Quem não quiser ser chamado de mandarim tem que evitar algumas coisas: fazer uso dos recursos que a sua própria língua materna lhe oferece, usar expressões em latim e citar clássicos. Isso é demagogia e para aqueles que sabem como a Frelimo revolucionária utilizou essa expressão na prática, fica clara a gravidade da situação. Essas coisas só podem ser feitas por poucos na nossa esfera pública. Esses podem usar uma expressão vernácula para baptizar a sua crónica semanal no jornal e podem citar profusamente Bourdieu, Schoppenhauer, Marx , Foucault, Simone de Beauvoir, etc. Eles sabem do que estão a falar. Não são mandarins.
Vou quebrar estas regras da não-competência no debate para trazer à vossa memória um dos percursores do tipo de cultura académica que está a tomar posse da nossa esfera pública. Peço desculpas por isso, prometo que é capaz de ser a última vez que faço isso. O grande percursor a que me refiro é Thomas Hobbes, o grande pensador inglês do século XVI. Ficou famoso, como todos que admitem tê-lo lido sabem, com a sua obra “O Leviatão” em que tentava fundamentar o Estado. Num dos seus mais famosos aforismos escrevia ele que a vida do Homem era “solitária, pobre, feia, brutal e curta”, uma descrição que não deve estar muito longe do que é a experiência de muitos moçambicanos hoje em pleno século XXI. O que deverá ter recebido menos atenção dos que leram Hobbes é a sua opinião sobre os que não viam o mundo como ele próprio o via.
Ele escreveu o seguinte: “a sua lógica, que devia ser a teoria da inferência, não consiste de mais nada senão de mesquinhices com palavras e truques com o intuito de confundir as pessoas que se atreverem a interpelá-los... não há nada absurdo que não tenha sido já dito por alguns filósofos antigos...”. Quando leio estas coisas não consigo resistir à tentação de concluir que os grandes “críticos” da nossa esfera pública não querem que mais ninguém leia os clássicos para ninguém saber de onde vêm as suas ideias brilhantes. O alvo da crítica de Hobbes era o Idealismo na filosofia e sua preocupação com a “ideia do bem”. Hobbes tinha uma resposta simples para o problema da humanidade: Nenhum desses filósofos tem autoridade para falar sobre essas coisas porque todas elas são criações dos homens. A humanidade encontra-se num estado natural todo ele dominado pela necessidade. É a necessidade que estrutura tudo o resto.
Segundo Hobbes, a necessidade rege-se pelo princípio do poder. Toda a gente quer o poder. Daí que haja três fontes principais de conflitos nas sociedades humanas: a concorrência, a desconfiança e a fama. Estas três fontes são interessantes para percebermos a qualidade do debate na nossa esfera pública. Os que são motivados pela concorrência querem dominar os outros para seu próprio proveito. Em moçambiquês: o governo. Os que desconfiam querem se defender dos primeiros. Em moçambiquês: os “críticos” sociais. Os que querem a fama são uns pavões. Em moçambiquês: mandarins, fogosos, soluções-aspirina, etc. Toda a semelhança com os hábitos de argumentação de alguns blogues moçambicanos é pura coincidência. A solução para tudo isto – é preciso passar à acção! – é o Leviatão, esta serpente mítica que vai trazer a ordem ao mundo, isto é o Estado da igualidade social.
E é aqui onde se notam as credenciais democráticas duvidosas dos “críticos”. O problema de Moçambique não é de que o governo não seja autoritário e arbitrário. O problema é de o ser para causas erradas. Tinha que ser em nome das ideias que os “críticos” defendem. Aí não haveria problemas. Tal e qual Hobbes. Os “críticos” querem um Leviatão muito especial que vai submeter toda a gente à sua disciplina e à sua ordem. Daí os assomos de intolerância e a impaciência para com aqueles que preferem pensar por si próprios. Daí também o frenesim com que é festejada mais uma crítica e mais uma redundância. E daí também que se procure sempre projectar a imagem de que dizer algo que se supõe não ser do agrado do governo é um acto de suprema coragem que põe em perigo a pessoa que teve a ousadia. Este pessoal não procura a verdade no sentido em que outros académicos a procuram (e não a encontram). Este pessoal produz a verdade através da repetição de conclusões previsíveis - é culpa do sistema - e da convicção com que fala ou escreve. Nós os mandarins somos do partido da verdade; os “críticos” são a verdade. Já ouvi Marcelino dos Santos a falar assim num outro contexto.
Eis, então, uma chamada de atenção: a vida do moçambicano pode ser solitária, pobre, feia, brutal e curta, mas tudo isso é por causa dos que, segundo Hobbes, querem ficar senhores dos homens, suas mulheres, filhos e gado? E a única solução é a resistência partindo do princípio de que é cada qual por si e Deus só para os que não são nem da direita, nem da esquerda? Não nos interessa saber como os que nos exortam a ver o nosso mundo dessa maneira chegaram eles próprios a essas conclusões? Basta confiar nas suas boas intenções?
Se não tivesse prometido não voltar a citar mais um pensador clássico havia de fazer recurso a Kant e sua famosa exortação para termos a ousadia do conhecimento. Essa ousadia é que faz de nós verdadeiros cidadãos, cidadãos com maturidade. No tempo colonial introduziu-se a distinção entre indígena e assimilado justamente para distinguir, de entre outras coisas, o cidadão do não-cidadão. Espero que os que dão ouvidos à visão hobbesiana do mundo pensem nisso também, se se atreverem, é claro.
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