Muito mal mesmo. Já não bastava a indiferença do Estado, a corrupção, o crime, as calamidades naturais, os homens armados da Renamo, a dependência do auxílio externo, os opinadores vaidosos, os pregadores morais, a ausência de estudiosos humildes, os funcionários do Ministério do Trabalho e da Saúde que precisam do bafo quente dos seus chefes na nuca para poderem trabalhar, os professores turbo, os sociólogos que se ocupam apenas do sexo dos anjos, a mão externa, o HIV-SIDA, a malária, o aparelho inoperante da justiça, o Presidente da República e seu governo, a Frelimo, a Renamo, o Yaqub Sibindy, o governamental jornal Notícias, o Ministério da Agricultura, o Ministro da Defesa, as relações familiares na política, o Sul, os raptos de crianças e de adultos a soldo de gente negra com sotaque do sul de Moçambique, o apoio de Gaza à Frelimo, os intelectuais de Gaza na diáspora, a censura, a tortura e execução sumária por um governo tirano, o frango brasileiro, a cebola sul africana, a poluição pela MOZAL, a fraude eleitoral, os lambe-botas, o puxa-saquismo, o espírito do deixa-andar, a falta de auto-estima, a pobreza absoluta, o chapa, o preço do combustível, o preço do pão, os madgermane, o lixo em Maputo, as mensagens altamente subversivas dos celulares, os meninos da rua, os meninos na rua, as relações de gênero, o seguidismo, a jatrofa, a arrogância do governo, a exigência de rigor científico às pessoas erradas, os crimes não esclarecidos, o Anibalzinho, o Tchaúque, as fontes anónimas, as altas patentes, a falta de empreendedorismo, o não reconhecimento dos outros heróis, o intelectualismo barato, a Vice-Ministra da Agricultura, as nomeações do Presidente, a necessidade do Prémio Mo Ibrahim, enfim,...
Já não bastava tudo isto. Agora até corremos o risco de perder o povo! Leio por aí análises profundas sobre a situação do país que nos dão conta de um país que vai de mal a pior. O Estado explora o povo; os funcionários do Estado exploram o povo; os criminosos massacram o povo; os vendedores informais infernizam a vida do povo; os chapas maltratam o povo; as crianças não respeitam o povo; os citadinos desprezam o povo; os camponeses abandonam o povo nas zonas rurais e tornam a vida do povo nas cidades difícil. E eu pergunto: afinal quem é o povo? Não são esses membros do aparelho do Estado? Não são os criminosos? Não são os chapas? Não são os camponeses? Estão a perceber? Sempre os outros, mesmo que à força de repetirmos isso eliminemos nós próprios o povo. Ajudem-me, por favor: quem é o povo? Quem se avistar com o povo que me dê um sinal. O meu telefone é 82XXXXX0...
É caso para dizer: tanta árvore junta que até não conseguimos ver a floresta!
4 comentários:
Caro ESM.Uma pista: Os de Maputo (Capital) dizem que o Povo está na Província. Na província dizem que o povo está no distrito. Aqui dizem que o Povo está na localidade. Na localidade dizem que o povo está nas povoações. Aqui dizem que o povo está nas aldeias. Nas aldeias dizem que o povo “esta lá”......
Resumindo: Ninguém quer ser povo. Nando Menete
só queremos ser porta-vozes! obrigado nando, essa é uma boa pista.
Bom eu vou linkar este texto pois tenho recebido alguns comentários (do povo?) reclamando que eu vejo tudo negro e que o povo até está muito bem. Obrigada pela ajuda, a mim falta-me toda essa verve.
sim, o nando está de parabéns pelas pistas que nos deu. também estou à procura do povo...
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