sexta-feira, dezembro 28, 2007

O problema da sociologia

Para os que têm medo do imperialismo da sociologia

No meio de todo o debate que tem havido pela blogosfera moçambicana em torno do activismo, competência no debate e crítica social uma inquietação que surgiu com muita frequência esteve ligada à própria sociologia. Alguns participantes queixaram-se da tendência imperialista de alguns sociólogos que nas suas participações em vários debates pareceram reclamar um papel especial para a sua disciplina bem como um conhecimento geral válido em todos os outros campos científicos. Interpreto estes receios como um convite a uma reflexão sobre a própria disciplina. Pessoalmente, não acho que tenha esse comportamento. Como escrevi numa discussão, tenho aprendido muito da leitura dos escritos de outros bloguistas, sobretudo de bloguistas que escrevem a partir de uma disciplina diferente da sociologia. Tenho-os interpelado como é normal no mundo académico, mas nunca no intuito de os obrigar a pensar “sociologicamente”.

O título que escolhi para esta postagem é propositado. Não é, na verdade, da minha autoria. É de Georg Simmel, um grande pensador alemão do século XIX, e é o primeiro capítulo do seu livro com o título “a sociologia”. Simmel apresenta ideias muito interessantes sobre a sociologia que me parecem responder um bocado às inquietações sobre o imperialismo dos sociólogos. Na verdade, são duas as ideias que ele apresenta. A primeira é muito simples. Ele constata uma mudança radical na concepção da vida humana na Europa no século XIX. Essa mudança consiste na procura de explicações sociais para o destino individual. Como ele próprio escreve, a ciência do Homem tornou-se na ciência da sociedade humana.

O “social” é concebido como algo que é produzido pelas pessoas em interacção e, consequentemente, como o que deve ser previligiado para entender as coisas da vida humana. A história, por exemplo, quando relata acontecimentos passados, fá-lo na perspectiva dos factores “sociais” que explicam o comportamento individual. Esta ideia leva Simmel a concluir que um campo tão vasto como o que esta mudança radical torna visível não pode ser o objecto de uma única disciplina. A “sociologia”, portanto, não pode ser a ciência que estuda o resultado desta mudança radical. Ela é, quando muito, diz Simmel, apenas um método, um método, portanto, comum a todos os empreendimentos científicos que se interessam pelos fenómenos da vida humana: direito, psicologia, história, economia, ciência política, etc. Simmel diz mesmo que a sociologia, como método, é comparável à indução, a qual, também, não pode ser vista como uma ciência.

A segunda ideia é menos interessante para as inquietações. Na verdade, Simmel procura, apesar de tudo, definir o campo da sociologia. Se ela não pode ter como objecto a própria condição humana – já que isto é feito por várias outras disciplinas – o que sobra? É desta reflexão que vem a proposta de Simmel de definir a sociologia como o estudo das “formas de associação”. Espero estar a traduzir a palavra original correctamente. No original em alemão a palavra que ele emprega é “Vergesellschaftung” que quer dizer algo como “o processo de se tornar sociedade”. Portanto, a sociologia deveria ser o estudo destas formas. A “associação” tem lugar em tudo o que é área da vida humana: tribunal, igreja, família, lazer, etc. Esta concepção da sociologia é muito específica e tanto quanto posso avaliar pelo que é produzido na sociologia não tem muitos seguidores. Mas é extremamente interessante e útil. Ela permite interpelar a realidade social de uma forma bastante produtiva.

Simmel interessou-se, por exemplo, sempre por coisas que outros sociólogos consideravam supérfluas: a moda, os sentidos, a rosa, a pega, e por aí fora. O seu livro sobre o “dinheiro” constitui um dos maiores escritos que existem sobre o sistema capitalista, em nada inferior ao “Capital” de Marx. E isto por causa da qualidade de perguntas que é possível colocar. Um dos textos de Simmel que eu considero magistral é o que lida com o pobre. Simmel mostra nesse texto como o “pobre” se torna numa categoria sociológica relevante. O seu argumento é de que não é necessariamente a própria condição do pobre – o facto de ele sofrer privações, etc. – que faz dele pobre. O que faz dele pobre é a assistência, isto é quando a sociedade presta ajuda a alguém. Isso dá visibilidade ao “pobre”. Tenho tentado usar esta ideia na minha própria reflexão sobre a pobreza em Moçambique. Já vi esta minha reflexão ridicularizada num blogue moçambicano onde não se “ofende ninguém” com a implicação de que estou a recusar reconhecer a existência de pobres. Na verdade, o meu argumento tem sido de que o combate à pobreza só vai começar a ser sério quando o país institucionalizar a categoria “pobre” através, por exemplo, de um sistema de segurança social. Foi esta reflexão que me levou a ter dúvidas em relação à Lei de Protecção Social que o Presidente assinou no início deste ano. As ideias de Simmel permitem-me, acho, interpelar toda a concepção do problema que nós temos e de ver os limites do que se tem feito.

Portanto, na perspectiva de Simmel as inquietações manifestadas em relação à atitude de alguns sociólogos têm muito a ver com o próprio estatuto da disciplina. Não é imperialismo, mas sim a dificuldade de definir o seu verdadeiro objecto. Neste ponto o que nos pode safar é talvez uma discussão mais metodológica. Quando eu transponho estas fronteiras disciplinares invisíveis não o faço no intuito de impor a sociologia aos outros. Faço-o porque a sociologia me impõe um objecto bastante vasto que só posso restringir com um debate metodológico. O que tenho feito com interpelações aos colegas. Aqui levantam-se várias questões interessantes, mas restrinjo-me apenas a duas.

Por um lado, há quem diga, por exemplo, que a blogosfera é um espaço de liberdade individual onde cada um de nós devia ter a liberdade de se exprimir como bem entender e sobre o que quiser. Apoio este argumento, mesmo se no fundo me parece algo contraditório. Se todos deviam ter a liberdade de se pronunciarem como bem entenderem e sobre o que quiserem porque é que nos devemos chatear se alguém nos critica pelas nossas opções? Não estará essa pessoa no seu direito de se exprimir como bem entender? Sem debate metodológico sério é difícil responder a esta questão. Por outro lado, há os que dizem que há várias maneiras de fazer ciência, uma ideia com a qual eu não estou de acordo. O que querem dizer, na verdade, é que existem abordagens diferentes de um mesmo assunto. Concordo. Só que me parece também interessante saber reconhecer a diferença quando ela existe. Como é que sei que fulano de tal está a abordar um tema de forma diferente? Como é que sei que alguém está errado e eu estou certo, ou vice-versa? Dizer que isso não interessa é conduzir-nos, parece-me, ao relativismo, uma posição que não me parece necessariamente apetecível. Aqui também não me parece fácil fugir ao debate metodológico.

O meu “imperialismo” está, portanto, justificado. Estou, por um lado, a exercer o meu direito de me exprimir livremente – mesmo se isso significa criticar os outros – ao mesmo tempo que estou, por outro lado, a fazer a ciência à minha maneira – mesmo que isso signifique dizer que os outros estão errados. Assim ou assim, voltamos sempre ao ponto de partida: o método.

3 comentários:

chapa100 disse...

sem nenhum imperialismo, o chapa100 indicou-o como figura do ano!

um abraco

Unknown disse...

Antes de tudo, endereçar boas entradas ao professor e que 2008 seja um ano repleto mais de dúvidas do que conclusões. Isto porque, para mim, as dúvidas abrem a possibilidade de saber mais um pouco, consolidar ou afastar o que pensávamos saber. E este processo, é crucial para o nosso aprimoramento enquanto que as conclusões, são apenas tentativas de nos aproximarmos da verdade; um esforço para articularmos o que pensámos saber com vista a prosseguir determinado fim, e muitas das vezes, sem nos importarmos com as armadilhas do raciocínio; com os procedimentos do bem pensar; etc

Este artigo veio mesmo a calhar, na medida em que possibilita o esclarecimento de algumas dúvidas que eu tenho relativamente ao objecto de estudo da sociologia.
Conversava há anos com um amigo sociólogo e ele dizia: Josué se tens uma garrafa, cada área do saber devido ao seu ângulo de observação, apenas consegue ver uma porção da garrafa, enquanto que nós como sociólogos, temos um ângulo mais abrangente e privilegiado de observação, na medida em que conseguimos ver a garrafa de cima. E eu dizia, mas esse vosso ponto privilegiado de observação, o de ver a garrafa por cima, não equivale ver toda a garrafa, na medida em que não vos oferece a profundidade, o permenor e os detalhes que cada área de conhecimento tem da porção que vê. Permite sim, ver Partes unificadas das porções que cada área do saber vê. No final, é também uma porção da garrafa, pese embora, priviligiado. E este artigo resgata um pouco deste diálogo.

Tenho para mim, que existe um denominador comum que une e permite as ciências sociais dialogarem. Tal denominador circunscreve-se nos princípios gerais, modelos, conteúdos, métodos e instrumentos que sustentam determinada área do saber e a forma como aquelas categorias são combinadas e articuladas, para formar e formular raciocícios e argumentos cientificamente possíveis, prováveis e/ou válidos. No entanto, pensava eu, que estas matérias eram exclusividade da epistemologia ou da teoria do conhecimento. É neste contexto que se torna mister colocar as seguintes questões:
(i) Professor, não andará a sociologia a invadir áreas (objecto de estudo) que já são da titularidade de certas disciplinas?
(ii) O desvio para uma sociologia eminemente reflexiva, as divergências dos sociólogos relativamente ao seu objecto de estudo, não consubstanciam uma crise? Ou é simples aparência? Estou aqui a pensar na crise por que passou também a antropologia.
(iii) Que relação existe entre a teoria do conhecimento e epistemologia por um lado, e a sociologia (reflexiva) por outro ? Serão as primeiras parte integrante da sociologia? Ou o inverso?

Não sou sociólogo, mas aprecio bastante estas matérias.

Josué Muchanga

Elísio Macamo disse...

caro jorge, obrigado pela menção.
caro josué muchanga, obrigado pela sua insistência neste tipo de questões. penso que a discussão destas questões é muito importante para o momento que as ciências sociais atravessam no nosso país. não espere, por favor, uma resposta final. começo pela pergunta menos difícil: estará a sociologia em crise? não creio. acho que as discussões que estamos a ter agora revelam crescimento. crescer doi. o importante seria que aproveitássemos o momento para discutir algo mais substancial como, por exemplo, os critérios que usamos para abordar a realidade e também clarificarmos quando é que, independentemente da abordagem de cada um de nós, podemos dizer que alguém está enganado ou não. isto é, este é o momento de decidirmos se queremos que o empreendimento sociológico em moçambique seja ciência ou não. a sua primeira pergunta sobre se a sociologia não estará a invadir outras áreas é difícil porque corro o risco de repetir o que já escrevi várias vezes. peguei em simmel justamente por ter achado que ele nos proporcionava uma boa maneira de abordarmos a questão. é um problema muito específico da sociologia ter dificuldades em definir o seu objecto porque ela surge num momento histórico específico em que já não é mais possíve (ou desejável) explicar as coisas da vida do homem sem recurso à sociedade. apesar das divergências entre durkheim (que não considerava simmel como sociólogo) e simmel há muita coisa em comum entre eles; as regras do método sociológico, por exemplo, não são apenas instruções metodológicas; são também uma maneira de tornar a sociedade visível, algo que está na base do que simmel diz quanto à especificidade do momento que a vida humana atravessa. como sociólogo não posso, evidentemente, resolver um caso jurídico; mas posso tentar perceber como ele é possível e o que ele significa para a estrutura da sociedade; não posso falar das leis do mercado, mas posso falar das condições sociais de possibilidade do mercado.
a terceira questão é muito bicuda. há quem diga que o facto de a sociologia ainda estar a discutir questões de método significa que ela ainda não é uma ciência. penso, contudo, que esta é uma particularidade das ciências sociais. nós constituimos o nosso objecto com os nossos conceitos mais do que o biólogo constitui o seu objecto com os seus. isto não significa que as ciências naturais não utilizem também conceitos para aceder ao objecto, mas no seu caso a materialidade do objecto faz esquecer esse facto. no nosso não. não é possível falar de relações sociais sem dizer o que isso significa para nós. penso que há diferença entre epistemologia e sociologia, mas no trabalho prático do dia a dia nenhum sociólogo pode dispensar a reflexão epistemológica. como é que sei o que sei? qual é o estatuto do meu objecto? é por isso, meu caro josué muchanga, que fico muito preocupado quando leio comentários de cientistas sociais a ridicularizarem os que se preocupam com os conceitos. como é que eles sabem o que sabem? e como é que eles sabem que nós também sabemos o mesmo que eles? como é que eles sabem que não estão de acordo connosco?
para si também um bom ano 2008!