quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Xithlangu III

Animal político

Hoje quero debruçar-me sobre uma frase que me parece estar na base de muitos equívocos entre nós. A frase é da autoria do filósofo grego Aristóteles e diz que o homem é um animal político. Entre nós, alguns intelectuais têm se servido desta frase para defender a ideia de que o que determina a nossa acção é essencialmente político. Por extensão, e num entendimento bastante problemático do marxismo, diz-se também que nenhuma ciência é objectiva e que todo aquele que reclama objectivade para si próprio está apenas a fazer política por outros meios.

A posição, bem analisada, é absurda, pois a sua plausibilidade não depende daquilo que ela apregoa, nomeadamente as motivações políticas, mas sim da própria realização da verdade nas proposições que faz. Dito de outra maneira, aceitar a ideia de que tudo é política não depende apenas do facto de eu ter interesses políticos a defender. Eu posso aceitar essa ideia simplesmente por achar que, independentemente do benefício que eu for tirar ou não, essa ideia faça sentido.

Mas não é só absurda. É nihilista. Assenta numa visão do mundo que opõe simplesmente interesses políticos em competição e deixa sempre a possibilidade de imposição da vontade de uns pela força. Na verdade, se tudo é política e não existe outra maneira de decidir sobre a racionalidade do que dizemos senão pelo interesse, não vejo nenhum incentivo para que procuremos identificar os interesses políticos dos outros e acomodá-los aos nossos. A força parece-me, nessas circunstâncias, sempre a melhor opção. Estamos aqui em presença de Nietzsche e da sua vontade de poder.

Voltemos, todavia, a Aristóteles. O que é que ele queria dizer com a sua frase segundo a qual o homem é um animal político? Queria mesmo dizer o que alguns de nós supomos? Não creio. Aristóteles estava preocupado em identificar subsídios filosóficos que legitimassem o uso da razão na fundamentação da liberdade do homem. Isso significava, em primeira linha, libertar o homem do jugo das forças da natureza, isto é concebê-lo como ser pensante que sabe formular as suas opiniões, defendê-las perante outros e fazer planos de vida. Esta liberdade não era possível no reino da natureza; só no reino humano, na cidade (polis) é que isso era possível. Portanto, o homem é animal político porque é da cidade, isto é porque realiza as condições da sua liberdade no debate com outros. Longe, por conseguinte, de Aristóteles, esta ideia perniciosa de que o homem só está preocupado consigo próprio. A ideia de que o homem é um animal político refere-se às condições de realização da sua liberdade longe do jugo das forças da natureza e da biologia, mas na presença de outros homens.

Penso que a nossa integridade intelectual fica em perigo sempre que aparece alguém a dizer este tipo de disparate. Isto não significa, contudo, que considerações normativas não desempenhem nenhum papel na produção de conhecimento e no debate público. Nem significa que precisemos de uma ideia positivista e naturalista da verdade. Podemos muito bem operar com um conceito de verdade que é apenas regulador da nossa comunicação. A sua utilidade residiria apenas no tipo de critérios de referência que nos proporcionaria para termos a certeza de que estamos a ser entendidos por outros e que entendemos o que os outros nos querem dizer, independentemente das posições políticas que essas pessoas defendem. Se Édson Macuácua gritasse “fogo” no cinema África durante um concerto bastante concorrido de Azagaia não havíamos de o ignorar só porque é membro dirigente da Frelimo.

Quer me parecer que o recurso a esta máxima aristoteliana entre nós tem o objectivo de evitar o debate de ideias. É sintomático que em algumas das controvérsias em que tenho estado envolvido nos últimos tempos na blogosfera seja bastante fraco o interesse pela discussão de ideias. Percorri há alguns dias um bom número de postagens no meu blogue (sobre a Ministra da Mulher e Acção Social, sobre o Ministério do Interior, sobre o PGR, sobre Mugabe, sobre aspectos do Marxismo, sobre a EDM, sobre algumas ideias de Carlos Serra, etc.) e constatei, assustado, que embora exista um grupo de comentadores que se preocupa em discutir a substância do que escrevi, outros fazem voos de imaginação que de longe ultrapassam os assuntos sobre os quais escrevi. Consternante é constatar que estes últimos são, na sua maioria, pessoas que pela sua maneira de escrever (quando são anónimos) ou pelo que escrevem noutros blogues, se consideram “críticos” no sentido militante que emprestamos ao termo no nosso país. Outros ainda nem comentam directamente, fazem insinuações caricaturadas das ideias aqui expostas. Nunca vi em nenhum blogue que se considere defensor de posições contrárias às minhas uma exposição honesta e fiel das ideias que defendo antes de serem criticadas. E tudo isto é em nome do animal político em nós que transforma o debate de ideias numa confrontação de interesses políticos incomensuráveis.

Eu acho que os que andam pela blogosfera com interesse também de contribuir com as suas ideias para o desenvolvimento de uma esfera pública responsável não podem continuar por muito tempo na fronteira entre a irresponsabilidade intelectual e o debate de ideias. Precisam de tomar posição. Ter ideias diferentes sobre a natureza dos problemas do país não significa que não possamos discutir honestamente entre nós. Representar fielmente as ideias dos outros, ler atentamente o que escrevem e interpelar isso são coisas simples, mas essenciais à comunicação entre gente responsável.

Porque é que custa perceber coisas tão simples? É porque sou (tido como sendo) da Frelimo?

5 comentários:

Patricio Langa disse...

Tive uma discussão interessante com uma amiga Brasileira sobre a(s) fronteira(s) entre a política e a ciência. Não vou reproduzir o debate aqui. Saltou-me a memória uma afirmação dela, segundo a qual os “grandes” ciêntistas Brasileiros (pelo menos nas áreas das ciências humanas e sociais) se engajaram politicamente de alguma forma. Deu exemplos, como o de um dos poucos académicos negros de “sucesso”: Milton Santos, e Gilberto Freire. Concordei que se pode dar o caso de termos ciêntistas politicamente engajados. Mas isso não significava que a ciência e politica fossem empreendimentos idênticos ou similares, muito menos que se confundissem. Defendi que os príncipios e critérios de legitimação e validade dessas duas instituições são, intrinsecamente, bem distintos. Não queria dizer, no entanto, que um cientista não podia ser politico e vice-versa. Ademais, dizia eu que nada nos garante que a duração da “reputação” de um ciêntista coincide com da sua acção como político. Pode se dar o caso de um cientista fazer ciência – de facto- por um período relativamente cursto e depois passar a vida a fazer política disfarçada em ciência ou legitimada como ciência. Há alguns que fazem uma carreira política aos ombros de um período curto de produção académica. Em contextos como o Moçambicano onde a academia é morbida isso é ainda mais suceptível de ocorrer. Aí começam, alguns, a usar o seu capital científico e simbólico acumulado, mais muitas vezes não renovado com novo sabe e mesma postura de cientista, para legitimar posições políticas. O Bourdieu dos anos 2000 é bem distinto do Bourdieu da Argelia, dizia eu.

Anónimo disse...

O problema de Mocambique sao os seus criticos. Interessante! Mas quem sao os criticos de Mocambique, onde estao, como os identificar. Seria bom para o pais se os seus problemas fossem politicas de desenvolvimento, visao politica, solucoes estruturais para problemas estruturais, pensar criticamente os termos de negociacao com os parceiros, Banco Mundial e FMI, incentivar a producao interna e nao o endividamento, interessar se mais pelo desenvolvimento social e nao conformar se com o crescimento macroeconomico. Seria bom para mim. Mas nao, o problema de Mocambique sao os seus criticos. Grande conclusao esta.
Parece, que tanto confrontacao ridicula com posicionamento de Carlos Serra o prodessor acabou alinhando tambem na ridicula caricaturacao dos argumentos.
Para mim que tenho acompanhado debates em Mocambique, em mocambique, porque a esfera publica nao comeca nem se esgota no bloguismo, ou no blogue de Carlos Serra.Por exemplo, ontem, terca feira, a STV promoveu um interessante debate sobre as possiveis opcoes politicas faces aos problemas que se colocam no momento. Pobre Jeremias nao sabia que o problema de Mocambique sao os criticos, porque professor Macamo e Patricio Langa sao os unicos a prestar um servico relevante a esfera publico. E la estavam o Jaime macuane, o Jose Cabaco e o Castel Branco. Durante duas horas so confirmaram que os criticos sao o problema de Mocambique. Por que, porque confirmaram que as politicas de desenvolvimento que seguimos nao se adequam aquilo que e a nossa cultura. Confirmaram que ha problemas de espacos de negociacao e de participacao, que tendemos a destatizar areas sensiveis como transportes urbanos, confiamos no chapa, dai os resultados que temos. Quando alguem argumenta assim e critico com aspas. Pra nao se lo tem perguntar apenas, o que torna possivel isto, em que medida, como, quando, ate que ponto, perguntar, perguntar, perguntar, se avanca hipoteses sera aspeado. Se culpar o Governo sera aspeado. VoltAREI AO DEBATE ESTOU A ESCREVER COM MUITOS PROBLEMAS.
sOBRE A MINHA IDENTIFICACAO, ACHOQUE NAO PRECISO, SOU CRITICO, COM ASPAS,

Elísio Macamo disse...

caro patrício, eu acho que a distinção é de facto bicuda e difícil de fazer. o importante, contudo, é que esteja claro que tipo de critérios devem estar na base da avaliação de um argumento. critérios académicos não servem muito na política e vice-versa.
caro anónimo, levanta questões importantes, mas faz isso à maneira típica dos nossos "críticos". eu acho que temos um problema muito sério da crítica em moçambique, mas isso não significa que os únicos que sabem e podem criticar só sejam o patrício langa e eu, nem que todos que se pronunciam criticamente em moçambique o façam como os "críticos" o fazem. as questões levantadas pelas pessoas que menciona são as questões que em minha opinião deviam ser o objecto da nossa reflexão como críticos sem aspas. são bem vindas não porque seja eu a exigir isso, mas porque o interesse do país exige isso. penso que o que tenho escrito tem mostrado claramente a que tipo de "críticos" me dirijo. e sim, estes "críticos" constituem um grande problema para o país porque nos desviam do que é essencial e importante. em nenhum momento caricaturei argumento de quem fosse; em nenhum momento exigi apenas o tipo de perguntas que o anónimo me atribui; antes pelo contrário, tenho feito questão de tentar também identificar o que está em questão e de destacar aqueles que, mesmo entre os "críticos", levantam as questões fundamentais. destaquei, por exemplo, a intervenção de machado da graça quando ele chamou atenção para a necessidade de haver mais diálogo entre governantes e sociedade. acho que para participar no debate público de ideias é preciso muita soberania individual. reduzir tudo quanto tenho estado a escrever aqui à ideia de que só eu é que sei o que está correcto não é uma crítica a mim, mas sim um comentário ao seu amor-próprio. siga as suas próprias palavras e não caricature o que eu estou a argumentar, nem exagere.

Aguiar disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tomás Queface disse...

Gosto muito de acompanhar os debates, isso faz com que eu desenvolva idéias para quem sabe, transformá-las em acções. Tenho feito críticas umas e outras vezes, no Jornal Notícias, mas certo dia, vi uma crônica do Elísio Macamo dizendo que a coragem dos moçambicanos não faz dos moçambicanos críticos. Eu queria perceber, da sua parte como ser um verdadeiro crítico. Ou como abordar os assuntos de carácter crítico? Não fiz nenhum estudo sobre a crítica social mas do meu ponto de vista criticar é dizer o que não está bem para ajudar a melhorar. o problema de Moçambique são os seus críticos! Gostava que o Senhor Macamo fizesse um discurso breve e preciso de como ser um crítico. Penso que o senhor tem largas experiências nessa área e em vez de lamenta pudesse nos transmitir as suas idéias. Abraço!