Vou fechar aqui a reflexão que tenho vindo a fazer na esteira da discussão sobre crítica social. Uma das interpelações que foram feitas com muita insistência ao meu posicionamento foi de que eu considero apenas válida a crítica que eu faço. Há variações deste tema, incluindo, por exemplo, a constatação feita por alguns de que eu também critico. Esta constatação revela, em minha opinião, os equívocos que estão na base desta discussão. É claro que eu também critico e é também claro que eu critico na plena convicção de que a crítica que faço é a mais adequada. Mas não é mais adequada do que a de sincrano ou beltrano; é mais adequada em relação à minha própria reflexão e ao que me considero em posição de trazer à atenção do público.
Em Moçambique presto especial atenção ao que duas pessoas dizem: Xidiminguana e Mia Couto. São pessoas com uma capacidade extraordinária de observação do nosso quotidiano, ou pelo menos, do quotidiano urbano do sul de Moçambique. Quando oiço a música de Xidiminguana ou quando leio as crónicas e contos de Mia Couto não estou à procura da revelação da essência do nosso quotidiano. Estou, isso sim, à procura de um ponto previlegiado de observação das coisas da nossa vida a partir do qual posso aplicar os instrumentos conceituais e teóricos que a sociologia e a antropologia me oferecem para perceber Moçambique. Muitas vezes faço como eles, isto é, dou largas à minha imaginação. Faço isso, porém, sempre no respeito do – ou pelo menos na tentativa de respeitar – o que a minha formação exige de mim. Xidiminguana e Mia Couto são, portanto, interessantes para mim por duas razões principais. Primeiro, quando eles fazem o que fazem melhor, isto é cantar ou contar, eles mostram até que ponto as coisas insignificantes do quotidiano fazem parte de um todo muito mais vasto e complexo do que a sua própria intenção – ao cantarem e contarem – pode capturar. Segundo, eles mostram que a perfeição no que fazemos não está na intenção, mas sim no respeito pelo que é necessário fazer para podermos fazer as coisas que fazemos.
Estas duas razões sugerem-me, assim, dois desafios que se colocam à crítica social no nosso país. O primeiro desafio, que decorre do que acabei de escrever sobre a residência da perfeição, é a integridade. O segundo, ligado à complexidade do todo, é a distribuição do poder no país. Em relação à integridade diria que o que o nosso país precisa neste momento não é de gente corajosa, isto é de gente que não tem medo de criticar o poder como parece ser a definição que se dá de coragem na nossa esfera pública. O que o nosso país realmente precisa, em minha opinião, é de gente profissionalmente íntegra, isto é de gente que participa no debate de ideias e na reflexão sobre o país com base em pronunciamentos alicerçados naquilo que é possível dizer racionalmente no quadro da sua própria formação.
Para ser ainda mais directo, o nosso país precisa de mais juristas como Ilídio Macia, Júlio Muthisse, Stayleir Marroquim – que reflectem o país a partir do entendimento que têm do direito e independentemente de outro tipo de considerações – de economistas como o Eugénio Chimbutane – que fazem o mesmo, mas partindo da economia – de sociólogos como o Patrício Langa – idem, partindo da sociologia – de peritos da comunicação como o Bayano Valy – estou a pensar no seu texto sobre porque Nyimpine Chissano era assunto público – enfim, de vários outros em vários quadrantes que não se pronunciam pelo simples prazer de dizer que algo está mal, mas sim porque reflectem a partir do cânone das suas disciplinas e querem perceber porque certas coisas não encaixam bem. Seria bom que esta atitude fosse também emulada pelas pessoas que trabalham no aparelho de estado – como assessores, especialistas, directores, etc. – nas organizações da sociedade civil e na imprensa. Integridade em relação à própria formação. Só isso, quer me parecer, iria contribuir bastante para libertar algumas pessoas da força sedutora que as convicções e dogmas têm e ajudaria a recuperar o verdadeiro sentido da crítica e o seu potencial emancipatório. Coragem é isso ou, melhor ainda, devia ser isso.
O segundo desafio diz respeito à distribuição do poder no país. Em minha opinião – e gostaria tanto de iniciar uma discussão a este propósito – a imprecisão de muitos conceitos utilizados na nossa esfera pública, por exemplo, combate à pobreza, corrupção e criminalidade vem do facto de ainda não termos conseguido articulá-los bem com a natureza do poder e sua distribuição no nosso país. Dito de outro modo, esses fenómenos que se furtam à nossa conceitualização, ao mesmo tempo que nos dão o conforto de pensarmos que os entendemos bem, documentam, talvez, a maior fraqueza que o nosso sistema político revela: a vulnerabilidade do cidadão perante o Estado. Parece haver uma relação orgânica entre a vulnerabilidade do cidadão e a concentração do poder em poucas mãos e instituições. Em todas as críticas que tenho feito procuro sempre colocar esta questão, pois é a partir dela que consigo evitar o fatalismo e a resignação. A ousadia do Conselho Constitucional bem como do Tribunal Administrativo confirmaram, para mim, a utilidade deste tipo de abordagem. A decisão do novo governo de dar maior autonomia aos distritos através do fundo de 7 milhões mostrou-me que as coisas não permanecem iguais e que mesmo se o poder em Moçambique quissesse ser absoluto, ele próprio faz coisas que abalam as fundações do seu próprio edifício.
Não creio que se todos tentarmos ser íntegros e articular os fenómenos do quotidiano com a distribuição do poder vamos ficar a falar a mesma coisa na melhor das hipóteses, e a dizer que está tudo bem na pior das hipóteses. Não creio. Acho que vamos estar a fazer crítica no verdadeiro sentido da palavra, o único que, como académicos, podemos melhor fazer como contribuição ao fomento do nosso país. Como sociólogo interessa-me perceber o que é necessário para que as pessoas optem pela integridade, o que ela precisa para ser acarinhada e encorajada e como é que esse tipo de cultura pode se consolidar entre nós. Como sociólogo interessa-me perceber como o sistema político pode se tornar cada vez mais responsável e sensível à opinião do cidadão. Entender isto e trazer à discussão pública parece-me muito mais acção do que andar a repetir pela centésima vez a maldade do poder, mais um índice de corrupção e por aí fora. Se alguém achasse que isto é dogmático e arrogante, não saberia o que dizer. Nas rubricas “fenómeno da bicha” e “fala sem consequências” e mesmo em “direito à razão” é justamente isto que tenho tentado fazer. Nunca fiz crítica barata e espero que cresça o número de pessoas na blogosfera moçambicana que vira as costas a esse tipo de crítica na falsa convicção de que só assim é que poderão aliar a ciência à política.
Integridade e atenção à distribuição do poder. É a única maneira que vejo de fazermos ciência – e política! – de forma responsável.
4 comentários:
Desta feita, apenas para lhe desejar um 2008 recheado de tudo de BOM
Cumprimentos
Agry
obrigado pela visita e obrigado pelos votos que retribuo com muito prazer!
Elísio,
Obrigado pela referência.
Os seus últimos posts (como sempre) são bastante didáticos. E como tens visto nas nossas intervenções, temos muito que aprender. De facto, a questão do método é muito importante, independentemente da área do conhecimento. Temos que partir da mesma base, sob o risco de estarmos a discutir coisas sobre as quais estamos de acordo.
Um abraço
é isso, genito, é isso mesmo.
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