O vocabulário
Esta parte da análise é extremamente interessante. Não vou diminuir o seu interesse com tentativas de estruturação do vosso próprio pensamento. Já basta chamar a vossa atenção ao interesse que a organização do próprio discurso tem. Vejam o texto aqui e reparem que agora vou discutir o que está em relevo verde. Aqui tinha matéria para várias semanas de trabalho e rimas de papel. “Esse Vice Ministro não...”. Não sei se este título é da autoria das subscritoras ou do editor do jornal que publicou a “carta aberta”. Mas não deixa de ser interessante. “Esse Vice Ministro não!”. É um desabafo, um grito de impotência. Podemos aceitar tudo, menos isso. Esse não! Mesmo que esse título seja da autoria do jornal há uma passagem na “carta aberta” que recupera este sentimento. “O assunto é o seguinte: nós não podemos aceitar a nomeação do Sr. João Candido Candiane para o lugar de Vice-Ministro da Mulher e Assuntos Sociais”. Ponto final. Acho a palavra “aceitar” interessante. Não dizem que não concordam com a sua nomeação; não dizem que não acham a nomeação correcta. Nada disso. Não “aceitam”. Só que aceitar pressupõe a ideia de que estas pessoas podem ser consultadas e a sua opinião conta. Conta? A “carta aberta” sugere que não. Então, porquê “aceitar”?
A “carta aberta” não é manifestação de “má-vontade” ou “preconceito”, está escrito na página 1. O quê? Porque é que a indignação perante actos e atitudes que atentam contra a moral pública e a nossa cultura é susceptível de ser vista como “má-vontade” e “preconceito”? Porque é que a Ministra precisa de ser alertada para não ver as coisas desta maneira? Quando é que se levanta esse tipo de acusação entre nós? Eu que já fui chamado de “pretencioso” por algumas pessoas em Maputo estou interessado nisso. Quando é que a honestidade – julgo que as subscritoras estão a ser honestas – pode ser tida como honestidade? Será mesmo que o nosso país, como cantam os Ghorwane, está virado de pernas para o ar?
O indivíduo em questão é mencionado de forma muito interessante. Uma vez é simplesmente “o Candido”, outras vezes é o “Sr. João Candido Candiane”, outras é “este senhor”, outras é “Sr. Candido Candiane”, “Sr. Candido”, “João Candido” e ainda “Kandiyane”. Curiosamente, nunca é “o Sr. Vice Ministro”. A Ministra é a “Exma Ministra”, “a senhora”, “Ministra”. O indivíduo em questão – ah, o indivíduo em questão – esse merece todo o tipo de epítetos que não são exactamente em abono do respeito que por ele se nutre. Tudo isto é coroado na seguinte frase “Felizmente, quem manda não são os Kandiyanes” na página 3. “Os Kandiyanes”. São muitos ou a ideia é de dizer “gente dessa índole”? Felizmente que não é gente dessa índole que manda neste país! Reparem, já agora, na palavra “mandar”. Assim mesmo. Em Moçambique, nesta democracia tolerante e aberta, há os que mandam e os que são mandados. Nesta democracia que precisa de ser protegida dos “Kandiyanes” deste mundo alguns mandam, outros obedecem. Obedecem? Quem manda não é o povo, razão pela qual só se pode recorrer a uma carta anónima e aberta para dizer aos governantes aquilo que eles deviam realmente saber, isto é, que gente que atenta contra a moral pública e contra a cultura moçambicana não tem lugar entre nós. Estranho!
O ataque ao sujeito é forte. “Um homem destes” (página 4), que não sabe escrever “está assim, com dois erres, no original” (página 2) – carregou no “r” ao escrever “erosão” – “ex-seminarista” (página 2) – para vincar porque ele teve de sair do seminário (está claro, não reunia qualidades; ou, se calhar, é a velha hostilidade de certos sectores da Frelimo à religião: de gente dessa índole que se pode esperar?) – e o facto de ele usar “linguagem escatalógica” (página 3). Escatalogia é próprio do Cristianismo, a ideia da solução final e da teleologia. Será que este representante dos “Kandiyanes” está a trazer o ideal de sociedade que almejamos? Será isso? Será por isso que ninguém se mexe? Será por isso que devemos nos precaver? Mas o mais forte no ataque à pessoa que a “carta aberta” faz é a acusação de que ele usa “violência verbal extrema” (página 2). Ele não usa linguagem forte. Não, nada disso, ele usa “violência verbal”. E essa “violência verbal” é “extrema”. Isto é um caso sério. E não é para menos. Aqui e ali vemos referências a esta “violência verbal extrema”: o indivíduo “ataca”, “ofende”, “interfere abusivamente no respeito devido aos mortos”, dá “respostas beligerantes” e anda a “raspar” em feridas. É mesmo coisa de “um homem destes”.
Preferi apresentar a linguagem usada na “carta aberta” desta forma directa para chamar a vossa atenção para o facto de que a fala não é inocente. A escolha das palavras documenta alguma coisa. E essa alguma coisa deve preocupar um cientista social. É verdade que o cientista social corre o risco de inventar coisas que não existem, atribuir coisas que as pessoas não tinham pensado e por aí fora. Não obstante, não é possível desenvolver uma mentalidade analítica e, consequentemente, cultivar a mentalidade sociológica sem desconfiar das palavras que as pessoas usam. Até prova em contrário as palavras querem dizer mais do que dizem. A questão é, então, de saber que coisa é essa exactamente. Ainda vou tentar fundamentar melhor isto na próxima e última postagem.
Mas repitio: deter-se sobre estas coisas não é atrasar a luta contra a pobreza absoluta, nem é pactuar com os corruptos. É fazer aquilo que melhor podemos fazer na nossa tentativa de perceber o mundo em que vivemos. Só pode prescindir deste exercício aquele que pensa que já sabe tudo quanto devia saber e que o único que falta é apenas tirar conclusões. Portanto, portanto, portanto... tal e qual como no período imediatamente a seguir à independência quando também havia muitas certezas. Ocorre-me, para ser maldoso, que algumas das pessoas que hoje criticam a falta de integridade pública com muita veemência – e razão, diga-se de passagem – são as mesmas que defenderam e emularam o discurso intolerante desse período. A mesma impaciência que têm hoje com os que preferem duvidar é a mesma que os levou a limitar o debate naquele período no interesse da “defesa dos interesses do povo”. Eu tenho mais medo dessa gente do que dos “corruptos” porque se essa gente também “mandasse” estávamos mal nós que somos tidos como os que dizem que “está tudo bem”. Como se realmente disséssimos mesmo isso.
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