Aos que não têm medo de pensar por si próprios!
É de Karl Marx a seguinte constatação: o que muitos filósofos até aqui fizeram foi interpretar o mundo de formas diferentes; o importante, contudo, é transformar o mundo. Esta é uma das suas críticas a Ludwig Feuerbach, mais especificamente a décima primeira tese. Muitos cientistas sociais que atravessam as fronteiras do conhecimento meramente científico para a acção ou activismo socorrem-se desta máxima marxiana: não só filosofar, mas mudar o mundo. E, de facto, quando olhamos à nossa volta e vemos os vários problemas que o mundo apresenta, sobretudo o nosso mundo de Moçambique, não há como não nos deixarmos seduzir por uma máxima tão actual e relevante. De que nos vale todo o conhecimento do mundo se com ele não somos capazes de tornar o mundo melhor?
A crítica de Karl Marx à filosofia é enformada por uma desconfiança enorme em relação à ética. Com essa desconfiança Marx juntava-se a muitos outros ilustres pensadores, por exemplo, Thomas Hobbes, que achavam que a discussão de questões morais só fazia perder tempo aos filósofos. Marx, em particular, via toda a discussão ética fora do seu quadro de raciocínio como um efeito ideológico que tinha como função servir os interesses das classes dominantes. As ideias dominantes são as ideias dos dominantes, costumava ele dizer. Nessa ordem de ideias, ao invés de perder tempo com discussões estéreis era importante passar à acção, isto é identificar os aspectos sociais, económicos e políticos cuja mudança – se necessário à força – iriam alterar a ordem das coisas e colocar as classes oprimidas no seu devido lugar histórico.
Portanto, em certa medida, com a sua própria exortação à mudança Marx contradizia-se no que dizia respeito à sua própria base filosófica. A questão não era, na realidade, que a moral ou ética não mais contavam. A questão era que ele já tinha encontrado a mãe de todas as soluções para os problemas éticos: o materialismo histórico. Só identificando a lógica da história é que poderíamos ter uma base para resolvermos todos os problemas éticos e morais. E a lógica da história era a luta de classes que nos iria conduzir a uma sociedade sem dominação e exploração do homem pelo homem. Parecendo que não, Francis Fukuyama inspirou-se muito em Marx para desenvolver a sua ideia do fim da história. O fim da história, para Marx, significava o fim de toda a discussão ética. Cada um de nós podia ser tudo: de manhã iríamos fazer filosofia, à tarde ir à pesca, etc. Era preciso respeitarmos o curso da história para podermos gozar a atitude do intelectual mandarim que pensa pelo prazer de pensar. A questão, mais uma vez, não era que a discussão filosófica sobre a ética não fosse importante; a questão era que Marx já tinha a solução que tornava supérflua toda a discussão. Espero que os que se deixam facilmente levar por este tipo de exortações estejam a prestar atenção. Quando alguém vos diz para deixarem de pensar e passarem à acção, essa pessoa não está necessariamente a agir no interesse dos desgraçados do mundo; essa pessoa está simplesmente a impor o seu pensamento sobre os outros. Está a proibir-vos de pensarem por vocês próprios. Cuidado!
Felizmente, a história ainda não acabou. Tivemos a União Soviética e tivemos também o Moçambique do período imediatamente a seguir à independência que nos mostraram que se pode, de facto, passar à acção, mas os problemas éticos não acabam. A ditadura do proletariado e a justiça revolucionária serviram em todos estes casos para tornar isso evidente. E o que eles mostraram foi que Marx estava profundamente enganado ao considerar estéril a discussão moral. os filósofos gregos que dispensaram muita atenção a essa discussão estavam, também, preocupados com a justiça. Marx não foi o primeiro pensador a colocar a questão da justiça na agenda intelectual. Ele foi talvez o primeiro a querer acabar com essa discussão na base do argumento segundo o qual o seu próprio conceito de justiça seria o melhor. Gerações de intelectuais seguiram-no na plena convicção de que questionar esse conceito de justiça constituía uma traição à tradição académica e intelectual.
Eu gostaria de poder fazer ciências sociais de forma fácil com fórmulas simples e com quadros de classificação dos que se dão à maçada de pensar também de fácil aplicação. Gostaria de poder usar as ciências sociais como simples caixas de ferramentas de onde vou buscar conceitos e abordagens feitos à medida dos problemas do mundo. Num país como o nosso, onde os problemas são muitos e gritantes, que melhor saída senão essa do pensamento rápido, pronto-a-usar e sempre contundente? Gostaria de fazer isso, mas não posso porque o mundo sobre o qual quero aplicar os meus conceitos e abordagens resiste às minhas simplificações. Quem me dera que Marx tivesse tido uma vida bíblica até aos duzentos e não-sei-quantos anos. Aí sim, ele teria visto o equívoco em que meteu muita gente e, honesto e íntegro que ele era, teria, de certeza, pedido desculpas.
Na preparação de uma palestra que vou proferir em Janeiro na cidade natal de Marx, em Trier na Alemanha, li algumas coisas da sua autoria e deparei com uma carta que ele escreveu a Friedrich Engels após terminar “O capital”. Marx aconselha Engels a ir ler uma obra do escritor francês Honoré de Balzac que conta a história de um pintor que passou dez anos – Marx também precisou de muito tempo para escrever “O capital” – a pintar o quadro que ia fazer a representação mais fiel do mundo. Só que no fim desse longo e penoso trabalho, dois amigos do pintor constataram que o grande quadro era uma autêntica confusão! Marx aconselhou a leitura de Balzac a Friedrich Engels como forma de lhe dizer que ele próprio estava com dúvidas em relação ao resultado da sua obra.
Marx tinha grande sentido de humor. E era humilde, muito mais humilde do que os seus seguidores de hoje. Ele próprio tinha grandes dúvidas em relação à sua própria obra mais suprema. Quando a terminou, ficou sem saber se o mundo que ele procurava representar naquelas centenas de páginas era o mesmo mundo que ele habitava. Ele entregou a obra apenas por pressão dos editores que já lhe tinham ameaçado várias vezes. Não quero com isto dizer que ele achava que estava enganado. Não. Ele tinha simplesmente dúvidas. E a dúvida é o melhor recurso que os intelectuais têm. Espero sinceramente que os jovens que gostariam de seguir Marx na sua exortação para também transformarem o mundo pensem muito bem antes de o fazerem. Sei que estou a pedir demasiado, pois pensar já toda a gente o faz e este não é o tempo de pensar. É preciso passar à acção como lhes é dito constantemente na nossa esfera pública. Boa sorte às vítimas da vossa acção!
5 comentários:
elisio! tive a sensacao que com este debate entre campo critico e o campo activista, tivessemos perdido o ponto essencial que alimentou os blogs ate aqui, reflectir na reflexao. acho que algumas tendencias sobre o papel do campo cientifico em mocambique, esta a precisar de uma reflexao critica (academica e nao academica). esta reflexao critica nao me parece que ela precisa de ser entendida no sentido do activismo "productivo", do tipo a "universidade deve combater a probreza ou fazer da universidade o instrumento para o povo tomar poder", etc, mas no sentido do activismo "reflexivo": "duvidar do pensamento unico e das evidencias nao negociaveis" .
e parece-me que os dois campos do activismo productivo ou do activismo reflexivo requerem um pensamento da realidade (mundo, Mocambique), descrita de varios formas. e esta realidade a mim parece que esta sendo mal interpretada.
a outra questao tem a ver com uma questao de praxis, no teu texto escreves sobre o pensamento de marx, que precisamos de estudar melhor o contexto historico e social que foi produzido. o termo praxis no marxismo empurra as nossas convicoes de activismo "reflexivo" e activismo productivo para um espaco menos neutro, inacabado. na sua ideia de praxis, o marxismo acentua que nossos pensamentos e o processo "reflexivo" sao afectados pela nossa ideologia. e com isto identifico esta ideia, exercida por alguns intelectuais e academicos mocambiquecanos, de rotular os nossos pensamentos como sendo de esquerda ou de direita. e isto parece-me grave porque empurra-nos para conclusoes, e nao para as premissas que ditam o pensamento esquerdista ou de direita na sociedade Mocambicana. e parece muito cedo e forcado buscar da experiencia mocambicana ( politica, social, economica, identitaria) uma definicao ideologica do pensamento productivo e "reflexivo".
como disse anteriormente, este debate entre estes dois campos, na blogsfera, pareceu que estava a produzir nada a nao ser um conjunto de silogismos e pensamentos linchadores. e hoje sou obrigado a reconhecer que clarificou algumas questoes que tem haver com a necessidade estimular uma cultura de debate de ideias, de reflectir mais sobre a fragilidade dos espacos de negociacao de conclusoes, e do falso entendimento que temos da comunicacao e dos seus intrumentos.
caro jorge, perfeitamente de acordo contigo. penso que é importante reflectirmos reflectindo como bem dizes. no prefácio de "o capital" marx escreveu o seguinte: "parto do princípio, como é evidente, de que o leitor desta obra é alguém que quer aprender algo novo e, por isso, quer pensar por si próprio". não sei quando é que os pseudo-marxistas meteram na cabeça que marx era para decorar e seguir religiosamente. ele próprio advertiu: pensar por si próprio!
caro elisio! ah sim, esse prefacio, o marx eleva a ideia do individuo, da autonomia moral e politica do individuo. por isso a minha tentativa de reflexao na andorinha de mugabe.
sera possivel enaltecer os valores da esquerda, sem questionar o seu pensamento? este o meu dilema.
bom ano de 2008 elisio.
boa pergunta, mas lá está: o que são valores da esquerda? o que faz de um valor um valor? não haverá por detrás (ou no fundo) de todo o valor um substracto humano? porque a preocupação pela justiça é só da esquerda? é? estás a ver, jorge, esses dilemas surgem como resultado destas classificações inoportunas. o que há de humano em nós que nos faz emular certas coisas e torcer o nariz perante outras? essa é que é a questão. em julho de 1865 marx escreveu para engels o seguinte: "agora, em relação à minha obra vou te dizer a verdade pura sobre ela. quaisquer que sejam as suas deficiências, a vantagem dos meus escritos é de que eles constituem um todo artístico". jorge, marx era muito mais interessante do que os seus seguidores! ele convida-nos a desenvolver um sentido estéctico em relação à sua obra. malta lénine não leu bem marx... para ti também bom ano de 2008!
elisio! gostei essa da malta lenine, essa expressao muito a mocambicana, o nosso lado estetico no argumento. "gramei maningue", e mesmo boas festas.
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