A explicação
O que significa “explicar” em sociologia? A sociologia é uma ciência que explica? Eis uma das questões metodológicas mais difíceis das ciências sociais. Existem essencialmente duas posições. Há os que, seguindo Max Weber, mas sobretudo Wilhelm Dilthey, um filósofo e teólogo alemão do início do século passado, defendem a ideia de que a sociologia pura e simplesmente não explica. Ela tenta apenas compreender o sentido subjectivo que um indivíduo atribui à sua acção. Dilthey vai mais longe dizendo que justamente porque a sociologia está interessada no sentido subjectivo da acção, ela é fundamentalmente diferente das ciências naturais. Só estas é que podem explicar. Weber, apesar de partilhar este entendimento da natureza das ciências sociais, não foi assim tão longe. Ele reconheceu que a tarefa principal era de compreender, mas também insistiu que o sociólogo devia tentar explicar através da identificação do contexto geral dentro do qual certas formas de conduta são possíveis. Daí os seus grandes estudos sobre a religião, direito e economia em que ele procurava saber o papel da tradição, dos valores, das emoções e da razão instrumental na produção de relações sociais estáveis no tempo.
A segunda posição é dos que dizem que ciência só é digna desse nome quando explica, isto é quando identifica as causas de um determinado fenómeno. Émile Durkheim, o sociólogo francês, insistiu nesta ideia com a sua afirmação segundo a qual só os factos sociais é que interessavam. O que ele queria dizer com isso era que a sociologia só poderia reclamar o estatuto de ciência se fosse capaz de resistir à tentação de reduzir os fenómenos sociais às motivações psicológicas dos indivíduos. Os indivíduos agem porque existem constrangimentos estruturais sobre eles que os obrigam a agir de certa maneira. Explicar, neste sentido, é identificar esses constrangimentos, isto é esses factos sociais. Na sua interpretação de Weber, quanto a mim errada, Talcott Parsons, um sociólogo americano do século passado, tentou juntar a ideia de acção social à exigência durkheimiana de procurar pelos factos sociais para dizer que, de facto, a acção social era o resultado (efeito) de normas interiorizadas pelos indivíduos no seu processo de socialização. Explicar consistiria, portanto, em identificar os efeitos das normas sobre o indivíduo.
Então, em que ficamos? A discussão continua e não vai ser por causa desta postagem que ela vai parar. O que torna difícil responder à questão como sempre é o facto de usarmos alguns conceitos sem nenhuma preocupação de sabermos se eles significam a mesma coisa para todos nós. O conceito de “sentido subjectivo” é um deles. O que significa ele? É evidente que a julgar pelas várias intervenções na sociologia e noutras ciências sociais o conceito significa várias coisas. Para muitos ele significa “intenção” do indivíduo. Nesta postagem vou me deter sobre este entendimento. Quando um “cinzentinho” grita, por exemplo, “corra!” para um detido qualquer que ele levou para um passeio nocturno numa das nossas praias, sabemos imediatamente que ele está a dar uma ordem. Mas é esse o sentido subjectivo da sua acção? É difícil saber, e em situações reais pode até custar a vida. O detido pode pensar que o chefe da sua quadrilha “falou como homem” com uma alta patente qualquer e que o pobre do cinzentinho está a cumprir as respectivas ordens. E que, portanto, o sentido subjectivo é de dizer ao detido para fugir. Mas pode também pensar que o “cinzentinho” quer encenar uma “fuga”. A chave, portanto, para a compreensão do sentido subjectivo pode ser a intenção, mas como vemos neste exemplo simples não é fácil lá chegar. Precisamos de muito mais.
É daí que outros dizem que a intenção não é tudo quanto há por dizer em relação ao sentido subjectivo. Há também os motivos. Reparem que estou a saltar por cima de várias complicações metodológicas relacionadas com o estatuto da “intenção”. Se exponho a intenção como sociólogo estou a explicar ou estou a descrever melhor a situação? Uns dizem que estou a explicar porque estou a dizer “porque ele fez isso”. Outros dizem que estou apenas a expor melhor a situação e que a noção de causalidade não é pertinente porque neste caso ela não é externa ao acto. Pior ainda, muitas vezes estamos perante factos consumados que tornam as coisas ainda mais complicadas. Por exemplo, se o detido liquidado pudesse ressuscitar e dizer que correu porque o polícia lhe disse para correr? E se o polícia dissesse que não disse nada disso, disse apenas “porra!” e que por causa da brisa do mar foi mal entendido? E se o ressuscitado dissesse que não correu porque pensou que o polícia o quisesse liquidar? E o polícia dissesse que o baleou mortalmente porque se recusou a cumprir uma ordem? Em que pé ficamos?
Os motivos são importantes porque nos ajudam a reconstruir as situações sociais. Alfred Schuetz, um grande sociólogo austríaco da tradição fenomenológica, fala de “porque motivos” e “motivos afim de”. Espero estar a traduzir bem. Mais interessante ainda, ele insistia na ideia de que pessoas típicas agem em situações tipificadas. O que ele queria dizer com isso? Acho que ele queria dizer que há muita rotina na nossa vida e que muitos de nós agimos de acordo com a nossa experiência dessa rotina. Sendo assim, a preocupação do sociólogo ao tentar compreender a acção social deve ser de procurar saber em que consiste o conhecimento quotidiano. Isso vai obrigá-lo a reconstruir essas situações tipificadas. Reparem que a minha descrição do caso do polícia e do detido baseou-se inteiramente no nosso conhecimento de situações tipificadas, as mesmas de que se serve o indivíduo comum na nossa sociedade para dar sentido ao mundo. Repararam também que é muito arriscado, sobretudo no nosso país onde há muita coisa que não podemos dar por adquirido.
Não sei se é possível explicar a “explicação” em sociologia, mas espero que tenha ficado claro que um dos sentidos que ela deve ter é o de nos ajudar a descrever melhor uma situação. E fazemos isso perguntando. As perguntas são fundamentais, daí a minha insistência neste blogue para que não nos contentemos com as aparências. As situações sociais são, invariavelmente, uma resposta a uma pergunta que ainda ninguém colocou. Ou melhor, para cada 10, 20 ou mesmo 100 situações sociais há apenas uma pergunta. Porque não partirmos do princípio de que o nosso trabalho consiste em procurar por essas perguntas? Gosto do exemplo de um famoso ladrão britânico que, detido e em conversa com um padre que lhe perguntou porque ele assaltava bancos, respondeu: é porque é lá onde está o dinheiro! Mas foi mesmo essa a pergunta? É evidente que não foi, mas também podia ter sido.
Deixem-me ser mais prático com um olhar rapidinho à notícia que reproduzo a seguir extraída do jornal O País Online:
PRM “põe a mão” em supostos assassinos
14/05/2007
A Polícia da República de Moçambique (PRM) confirmou, esta manhã, ter sob sua custódia um indivíduo formalmente acusado de envolvimento no assassinato de um jovem de 28 anos, no município da Matola, segundo noticiámos na edição de ontem.
(...)
Ainda sobre o pulsar da legalidade durante o fim-de-semana, aquela fonte policial [porta-voz da polícia na cidade de Maputo] revelou que na semana antepassada foram registados 4 acidentes de viação, que resultaram em três mortos, todos por atropelamentos. Este fim-de-semana, o número subiu para 5 mortos em consequência de 4 acidentes de viação.
Entretanto, Machava lamentou a crescente onda de atropelamentos e disse não encontrar explicação, porque a sua corporação está a levar a cabo campanhas de educação cívica sobre o código de estradas para os peões.
Sublinhei a parte que me interessa. O porta-voz da polícia, José Machava, disse “não encontrar explicação” para a crescente onda de atropelamentos, mas acrescentou que isso é tanto mais estranho quanto a sua “...corporação está a levar a cabo campanhas de educação cívica sobre o código de estradas para os peões”. Bom, o problema não é exactamente de não encontrar explicação. O problema é de que aquilo que a polícia pensava ser a explicação, nomeadamente um conhecimento deficiente do código de estrada, afinal não ser nenhuma explicação. Pela notícia breve é difícil saber quem é que precisava desta educação cívica: os motoristas? Os peões? O problema coloca-se de forma completamente diferente consoante a resposta a esta pergunta simples. Motoristas: será que a polícia partiu do princípio de que eles não conheciam bem o código de estrada? Ou pensou que eles não estivessem a respeitar o código propositadamente? Estão a ver a complicação? O que é que significa nestas circunstâncias dizer que não consigo explicar este assunto porque já tentei educar as pessoas? Que papel desempenham intenções e motivos nisto tudo?
E há mais. O que são acidentes e atropelamentos? E o que é uma onda crescente? Há algum padrão nesses acidentes e atropelamentos? Se, por exemplo, em todos os acidentes ocorridos estão envolvidas crianças da escola e a uma certa hora do dia num certo tipo de estradas já começamos a ter uma ideia do que é preciso “explicar”. O mesmo vale se houver muito álcool no meio, muita juventude, muito partidão (altas patentes, veteranos, etc.), muito cooperante, muito madjoni-djoni, muito nigeriano, muito comerciante de origem indiana, muito machangana, etc. A postagem já está longa e tenho outras coisas por fazer. A mensagem é a seguinte: o problema do porta-voz da Polícia da República de Moçambique não é de “explicar” seja o que for. É de descrever o problema. Ele não pode explicar o que não sabe. É elementar. É preciso descrever o problema. Descreve-se o problema procurando pelas perguntas. Curiosamente, nesta minha breve tentativa de perceber a perplexidade do porta-voz da polícia da cidade de Maputo acabei descobrindo uma pergunta muito relevante para explicar o crime em Maputo: será que a polícia sabe o que está a fazer?
