Desenvolvimento reflexivo
A reflexão que acabo de fazer vai deixar um sabor amargo naqueles que acreditam genuinamente na ideia de que a corrupção é um problema muito sério no nosso país e que ela também explica os nossos problemas de desenvolvimento. Penso que essa é uma sensação legítima que resulta de uma verdadeira preocupação com a sorte do país. Por essa razão, espero que essas pessoas tenham abertura de espírito suficiente para serem receptivos a outras formas de pensar o problema. Não espero que disso resulte uma rejeição das posições que até aqui assumiram. Espero, isso sim, um melhor conhecimento de causa para sustentar a ideia que hoje têm da corrupção e do papel que ela desempenha no devir do nosso país. Isso é o mínimo que se pode esperar de alguém que tem ideias por defender e toma decisões com base nessas ideias.
A reflexão que fiz até agora leva-me a concluir – a reforçar, na verdade, uma ideia que já tenho há muito tempo – que a corrupção não é o problema que dizem ser, mas mesmo assim devemos ficar preocupados. A corrupção tornou-se, em minha opinião, num instrumento de trivialisação da nossa política, mas também numa cortina que não nos permite ver os problemas sérios que a dependência do auxílio externo está a criar no nosso seio. Penso que a luta contra a corrupção deve prosseguir, mas de maneira fundamentalmente diferente. Não devia ser a corrupção tal como é definida pela indústria do desenvolvimento, mas sim a corrupção no sentido de tudo quanto torna esse discurso possível. Vou explicar esta ideia com recurso a Ulrich Beck e a Amartya Sen. O primeiro é sociólogo alemão e escreveu um livro praticamente fundador da sociologia do risco; o segundo é economista indiano que deu grandes impulsos à indústria do desenvolvimento com a sua ideia de que capacidades são mais importantes do que o rendimento per capita na apreciação do desenvolvimento.
Ulrich Beck descreve aquilo que ele chama de sociedade de risco como um momento particular na afirmação da modernidade. Para Beck só agora é que estão reunidas as condições para que a modernidade verdadeiramente se materialize. No momento da industrialização, por exemplo, a ideia da modernidade não tinha sustento empírico. A modernidade falava de igualdade, emancipação social, etc., ao mesmo tempo que recusava direitos políticos às mulheres (na Europa), direitos políticos aos não-europeus (com o colonialismo) e direitos sociais aos trabalhadores. Hoje e por razões que não interessa agora desfiar, mas estão ligadas ao aumento de riscos tecnológicos, há uma redescoberta da política que cria e alimenta no seio das sociedades humanas um interesse cada vez mais forte na realização dos ideiais da modernidade. É a isto que Beck chama de modernidade reflexiva. Isto é, em reacção à própria modernidade as pessoas estão agora a exigir contas a ela. Anthony Giddens, o sociólogo britânico, fala da mesmíssima coisa na sua reflexão sobre as “consequências da modernidade”. Penso que a ideia de uma modernidade reflexiva pode ser utilizada para pensar também o auxílio ao desenvolvimento.
Conforme tentei demonstrar nesta série, o auxílio ao desenvolvimento assenta numa visão teleológica e escatalógica do mundo. É uma visão que prevê o fim da história quando ela devia, na realidade, apostar na história como o verdadeiro destino do desenvolvimento. Dito de outro modo, a indústria do desenvolvimento tem dificuldades, do ponto de vista conceptual, de ver que o desenvolvimento se faz nas coisas do dia a dia. Isto é, a indústria do desenvolvimento tem uma concepção não-reflexiva do próprio desenvolvimento. É tudo ou nada. Acho que precisamos de uma visão reflexiva do desenvolvimento capaz de subverter a ideia de que o desenvolvimento é o fim. O desenvolvimento não é o fim, mas sim o meio através do qual nós fazemos a nossa história. Espero um dia elaborar com mais cuidado estas ideias. Por enquanto gostaria apenas de reter a ideia de que a prática do desenvolvimento deve consistir no reconhecimento de que essa prática cria problemas cuja solução constitui a substância do próprio processo de desenvolvimento. O desenvolvimento não devia ser concebido como o fim dos problemas, mas sim como a capacidade de resolver os problemas que ele próprio cria. É neste ponto onde a política se afigura primordial.
Ao definir o desenvolvimento como liberdade, Amartya Sen proporciona-nos subsídios muito importantes para a reflexão. Sen argumenta a partir de uma posição liberal que o coloca muito próximo das ideias do grande filósofo Isaiah Berlin com a sua ideia de liberdade negativa como sendo o que devia orientar a concepção da ordem política liberal. Sen diz que a liberdade é ao mesmo tempo meio e fim do desenvolvimento, uma concepção que me parece infinitamente melhor do que a ideia teleológica da indústria do desenvolvimento na medida em que Sen vê na ideia da liberdade um princípio regulador da nossa acção. Nesse sentido, a história nunca acaba, pois a própria liberdade – como meio – vai criando as condições de sua realização, mas também de sua redefinição. Vemos, aqui, a ideia enunciada já por Beck na noção de modernidade reflexiva e que eu, em vosso nome, tentei tornar útil à própria ideia de desenvolvimento. Um aspecto particularmente importante da visão de Amartya Sen é a ideia de que a liberdade como meio envolve a sua concepção a partir de vários papeis instrumentais que ela desempenha.
Um desses papeis instrumentais que a liberdade desempenha diz respeito ao que Sen chama de transparência política. O argumento é normativo, mas nem tudo em filosofia precisa de ser metafísico. Então, Sen argumenta que a prossecução da liberdade pressupõe um espaço público aberto e previsível dentro do qual as pessoas podem agir com segurança. Isto é, um contexto social caracterizado pela confiança. Isto vai permitir que as decisões tomadas por uns e outros sejam transparentes para todos ao mesmo tempo que assentam em regras claras e universais no sentido da sua aplicação e âmbito. Dito de outro modo, a prossecução da liberdade não pressupõe o fim da corrupção, mas sim a aposta na transparência política que vai limitar o espaço para actos que comprometam a confiança. Não é este o lugar para desenvolver estas ideias com a profundidade requerida, mas tenho em mim que Amartya Sen nos propõe uma abordagem extremamente útil e produtiva para começarmos a contextualizar melhor a corrupção.
Os relatórios e índices de corrupção não vão acabar, apesar de largamente inúteis e mal-informados. Ao lado desse mal, contudo, podiam os nossos combatentes contra a corrupção, mas também os políticos e académicos, começarem a apostar mais em tudo quanto pode tornar o nosso sistema político mais transparente. Não me parece tarefa fácil, mas enquanto insistirmos nas acusações de corrupção vai ser difícil criar condições para começarmos a atacar o mal pela raiz. Logo após as últimas eleições presidenciais e legislativas escrevi uma série de artigos no jornal Notícias com “recomendações” ao novo Presidente. Uma das minhas “recomendações” referia-se a um artigo de Marcelo Mosse que dava conta dos negócios de Guebuza e eu dizia, em reacção ao conteúdo desse artigo, que o novo Presidente faria bem, face a essa situação, em definir regras claras de actuação para que não houvesse conflitos de interesse. Infelizmente, ninguém mais pegou no assunto nessa perspectiva. A preferência geral foi de fazer acusações de corrupção, pedir dinheiro aos doadores para financiarem mais um estudo sobre a corrupção na área X, Z ou Y, colocar o país em índices internacionais e por aí fora. O debate que devia ter havido na nossa esfera pública sobre condições de transparência política ficou refém das preocupações pouco constructivas da indústria do desenvolvimento.
Para mim o problema não se coloca ao nível de saber se mais uma empresa de Guebuza ganhou um concurso ou não. A questão para mim é de saber se essa empresa fez a melhor proposta, se outras empresas tiveram iguais possibilidades de apresentar uma proposta, se o processo de decisão foi influenciado politicamente, se os mecanismos de reclamação e impugnação da decisão estão instalados e têm condições para funcionar, se o aparelho do Estado tem maneira de reagir e se proteger de maus serviços prestados por uma empresa que ganhou um concurso de forma duvidosa, etc. É esta discussão e reflexão que precisamos de ter, e não se Guebuza ou Chissano são ricos, como ficaram ricos e onde têm participações empresariais. Temos que discutir e reflectir sobre a qualidade de serviços prestados por empresas privadas e não ficarmos apenas fascinados com os nomes dos proprietários. Prestam bons serviços? Haveria melhores empresas? Há maneiras de defender o interesse público?
Moçambique nos últimos trinta anos tem sido uma espécie de eldorado para os moçambicanos particularmente empreendedores. A riqueza de muitos não me espanta assim tanto. Durante os anos da Frelimo revolucionária, houve muitos que acumularam riqueza furando as sanções contra a Rodésia, “candongando” no contexto do racionamento, contrabandeando no contexto do controlo centralizado das exportações e importações, açambarcando no contexto do esforço de guerra e aproveitando-se da fraca logística militar; com a liberalização, muitos, sobretudo os que tinham capital político, aproveitaram-se do contexto de formação de uma “burguesia nacional” (?!) para adquirir empresas, terrenos, licenças, casas (que depois alugaram a preços exorbitantes à indústria do desenvolvimento), etc. Mesmo hoje há muitos que vão enriquecendo à custa desse tipo de oportunidades que continuam abertas a um número restricto de moçambicanos sem necessariamente uma afiliação política específica. É lamentável que essa riqueza tenha sido criada desta maneira, mas se não tivessem sido estes os ricos, outros teriam sido. Como diz o ditado xangan, o gato já entornou o caldo. Como prosseguir daqui em diante?
Vamos olhar para o desenvolvimento de uma forma reflexiva; vamos apostar na transparência.
3 comentários:
Elísio,
Excelente reflexão.
A transparência e confiança são cruciais para o processo de desenvolvimento. Para além do economista indiano, vários outros já usaram esses conceitos para explicar o surgimento e desenvolvimento das microfinanças e associado à religião, como uma das razões de um rápido e estável crescimento económico dos tigres asiáticos, como Tailândia, Singapura, Correia do Sul, etc.
Em fim, a sua forma de ver a corrupção convida-nos a repensar cada vez mais no assunto. Precisamos de descer mais à raiz.
Um abraço
elisio, continuo ainda de ferias, e cada vez que espreito na net, estas tuas ultimas postagens obrigam-me que na minha primeira volta ao trabalho vou te colocar aqui algumas "perguntas". ate la um abraco.
genito, penso que esses dois conceitos são cruciais. temos que pensar melhor no assunto. jorge, goze as férias à vontade. para melhorar ideias nunca é tarde. abraços a ambos!
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