Há coisas difíceis de entender. As nossas guerras e conflitos em África, por exemplo. Como é que são possíveis? A Costa do Marfim, gente, um país pacato e de repente aquilo! O Quénia, amigos, tão calmo e depois aquilo! Como é que são possíveis coisas tão horríveis como matar o outro por ser de um outro grupo político, étnico ou religioso? Como? Como se explica esta tendência suicida entre nós? A Iolanda Aguiar ofereceu-me uma vez um livro de um jornalista francês com o título “Negrologia”. Um livro horrível, diga-se de passagem, pela fraqueza da tese, mas um livro altamente instructivo sobre os perigos de conclusões rápidas. E o autor colocava as mesmas perguntas que estou a colocar agora: de onde vem esta apetência pela auto-destruição? A resposta dele era de que os negros são assim mesmo, gostam de se matar uns aos outros. É quase genético.
Porque é que estou a colocar estas perguntas? É porque as manifestações que ocorrem agora no país estão a proporcionar elementos muito interessantes para percebermos um pouco da morfologia desta aparente tendência suicida entre nós. Não é genético. Parece mais um problema ligado à nossa incapacidade de articular a nossa fala com o que acontece em resultado da nossa fala. É uma manifestação perversa da fala sem consequências. O que falamos não nos compromete de nenhuma maneira. Falamos simplesmente. Há gente a saltitar de rigozijo pela licção que o povo está a dar ao governo. Vão de tumulto em tumulto à procura das notícias que vão acontecendo. É uma espécie de CNNeanização do nosso quotidiano intercalado com conceitos pesados da sociologia a contextualizar a coisa. Os jovens que se fazem à rua não precisam de reflectir, não precisam de saber de antemão porque se fazem à rua. Alguém vai racionalizar. E essa racionalização vai justificar o que eles vão fazer na rua.
Há dois anos li um livro auto-biográfico de um escritor húngaro-canadiano cujas referências não tenho a mão. Uma parte interessante desse livro era a descrição das experiências do autor no final da segunda guerra europeia. Ao ler essa descrição apercebi-me de uma coisa muito interessante: o que vemos no Quénia hoje ou vimos na Costa do Marfim ontem ou vimos em Moçambique na década de oitenta e desde a terça-feira da semana passada não é a reacção de africanos à adversidade. É a reacção do Homem à adversidade. Todo o ser humano na adversidade reaje desta forma. Simples, mas muito pertinente. Isso tem me ajudado a fugir da essencialização das coisas e do comportamento. Mas agora tenho que acrescentar mais um elemento: quando o homem reaje à adversidade não tem paciência para olhar ao seu redor. Reaje simplesmente. Será isso que explica a aparente incapacidade de sermos mais ponderados na análise do que está a acontecer ao país? Teremos mesmo que esperar até ser tarde demais para nos darmos conta do nosso próprio papel e da nossa própria responsabilidade em tudo quanto correr mal?
É difícil dizer isto, pois este não é o momento para exigir unanimidade na abordagem do país. A diversidade é muito importanten, justamente agora. E da mesma maneira que pela nossa celebração incauta das coisas podemos contribuir para as piorar os nossos governantes deviam ter pensado melhor nas consequências das suas omissões e actos. A questão é: basta dizermos apenas que os culpados são os outros que criaram esta situação? Basta? Não temos nenhuma responsabilidade no que vier a acontecer ao país? Como podemos exercer a nossa liberdade de expressão sem a inviabilizarmos de vez?
As coisas da vida são difíceis.
4 comentários:
Ilustre Elisio Macmo
Lí a sua reflexão e achei pertinente, tem a sua razão de ser, já escrevi algumas coisas sobre o papel que cada um de nós tem face ao crítico cenário que se nos apresenta. Minha constatação foi de que infelizmente, ainda não somos povo unido e humilde. Não quero sugerir unanimidade, mas a união na diversidade, isto é, saber reconhecer que as ideias complementam-se, este exercício humildade. Uma tese chamaou-me atenção no seu texto: os negros são assim mesmo, gostam de se matar uns aos outros. E pergunto e a outra raça não gosta? Será que o negro gosta mesmo? Quem está a matar em Beirute, Bagdad? São negros? É verdade que existem alguns focos de conflitos nos territórios negros, permita-me dizer que um dos motivos das guerras tem haver com choque das civilizações. Entramos no projecto da aldeia global e o mais poderoso é que se auto afirma, aniquila todas manifestações sócio-culturais e politicas do mais fraco, dita regras, acultura os pobres e fracos. Aí está a origem das guerras, o pobre senti que pode ter mais dignidade, traça mecanismos e entra na guerra. O pobre não é só o negro, aliás ele sempre se demostrou pacífico, daí que usou Golpel para se comunicar com Deus e buscar a solução das suas aflições, ele sempre fez filhos para ajudarem a trabalhar, o branco sempre quis comprar e/ou capturar escravos.
O ser diz falando, e concordo quando diz que Parece mais um problema ligado à nossa incapacidade de articular a nossa fala com o que acontece em resultado da nossa fala, pois em muitos casos são os dógmas da incomunicabilidade que criar tumultos.
Phambeni
caro lázaro bamo, obrigado por passar por aqui e deixar um comentário. repare que a questão da responsabilidade intelectual é ainda mais complicada do que a expuz aqui. na verdade, o exercício de responsabilidade pode conduzir a uma situação em que, pelo silêncio, entramos em conluio com o que é mau. penso que só a integridade intelectual é que nos pode safar. olha, a ideia de que "os negros são assim mesmo" não é minha, não me articulei muito bem. é desse jornalista francês. concordo consigo que a questão não se explica dessa maneira. tentei dar indicações disso no parágrafo seguinte. abraços
Desculpe, sera que poderia facultar-me as referências do livro auto-biográfico do escritor húngaro-canadiano supracitado? agradeço-lhe de antemão a atenção dispensada.
o autor chama-se stephen vizinczey e o título do livro é éloge des femmes mûres, éditions du rocher.
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