Neutralidade
Esta noção é muito complicada. É possível ser neutro? É possível fazer uma pergunta destas? O que significa a possibilidade de ser neutro? Quando é que estou a ser neutro? E como é que sei que estou a ser neutro? Quando me recuso a alinhar ideologicamente com alguém estou a ser neutro? Quando não protesto contra a injustiça estou a ser neutro? Quando fico calado perante os erros públicos dos outros? Quando recuso juntar-me ao côro de vozes daqueles que acham que é preciso fazer qualquer coisa por alguém, por uma causa ou por seja o que for que estiver a agitar as paixões?
O que estou a tentar fazer com estas perguntas é alertar-vos para a natureza polissémica da noção de neutralidade. Em ciência ela tem um significado muito específico, nomeadamente o que a articula com a noção de objectividade. Ser objectivo significa descrever e analisar os fenómenos sociais – no caso das ciências sociais – com base na realidade empírica. A questão, contudo, é de saber se isso é possível. Em certa medida, a história da sociologia é também a história desta controvérsia. Max Weber, por exemplo, sempre empregou a palavra objectividade entre aspas. Com isso ele queria chamar a nossa atenção para o facto de que sendo nós produtos de contextos sociais e históricos específicos apreendemos a realidade social a partir dos valores que nos identificam. Quando ele dizia que temos que observar a neutralidade axiológica ele não estava a dizer que devemos abandonar os nossos valores. Ele dizia apenas que devemos tornar essa articulação axiológica explícita e clara.
Portanto, do ponto de vista da metodologia das ciências sociais a questão da neutralidade não se coloca em termos de nunca nos posicionarmos claramente a favor ou contra os “injustiçados” da nossa terra. A questão não se coloca nesses termos simplesmente porque seja o que for que nós dissermos está sujeito à interpelação crítica pelos outros. Se for lógico e racional. Dito de outro modo, quando propomos uma descrição e análise de fenómenos sociais em Moçambique sujeitamo-nos à crítica dos outros, cujos critérios de interpelação são a plausibilidade lógica do que dizemos. Se rejeitamos a crítica com base no argumento segundo o qual ela compromete os objectivos finais (que são bons: por exemplo, acabar com a corrupção em Moçambique), então aí despedimo-nos do convívio científico. Passamos a fazer política. Uma má política porque alicerçada numa ética fanática de convicção.
A noção de “neutralidade” que é proposta como descrição da atitude dos que acham que a academia moçambicana prestaria melhor serviço ao País se fosse menos impetuosa na prossecução de objectivos normativos é radicalmente diferente da que é discutida em metodologia das ciências sociais. É um insulto. E uma falácia. É um insulto porque está a utilizar a noção com o intuito de ridicularizar quem discorda. A interpelação crítica do que os outros falam sobre Moçambique (por exemplo, quando eu leio criticamente o relatório sobre o uso insustentável dos recursos florestais) é tida como um acto cínico de recusar reconhecer a verdade. Quem interpela está, por assim dizer, ideologicamente anestesiado. É uma falácia porque reduz desnecessariamente as nossas opções. Ou o académico é a favor da luta dos “injustiçados” – nesse caso tem que concordar com tudo que expõe as más intenções dos “opressores” – ou então o académico é a favor dos “opressores” – e aí, naturalmente, vai insistir na neutralidade.
Eu, pessoalmente, não sou neutro, mas tento ser objectivo no sentido em que não estou psicologicamente equipado para lançar suspeitas sobre quem me interpela criticamente. Parto do princípio de que quem me interpela o faz no intuito de me obrigar a ser mais claro no que digo e, no fundo, a reconhecer a implausibilidade do que digo. Mesmo do ponto de vista normativo tenho as minhas preferências e elas enformam as minhas tentativas de perceber o País. Embora tenha simpatias pela Frelimo, não são essas simpatias que me motivam a reflectir. O que me motiva a reflectir é o próprio País que me parece merecer melhor sorte do que tem tido até agora. Não critico o discurso anti-corrupção em defesa de ninguém. Critico-o por o achar incoerente e nocivo. Igualmente, não critico o combate à pobreza absoluta em oposição ao Governo. Critico-o por o achar mal pensado e desorientado.
O discurso anti-corrupção e o combate à pobreza absoluta não me impelem a assumir uma atitude neutra. Impelem-me à reflexão crítica em defesa do que considero bom para Moçambique. Não é contudo a minha ideia do que é bom para Moçambique que vai determinar se a minha reflexão crítica é plausível ou não. É a solidez analítica do que eu digo. Se há pessoas que concordam com a minha crítica ao discurso anti-corrupção por acharem que estou a proporcionar bons argumentos para confortar o Governo, o problema não é meu. É deles. Da mesma maneira, se há pessoas que concordam com a minha crítica ao combate à pobreza absoluta por acharem que estou a dar bem no Governo, aí também o problema não é meu. É dessas pessoas. O problema torna-se meu quando deixo de interpelar criticamente por medo de ser acusado de “neutralidade”.
Já há dois anos durante uma discussão no ISPU defendi, em oposição à exigência formulada por Afonso Dhlakama para que os académicos fossem neutros, a ideia de que um académico não precisava de ter vergonha de ser membro de um partido político e defender posições desse partido. Não obstante, disse também que se esse académico fosse mesmo bom e honesto não haveria de sacrificar a objectividade a objectivos políticos imediatos. Fiz recurso a Weber para explicar que se impunha maior compromisso com a ética de responsabilidade uma vez que só assim é que o académico poderia realmente contribuir para o sucesso da política do seu partido. Pessoalmente, apesar de não nutrir nenhuma simpatia pela Renamo tenho profunda admiração por pessoas como Manuel Araújo, Eduardo Namburete e outros jovens académicos que se juntaram à Renamo em resposta à sua própria consciência (suponho). Espero que no interior desse partido eles continuem a respeitar o espírito académico de objectividade, pois só assim é que eles serão úteis ao seu novo partido e ao país. Esta tem sido a mensagem que também tenho tentado transmitir a jornalistas quando me convidam a dirigir-lhes a palavra: não vejo mal nenhum que um jornalista seja membro de um partido. Vejo mal quando um jornalista informa mal em benefício do seu partido.
Como docente ciente do número considerável de jovens que se estão a iniciar na carreira académica e a precisar de estímulos para o cultivo da sua mente crítica sinto-me obrigado a insistir nisto: não há incompatibilidade essencial entre ter valores e fazer ciência. Agir, porém, precisa de certezas. Pensem bem antes de agirem! Um cientista com certezas pode ser perigoso.
4 comentários:
Bela aula! Tive a oportunidade de participar na discussão a que faz alusão na sua postagem, que teve lugar no ISPU. E, no âmbito da referida discussão, uma frase sua ficou gravada na minha mente: " Se tivermos que chamar a cauda do cão pata quantas patas teria o cão?" Certamente se recorda desta.Bom dia!
Elísio.
O teu texto vem em boa hora. Eu estava receoso com relação a elaborar um texto com o mesmo teor. Havia pensado, pelo contrário, em falar dos usos sociais que se pode fazer da sociologia, das ciências sociais em geral. É que o ânimo no debate sobre as florestas exacerbou-se. O debate ficou baixo, mesmo envolvendo pessoas de gabarito. Pessoas que eu, jovem académico, as tomo como referência. Quando começamos a achar e a aforismar os outros de vaidosos e de ideologicamente anestesiados só porque discordam das nossas ideias, então estamos a desqualificar. A atacar a fonte. Acho que o Elísio identificou bem a fonte do problema. O uso polissémico da palavra neutralidade. Parabéns.
No entanto, ainda vou escrever sobre o uso social que se pode fazer da ciência social.
Os seus textos aguçam o meu interesse pelas ciências sociais e em particular, pela sociologia. Se não é demais, que livros me aconselha a ler que me possam ajudar a apreender os princípios básicos da Sociologia?
Fiz uma pequena pesquisa na Net sobre o assunto que hoje traz à discussão - 20 minutos de leitura não fazem de mim um conhecedor da área, e nem mesmo uma vida leva-nos à esse estágio. Todavia, o que estou a notar é que estou perante duas concepções: positivista e crítica. Pelo menos, das definições dadas e o meu entendimento dos textos dos "dois lados" levão-me a crer que estou mesmo perante essas duas posições rivais.
Espero que me ajudem a compreender melhor esta questão. A minha matemática ensinou-me derivações.
sim, ilídio, recordo-me que foi 50% 5 e 50% 4! mas foi divertido. patrício, é de facto o uso polissémico. suponho também que seja a urgência dos problemas que temos no país. repare que é a mesma atitude que leva o governo a considerar inimigos do povo todos quantos interpelam criticamente. escrevi um texto sobre a crítica social e o desabafo que espero publicar brevemente na imprensa moçambicana. ainda estou à espera da resposta. entretanto, vou ficar a aguardar a tua reflexão sobre o uso social das ciências sociais.
bayano, essas são duas perguntas difíceis. não sei se é necessário ler certos livros para apreender os princípios básicos da sociologia. a sociologia é mais atitude do que conhecimento. noto nos seus textos que tem essa atitude. precisa apenas de a cultivar sempre. a atitude consiste no que o professor serra muito bem resumiu no seu decálogo do sociólogo. em suma, certifique-se sempre que percebeu o que os outros estão a dizer e se isso ofende a ideia que tinha da realidade. não faça isso sempre no seu círculo de amigos se não o quer ver reduzido... em relação ao positivismo vs. crítica não sei se temos espaço aqui para essa discussão. a minha resposta imediata é de que esta discussão não opõe estas posições. é verdade que um aspecto da discussão sobre a neutralidade axiológica tem muito a ver com a ideologia que é o assunto que foi discutido no contexto da oposição entre positivismo e crítica. isto é, enquanto os primeiros diziam que era preciso produzir uma ciência útil à sociedade, os últimos diziam que essa ciência só seria útil se fosse capaz de mostrar que a própria sociedade (capitalista) constituia um obstáculo à construção de uma sociedade melhor. não vejo essas posições na discussão que estamos a travar agora, mesmo se a caricaturização da "neutralidade" dê a entender que os "neutros" estejam a produzir conhecimento ideologicamente contaminado. eu acho que o que estamos a discutir é a questão de saber se existe um ponto na reflexão crítica a partir do qual se continuarmos a interpelar estaríamos a desonrar a ciência. acho que não existe. temos sempre que interpelar, o que não impede quem queira parar e agir de o fazer.
Enviar um comentário