quinta-feira, maio 03, 2007

Fala sem consequências V

A ideia da fala sem consequências não é uma armadilha para os nossos políticos. Não se trata de “descobrir” o que eles estão a dizer mal, ou não dizem. A minha preocupação é de lançar um alerta à esfera pública para que preste atenção às implicações práticas dos pronunciamentos públicos. Até que ponto é que esses pronunciamentos nos remetem a uma discussão consequente e racional das coisas? Até que ponto é que esses pronunciamentos nos permitem falar de forma abalizada e prática sobre os problemas do país? Somos nós capazes de obrigar os nossos dirigentes a falarem claramente, isto é com consequência?

Acho que notam, à partida, que a ideia de fala sem consequências é muito mais abrangente do que uma simples crítica aos políticos. Trata-se, com efeito, de um convite para sermos mais exigentes em relação ao que supomos que os outros nos estão a dizer. Esta é uma tarefa particular das ciências sociais que nos obrigam a interpelar os termos e critérios através dos quais nós e os outros recuperamos a realidade. Fazer ciências sociais é isso, no fundo, isto é sermos críticos em relação ao nosso entendimento da realidade. Um hábito que empobrece a nossa esfera pública é a suposição que muitos fazemos de que o que os outros dizem está claro só porque esses outros utilizam palavras que nos são familiares. É uma suposição muito arriscada, cuja manifestação negativa é a aversão à crítica, por um lado, ou a tendência de ataques pessoais no lugar da crítica, por outro lado.

Extraí a notícia que se segue do jornal O País Online:

Garrido promete penalizar ladrões de medicamentos

03/05/2007

O Ministro da Saúde, Ivo Garrido, assegurou que vai penalizar, nos próximos dias, todas farmácias privadas que funcionam irregularmente no país, bem como aqueles que se dedicam ao roubo de medicamentos nas farmácias públicas.

Garrido visa com esta medida fazer cumprir a lei dos medicamentos no país, colocar ordem aos vendedores privados de medicamentos, controlar efectivamente os preços de medicamentos e velar pelo funcionamento das farmácias de modo a desmantelar eventuais irregularidades, que forem a acontecer na área da saúde.

De referir que só no ano passado as autoridades farmacêuticas, com apoio da PRM, conseguiram neutralizar uma quadrilha que se dedicava ao roubo de medicamentos em Mocuba, província da Zambézia.

Em jeito de conclusão, o titular da pasta de saúde disse que já montou um esquema para acabar com estes crimes mas também não deixou de reconhecer que o país ainda não tem farmácias suficientes para responder a actual demanda, daí a necessidade de os agentes privados instalarem mais farmácias nos distritos mas dentro dos trâmites legais.

Sublinhei váras passagens, mas como é muita coisa não posso comentar todas. Sublinhei-as apenas para vos lançar um desafio: será que percebem o que cada uma destas frases ou palavras sublinhadas quer dizer em termos práticos? Só isso. Eu duvido. A minha impressão é de que muitos de nós apenas pensamos que percebemos o que aqui lemos. Só isso. Fé e confiança na ideia de que quando alguém fala está, de certeza, a dizer-nos qualquer coisa que nós entendemos. Sem nos darmos conta, o nosso país deixa de existir, ou melhor, passa para um estágio de existência virtual sustentado apenas pela crença na ideia de que qualquer enunciado recupera a realidade que conhecemos. É verdade que ao analisarmos a notícia temos que ter em conta que não se trata de discurso directo, mas da reportagem feita por jornalistas. Isto significa que algumas imprecisões podem ter a sua origem na própria reportagem. De qualquer maneira, parece-me legítima a interpelação do sentido do que o ministro da saúde nos quer dizer. Vejamos, por exemplo, a promessa de penalizar que vem sublinhada em primeiro lugar. O que é que isto quer dizer? Que o Ministro a partir de agora vai passar a observar procedimentos que pensávamos estarem a ser por si observados? Que o Ministro ele próprio vai penalizar por os órgãos competentes não estarem a funcionar? Que o Ministro está a preparar uma lei para esse efeito por se ter constatado que a coisa estava a andar mal? Que o Ministro andava com dúvidas se devia penalizar ou não? E podia continuar nesta veia de interpelação para esta frase mas também para todas as outras. E cada interpelação encerra várias outras. Por exemplo, se é a partir de agora que ele quer fazer isso, devemos perguntar porquê só agora, quanto custou a inacção, quem assume responsabilidade por isso e por aí fora.

Mesmo a frase “...o titular da pasta de saúde disse que já montou um esquema para acabar com estes crimes ...” é problemática, embora considere haver imprecisão jornalística na reportagem. De qualquer maneira, vale a pena perguntar: que esquema é esse? Em que consiste? O que leva o Ministro a supor que vá funcionar? Como espera ele implementá-lo? Que pensa fazer se não funcionar? Porque acha ele, ou o jornalista, que é suficiente dizer que montou um esquema e que, prontos, toda a curiosidade do público em relação ao assunto está satisfeita? Que novas ideias podem advir de uma discussão mais alargada do assunto? Quando ele diz que já montou um esquema refere-se a ele próprio ou aos seus subordinados? Que comeptências é que essas pessoas têm para um empreendimento dessa natureza? O que é que esse esquema vai custar ao erário? Estava previsto no orçamneto? Quão grave é o assunto para merecer a montagem de um esquema? Não haverá alternativas? Qual acha ele que vai ser a reacção dos visados? Tem ideias de como reagir à reacção? Em que consistem? O problema apresenta-se da mesma maneira em todo o país?

Fala com consequências é quando nos pomos a falar sobre as implicações práticas do que dizemos na base de um entendimento mais ou menos consensual dos termos que utilizamos para descrever a realidade. Eu sou mesquinho, mas penso que o nosso país beneficiaria muito se houvesse muito mais gente mesquinha quando se trata de interpelar a fala pública.

Sem comentários: