segunda-feira, dezembro 17, 2007

A mentalidade analítica (3)

Analisar a fala

Agora vou entrar no assunto. Conforme referi na postagem anterior a fala não é inocente. Seja o que for que nós dizemos e independentemente de estarmos ou não conscientes da sua estrutura, há um certo sentido em que tentamos reproduzir ou descrever o mundo. Fazemos isso a partir de uma juxtaposição do que é normal e do que é anormal. O que é normal é positivo e tentamos reclamar para nós próprios. O que é anormal é negativo e atribuímos aos que não queremos incluir no nosso mundo. Quase toda a descrição e quase todo o argumento assentam, digamos, nestas estruturas de constraste e nas práticas de normalização que lhes são afins.

Vou tentar explicar isto com algum detalhe, reservando a parte da ilustração à análise da “carta aberta”. O que dá coerência e plausibilidade ao que nós dizemos é o que nós pensamos ser óbvio para o resto da sociedade. Todas as sociedades, bem ou mal, dão certas coisas por adquirido. Essas coisas que são dadas por adquirido são as que nós consideramos normais, isto é as que sabemos que não precisam de mais fundamentação ou elaboração para serem percebidas e, mesmo, aceites por uma grande maioria das pessoas que partilham connosco o mundo social. Este entendimento tácito economiza o nosso tempo. Ajuda-nos a não desperdiçarmos tempo explicando tudo de novo. Imaginem o comunicado de imprensa sobre a exoneração do Ministro da Agricultura a explicar cada palavra em detalhe. Por exemplo, explicar o que é um comunicado de imprensa, o que é a Presidência da República, o que significa exonerar, o que é um Ministro da Agricultura, etc. O comunicado nunca mais terminava. E o pessoal lá do Gabinete de Imprensa sabe disso. É por isso que eles simplesmente partem do princípio de que nós sabemos do que se trata e passam imediatamente para o essencial.

É arriscado, mas é o que se faz frequentemente. Alguns de nós gostariam de saber porquê tão já se ainda há pouco se tirou um outro. Outros, com certeza, ou isto não era Moçambique, vão querer saber que espíritos andam à solta naquele edifício da Praça dos Heróis. Seja como for, qualquer acto de fala serve-se de um conhecimento já existente na sociedade e explora-o. Esse conhecimento é até normativo. Todos nós sabemos que exoneração é má notícia. Ou melhor, todos nós sabemos como contextualizar a coisa. Se sempre fomos de opinião que o indivíduo não dava para aquele cargo, então, a sua exoneração é boa coisa. No caso contrário, é má coisa. Qualquer que seja a nossa opinião, porém, exoneração é mais negativo que nomeação, a não ser que seja para Ministro do Interior...

Portanto, penso ser útil reter a ideia de que quando falamos reproduzimos estruturas de contraste que nos ajudam a recuperar o que é tido como positivo na nossa sociedade e, por extensão, o que é tido como negativo. O interessante aqui, naturalmente, é que quem fala procura sempre colocar-se do lado do que é positivo, por mais abominável que tenha sido o seu próprio comportamento. Um ladrão em Gaza, por exemplo, não diz que roubou. Nunca diz isso, mesmo que tenha sido apanhado em flagrante. Ele diz que dizem que ele roubou. Ou seja, ele sugere a ideia de pessoas anónimas que estão na origem da acusação que sobre ele pesa. Ele próprio, através dessa sugestão, coloca-se firmemente no seio do grupo mais alargado que é contra o boato. Essas estruturas de contraste remetem-nos para a sociedade. Ou melhor, deviam remeter todo o indivíduo curioso à sociedade. Que tipo de sociedade é esta que vê as coisas desta maneira? Quem são as pessoas que defendem esse tipo de visão de mundo? Como é que essas coisas se impõem? Que carácter é que isso dá à sociedade?

Mas há mais. A nossa fala é fruto de uma organização bem intencional. As palavras que escolhemos para darmos substância ao que dizemos não são inocentes. Isto não nos devia deixar indiferentes. Porquê “exoneração” e não “demissão”, “mandar embora”, “sanear”, “lixar”, “cessar funções”, etc.? E porque é que nós, quando comentamos a notícia, dizemos “o Presidente exonerou...” e não dizemos “o Presidente mandou passear”, “o Presidente fez de novo das suas”, e por aí fora? Que tipo de coisas determinam a nossa escolha de vocabulário? As nossas convicções políticas? O nosso posicionamento em relação a uma determinada pessoa? A nossa posição na estrutura social? A nossa formação? A nossa origem étnica ou regional? O quê, exactamente, o quê?

É este tipo de perguntas que interessam ao sociólogo. Como podem ver, a tentativa de responder a essas perguntas não nos vai conduzir à verdade. Vai simplesmente suscitar a nossa curiosidade e proporcionar-nos a possibilidade de nos maravilharmos com as coisas da vida. Quem é o mau da fita? Porquê? Que normas violou? Quem dita essas normas? Como é caracterizada essa violação de normas? Porquê desta e não daquela maneira? O que isto tudo significa para a ideia que eu próprio tenho da natureza da minha própria sociedade? A minha ideia é correcta? É plausível? É coerente? É útil? Vale à pena mantê-la? O que é que ela me ajuda a ver? E o que me impede de ver? O resultado de todo o esforço de responder a estas perguntas é o que leva muita gente a perguntar “mas como é que tu percebes tanto sem estares por aqui?”. É evidente que não se trata de perceber seja o que for. Trata-se de interpelar o que damos por adquirido. No processo algumas pessoas vão confirmando os seus preconceitos, mas esse problema é seu, não é meu.

Vou, então, passar para a ilustração do procedimento analítico na próxima postagem.

2 comentários:

Eugénio Chimbutane disse...

Elísio, é sempre um prazer renovado dialogar consigo.

Em poucas palavras, será que o desabafo desempenha algum papel no debate público? Ou simplesmente, é um fenómeno a combater?

Um abraço

Elísio Macamo disse...

oi genito, desempenha vários papeis, um dos quais é de nos recordar aquilo que não é função, nem papel da crítica social. mas também documenta o tipo de sociedade que somos. não creio, por isso, que se deva combater o desabafo (nem saberia dizer como se faz isso). creio que o mais importante é tentar perceber o que o torna possível ao invés de elevá-lo ao estatuto de crítica social.