A sequência argumentativa
O texto em análise pode ser lido (e baixado) aqui. Vão reparar que está um pouco colorido. O que está em relevo vermelho são as passagens do texto que marcam a sequência argumentativa. Isso vai me ocupar nesta postagem. Na postagem seguinte vai me ocupar o que está em relevo verde, isto é as passagens do texto que marcam a selecção do vocabulário. A sequência argumentativa é uma ideia que me ocorreu para contextualizar o momento dentro do qual a fala reproduz as estruturas de contraste. É isto que interessa explorar no desenvolvimento da mentalidade analítica. Que tipo de estruturas de contraste se produzem à medida que se vai falando? Espero ser capaz de mostrar quão interessante esta abordagem pode ser.
A sequência argumentativa desta “carta aberta” tem cinco fases, em minha opinião. Juntas, essas fases reproduzem aspectos importantes da nossa sociedade. A primeira fase é de auto-identificação dos autores (ou autoras) da “carta aberta”. “Nós somos mulheres, dirigimo-nos a si, que é mulher, que partilha da nossa sensibilidade e porque tem assumido de forma corajosa a defesa dos nossos interesses”. Isto está na página 1. Isto sugere conversa de mulher para mulher. A sugestão aqui, evidentemente, é de que a possibilidade de compreensão é muito maior e que, por isso, vale à pena encetar este diálogo. Podíamos perguntar, por exemplo, porque dadas estas condições, essas mulheres não se encontram num café qualquer ou mesmo no gabinete da sua companheira no género para este bate-papo. Podíamos. Mas não é fundamental. O importante é esta sugestão de que esta conversa é restricta, ainda que outros a possam acompanhar. Interessante. Mas ligado a este momento há um segundo. Este consiste na autorização da fala destas “mulheres”. “Estamos cansadas de sermos consideradas únicas e exclusivas culpadas pelos males que assolam a moral do mundo”. Isto é forte e obriga a Ministra a decidir de que lado vai querer ficar. Se és mulher como nós não vais aceitar que um homem aí te responsabilize pelos males do mundo. Se és mulher como nós. És? Isto é forte, sobretudo quando atendermos ao facto de que no final desta fase faz-se referência ao espírito “tolerante” da Frelimo. As coisas aqui já são mesmo sérias. Quem lança culpas às mulheres está a violar este espírito da Frelimo.
O terceiro momento é o caso propriamente dito, ou para ser fiel ao texto, as “ofensas”. Vejo cinco padrões. O primeiro padrão chama a atenção do leitor (ou da Ministra ou do Presidente) para o facto de que o indivíduo em questão não vê o mundo como todos nós o vemos. Está sozinho nessa visão. E pior, este é o segundo padrão, não se trata de erro de percepção, lapso ou descuido. Ele é assim mesmo, asseveram as “mulheres”. “Parece um lapso. Não é. Essa é a forma discriminadora e ofensiva com (sic) que ele pensa”. Isto está na página 2. Se fosse um lapso ainda se desculpava, mas não é. O tipo é assim mesmo. O lapso todos nós entendemos. Agora, ser assim tão descriminador e ofensivo, isso não! E continuam com o terceiro padrão que coloca o indivíduo fora da nossa comunidade cultural e moral. É divisionista “sugerindo a categorização dos moçambicanos em função de critérios de “genuinidade” fundamentados na raça, origem e cor da pele” e falta respeito aos defuntos “interferiu abusivamente no respeito devido aos mortos, estranhamente aflito pelo carinho dispensado a um dos mais nobres cidadãos da nossa pátria”. Está visto que este indivíduo não pode ser um moçambicano “genuino”. Moçambicano genuino não é nem divisionista, nem falta respeito aos mortos. Que sacrilégio! Quarto padrão: não sabe escolher as suas palavras, usa linguagem imprópria em mais um atentado à cultura moçambicana: “Faz uso frequente de linguagem menos própria, muito pouco de acordo com os padrões culturais moçambicanos”. Finalmente, o quinto padrão é do pelouro da qualidade de participação no debate público. Este indivíduo não apresenta ideias como todos nós; ele insulta, simplesmente: “Em lugar de ideias, ele esgrime insultos”. Reparem também que a questão não é apenas de tentar argumentar com insultos; ele utiliza insultos como armas. Ele “esgrime” insultos como alguém que esgrime uma espada. É grave. O que estes cinco padrões fazem é isolar o indivíduo da comunidade moral a que o grupo de mulheres subscritoras do texto pertence, juntamente com a Ministra, e, sobretudo, juntamente com o resto do povo moçambicano leitor. Assim, somos também incluidos quando se escreve “Assim mesmo, caros leitores, assim mesmo, sem tirar nem pôr, como se ele estivesse na taverna ou na taberna” em referência ao memorável adágio do indivíduo em questão “peido com peido se paga”. Que avô! Esse tipo não é dos nossos.
Continuo com as fases da sequência argumentativa. A quarta fase é a da exclusão. Muito subtil. Aqui utiliza-se a Ministra para falar ao Presidente da República sem lhe dirigir a palavra. E a situação é colocada de forma drástica. Ou as mulheres subscritoras não estão a ver bem as coisas – melhor ainda: não estão bem de cabeça – ou, então, é o próprio Presidente. Pelo menos será ele se não reconhecer que não devia estar em posse de todos os elementos quando tomou a decisão que tomou. Qualquer que seja a explicação, a fala aqui impõe um posicionamento claro. Quem está de fora? Ele, o indivíduo, ou nós, as mulheres, a Ministra, o Presidente, e os leitores? Está visto que só pode ser o indivíduo, e seu avô, é claro. Finalmente, a quinta fase é a modéstia nobre. “Somos um pequeno grupo de mulheres moçambicanas e representamos apenas um ponto de vista. Mas esse ponto de vista, estamos certos, traduz a mágoa de centenas de milhares de mulheres”. Um pequeno grupo, ainda por cima de mulheres, mas que representa a maioria moral. Isso é imbatível. Podemos ser poucas, mas estamos do lado da razão. E a Ministra? E o Presidente? E o leitor? Vão nos deixar ocupar este espaço moral sozinhas?
E é apreciando este tipo de fala que fico curioso. Que país é este o nosso onde gente que faz questão de se identificar profundamente com o partido no governo – fala, por exemplo, dos “ensinamentos” da Frelimo – opta por publicar uma “carta aberta” e não utiliza os canais privilegiados que todos nós pensamos que o pessoal da Frelimo tem? É sinal de quê esta atitude? Essa Frelimo existe mesmo? A ideia de que é possível falar livremente nesse partido é correcta? Que país é este o nosso onde no seio dos governantes ainda não há consenso sobre valores? Como é possível que um governante desça tão baixo com atentados à moral pública, à nossa cultura e ao desiderato de uma sociedade democrática sem que isso tire o sono a quem de direito? Em que circunstâncias é que um indivíduo se pode permitir este tipo de comportamento? Que país é este o nosso? Como são possíveis essas coisas? Somos mesmo uma sociedade? O que é que esta “carta aberta” está a documentar?
Na próxima postagem, conforme anunciado, debruço-me sobre a organização da fala. Por agora deixo para vossa reflexão o seguinte reparo: tentar perceber significa resistir à tentação de sentenciar, “pois é, que esperar desses corruptos!” ou “pois é, lá estão de novo os inimigos do povo!”. O mundo é muito mais complexo do que as nossas fórmulas simples. Quem não se quer submeter a este exercício doloroso de pensar para além das suas categorias simples não escolheu bem a sua vocação nesta área. Está perdida(o).
27 comentários:
Interessante a abordagem que faz da carta. Eu podia questionar porquê as escritoras não se identificam? São mesmo mulheres que a escreveram? Não é isso uma denúncia? Quem define os critérios de moralidade na nossa sociedade? Porquê parece existir verdugos intelectuais que condenam todo o discurso que vai contra o seu? Que impacto é que uma carta dessas pode ter no seio da nossa sociedade? Me parece irónico que a carta seja dirigida à ministra e não ao presidente que nomeou o Kandiane.
Há uma expressão que me parece problemática, mas muito mesmo "Faz uso frequente de linguagem menos própria, muito pouco de acordo com os padrões culturais moçambicanos." O que quer dizer isso? quais são os padrões culturais moçambicanos? Uma coisa que o Kandiyane faz é dizer-se abertamente contra a homosexualidade (não vejo nada contra isso - o homem tem direito de se exprimir), se aceitarmos que muitos moçambicanos teriam dificuldades em definir catologar a homosexualidade como parte da cultura moçambicana, a expressão não virá contra-senso?
caro bayano, isso mesmo! perguntas e mais perguntas. há tantas pistas que nos são dadas nesta carta para percebermos melhor o nosso país. tu levantas a questão do que é um padrão cultural moçambicano. isso mesmo! a carta permite-nos colocar essa pergunta e seguir as suas implicações. não creio que seja necessário, neste momento, discutir com a carta se tem razão ou não, se é procedimento correcto ou não; o que me parece importante, e este é o meu objectivo nesta série, é mostrar que na pressa de sentenciarmos perdemos a oportunidade de aprender a apreciar melhor o nosso país. é claro que há gente com opinião já formada e que só está à espera de a confirmar.
não sei se se trata de denúncia ou se isso é importante. há um problema sério e bem fundamentado que está a ser levantado pela carta aberta e sem nenhuma pretensão de se apresentar como grande crítica social. isso não me incomoda. incomodar-me-ia que viesse alguém pegar nesta carta aberta e apresentá-la como documento de tudo quanto não anda bem na nossa sociedade e ficar por aí. vamos pensar!
vamos mesmo. é interessante que esta carta parece também conter algo que parece ser sintomático da nossa sociedade. repare como as críticas, pseudo-críticas e desabafos não são direccionados à quem é o alvo (quando é o governo), mas sim ao elo mais fraco - tenho observado este fenómeno. agora, da carta dá para se pensar no processo de socialização político moçambicano e questionar se a qualidade de debate na nossa esfera pública não é condicionada por esse mesmo processo?
vamos pensando!
penso, efectivamente, que a qualidade da nossa esfera pública é condicionada pela nossa cultura política. só que eu não vejo isso como uma resposta, mas sim como uma pergunta que ainda precisa de ser bem formulada para ser respondida. a análise da estrutura da fala desta carta aberta permite-nos já começarmos a colocar essas perguntas tão importantes. perguntas são importantes e podem, de facto, satisfazer a curiosidade.
“A ideia de que é possível falar livremente nesse partido é correcta?” Eu, pergunto a ideia de que é possivel falar livremente nesse pais (Moçambique) é correcta? Porque sera que as Senhoras nao assinaram a carta? Sera por medo? Sera por cobardia, ou sera por insegurança? Porque nao se exprimem livremente na esfera publica?
porque as mulheres têm que se dirigir apenas às mulheres? As mulheres ocupam postos publicos para servir apenas às mulheres? Nao sera essa posiçao paradoxal, justamente, numa época em que nós mulheres nos batemos pela igualdade de direitos?
Porque sera que o Senhor, Professor, faz da critica um apanagio da sociologia e dos sociologos? Os outros cidadaos nao têm capacidade de ajuizar? Porque é que o sociologo critica ( ainda que os seus propositos sejam por vezes “juizos” prenhes duma subtil “maledicencia”) e os outros “comunicam os seus desgostos”?
Qual é a diferença entre a critica e o desabafo? Um deabafo sera a capacidade de um cidadao ajuizar, choramingando? Um desabafo pressupoe emoçao, a critica pressupoe razao, sera isto?
Fala de “desabafo”, “denuncia”, sem nunca os defenir?! O que os diferencia? O facto de uns dormirem com os manuais de metodologia da sociologia? So os sociologos estao habilitados a emitir julgamentos, os outros choramingam, desafogando, assim os males que lhe tolhem a alma?
O problema estará verdadeiramente, entre a critica, o desabafo e a denuncia ou na falta de dialogo entre os sociologos? O problema esta no descontentamento do cidadadao comum, ou na incapacidade dos sociologos encontrarem uma plataforma de entendimento, onde possam confrontar os seus pontos de vista, antagonicos sejam eles, e produzir “critica social” capaz de formar e informar os cidadaos ?
Sao os sociologos capazes de discutir entre eles, falar, refectir, duvidar, estruturar ideias, desestruturar ideias, trocar ideias... afim de produzir discuros, produzir ideias...para tentar, pelo menos, compreender as mutaçoes, inerentes, aos nossos paises em construçao?
Que perguntas pertinentes?
A Yolanda acaba de me tirar da boca todas as perguntas que eu e Bayano fizemos ontem à noite em minha casa. E fomos mais longe chegando mesmo a acusar o Prof Macamo e sua seita de promoverem a intolerância acadêmica. Para não partilhar problemas, quem acusou fui eu. E explico-me de seguida:
1. Do Princípio de Caridade que falta em Macamo e sua seita sociológica.
-Aprendi dele, que antes de tudo, um bom crítico precisa de proceder a esse princípio, que consiste em compreender as falas de alguém pela atribuição às mesmas da melhor interpretação possível, de modo a prevennir-se de falácias ou irracionalidades quaisquer que sejam. Em poucas palavras, diria que o crítico deve, antes de tudo, maximizar a verdade ou a racionalidade dos ditos do criticado.
Não vejo, nem em Macamo, nem em seus discípulos essa tentativa. Foi aquando da leitura do ‘AZAGAIA’ e da recente crítica ao jurista Custódio Duma que pude confirmar essa intolerância. Estou a desabafar, sim. Os meus receios por essa seita de sociólogos agudizaram quando recentemente Macamo criou um binómio Critica/Desabafo, REDUZINDO assim todas as formas de intervenção à essa simplicidade. Quer dizer, em Moçambique ou é Macamo e sua seita que criticam, contribuindo assim para a melhoria da qualidade do debate na esfera pública, ou são todos o resto desabafadores contribuindo assim para a perpetuação da pobreza (será que quando Macamo et al interpelam é no sentido de que o desabafo perpetua a pobreza?) no país. Por outras palavras, se quisermos ser críticos no bom sentido da palavra, deveremos seguir as peugadas da seita sociológica de Macamo e aprendermos a ler o mundo através do seu código de leitura da realidade. Se quisermos continuar desabafadores, então, continuemos como estamos!
Macamo e sua seita (insisto na palavra seita para mostrar a religiosidade de Macamo em relação às suas crenças sociológicas) não acreditam noutras verdades a não ser àquelas que estão de acordo com a sua.
As perguntas da Yolanda Aguiar vêm por a nú algumas das insuficiências desse comportamento – vide que me refiro ao comportamento e não necessariamente à sua metodologia.
Seria interessante que a seita sociológica de Macamo estudasse todos os desabafadores, usando a sua metodologia em vez de ridicularizá-los.
Se calhar, prestaria melhor (o que significa mais que BOM) serviço à sociologia que tanto acarinha. Seria interessante, por exemplo, questionar porque os sociólogos, historiadores, juristas, jornalistas, em Moçambique, preferem o desabafo, a denúncia à crítica? Seria interessante que a seita de Macamo começasse a perguntar-se porque é tão difícil fazer-se uma crítica social em Moçambique? Boaventura de Sousa Santos já o fez em 1987 em Portugal.
Seria útil à seita de Macamo que pensasse em reflectir sobre as condições para uma crítica social producente; uma crítica que não fique pela crítica, mas que vai para além dela. Uma crítica superadora, como diria Emir Sader. O que a seita sociológica de Macamo faz não passa de uma crítica pela crítica. Uma crítica pura e simples, que não remete a prática. Uma crítica que se resigna a uma visão externa do objecto analisado.
Uma crítica sem a prática superadora correspondente leva à inacção, ao pessimismo, à desmobilização e, no limite, à desmoralização. E isto é bastante mau tanto para a sociologia como para o país.
2. Da intolerância académica travestida em rigor académico
Nos dias que correm, as ciências sociais atravessam momentos de transformação muito impressionantes. Os paradigmas que nortearam a sua prática têem vindo a serem postas em causa, seja pela experiência empírica vividas no dia-a-dia dos povos do Mundo, seja pela emergência de novas formas, novas maneiras de fazer as ciências sociais. A guerra entre os paradigmas dominantes e do emergente é aqui evidente.
A seita sociológica de Macamo, tende a ser mais intolerante. Estes pertencem ao grupo que está habituado a fazer a ciência social à moda antiga/morna (europeia); uma ciência social ‘pura’, livre de preconceito e de juízo de valor; uma ciência social pasteurizada; uma sociologia atómica, insensível
A outra forma de fazer ciência social está a emergir e a ganhar campo, entrando em conflicto com os desígnios defendidos pela seita sociológica Macamiana. Em Portugal, Brasil Moçambique e o resto dos PALOP; na América latina, França, estão a surgir novas formas de fazer a ciência social. Novas práticas; nova praxiologia. A característica fundamental do novo paradigma é o reconhecimento igualitário de outras formas de racionalidade. E em Moçambique, pode ser representado por Carlos Serra, Maria Teresa Cruz e Silva, José Negrão (falecido) João Paulo Borges Coelho, Fernando Dava, Benigna Zimba, Rafael da Conceição, e a sua seita.
Interessante nisto é que entre as duas seitas, não se debatem ideias. Principalmente pela intolerância académica que caracteriza o primeiro grupo. Mais um desabafo. Mas está ai a evidência.
Conclusão
Já vou longo.
Fico por dizer que apesar de tudo o que disse, o trabalho de Elísio Macamo é deveras importante para nós, jovens que estamos no início das nossas carreiras. E tenho muito a dever às análises deste grande homem.
Todavia, ele ignora bastantes vezes duas coisas principais:
a) Que a sua competência linguística é de longe a melhor da maioria dos que interpela. Pelo que se afigura pertinente proceder ao princípio de caridade
b) QUE para além da SUA verdade e metodologia, existem muito mais outras que merecem atenção.
Há também mais dois aspectos a salientar:
Em todas as intervenções do Prof Macamo e sua seita, pareceu-nos ter usado o princípio em inglês descrito como ONE SIZE FITS ALL. Como quem diz uma medida para todas as idades (realidades ou análises no sentido em que queremos). A estrutura da argumentação, o uso da linguagem, semiótica, etc.
Por último está sempre presente a ideia de que as suas análises por esta Seia feitas são o clímax do que uma crítica pudesse parecer. Isto constitui uma pura arrogância académica. É triste.
Abraços de Maputo.
cara iolanda, tu colocas as perguntas que também estou a tentar colocar. também acho estranho que as mulheres façam uma "carta aberta" ou que falem de "mulher para mulher". acharia também estranho se fizessem o contrário. tudo quanto estou a tentar dizer é que nenhuma dessas constatações é ainda uma resposta do ponto de vista da mentalidade analítica que penso ser essencial ao fomento do nosso país. mas é colocando esse tipo de perguntas que somos (ou devíamos ser obrigados) a pensar para além do primeiro palpite que nos vem à cabeça. penso que isso é importante. tentei mostrar nesta série algumas coisas simples que podemos fazer para escapar à tirania dos primeiros palpites sem, contudo, querer dizer que toda a gente deve abandonar esses palpites.
aí entra a segunda questão que é também levantada pelo egídio. pensei que tivesse tornado claro neste e noutros textos que não reservo à sociologia, muito menos à da minha seita, a prerrogativa da crítica social. penso, contudo, que prestamos um mau serviço à nossa própria formação se persistimos na ideia de que uma vez que o sociólogo não tem nenhuma prerrogativa tudo quanto se diz na esfera pública é igual. não creio. dizer que o governo é corrupto e não se interessa pelos problemas do povo é uma coisa; dizer que o governo é corrupto e não se interessa pelos problemas do povo porque é corrupto e não se interessa pelos problemas do povo é a mesma coisa; dizer que o governo é corrupto e não se interessa pelos problemas do povo porque toda a gente sabe que é assim continua a ser a mesma coisa: desabafo e denúncia. procurar saber porque é assim, que condições tornam essa percepção e essas práticas possíveis é outra; discutir os critérios que devem orientar a reflexão sobre essas percepções e essas práticas é também outra e imperiosa. é isso que distingue o sociólogo, mas ao mesmo tempo ninguém está proibido de adoptar essa atitude.
por estas razões não percebo o teu desabafo, caro egídio. longe de mim limitar o direito de intervenção de seja quem for; antes pelo contrário, quando interpelo os outros chamando a sua atenção para inconsistências no seu pensamento e nas suas análises não estou a dizer que se deviam calar; estou a dizer que deviam pensar melhor e se acham que pensam melhor, então, deviam mostrar porque a minha interpelação é incorrecta. eu estou a reagir à intolerância daqueles que pensam que falar mal é fazer crítica social, pois esses ao invés de aceitarem o desafio da discussão preferem atribuir-me más intenções (bajulador, arrogante, não se interessa pela sorte do povo, etc.). penso que os desafios que o nosso país enfrenta exigem um maior compromisso com a atitude científica e com uma crítica honesta e íntegra. isto pressupõe, pela parte que me toca, um interesse especial pelas questões metodológicas. e maior integridade profissional da parte dos académicos. tenho tentado fazer a minha parte e, sobretudo, tentado transmitir aos que ainda conseguem resistir às fórmulas simples a esperança que, apesar de tudo, a crítica social representa para o país. a minha seita é muito exigente, egídio, e isso parece arrogância. parece, mas não é.
egidio, aguiar, macamo e bayano! uff, estava pensando como formular algumas destas coisas aqui ditas. o custodia duma, faz tambem uma pequena reflexao sobre a sociologia e outras ciencias, o direito em particular. porque tambem sentiu esta vontade da sociologia produzida em alguns blogs invadir e ditar regras sobre como devemos formular problemas, que sem nenhuma formulacao positiva, passaram a ser rotulados de desabafo ou critica social.a formulacao do desabafo e da critica social parece um objectivo religioso no estudo de problemas mal formulados da seita do macamo, que nao conheco-a toda, mas tambem pude ver isso na ex-ufics-UEM, tive bastante colegas sociologos e estudante de sociologia na UEM, e nao havia a melhor maneira de perceber o exercicio sociologico de alguns sociologos a nao ser uma arrogancia linchadora sobre todo o pensamento produzido fora da praxiologia da sociologia.
como diz o egidio, macamo produziu muitas influencias na maneira como nos hoje aprendemos da sociologia, aumentou em qualidade o nosso rigor analitico no estudo dos problemas mal formulados na nossa sociedade. Mas parece que nao percebeu o sentido instrumental da funcao como estudioso da sociedade e como`" educador" da palavra.
agora ha varias escolas e grupos na UEM. como existem em muitas outras universidades no mundo. so que a unica forma delas serem uteis na producao do pensamento critico, no verdadeiro sentido, elas tem de dialogar, tem que sair para espacos publicos, ai reconheco o papel brilhante que macamo, patricio, serra, e outros blogistas prestam a esfera publica.
"a minha seita é muito exigente, egídio, e isso parece arrogância. parece, mas não é".
O prof reconhece. Parabéns e um abraço.
Foi bom ouvi-lo reagindo à minha crítica (desabafo, diria o Prof).
caro egídio, estou no intervalo de uma reunião, por isso só um pequeno aviso que hei-de voltar mais logo para te responder. acho estranho que estejas satisfeito com o facto de eu te ter respondido. porque não havia de fazê-lo? porque criei este blogue? para emitir certezas e fugir ao debate? a tua reacção bem como a do chapa100 ("arrogância linchadora") preocupa-me bastante. acho-as de uma agressividade muito estranha que me faz pensar que ainda não consegui transmitir a minha preocupação central e que mesmo se o fizesse vocês não estariam interessados em entrar nesse tipo de discussão. acho isto muito estranho, mas sintomático da nossa esfera pública, infelizmente. até logo!
Desde os tempos de formação, tive oportunidade de ter debates acérrimos com colegas da Ex-UFICS. Pareciam saber tudo, economia, direito, linguistica, etc.Olha, esta é uma característica típica nos sociólogos. Os conteúdos não são tão impostantes, importa a coerência e consistência como são apresentados os argumentos. Duvidam sempre. Submetem tudo quando se diz, ao teste da consistência. Estão sempre a questionar, se não, vejamos o título do blog, “Ideias Critícas”. Não se satisfazem facilmente, porque acreditam que as respostas que dámos, são apenas aproximações à verdade. E que, é sempre possível melhorar. Quando se alcançam consensos, ficam preocupados. Há problemas no debate. Nunca vão entoar o hino da maioria.Estão sempre do lado contrário. Esta postura pode até parecer arrogante, mas se é desempenhada com honestidade, idoneidade e integridade como acredito que faz Macamo, é um grande contributo para o debate e para todos nós. Não estou a defender Macamo. Ele nem precisa de mim para o efeito. Tento apenas percebê-lo, fazendo conjecturas. Porquê Macamo é assim? O que faz Macamo agir desta forma? O que pretende? Porquê parece ser sempre do contra? Quando leio o professor Macamo, denoto uma forte formação filósófica, essencialmente epistemólogica, pouco comum entre nós. O conhecimento não é fácil. Macamo presta um grande serviço à esfera pública. As suas provocações são uma provocação para o debate; fazem-nos superar os limites, aliás, como todos aqui reconheceram. Macamo desempenha o papel da “lebre” no atletismo, permite aos favoritos, bater ou melhorarem recordes. Pessoalmente, tenho dificuldades em catalogar Macamo. Mas sinto, que quanto mais se estuda, o método subrepõem-se às conclusões. O processo torna-se mais importante que as conclusões. Podemos até chicoteá-lo, mas em bono da verdade, vale sempre a pena ter um homem como este ao nosso lado.
Josué Muchanga
professor! por isso tambem fiquei preocupado com rumo que as boas practicas no debate de ideias tava a tomar em alguma blogsfera. importa referir, algumas destas nossas reacoes sao uma manifestacao propria de quem ve as suas certezas questionadas, mas e isso que faz o nosso debate producente. a arrogancia linchadora para mim foi traumatizante, no contacto com alguns colegas sociologos da UEM, e quando vejo alguns indicios desse passado, nos textos do professor, fico pensando que a ciencia social esta perdendo a sua oportunidade de partilhar os espacos de discussao com outros conhecimentos. mas tambem sempre tive bem presente que alguns blogs ja tinham identificado o seu perfil de analise:sociologia, direito, imprensa, etc. e por isso a analise feita nestes blogs recorre a instrumentos da formacao academica e ocupacao professional dos blogistas. um exercicio de louvar na promocao de responsabilidades intelectuais que nossas profissoes ou educacao tem sobre a sociedade.
mas tambem estamos em presenca de uma cultura nova de exercer o intelectualismo, e isso elisio tu deste um grande impulso, aprecio muito o teu rigor etico, que faltava no nosso espaco de debate. e aprendemos que recorrendo ao rigor etico da nossa ciencia ou profissao podemos promover e distruir este mito que temos sempre que tomar posicoes, do contra ou a favor.
e nao acho elisio que eu nao poderia estar interessado em entrar neste tipo de discussoes contigo, sobre a ideia que pretendes transmitir. esta interpelacao nossa, faz parte desse processo entradas e saidas dos espacos de discussao. e com muita razao falas da nossa agressividade, "o desabafo ruidoso", ai entra a questao da nossa cultura acustica na linguagem. poderei desenvolver este tema no blog.a agressividade nao e intencional, talvez porque sabemos que nunca envolves o teu lado emocianal na analise que fazes da sociedade.
Eu também hei-de voltar Prof.
Sim, fico satisfeito porque poucas foram as vezes em que o Professor respondeu aos que visarama o seu discurso; seu pensamento.
Quando eu blogava, poucas foram as vezes. lembro-me que da última vez foi quando reagi muito violentamente a eleiçãos dos actuais tractores da CNE. O Professor quis questionar tanto a minha reacção violenta como a previsão que fazia. Eu expliquei bastantes vezes mas não o convenci. Hoje estou numa boa, a assistir rindo, e feliz. Porque tudo o que antevia está a realizar-se. Não foi por acaso que Chapa 100 chamou-me de curandeiro+qualquer coisa.
Professor, estamos juntos.
Abraços.
egidio! tens ALGUMA razao. mas acho que o professor nessa altura questionava os instrumentos usados para tu chegares as tuas premissas, entao nao questionava a verdade da tua conclusao. e como pude perceber as interpelacoes do elisio e dos outros ajudaram muito para aperfeicoares os teus instrumentos de analise sobre o papel e futuro da CNE. Agora precisamos ter cuidado, o nosso debate, ou o exercicio de interpelacao publica, nao pode ser para somar pontos ou vitorias. e porque nao derrotas. se nao caminhamos para o risco de perder o rigor etico, e aquilo que torna nossos instrumentos de analise validos: estudamos e analisamos factos, podemos produzir juizo de valores, mas nao e esse o fim. e muitos usaram o teu blog para apeifeicoar os seus intrumentos de analise e sua participacao nos espacos do debate publico. e isso egidio, apoiaste na qualidade do debate politico, social e economico na nossa sociedade.
eu na altura chamei-te de curandeiro da modernidade. continuo chamando, acho que entre tu e os "bem amados" advinhos e curandeiros publicitados no jornal noticia, tu sais a ganhar.
cá estou, então, para reagir ao egídio e ao chapa100 na esperança de que possamos continuar com o debate para o bem de todos nós. acho interessante que esta discussão esteja a ocorrer nesta postagem e não na que se debruça especificamente sobre estas questões. sintomático porque aqui é onde tento mostrar que não há magia nas conclusões que tiramos, que elas são sempre resultado de método e que, por isso, o interesse pelo método é, para nós que participamos nestas coisas como académicos, importante. não vejo nenhuma discussão sobre as sugestões metodológicas que faço - se são plausíveis, fazem sentido, não prestam, são perca de tempo, etc. - não, só vejo a tentativa de defender a santidade das conclusões para tornar o debate público algo mistificador, intransparente e inacessível.
a iolanda aguiar levantou uma questão interessante no seu comentário. perguntou se não estaremos perante o problema da falta de entendimento entre os sociólogos sobre como abordar o nosso mundo. concordo com ela, embora com isso não esteja a dizer que o consenso metodológico entre os sociólogos seja a precondição do debate. nem creio que seja isso o que ela está a sugerir.
caro egídio, acho que há alguns equívocos nos seus comentários. primeiro, para pegar no último comentário, não sei quando é que me recusei a reagir às interpelações que me foram feitas. peço-te que me dês um exemplo concreto, pois a minha impressão é de que tenho respondido a tudo que me é dirigido neste blogue e nas discussões em que tenho participado noutros blogues. também não sei se estás a querer mesmo sugerir que um vaticínio, independentemente do método que o produziu, confirma-se simplesmente por ocorrer. se bem me lembro da discussão que tivemos a minha preocupação nunca foi de dizer que não poderia jamais acontecer o que vaticinavas, mas sim contestava as razões que proporcionavas. vaticinar qualquer um pode e, por acaso, quase todos nós fazemos isso. contudo, esquecemo-nos convenientemente dos vaticínios que não se confirmam. portanto, estás a insistir justamente no que eu considero nocivo à saúde da nossa esfera pública. estás a insistir nas conclusões, quando eu estou a dizer que as premissas e a base de inferência que usamos são mais importantes. podes não aceitar isso, mas não seria por isso que eu exigiria o teu silêncio. só que reservaria o direito de não considerar isso análise ou crítica social.
segundo, em nenhum momento afirmei que só a sociologia pode criticar. o que tenho dito é que a sociologia tem um papel importante a desempenhar na reflexão sobre os critérios dessa crítica. são coisas diferentes. por acaso já ouvi pessoas a dizerem isto em maputo, nomeadamente que eu tenho a ideia de que só a sociologia é que é ciência e pode dizer coisa com coisa. tenho aprendido muito das reflexões que o ilídio, o júlio e o stayleir têm feito na sua perspectiva jurídica, tenho aprendido muito das reflexões do eugénio na sua perspectiva económica, tenho aprendido muito das reflexões do bayano quando se debruça sobre a questão da comunicação. e o que tenho aprendido não é fazer direito, economia ou comunicação, mas sim os critérios que eles, nas suas disciplinas, usam para abordar um assunto. quando os tenho desafiado tem sido a esse nível de perceber como eles chegaram às conclusões a que chegaram, reservando-me, naturalmente, o direito, que também eles têm, de discordar. mas o que torna o entendimento possível não é o conhecimento técnico, mas sim este campo comum metodológico sobre o qual a sociologia não detém nenhum monopólio. é essa convicção que, aliás, me encoraja a insistir sobre esses pontos para que mais pessoas abordem o país desta forma responsável e crítica. (chapa100, o texto do jurista dumas que comentei na outra postagem não representa em minha opinião a maneira jurídica de pensar. é um texto mau por razões que indiquei e que posso elaborar se quiseres; mas conforme escrevi no meu comentário, não me preocupa muito o facto de o jovem o ter escrito; preocupa-me o facto de um colega sociólogo de grande mérito querer fazer passar um texto tão problemático como aquele como crítica social; não é pelas razões que estou sempre a repetir aqui e sobre as quais gostaria que houvesse discussão; até aqui ainda não começamos a fazer essa discussão; só estamos apenas a chamar uns aos outros de arrogantes).
terceiro, esta questão de que é preciso ser prático parece-me muito estranha. o que há de mais prático em dizer que as coisas estão mal ou que é preciso acabar com a corrupção em relação a exigir uma maior reflexão sobre o conceito e avançar com ideias sobre isso conforme tenho sempre feito? por exemplo, o que há de mais prático em escrever uma carta aberta ao presidente a apelar para o fim do abate florestal e dizer, como eu o fiz aqui no blogue, que o problema está mal analisado, que a questão é bem mais profunda do que a noção de "take away chinês" sugere como eu o fiz? aqui também vejo um problema sério de entendimento do papel da crítica, isto é da confusão entre activismo e crítica social. mas repare que não estou a dizer que ninguém deva fazer nada até estar tudo claro conceitualmente, aliás, sempre tenho dito isto. o que me preocupa a mim é que académicos na pressa de serem úteis olvidem as coisas mais elementares da sua própria profissão.
quarto, eu acho que as ciências sociais têm um grande papel a desempenhar na procura do bem estar para o país; acho que elas só serão capazes de realmente contribuir para esse fim se aqueles que têm formação nessas áreas se libertarem da ideia de que falar mal de é fazer crítica social. mais importante ainda, penso que temos que prestar muita atenção aos critérios e aos métodos através dos quais chegámos às nossas conclusões. eu tenho o direito de escrever sobre isso neste blogue e reservo-me também o direito de interpelar todos aqueles que participam no debate público a esse nível. não fazer isso seria faltar a um dever patriótico. por essa razão, estou grato ao josué muchanga por chamar a nossa atenção à importância que o processo tem sobre as conclusões. o egídio pode não estar de acordo com isto, é seu direito, mas não será por isso que vou deixar de insistir nessas coisas pelo menos para o benefício daqueles que querem realmente contribuir para o fomento do nosso país.
Uau, a coisa esta seria por aqui! intervençoes interessantes. Agradeço a todos que prestaram atençao ao meu humilde comentario. um ola especial ao Egidio que anda desaparecido, da blogosfera, este ano. Bom passemos aos entretantos.
O ultimo comentario do Prof. Macamo, sugere, afinal, que, na realidade, existem dois problemas diferentes, certo, ligados, e, sem duvida, indissociaveis, mas que temos todo o interesse , penso, em distinguir, para clarificar o debate: um, é o problema , do “entendimento do papel da crítica, isto é da confusão entre activismo e crítica social” e, o outro, é, a falta de dialogo entre os sociologos, particularmente , entre Macamianos e Serranianos. Este ultimo problema, envianos, ele mesmo, a outras questoes nomedamente:
-Podemos considerar o “silencio” como o “lugar” de precondiçao para o debate? É o “silencio” um meio de promover a confrontaçoa de ideias? Pode o “silencio” levar ao consenso metodologico? Sera salutar o “consenso metodologico” para o debate de ideias? Como chegar a um hipotetico “consenso metodologico”, sem nunca se posicionar, como um sujeito capaz de dialogar?
- Sera que existe diferenciação entre “merito”, “mistificaçoa do individuo” e “exposiçao mediatica”? Serao, ainda estes três pressupostos condiçao necessaria e suficiente para se promover o “silencio” como o “lugar” de precondiçao para o debate? Questoes de razão ou de emoção?
- o que é um “socilogo de grande merito”? Sera aquele, que se fecha, na sua torre de marfim, e, que nao desce, do seu pedestal, para responder ao comum dos mortais. Sera aquele que se fecha na sua torre de marfim, nao debate com os seus pares, e, impoe, “o silencio”, como produto acabado, de uma “discussao surda e tacita”? Sera aquele que no “silencio” e pelo “silencio” constroi, digamos, a “fabrica” do “pensamento uniforme”, como se receasse ver-se so, cultivando a sua singularidade ? Sera aquele, que utiliza “os esforços honestos e integros”, quiça “imbuidos de idoneidade” do comum dos mortais em prol de uma suposta “verdade” certa e certificada?
- Qual o papel do “pensamento uniforme” nos jogos imputados à “confusão entre activismo e crítica social”? Sera o silencio percursor do “pensamento uniforme”?
o silencio pode “desmistificar o debate publico, torna-lo transparente e acessivel?
- Qual o papel do “silencio” e da “mistificaçao do individuo” no conformismo da esfera publica ou/e na construçao do cidadao, imbuido de um espirito critico e nao de um esprito de critica?
olá iolanda, obrigado por mais esta tentativa de direccionar o debate para as coisas que realmente interessam e nos deviam ocupar mais. espero que outros peguem nas tuas inquietações e as explorem ainda mais. eu estaria a repetir-me. o único que eu gostava de comentar é a oposição que fazes entre "macamianos" e "serranianos". carlos serra é uma referência muito importante para as nossas ciências sociais. o seu decálogo de um sociólogo devia ser pendurado em todos os lares moçambicanos para ajudar na formação de um verdadeiro sentido de cidadania. esta contribuição assim como as oficinas de sociologia que tem feito iniciando jovens na actividade de investigação fazem dele um sociólogo de grande mérito. ter grande mérito, contudo, confere responsabilidade a uma pessoa e aqui devo dizer que estou profundamente decepcionado com o tipo de cultura académica que ele tem promovido nos últimos tempos. inúmeras vezes tenho visto comentários indirectos, profundamente ofensivos em relação à minha pessoa - o mais recente dos quais é o rótulo "sociólogo fogoso" - que para além de promoverem o silêncio tentam criar na consciência dos mais jovens a ideia de que quando há percepções diferentes na academia é porque uns ou outros não prestam e, por isso, nem vale à pena com eles discutir. portanto, na ausência de uma cultura de debate aberta e transparente não pode haver a oposição que sugeres. quando o único que interessa é apenas tirar conclusões sem atenção à forma como se chega a essas conclusões não pode haver debate metodológico. só pode haver debate político. mas isso os políticos já estão a fazer.
apesar de tudo, eu acredito que há jovens por aí que estão genuinamente interessados em fazer crítica social e emular a mentalidade sociológica proposta por carlos serra. o autor desse decálogo pode se afastar do que ele próprio sugeriu, mas as boas ideias não morrem só porque o seu criador as abandonou. elas são boas porque são boas, não porque a pessoa que as pensou é boa. e é isto que faz falta na nossa esfera pública. discutir ideias, adoptá-las ou rejeitá-las, independentemente da pessoa que as formulou. houve pouca, senão mesmo nenhuma discussão disso. que mais dizer?
a minha esperança é que os jovens genuinamente interessados na crítica social interiorizem a ideia de que não é por magia que se chega a grandes conclusões. isso está ao alcance de toda a gente que se interesse pelo método. espero que esses jovens prestem atenção particular ao que os outros dizem no debate. recusei, por exemplo, considerar a música de azagaia como crítica social e considerei-a desabafo. tentei mostrar que condições políticas é que tornam possível o desabafo e convidei a uma reflexão sobre a nossa cultura política. portanto, ao contrário de algumas interpretações que foram feitas da minha intervenção, também responsabilizei o nosso sistema político pelo desabafo. só que independentemente do que o sistema político fizer, desabafo vai ser sempre desabafo. não vira crítica social só porque o governo não dá espaço.
é um longo e penoso caminho que temos que pecorrer para chegar lá. ontem eram alguns governantes que punham as ciências sociais em risco; hoje são os próprios cientistas sociais. ontem elevei-me contra esses governantes; hoje elevo-me contra esses cientistas sociais. elevo-me com mágoa profunda em constatar que pior do que ter um mau governo é ter maus críticos.
elisio! acho que anda aqui um equivoco: a interpelacao que egidio e eu fazemos sobre as seitas de sociologia que se criaram no espaco debate nao tem nada de um ataque pessoal como pretendes fazer crer neste ultimo post. e acho que existe uma diferenca entre fazer uma 1)critica, 2)dar licao de sociologia e 3)participar num debate.
e todas estas tres "coisas" precisam de uma capacidade argumentativa/comunicativa para fazer passar a mensagem. a capacidade argumentativa nao tem so a funcao de convencer e buscar razao ( como o patricio pretende nos conduzir), ela visa uma exposicao de pensamentos e reflexoes recorrendo a recursos lingusticos, teoricos, e estilisticos.
eu nao ainda nao me envolvi no debate sobre a critica social porque o que ate agora tenho assistido sao licoes de sociologia sobre critica social. e parece-me que a minha interpelacao peca por nao usar os metodos da sociologia para interpelar, por isso dizem que estamos a descutir questoes que nao interessam. e parece que aguiar levantou questoes muito pertinenetes que nao foram respondidas, que permitem um debate" de ideias que não esteja preso ao esquema classificatório, binário, redutor e falacioso" como bem diz patricio langa.
E podes ter certeza Elisio que carlos serra, surpreendeu-me com as suas classificacoes.
não jorge, não há equívoco da minha parte. lamento bastante. em tempos escreveste no blogue do patrício que a minha distinção entre desabafo e crítica social era simplista. não comentei porque conhecendo-te como bom bloguista que és fiquei à espera que elaborasses isso num outro momento. não o fizeste. comentaste algo parecido no teu blogue, algo que também comentei, escreveste que voltavas ao assunto e nada. na tua primeira postagem neste debate agora escreveste que há sociólogos que invadem outros blogues para ditar regras sobre como devemos formular problemas e "... que sem formulação positiva, passaram a ser rotulados de desabafo ou crítica social". portanto, primeiro, estás mesmo dentro do debate, embora não queiras assumir isso por enquanto; segundo, enquanto não fundamentares o que dizes de passagem podes muito bem ser tido como alguém que está simplesmente a fazer ataques pessoais. pessoalmente, nunca entrei em blogue de quem quer que fosse para ditar regras. e não conheço mais nenhum sociólogo que o tenha feito. quando entro num blogue dou a minha opinião ou procuro saber como a pessoa chegou à conclusão a que chegou. mesmo hoje fui ao blogue do custódio duma para lhe dizer que não há nada de pessoal nos comentários que eu fiz, tanto mais que não eram dirigidos a ele, mas sim à pessoa que queria promover o seu texto como exemplo de crítica social. o jovem tem de certeza muitas qualidades e pode, de certeza, fazer crítica social, mas o texto em questão é muito problemático e não é exemplo de reflexão jurídica. penso ser responsabilidade de um sociólogo da estatura de carlos serra dizer-lhe isso claramente para o bem do próprio jovem e da nossa esfera pública. não fazer isso é querer-lhe mal e isso é lamentável, pois o custódio duma é um jovem com muito potencial. segundo, o texto em que critico a rotulação de azagaia como crítica social contém uma formulação positiva que reproduzi quase por inteiro no post sobre desabafo e denúncia. sobre essa formulação, que não era lição de sociologia, mas era decididamente crítica e participação no debate, ainda não li nem a tua reacção, nem a de mais ninguém. eu faço recurso a quase todos os recursos estílisticos que a língua nos proporciona para colocar os meus argmentos, mas não faço depender a plausibilidade dos meus argumentos desses recursos. não sei se é isso que queres dizer quando constatas que eu ainda "não percebi o sentido instrumental da função como o estudioso da sociedade e como "educador" da palavra". não sei se é essa a interpretação que devo fazer porque tu entras no debate, lanças essas ideias, depois sais sem as ter fundamentado e dizes que ainda não estás a participar no debate. eu acho que tens que te decidir como queres ser entendido. e o mais seguro é dizeres o que pensas e fundamentares para podermos discutir melhor.
a minha admiração por muitos de vocês é enorme, pois vocês são o melhor exemplo daquilo que o nosso país é capaz de produzir, apesar de todos os problemas que temos. acho que todos nós podemos contribuir mais e melhor para o bem estar no nosso país se nos identificarmos mais fortemente com a nossa própria formação e, sobretudo, se abandonarmos o expediente do relativismo para evitarmos que as nossas convicções sejam abaladas. durante muito tempo bati-me, através da reflexão sociológica, por um maior protagonismo académico na esfera pública. vi muitos outros colegas a fazerem o mesmo, incluindo o próprio carlos serra. fico aterrado quando vejo as sementes lançadas ao solo por vários colegas no país por uma cultura académica mais responsável a serem espezinhadas por gente que devia ter o maior interesse em preservar a sua integridade. o compromisso com uma cultura académica responsável obriga-me a reagir à banalização da crítica social, pois o que o país hoje precisa é mesmo de uma verdadeira crítica social e, acima de tudo, de critérios para distingui-la do que não é. portanto, não estou de acordo contigo quando consideras o meu comentário equivocado. há muita coisa que está em jogo aqui e isso é para mim razão mais do que suficiente para decidirmos se queremos mesmo emular a cultura académica ou insistir na ideia de que a diferença de formação científica justifica a falta de cuidado analítico.
Quero deixar bem claro, que não estou e nem quero, por em causa, as referencias tanto do Prof. Macamo, como do Prof. Serra. Bem ao contrario, quero, posicionar-me, tanto qto possivel, para lá, das competencias de cada um, isto é do mérito racionalmente construido por cada um destes homens.
O que posso por em causa, é a hipotetica utilizaçao do merito racionalmente adquirido, de forma emocional e emotiva. Em minha opinião, qdo tal acontece o culto da idolatria tende a superar, o merito racionalmente adquirito. Podendo, eventualmente, assim, nascer a “mistificaçoa do individuo”, com todos os seus seguidores.
Estes ultimos ja nao param para discutir ideias, isto é, a palavra pela palavra, mas, sim, o que o “corpo” portador de merito veicula, ou quer veicular. Assim, as ideias, ainda que brilhantes, nao valem por elas proprias, mas pelos “corpos” dos meritos mediaticamente expostos. Desta forma, o homem portador, de mérito racionalmente adquirido, consciente ou inconscienetmente, pode cultivar a idolatria, quiça, a mistificação de si proprio. Esta é a minha real preocupação, que está longe de pôr em causa o mérito adquirido pelo, Professor Macamo, assim como, pelo Professor Serra.
Penso ainda que o culto da idolatria e a “mistificaçao do individuo” tolhem a capacidade de formar o espirito critico dos cidadaos. A promoção do espírito de critica apenas serve para dar mais visibilidade aos corpos” dos meritos mediaticamente expostos.
Comprendo que seja necessario desfazer a confusao entre activismo e crítica social, mas nao gosto da palavra “desabafo” por oposiçoa à palavra “critica”. Para mim a palavra “desabafo”, carrega nela propria, uma conotação negativa. Por outro lado o cidadao que desabafa, ainda que choramingando, nao deixa de ter capacidade de ajuizar, por isto ele tbem critica.
Seria interessante, penso, fazer a distinçao entre “critica social” e “critica activista” e, poder apreciar, qual o papel de cada uma delas na formação de um verdadeiro sentido de cidadania. Qual o impacto de cada uma delas na esfera publica. Porque é que o Prof Macamo, nao considera por exemplo a musica de Azagaia como “critica activista”a ao invés de “desabafo”. Penso que a musica de Azagaia é muito mais que um alivio pessoal, nao é apenas, um desfilar de choraminguices. Tem algo mais. Tanto tem que, segundo, li no blog ideias para debate, a musica foi, eventualmente, proibida de passar na radio moçambicana. A musica de Azagaia nao deixa a esfera publica indiferente, por isto seria uma “critica activista”, diferente daquela que é a “critica social”. Aos sociologos pode-se exigir que façam critica social. Seria desejavel que a fizessem, afin de formar e informar o cidadao, melhorar a seu espirito critico, melhorando tbem a sua capacidade de fazer critica activista.
Para finalizar, este comentario que ja vai mto longo, concordo consigo no que concerne à argumentaçao que tece em torno da oposição que faz entre "macamianos" e "serranianos".
Mas, continuo a dizer, que, estao a emergir duas correntes de pensamento na sociologia moçambicana, uma com base nas ideias de Macamo e a outra com base nas ideias de Serra. Estas duas correntes nao vao parar, de se edificar, simplesmente, porque macamianos e serranianos, nao se predisposeram, por enqto, a debater ideias, um dia virá em que os actores das duas correntes, face a face, confrontarão ideias.
O facto de estarem a surgir duas correntes, nao quer dizer que um é bom e o outro é mau e vice-versa, para mim, quer dizer apenas que os sociologos moçambicanos estao a fazer o seu trabalho.
iolanda, para mim tanto faz chamar a música de azagaia crítica activista ou desabafo. onde a coisa não me é indiferente é chamá-la de crítica social no sentido em que eu entendo o trabalho que as ciências sociais fazem. essa é a minha preocupação. nunca coloquei em questão a legitimidade de outras pessoas fazerem críticas. e no nosso país há muito por criticar. só que quando tomamos a sério a noção de "crítica social", aí temos que fazer distinções. só isso. o chapa100 tem uma discussão muito interessante sobre a noção de "desabafo" na perspectiva da psicologia social que recupera muito do que eu escrevi no meu artigo a apelar para uma distinção. tal como ele eu também tentava mostrar que existem condições objectivas que não dão às pessoas outras formas de expressão senão essa. só que não é por isso que o desabafo vai deixar de ser desabafo. visto na perspectiva da crítica social o desabafo é, na verdade, coisa negativa. a música de azagaia pinta um país que não existe daquela maneira e sugere a ideia de que o único que nos resta é pegar em armas para nos defendermos. eu não posso ficar indiferente a esse tipo de sugestão num país com uma história tão sangrenta como a nossa e em resultado da tirania das conclusões. por isso, iolanda, gostaria de concordar contigo que a sociologia moçambicana está provavelmente a crescer e assumir caminhos diferentes. só que neste momento eu vejo a questão do ponto de vista da responsabilidade académica. vejo a sociologia moçambicana ameaçada por um entendimento problemático do seu papel. vejo-a no perigo iminente de ser transformada em argumento de autoridade para encobrir desígnios políticos mal informados. insiste-se numa oposição fictícia entre sociólogos da esquerda e da direita em moçambique sem a mínima preocupação de saber o que esses conceitos significam no nosso contexto actual e, pior ainda, sem que os tais que se consideram da esquerda tenham pelo menos a coragem de pedir desculpas aos moçambicanos pelas coisas más que lhes fizeram. numa altura em que se deviam ensinar os jovens a reflectir cientificamente alguém anda a dizer-lhes para optarem pela esquerda ou pela direita. que cultura académica é essa? essa cultura académica é estranhamente afim ao espírito totalitário que a "esquerda" moçambicana introduziu ao país logo após a independência e é responsável pelo sofrimento dos moçambicanos e esvaziou de sentido todo o esforço de auto-determinação. a coisa está séria, iolanda.
Sim, professor Macamo, a sociologia moçambicana está em mutação, a sociologia esta a assumir caminhos diferentes, os esquiços das correntes macamiana e serrrania, estao aí:
a“crítica”, o “desabafo”, o “silencio”, a instrumentalizaçao do “merito”, a exposiçao mediatica, a “mistificaçao do individuo”, a imposiçao do pensamento dicotomico (se nao estas comigo, estas contra mim) e ao mesmo tempo, por paradoxal que pareça, uma tentativa de edulcoraçao do “pensamento uniforme” ( consubstanciado na dicotomia don/divida, aquele que “doa” à “comunidade” o seu conhecimento, espera que esta se sinta, eternamente, em “divida” para com ele, seria desejavel que nao se mudasse de opiniao), sao formas de dar substância à “confrontaçao de ideias”, talvez nao sejam as desejadas, ou idealizadas por si, professor Macamo, talvez nao sejam aquelas, a que , a velha Europa nos habituou ...
Mas, é, neste espaço, que se negociam os termos que dão visibilidade à construção destas duas correntes, macamianas e serranianas. E, isto, para mim, não significa, rejeitar uma das correntes, ou, atirar para os pneus do linchamento, um dos percursores, de tais correntes e suas ideias, nao significa, tao pouco, a distinçao entre homens bons e homens maus.
Mas, significa sim, a emergência de um espaço, cuja funçao é, o de clarificar o debate, um espaço, visando, como diria chapa 100, “uma exposicao de pensamentos e reflexoes”. A forma como se debate, original seja ela, nao impede que, estas duas correntes se estejam construindo. Talvez, a construçao, de tais correntes, se faça, por caminhos aparentemente sinuosos...
A questão da responsabilidade académica, das correntes politicas no seio da academia, a sua transposiçao para a esfera publica, o papel dos cientistas sociais na produçao de ideologias politicas, o papel, paradoxal, do binomio don/divida na na transmissao do conhecimento no seio da comunidade cientifica em particular e na comunidade moçambicana em geral, a eleiçao das barracas, como, lugar priveligiado do debate, na esfera publica, o anonimato, as indirectas... sao maneiras que se tem, neste momento, de se dar substância a estas duas correntes. Aí, a musica de Azagaia, tem, tbem, o condão de por cientistas sociais “face a face”. A musica de Azagaia trouxe para a esfera publica a “ exposicao de pensamentos e reflexoes”. Azagaia teve o condão de por “face a face”, Macamianos e Serranianos, penso. É a musica de Azagaia negativa? Exorta a musica de Azagaia à guerra? Aos eruditos do planeta de o dizerem...
Para mim, simples cidadã deste planeta, a musica de Azagaia, desnuda, apenas, as clivagens, escondidas por detraz de galardoes trocados entre academicos. Nao é a musica de azagaia, enqto tal, que esta no centro das atençoes, mas as representaçoes em torno da dita musica. A musica de Azagaia exorta macamianos e Serranianos a darem coerencia significativa à comunidade academica em particular e à comunidade moçambicana em geral. A musica de Azagaia,convida Macamianos e serranianos ao debate. A musica de Azagaia, extrapolou as competencias dos homens de merito, tirou-os das suas “torres de marfim” e colocou-os, face a face na esfera publica. A musica de Azagaia, é, uma referência, muito importante, para as nossas ciências sociais.
Pois, a musica de Azagaia, faz aquilo, pelo que, varios intelectuais têm-se batido, ao idealizarem uma nova dinamica para as ciencias socias moçambicanas, a saber, “estimula o debate de ideias, devolve a palavra à esfera pública que é lá onde ela pertence”.
Se a musica de Azagaia, exorta a uma guerra, entao, tenho para mim, que essa “guerra” nao mais é, que o “debate de ideias”, tendo por “lugar” de batalha internet, jornais, corredores da UEM, barracas...
olá iolanda, concordo contigo. mal ou bem, tudo isto faz parte da constituição de uma esfera pública moçambicana com a participação de cientistas sociais. se continuas a insistir assim tanto no que está por detrás do que vemos à superfície corres o risco de ficares mandarim ou bloguista fogosa...
Enviar um comentário