quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Vozes que faziam falta

Por exemplo, Lina Magaia

A Lina Magaia publicou hoje (ler aqui) uma carta de leitores no jornal Notícias com um teor muito oportuno e bastante perspicaz. Ela lamenta que já não haja grupos dinamizadores. E tem razão. Tanta razão! É claro que os grupos dinamizadores daquele tempo e naquela concepção fazem bem em não mais existirem. Mas estruturas de base onde as pessoas se interpelam localmente, essas fazem falta. Muita falta. Lina Magaia tem muita razão. Engana-se apenas quando concebe essas estruturas de base como representantes do Estado na base. Ela diz isso numa frase que vai assim “os grupos dinamizadores devem ser as instituições que representam o Estado na base”. Não, não deviam ser isso. Deviam ser mesmo estruturas locais que representam as pessoas, os seus interesses e documentam a sua vontade de identificar e atacar os seus próprios problemas. De baixo para cima!

É, contudo, bastante salutar ler este tipo de reflexões neste momento difícil que o país está a atravessar. O Machado da Graça também, num texto bastante crítico que circula pela internet e que veio cair à minha caixa de correio, levanta, no meio das acusações habituais de roubos e injustiças, questões extremamente pertinentes sobre os verdadeiros desafios que estas manifestações nos colocam: o desafio de o nosso sistema político dar voz às pessoas. É deste tipo de reflexão que o país precisa muito e não da justificação do que as pessoas estão a fazer.

4 comentários:

AGRY disse...

A criação de estruturas de base libertas das amarras dum Estado burocrático, e paternalista, e distanciadas, q.b., da luta partidária, e com base em práticas de outras estruturas similares existentes, ou já experimentadas, na sociedade moçambicana, parece-me uma ideia muito sedutora.
O problema aqui, como noutras situações semelhantes, é saber quem oferece credibilidade e interesse num debate desta natureza, a nível nacional

Elísio Macamo disse...

caro agry, obrigado por este reparo oportuno. por acaso, eu comentava num outro blogue que a nossa tragédia reside justamente aqui. as nossas respostas são, no fundo, perguntas. quem põe o guizo ao gato? quem vai oferecer a credibilidade e interesse num debate desta natureza? estamos todos quase que contaminados porque, infelizmente, está forte entre nós a ideia de que tudo é política. o meu palpite é de que temos que investir em estruturas locais que reconheçam e encorajem a diversidade de interesses e transformem o estado em garante da transparência. não vai ser de um dia para o outro, mas se na base disso tudo estiver o encorajamento da responsabilidade individual podemos entreter algum optimismo.

AGRY disse...

A politica, enquanto forma de intervenção, distanciando-se, portanto da politica profissionalizante, é omnipresente.
Desde logo, as nossas mais, ou menos, ingénuas atitudes são o reflexo das nossas convicções politicas. Não há volta a dar.
Não se trata, aqui, de bipolarizar o mundo e as ideias.
As politicas, económicas, da educação, da cultura, sociais, etc., obrigam-nos a fazer opções .
Será que o podemos fazer sem nos envolvermos politicamente? Podemos ser neutros ao privilegiar, por exemplo, o Estado social em detrimento das opiniões neo-liberais que defendem a sua abolição? Enfim…interrogações
Um abraço

Elísio Macamo disse...

caro agry, mais perguntas oportunas e pertinentes. obrigado. o privilégio que damos a uma ou outra abordagem não pode ser politicamente neutro porque estamos a agir de acordo com interesses e preferências normativas. a neutralidade torna-se necessária, quanto a mim, quando se trata de reflectir sobre como garantir que cada um de nós seja capaz de articular os seus interesses e preferências. penso que a redução de quase tudo à posição política nos impede de identificar estes espaços de manifestação da diversidade de interesses (políticos). o meu receio aí é que a gente caia numa posição maquiavélica (quando temos poder) ou nihilista (quando ainda aspiramos ao poder). portanto, a questão é mesmo de saber como garantir que a diversidade de interesses numa sociedade não seja pretexto para a repressão, mas sim para a abertura do e insistência no debate público?