quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A fala sem consequências XIV

Da responsabilidade intelectual

Há coisas difíceis de entender. As nossas guerras e conflitos em África, por exemplo. Como é que são possíveis? A Costa do Marfim, gente, um país pacato e de repente aquilo! O Quénia, amigos, tão calmo e depois aquilo! Como é que são possíveis coisas tão horríveis como matar o outro por ser de um outro grupo político, étnico ou religioso? Como? Como se explica esta tendência suicida entre nós? A Iolanda Aguiar ofereceu-me uma vez um livro de um jornalista francês com o título “Negrologia”. Um livro horrível, diga-se de passagem, pela fraqueza da tese, mas um livro altamente instructivo sobre os perigos de conclusões rápidas. E o autor colocava as mesmas perguntas que estou a colocar agora: de onde vem esta apetência pela auto-destruição? A resposta dele era de que os negros são assim mesmo, gostam de se matar uns aos outros. É quase genético.

Porque é que estou a colocar estas perguntas? É porque as manifestações que ocorrem agora no país estão a proporcionar elementos muito interessantes para percebermos um pouco da morfologia desta aparente tendência suicida entre nós. Não é genético. Parece mais um problema ligado à nossa incapacidade de articular a nossa fala com o que acontece em resultado da nossa fala. É uma manifestação perversa da fala sem consequências. O que falamos não nos compromete de nenhuma maneira. Falamos simplesmente. Há gente a saltitar de rigozijo pela licção que o povo está a dar ao governo. Vão de tumulto em tumulto à procura das notícias que vão acontecendo. É uma espécie de CNNeanização do nosso quotidiano intercalado com conceitos pesados da sociologia a contextualizar a coisa. Os jovens que se fazem à rua não precisam de reflectir, não precisam de saber de antemão porque se fazem à rua. Alguém vai racionalizar. E essa racionalização vai justificar o que eles vão fazer na rua.

Há dois anos li um livro auto-biográfico de um escritor húngaro-canadiano cujas referências não tenho a mão. Uma parte interessante desse livro era a descrição das experiências do autor no final da segunda guerra europeia. Ao ler essa descrição apercebi-me de uma coisa muito interessante: o que vemos no Quénia hoje ou vimos na Costa do Marfim ontem ou vimos em Moçambique na década de oitenta e desde a terça-feira da semana passada não é a reacção de africanos à adversidade. É a reacção do Homem à adversidade. Todo o ser humano na adversidade reaje desta forma. Simples, mas muito pertinente. Isso tem me ajudado a fugir da essencialização das coisas e do comportamento. Mas agora tenho que acrescentar mais um elemento: quando o homem reaje à adversidade não tem paciência para olhar ao seu redor. Reaje simplesmente. Será isso que explica a aparente incapacidade de sermos mais ponderados na análise do que está a acontecer ao país? Teremos mesmo que esperar até ser tarde demais para nos darmos conta do nosso próprio papel e da nossa própria responsabilidade em tudo quanto correr mal?

É difícil dizer isto, pois este não é o momento para exigir unanimidade na abordagem do país. A diversidade é muito importanten, justamente agora. E da mesma maneira que pela nossa celebração incauta das coisas podemos contribuir para as piorar os nossos governantes deviam ter pensado melhor nas consequências das suas omissões e actos. A questão é: basta dizermos apenas que os culpados são os outros que criaram esta situação? Basta? Não temos nenhuma responsabilidade no que vier a acontecer ao país? Como podemos exercer a nossa liberdade de expressão sem a inviabilizarmos de vez?

As coisas da vida são difíceis.

4 comentários:

Lázaro M.J.D.M Bamo disse...

Ilustre Elisio Macmo

Lí a sua reflexão e achei pertinente, tem a sua razão de ser, já escrevi algumas coisas sobre o papel que cada um de nós tem face ao crítico cenário que se nos apresenta. Minha constatação foi de que infelizmente, ainda não somos povo unido e humilde. Não quero sugerir unanimidade, mas a união na diversidade, isto é, saber reconhecer que as ideias complementam-se, este exercício humildade. Uma tese chamaou-me atenção no seu texto: os negros são assim mesmo, gostam de se matar uns aos outros. E pergunto e a outra raça não gosta? Será que o negro gosta mesmo? Quem está a matar em Beirute, Bagdad? São negros? É verdade que existem alguns focos de conflitos nos territórios negros, permita-me dizer que um dos motivos das guerras tem haver com choque das civilizações. Entramos no projecto da aldeia global e o mais poderoso é que se auto afirma, aniquila todas manifestações sócio-culturais e politicas do mais fraco, dita regras, acultura os pobres e fracos. Aí está a origem das guerras, o pobre senti que pode ter mais dignidade, traça mecanismos e entra na guerra. O pobre não é só o negro, aliás ele sempre se demostrou pacífico, daí que usou Golpel para se comunicar com Deus e buscar a solução das suas aflições, ele sempre fez filhos para ajudarem a trabalhar, o branco sempre quis comprar e/ou capturar escravos.

O ser diz falando, e concordo quando diz que Parece mais um problema ligado à nossa incapacidade de articular a nossa fala com o que acontece em resultado da nossa fala, pois em muitos casos são os dógmas da incomunicabilidade que criar tumultos.

Phambeni

Elísio Macamo disse...

caro lázaro bamo, obrigado por passar por aqui e deixar um comentário. repare que a questão da responsabilidade intelectual é ainda mais complicada do que a expuz aqui. na verdade, o exercício de responsabilidade pode conduzir a uma situação em que, pelo silêncio, entramos em conluio com o que é mau. penso que só a integridade intelectual é que nos pode safar. olha, a ideia de que "os negros são assim mesmo" não é minha, não me articulei muito bem. é desse jornalista francês. concordo consigo que a questão não se explica dessa maneira. tentei dar indicações disso no parágrafo seguinte. abraços

Anónimo disse...

Desculpe, sera que poderia facultar-me as referências do livro auto-biográfico do escritor húngaro-canadiano supracitado? agradeço-lhe de antemão a atenção dispensada.

Elísio Macamo disse...

o autor chama-se stephen vizinczey e o título do livro é éloge des femmes mûres, éditions du rocher.