunca li nada dos “críticos da corrupção” a este respeito. Eu repito: tenho muito mais medo dos que pensam que falam em nome do povo e da razão, pois esses é que são os mais intolerantes; fazem mal à nossa esfera pública e se mandassem estava mal toda a gente que não pensa como eles.
A minha formação e o meu entendimento da sociologia obrigam-me a só aceitar uma coisa se ela fizer sentido, independentemente do número de pessoas que acreditam e propalam o contrário. Nos lugares onde faço pesquisa em Gaza há gente que é morta ou tem os seus haveres destruídos por causa desta mentalidade da multidão: toda a gente pensa assim, menos tu; é porque és mesmo feiticeira! É por isso que insisto que esta mentalidade analítica é fundamental. E está ao alcance de todos nós, independentemente de termos feito sociologia ou não. A sociologia entra em acção apenas para definir os critérios através dos quais podemos seleccionar os aspectos que devem ser o objecto da nossa análise. E para complicar as coisas, uma vez definidos esses critérios eles não ficam sagrados e impermeáveis à crítica. A discussão sobre a sua relevância e utilidade ajuda a ciência a crescer. Mas se os sociólogos estão ocupados a demonstrar que “nem tudo está bem”, aliás, que “tudo está mal” quem vai se ocupar disto? É grave.
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