quarta-feira, fevereiro 13, 2008

O fenómeno da bicha XVI

O governo, sempre os outros

O governo não se pode furtar às suas responsabilidades. Isto é mais do que assente. Aliás, isto é algo que encontra logo aprovação em qualquer moçambicano. E com muita razão. O governo tem, em princípio, um mandato da sociedade para fazer coisas em nome dessa sociedade. Creio que esta expectativa teria ainda mais força se, ao mesmo tempo que a levantamos como exigência, não a usássemos para fugirmos às nossas próprias responsabilidades como cidadãos. Infelizmente, somos muito mais rápidos a exigir responsabilidade dos outros – sobretudo do governo – do que de nós próprios.

O fenómeno da bicha está profundamente enraizado no nosso seio. O fenómeno da bicha é aquela inclinação de pensarmos que não somos parte do problema, que o problema vem sempre dos outros. Assim, o problema, seja qual for a sua natureza, só pode ser o governo. Acho oportuno dizer isto no contexto das manifestações contra o custo de vida.

Mas peguemos num exemplo simples: os prédios de Maputo. Quantos prédios têm comissões de moradores a funcionarem a contento? Quantos prédios têm moradores que consideram a limpeza do edifício, o funcionamento da canalização e a organização do estacionamento de carros como sua tarefa? Quantos? Quantos prédios têm moradores que conseguem convencer os outros a contribuir para a manutenção do edifício? Quantos prédios têm comissões de moradores que conseguem disciplinar inquilinos que partilham a sua música com os vizinhos, mesmo que estes não queiram? Culpa do governo? Do município? Da polícia? Em todos os apartamentos de aluguer em que vivi na Alemanha tinha, uma vez por semana ou mês dependendo do número de inquilinos, que limpar as escadas que vão até ao andar inferior e varrer o passeio em frente do edifício. Sem empregado doméstico.

É curiosa a nossa apetência pelo mais fácil. Jean Paul Sartre, o filósofo existencialista francês, dizia que era natural esta tendência humana de procurar o diabo nos outros. Então, vamos todos dizer em côro: não somos nós, é culpa do governo!

5 comentários:

Anónimo disse...

Mais do que repetir o coro com Jean, seria importante explicar o que torna possível a petência moçambicana pelo mais fácil; a possibilidade de pensarmos que não somos parte do problema, que o problema vem sempre dos outros; O que faz com que qualquer moçambicano aprove que o Governo não se pode furtar das suas responsabilidades.
O seu texto explica isso? Ou também justifica a nossa reacção aos problemas. Por que reagimos desta forma aos problemas?
Reagimos assim por natureza?
Saudações!

chapa100 disse...

deviam instituir o imposto da culpa. ai teriamos uma manifestacao a escala nacional.

caro elisio, a questao seria uma reflexao sobre o signfica ser cidadao. e tambem porque preferimos povo e nao sociedade, para designar uma accao colectiva ou uma nacao? ser povo implica o que? e o que devemos ser para ser uma sociedade?

perguntas, so perguntas para partilhar.

Elísio Macamo disse...

caro chapa100, sim, imposto de culpa era boa medida. mas creio que tens muita razão quando falas da cidadania. isto constitui um grande desafio para nós e é por isso que considero o decálogo do sociólogo da autoria de carlos serra um grande contributo para o nosso sentido de cidadania.
caro anónimo, tem razão, não explico essa apetência. mas também não me propuz explicá-la embora no meu último post regresse ao assunto como pode ver. nesta postagem aqui queria apenas chamar a nossa atenção ao que nós também não fazemos. porque é que não fazemos isso (se é que tenho razão nesse palpite)? essa é uma pergunta interessante que o anónimo também, à semelhança do que chapa100 fez, poderia tentar responder. faz parte desta atitude moçambicana simplesmente discordar ou concordar, mas raramente pegar numa proposta e prosseguir com a reflexão. expliquei ou justifiquei o seu comentário?

Anónimo disse...

onde é que se aprende a ser cidadão, em casa ou na escola? quem deve incutir os valores de cidadania a familia ou o estado?

Elísio Macamo disse...

caro anónimo, também não sei dizer onde se aprende a ser cidadão. na escola? em casa? quem tem a responsabilidade de incutir esses valores? a família? o estado? a igreja? a mesquita? não sei, e não sei se é por aí que devemos analisar a questão. penso que o desafio está na construção conjunta de um sentido de cidadania. nós no blogue fazemos isso com os nossos debates muitas vezes acesos que, por vezes, têm a consequência de nos obrigar a aceitar a diversidade de opiniões sem que com isso fique comprometido o nosso sentido de patriotismo.