sexta-feira, fevereiro 01, 2008

A "realidade" da corrupção (V)

A trivialização do político

Aqui estou realmente a abrir um parêntesis. Estou a responder a uma interpelação do Josué Muchanga para elaborar melhor uma afirmação que fiz sobre o papel da indústria do desenvolvimento na trivialização do político em Moçambique. Encaixa muito bem na questão que estou a tratar agora. Escrevi em tempos (1997) um pequeno texto em que tentava analisar o ajustamento estrutural em Moçambique com base no conceito de burocracia de Max Weber e chegava à conclusão de que o resultado dessa intervenção era a trivialisação do político. Dito de outro modo, o ajustamento estrutural tornava o debate político interno irrelevante na procura de opções, pois não havia maneira de contornar as imposições do FMI. Já antes de mim havia sido publicado um livro da autoria de um antropólogo americano, James Ferguson, que fazia as mesmas constatações em relação ao trabalho do Banco Mundial no Lesoto. Ele chamou a essa intervenção de “anti-politics machine”, isto é, máquina anti-política. De cá para lá são inúmeros os trabalhos que dão isto por adquirido. Um dos acréscimos a esta literatura é a noção de “democracias sem opções” (choiceless democracies) de Thandika Mkandawire, um académico de origem malawiana.

Na altura, eu pensava que a trivialisação do político fosse um efeito colateral da intervenção. Hoje já não penso assim. A trivialisação do político é, infelizmente, parte integrante da própria lógica de intervenção. A intervenção assenta no cancelamento da política nos países receptores. Há um mecanismo sociológico que é responsável por isso. Esse mecanismo deriva da inclusão dos países receptores de auxílio no espaço político dos doadores. Essa inclusão, porém, não é feita a título de sujeito político com direitos iguais, mas sim a título de objecto da intervenção política um pouco ao estilo dos pobres e indigentes do século XIX na Europa ocidental que, também, não tinham direitos políticos. Como é que a coisa funciona?

De forma muito simples, racional e legítima. Não há maldade em nenhum momento. O auxílio ao desenvolvimento nos países doadores é resultado de negociação política. Dito de outra maneira, o que se define como quantidade, qualidade e substância do auxílio ao desenvolvimento não é, num primeiro momento, a situação dos países receptores; é, isso sim, o que é no interesse dos países doadores, o que certos grupos nesses países conseguem impor no debate público, os compromissos que partidos políticos fazem sobre um e outro assunto, e por aí fora. Este é um processo político normal que não precisa necessariamente de ter os interesses dos países em desenvolvimento no seu coração. O que importa é o que faz sentido no contexto do debate político interno. E isto é normal na política. Um exemplo para ilustrar isto: no seio da União Europeia há muito os peritos em matérias de desenvolvimento chegaram à conclusão de que é importante que cada país tenha uma política nacional de auxílio ao desenvolvimento; todos os países viram também essa necessidade. Contudo, só em muito poucos países é que se fez isso. E não foi por falta de vontade ou por não se reconhecer a sua importância. Foi, isso sim, porque o assunto precisa de ser discutido, analisado e requer compromissos. É uma questão política. O mesmo se aplica à decisão das Nações Unidas dos anos setenta segundo a qual os países mais ricos deviam dar 0,7% do seu PNB ao auxílio ao desenvolvimento. Quantos o fizeram? Poucos. Por falta de vontade? Não. Porque a questão é política e precisa de ser negociada. Que governo pode se atrever a dar tanto dinheiro a “corruptos” quando no seu próprio país há problemas?

Agora, este auxílio ao desenvolvimento que é decidido politicamente nos países doadores chega aos nossos países como uma coisa técnica. Só que nos nossos países há também seres humanos que têm a tendência natural de decidir sobre a aplicação desse auxílio de forma política. O governo quer favorecer certas regiões que lhe trazem votos; o ministro tal quer reforçar a sua posição perante outro ministro ou concorrentes. Ou por outra, algumas das dificuldades que os “projectos” enfrentam nos nossos contextos adveem do facto de que num primeiro momento são tratados de forma política. E isso é também legítimo. Atenção que não estou a dizer que se devia deixar que o governo atribuísse os fundos da ajuda aos seus amigos. Só que quando isso acontece devíamos, para a saúde do debate público, reconhecer que o governo está a agir de forma completamente racional e legítima. É assim em todo o lado. E é justamente aqui onde começam os nossos problemas. Os doadores, que decidiram a ajuda segundo critérios políticos, não querem, naturalmente, que nós prossigamos com essa discussão política. Eles insistem para que tratemos as suas decisões como coisas técnicas que se subtraiem ao debate público e aos nossos instintos humanos.

Isto leva os doadores a interferirem cada vez mais no nosso processo político justamente para manter o carácter técnico das decisões políticas que eles tomaram. O Embaixador norueguês foi citado há alguns meses pela imprensa como tendo dito que os doadores estavam preocupados com o facto de que o governo não estava a ser suficientemente ambicioso nas suas metas relativas ao combate contra a pobreza. Ele é bem intencionado, disso não há dúvidas, mas esta é uma ingerência de muito mau gosto nos nossos assuntos. Com o apoio directo orçamental, por exemplo, o orçamento é decidido pelo governo e pelos parceiros. O Parlamento vê a banda apenas a passar. Carlos Castel-Branco dizia num relatório escrito para a Ernst & Young que se ignora nestas coisas todas que o governo só pode intervir onde há uma exigência local para esse efeito. Os doadores andam pelo país inteiro a criar procura. É como dizia um especialista alemão destes assuntos, Stefan Musto, quando falava do que ele chamava de razão manipulativa: consiste em forçar sobre os outros perguntas para as quais nós próprios é que temos a resposta.

Uma boa parte das iniciativas do auxílio ao desenvolvimento, suas políticas, projectos e novos conceitos é uma reacção à resistência dos países receptores a serem tratados como objectos da política de outros. Os países receptores de ajuda revelam através desta resistência que são também humanos com direito a cometer os seus próprios erros. Já uma vez escrevi, no rescaldo dos nossos trinta anos de independência, que o perigo que a indústria do desenvolvimento representava para nós consistia justamente no facto de nos estar a negar o nosso direito inalienável de cometermos os nossos próprios erros. O auxílio ao desenvolvimento é hoje esta tensão entre, por um lado, doadores que querem que tudo seja tratado de forma técnica, e, por outro, nós os receptores de ajuda que, como humanos que somos, queremos tratar a ajuda de forma política. Na Alemanha há neste momento uma forte discussão em torno da firma Nokia que tinha uma fábrica numa cidade chamada Bochum. A firma decidiu fechar a fábrica – e mandar ao desemprego centenas de pessoas – por razões economicamente plausíveis. A firma vai construir uma fábrica na Roménia onde diz que os custos da mão de obra são mais baratos. O que torna a questão complicada é que a firma recebeu subsídos da União Europeia para se fixar na Alemanha e, ao que tudo indica, vai receber subsídios da mesma instituição para se fixar na Roménia. Uma boa parte da classe política está agora em alvoroço contra a Nokia. Muitos até prometeram devolver os seus celulares dessa marca em sinal de protesto. Ninguém, à excepção de analistas económicos, está a dizer aqui que não há problema porque a questão é técnica. Ninguém. Estão todos contra. Imaginem a mesma situação em Moçambique? A Texlom não é rentável, é preciso privatizá-la. O Ministro do Comércio e Indústria diz não, não pode privatizar porque não saberia o que fazer com os que vão perder o emprego. Acham que os doadores diziam, “sim, de facto, isso não se faz”?

Então, vamos reter algumas ideias centrais. Primeiro, a perversidade é inerente ao auxílio ao desenvolvimento. os doadores e os cooperantes como pessoas não são maus. Até porque é gente com boas intenções. O sistema é que é perverso. Segundo, a perversidade do sistema vem da tensão que produz entre o político e o técnico, tensão essa que em virtude da correlação de forças que joga a favor dos doadores resulta na negação do político aos países receptores. Aqui também não há nenhuma premiditação. É tudo culpa do sistema. Terceiro, o discurso anti-corrupção é uma das manifestações da reacção dos doadores à resistência dos países receptores. Reconhecer a corruptibilidade humana é reconhecer a necessidade do político. Volto a este assunto na próxima e última postagem, pois é aqui onde reside todo o mal.

13 comentários:

Anónimo disse...

maravilha! venha dai a ultima postagem. Parabens professor. obrigado por partilhar estas reflexões.

Elísio Macamo disse...

de nada. vamos reflectir.

Anónimo disse...

até parece que a ajuda ao desenvolvimento é imposta aos paises receptores?!

Anónimo disse...

Que exagero! agora quer dizer-nos que os corruptos existem porque existe a ajuda ao desenvolvimento? Francamente! So falta dizer que se nao existisse ajuda ao desenvolvimento nao haveria corrupçao... Afinal o que é a corrupçao? é uma questao moral ou uma questao economica? sera que o problema esta mesmo no binomio ajuda ao desenvolvimento vs corrupçao? Ou esta na falta de mecanismos de regulaçao e de regulamentaçao da ajuda externa? esta na falta de mecanismos de controle da cpontabilidade nacional? O problema não estara na ausencia de um estado fiscal? O problema nao estara na falta de definiçao de politicas claras dos paises receptores. Tanto qto sei, a ajuda é decidida politicamente tanto nos paises doadores como nos paises receptores. Mais, noa sao as questoes tecnicas que estao em pimeiro plano. Nenhum tecnico é chamado para discutir um projeto de desenvolvimento. O tecnico tem que se adaptar aos programas decididos e aprovados, pelos politicos. O problema tecnico é relegado para 5° plano, para nao dizer que nao existe. O tecnico pode aparececer a montante e a jusante apenas para dar visibilidade a uma ideia politica. antes de mais estao as decisoes politicas. O que me parece estar em causa é por um lado a capacidade de negociar dos politicos. Por outro lado defenir o papel do politico. Defenir mecanismos tendentes a medir de facto a corrupçao. Afinal o que é essa "coisa" que se deigna corrupçao. é tudo. Desculpe, caso tenha dito alguma asneira grave, corrija-me por favor. Obrigado. Alice Anjos

Elísio Macamo disse...

caro anónimo, a ajuda ao desenvolvimento não é imposta aos países receptores, mas também nenhum país em desenvolvimento se pode permitir o luxo de recusar a ajuda. este é mais um dos problemas que precisamos de perceber em relação aos desafios do desenvolvimento. com fórmulas simples do estilo de recusar a ajuda não vamos perceber o assunto.
cara alice anjos, as questões que levanta (que não são nenhuma asneira) são justamente as questões que estou a tentar responder nesta série de textos. vai reparar que não estou a dizer (veja os comentários na postagem iv) que sem ajuda ao desenvolvimento não haveria corrupção; vai reparar também que não estou a opôr ajuda ao desenvolvimento à corrupção; vai reparar que não estou a negar que a ajuda nos nossos países seja também decidida politicamente, embora diga que a negação disto pela indústria do desenvolvimento constitua um problema sério; vai reparar que não tenho o mesmo entendimento de técnico que a alice anjos tem, isto é, quando falo de ajuda como algo técnico não estou a falar de nenhum técnico, mas sim do processo de negociação do uso dessa ajuda; vai reparar que também levanto a questão da capacidade de negociar dos políticos e também do seu papel. finalmente, vai reparar também que não considero útil a questão da medição da corrupção, pois a ênfase nesse tipo de questões é que constitui o nosso problema. é o carácter, mas também as implicações deste problema, que me interessam.

Anónimo disse...

A propósito da passagem de mais um aniversário do dia dos heróis, eis mais um desabafo que caiu no meu correio electrónico.
A letra:

Heróis somos nós

Camarada valorizemos os nossos simbolos.
Quais simbolos mano?
A tocha da unidade, a praça dos heróis!

Hum! a praça dos curruptos e curruptores
Armados em purificadores de valores morais
Aqueles não são os meus heróis nacionais
Heróis são os habitantes dos bairros periféricos
Heróis são os antigos combatentes com corpos esqueléticos
Herói é o cidadão que trabalha 30 dias por uma salário minímo
E morre nas bichas dos hospitais
Heróis são os doadores de dizimos
A igrejas multinacionais
Heróis são os que pensam que Cabora Bassa agora é dos maçambicanos
Heróis são os que não percebem que está é outra de mais enganos

Estes que vós intitulais heróis são frequentadores de lugares de homosexuais e sexomaniacos
Baixa da cidade e outros demoniacos
Aparece na televisão de quando em vez um senhor chamado Dlakama, que faz drama e reclama estatuto de Herói para André Matsangaissa
É preciso não ter senso de justiça
E preguiça na análise do que seja acto de heroismo
Matar pessoas por ambição e tribalismo
Deixar um país a beira do abismo
Senhor Dlakama não confundas oportunismo com heroismo
Saiba que o heroismo não é feito pelo sensacionalismo
De uma guerra patrocinada pelo ocidente para acabar com o socialismo
E implantar neste país de merda a merda do capitalismo
Um vez finda a guerra fria
Assina uma acordo de paz e declara-se pai da democria
Falsa filosofia
Frelimo, Renamo, Kanimambo por essa guerra fraticida sem causas nem ideias
Que devorou provincias, distritos e aldeias

O povo chora com fome e vocês alimentam-nos com discursos
Sois heróis porque tendes posses e recursos?
Sois heróis porque quanto mais o SIDA prolifera
Cabrões de merda mais dinheiro vós tendes na carteira
Para construirdes universidades e cobrardes propinas em moeda estrangeira?
Sois heróis porque sois patrões de redes de trâfico e pedofilia?
Sois heróis porque ganhais eleições e o país continua a mesma porcaria?
Sois heróis porque desorganizais a policia e organizais o crime?
Não será por tal que o narcotrâfico no país está cada vez mais firme?
Andastes com uma “tocha da unidade” do Rovuma ao Maputo
Como se a unidade nacional fosse um produto!
Senhor presidente enriquece vendendo patos
Venha com mais artefactos
Porque pelo menos eu não sou parvo pra crer em ilusionistas
Infestados nesse teu governo de parasitas

Em comícios falais de corrupção como o mal que enferma o progresso da pútria amada
Corrupção é apenas um nome
O que enferma o progresso da nação é a vossa podridão…


Autor: Xigono

Elísio Macamo disse...

amen!

Anónimo disse...

Desculpe professor se suspeitarmos à partida que a ajuda que nos pretendem dar nao é boa, nao podemos recusar? Porquê? imagina o Prof queria fazer um bolo,a receita levava seis ovos. O Prof so tinha 5 ovos, faltava-lhe um. o seu vizinho oferece-lhe um ovo galado, o senhor aceitaria? o senhor faria o bolo com esse ovo? Porquê? Não estara ai justamente um dos problemas, a nossa incapacidade de definir o que é bom ou mau para o pais? parece-me que nao fazemos o trabalho de casa. nao é? Nao sera este ponto que enfraquece a nossa capacidade de negociação? bem vistas as coisas o doador nada impoe. para impor seria necessario que houvesse resistencia. nao ha. O doador apenas aproveita aqueles espaços onde ele suspeita de antemão que nenhuma resistencia lhe sera oferecida pelos governos dos paises receptores. acresce ao facto que para nos tudo o que vem de fora é bom!

Elísio Macamo disse...

caro anónimo, está a colocar boas perguntas. contudo, elas pecam por dependerem de suposições problemáticas. primeiro, se eu quero fazer um bolo, sou eu apenas; se um país quer fazer um bolo são muitas pessoas. portanto, nem sei se é possível dizer que o país quer fazer um bolo porque os interesses são necessariamente diferentes. acho a suposição problemática porque faz o mesmo que a indústria do desenvolvimento faz, nomeadamente cancelar a política. para a suposição ser útil devia começar pela decisão de fazer o bolo. segundo, raramente a indústria do desenvolvimento oferece ovos galados (podres?); o que ela é de boa qualidade, só no conjunto das suas consequências é que é problemático. terceiro, o problema não é só a nossa incapacidade de definir o que é bom para nós; o problema é também que o que é bom já foi definido e nós temos que aceitar. esta é uma questão pragmática. por exemplo, moçambique tem enormes dificuldades em financiar a sua democracia; se calhar o melhor seria instaurar uma ditadura benevolente para gerir os fundos do auxílio ao desenvolvimento. acha que a "comunidade internacional" deixava? as relações internacionais impõem limites ao que podemos recusar no mundo hoje. não digo isso como crítica, simplesmente como uma constatação que devemos tomar em consideração na reflexão sobre o que enfraquece a nossa capacidade de negociação. finalmente, para alguns tudo o que vem de fora é bom, e o desafio é compreendermos porque é assim, quem são esses "alguns" e porque eles preferem o externo ao doméstico.

Anónimo disse...

Obrigado pela resposta professor Macamo. Estou de acordo consigo no compto geral. Mas nao sera dogmatico dizer que “o que eu quero é diferente do que o pais quer”? Certo, o pais sao muitas pessoas, mas quem toma decisoes noa é o pais. As decisoes nao sao tomadas no plano colectivo. E tanto qto sei, em moçambique, (africa no geral, penso) mtas pessoas ainda nao adquiriram o espirito critico necessario, para se constituirem como contra-poder e , exigirem responsabilidades a quem decide ou se quisermos para influenciarem as decisoes politicas.

Acha que a industria do desenvolvimento cancela a politica? Como? Qual Politica? A dos paises receptores? Existe uma politica nesses paises? A politica é ai pensada e (re)pensada? Existe politica ou alguns homens com ambiçoes (politicas) ? Nao seria justamente a noçao de politica que teria que ser (re)pensada nos paises receptores. Deveriamos nos (re)pensar a nossa poltica? Desculpe, professor, a utilidade da pergunta parece-me, ser justamente, esta, deixar entrever que as tomadas de decisoes, sao elas mesmas problematicas.


“raramente a indústria do desenvolvimento oferece ovos galados (podres?); o que ela é de boa qualidade, só no conjunto das suas consequências é que é problemático” professor macamo, a intençao de quem oferece um ovo galado tbem é boa. Nao? so que o resultado pode ser problematico. Questao: como pensar em resolver este paradoxo? Como inclui-lo em nossas reflexoes, por forma a que os paises receptores possam tirar melhor partido da indutria do desenvolvimento?


“por exemplo, moçambique tem enormes dificuldades em financiar a sua democracia; se calhar o melhor seria instaurar uma ditadura benevolente para gerir os fundos do auxílio ao desenvolvimento. acha que a "comunidade internacional" deixava?” o que é uma”ditadura benevolente”? Existem ditaduras que têm a bençao da “comunidade internacional”! não? Noa seria mais interessante procurar saber porquê que Moçambique tem dificuldades em finaciar a sua democracia? Onde estao as origens dessa dificuldade? É possivel identificar? Uma vez identificada, quais as decisoes a serem tomadas para colmatar essa dificuladade?

Estou de acordo consigo qdo diz que “as relações internacionais impõem limites ao que podemos recusar no mundo hoje”. Contudo isto nao nos impede de tentar. Penso. Pensar nisso como uma possibilidade sera um delirio problematico? Tambem eu propria, (como se calhar mtos de nos) ja cheguei a esta constataçao. Para mim o facto de ter chegado a esta constataçao, ja é uma acçao. Ter consciencia daquilo que enfraquece as nossa capacidades de negociaçoa nao sera, ja, uma vantagem para os paises receptores?

“para alguns tudo o que vem de fora é bom, e o desafio é compreendermos porque é assim, quem são esses "alguns" e porque eles preferem o externo ao doméstico.” Estou de acordo consigo. Mas para conhecermos estes alguns nao teriamos que conhecer o “domestico” as relaçoes que constituem o enredo domestico? Como é que se constitui o domestico? Em relaçao ao domestico ou em relaçoa ao externo? Como é que se constitui o domestico? Sera uma questao economica? Sera com cidadaos capazes de estima e de respeito? Ou sera apenas a ilusao identitaria de se pertencer a um territorio?

Elísio Macamo disse...

caro anónimo, aprecio bastante o interesse que revela pela minha reflexão. congratulo-me pela quantidade de perguntas que ela está a suscitar em si. isso é mais importante para mim do que convencê-lo a mudar de ideias (caso pense de forma diferente da minha). peço-lhe, contudo, que não espere respostas da minha parte porque como pode ver há várias interrogações e ainda bem que é assim. tenho mais interesse em perguntas que mostram que o meu argumento é fraco ou que indicam formas de o tornar mais forte. sendo assim, agradecer-lhe-ia bastante que ao me interpelar me ajudasse também nesse sentido. aqui dou o estímulo inicial e fico ansioso por poder melhorar ainda mais a minha reflexão.
digo isto a propósito do seu último comentário que me obriga a desviar-me do assunto que estou a tratar agora ou a entrar em detalhes que não me parecem relevantes para a substância do que estou a reflectir. por exemplo, a questão de que a minha expressão "o que eu quero não é necessariamente o que todos querem" é dogmática não me parece essencial para a reflexão. era apenas uma maneira de mostrar que o seu exemplo era infeliz. pode ser que não exista um corpo político que tome decisões nos nossos países, mas certamente que as decisões não são tomadas por apenas um indivíduo (mesmo um ditador tem em conta as outras pessoas). sobre o cancelamento da política pela indústria do desenvolvimento já escrevi o suficiente nesta postagem. as questões que levanta a este respeito são importantes, mas não contradizem a tese, aprofundam-na. devolvo a questão do ovo galado a si: como pensar em resolver esse paradoxo? aceita que há um paradoxo? como podemos inclui-lo nas nossas reflexões? o mesmo vale para a questão de saber como moçambique poderia financiar a sua democracia. sim, como? quanto à questão dos limites que as relações internacionais nos impõem está a repetir o que também estou a tentar reflectir. para mim era importante ter isso em conta. agora a questão é de saber como prosseguir a partir daí. finalmente, coloca perguntas interessantes sobre o doméstico e exerno que devolvo a si. como as responderia? e que consequências é que a sua resposta teria para a reflexão que estou a fazer aqui?

Anónimo disse...

obrigado pela sua disponibilidade. Gostraia imenso de colocar questoes pertinentes. infelizmente nao se trata do caso. O seu texto é de facto fascinate. à primeira vista é impossivel nao estar de acordo consigo. masa medida que vou lendo e relendo, duvidas vao-me surgindo. As suas preposiçoes sao fortes e nao estao fechadas. enviam-nos para outras questoes. desculpe ter-lhe obrigado a desviar-se do assunto central. é simplesmente interesse e vontade de aprender. Estes textos nao sao tao simples quanto parecem. ao colocar estas questoes, estou a tentar, colher subsidios que me permitam posicionar em relaçao à sua ideia, afim de formar minha propia opiniao. é so isto. mais uma vez muito obrigado e desculpe o incomodo. pura ignorancia. nao é assunto que domine professor.

Elísio Macamo disse...

caro anónimo, porque é que acha que me incomoda quando lhe peço para me ajudar a reflectir sobre o assunto? acho que levanta questões pertinentes, mesmo que não o sejam para os meus objectivos imediatos. penso que deve colocar a si também o desafio de identificar a pertinência dessas questões porque só assim é que vai poder começar a formar a sua própria opinião. penso que ficamos todos a ganhar da reflexão se não partirmos do princípio de que o objectivo é estar de acordo ou não. o objectivo da reflexão devia ser, em minha opinião, procurar saber porque estamos de acordo ou porque não estamos de acordo. e qualquer que seja o caso, o que falta para estarmos de acordo ou o que precisamos de saber para termos a certeza de que não estamos de acordo.