Intercalo aqui um texto longo fora da série sobre a mentalidade analítica para partilhar convosco uma preocupação. Espero que haja discussão, seria bom, pois o assunto parece-me sério.
Li recentemente no blogue de Carlos Serra comentários (leiam-nos aqui) sobre um texto de um jurista de nome Custódio Duma (publicado aqui). Um dos comentários deixou-me preocupado com a ideia que a abertura do espaço público de intervenção está a criar sobre a sociologia. O comentário dizia: “É de lamentar que indivíduos que creio serem jovens vejam mérito no ruído. Mais de lamentar ainda é que fiquem nervosos sempre que alguém sugere que, mais do que barulho, o que se requer de pessoas como Duma são denúncias metodologicamente fundamentadas. Eu compreenderia se o texto atribuído a Duma tivesse sido escrito pelo senhor Dlhakama. Afinal ele é um político, já não é jovem e parece não possuir graduação universitária. Mas Duma! Escrever um texto que poderia ser subscrito por Dlhkama ou Kamati? É realmente triste. Triste porque Duma é jovem, tem formação académica adequada (ainda por cima é jurista), é uma figura pública que deve servir de exemplo. Ficar-se por ali e, ainda por cima ser efusivamente aplaudido por jovens sociólogos ou seja lá o que forem! É triste” (minha ênfase). O seu autor é um indivíduo que assina pelo nome de Gabriel Matsinhe. Profundas palavras as suas.
Mas preocupantes. Penso ser necessária uma reacção para tornar claro que a sociologia é uma grande religião com várias seitas. O tipo de sociologia que encoraja a forma de intervenção pública privilegiada pelo autor desse texto, e que quer fazer isso passar por crítica social, representa uma de várias maneiras de pensar e fazer a sociologia no país e no mundo. Não é, felizmente, representante de toda a sociologia. É apenas uma de várias maneiras de fazer sociologia.
Eu, pessoalmente, e todos os que fazem parte da seita à qual pertenço, temos um entendimento da sociologia que considera importante fazer a distinção entre crítica social e desabafo. Não é fácil manter este entendimento, muito menos ser consequente nas posições que esse entendimento exige. Há muita coisa que não vai bem no país; há muita coisa que podia ser melhor; há muita maldade e falta de patriotismo por parte daqueles que deviam ser bondosos e mais patrióticos, isto é ter o interesse da maioria no coração. O mais fácil nestas circunstâncias seria privilegiar outras formas de fazer sociologia que consistiriam em reclamar a verdade das coisas para as nossas análises, mandar passear a fundamentação do que dizemos, repetir os lugares-comuns da indústria do desenvolvimento e, de uma forma geral, perder todo o interesse pelo debate metodológico e privilegiar a suspeita como critério de avaliação do que outros dizem. De que lado estão? Do nosso ou dos maus?
Não quero com isto dizer que essas outras formas de fazer sociologia sejam ilegítimas. Quando muito, equivocam-se, mas isso é privilégio de quem intervém públicamente. Penso, até, que é salutar que haja um entendimento controverso e polémico do papel e função da sociologia na nossa esfera pública. Só assim é que podemos cultivar este espírito crítico tão necessário ao fomento do nosso país. Seria melhor ainda, naturalmente, que tivéssemos a coragem de debater estas divergências de forma aberta e honesta para que a sociedade aprecie a utilidade e fecundidade do debate de ideias. Por vezes, contudo, a metáfora da sociologia como uma grande religião pode nos levar a pensar que o mais importante é irmos reunindo seguidores. Ao fazermos isso estaremos, infelizmente, a contribuir para esta ideia preocupante que alguns começam a ter da nossa disciplina.
Por essa razão gostava de lançar mais petróleo ao fogo já iniciado com um texto antigo que publiquei no jornal Notícias sobre uma das composições do músico Azagaia. O Patrício Langa já tinha reacendido as chamas desse fogo aqui e aqui. Nesse artigo publicado no jornal Notícias eu explicava porque achava que a composição de Azagaia não devia ser tratada de crítica social, mas na segunda parte desse artigo passava para uma proposta de análise do que, em minha opinião, tornava esse tipo de desabafos possível. Como tenho a impressão de que muita gente que leu esse texto não prestou muita atenção a essa segunda parte, reproduzo-a aqui quase que por inteiro para tornar as coisas ainda mais claras:
Os músicos que desabafam não têm culpa. Eles estão a reagir a uma cultura política profundamente enraizada entre nós e que começou já logo depois da independência a hipotecar o futuro do País. Esta cultura política ficou mais virulenta nos últimos dois anos e tem a sua manifestação mais clara nos pronunciamentos públicos de alguns veteranos – Marcelino dos Santos e Mariano Matsinhe – contra o espírito democrático e, pior do que isso, na ausência de um distanciamento público por parte do Presidente da República e da liderança do partido em relação a esses pronunciamentos. Num momento em que a democracia precisa tanto de socorro, ninguém com o dever directo de a proteger aparece em sua defesa (...)
(...) Estamos aqui perante um problema moral, isto é temos que decidir quando é que as nossas acções são nocivas aos outros e o que devemos fazer em relação a isso. A filosofia política responde a estas questões de forma diversa, mas penso ser possível reduzir as respostas a duas. Para simplificar as coisas vou atribuir os nomes de “final” e “gradual” a cada uma dessas possíveis respostas. Aproveito sugerir que o problema da nossa cultura política está no facto de termos sempre privilegiado uma resposta final à questão moral. Esta resposta consiste na crença de que os fins justificam os meios. Dito de outra maneira, todo aquele que acredita que, no fundo, quer o bem de todos acha-se no direito – mesmo até na obrigação – de praticar actos injustificáveis hoje, mas úteis à crença na ideia de que eles contribuem para o sucesso dos propósitos finais.
Esta é uma cultura política com linha de descendência nos nossos hábitos tradicionais de pensar, mas que ganhou ímpeto na nossa experiência histórica. A colonização fez da nossa liberdade e do bem-estar de todos nós um fim supremo que justificava todo o tipo de acções. Isto é, o único que precisávamos para nos certificarmos da moralidade da nossa conduta e acção era que nos convencéssemos a nós próprios que era tudo em prol do grande objectivo. A história sangrenta da luta armada de libertação nacional é prova disso. Não é que os que foram mortos não estivessem convencidos de estarem a agir no interesse do fim supremo. O problema deles foi de não se terem imposto aos outros que também agiam no interesse do fim supremo, ainda que com ideias diferentes de como lá chegar. O namoro e subsequente relação apaixonada com o marxismo contribuíram também para aprofundar esta cultura política radicada no fim supremo. O discurso teleológico – dos fins – e profundamente emancipatório do marxismo deu aos fazedores da nossa independência um vocabulário e uma filosofia política que lhes permitiram articular de forma coerente a sua crença na ideia de que os fins justificam os meios. Tudo o que aconteceu subsequentemente foi apenas a tentativa de levar esta crença até às últimas consequências.
Reparem que esta crença não é má por os seus objectivos finais serem maus. Pessoalmente, continuo a acreditar que os veteranos da luta armada de libertação nacional bem como os marxistas eram movidos por um desejo sincero de nos devolver a dignidade. Eles puniram, mataram e mobilizaram as pessoas movidos por ideais nobres. Mesmo hoje, ainda que custe a acreditar, muitos dos que estão na política, sobretudo os que já têm um percurso mais longo, mantêm este desejo sincero. Eles querem o nosso bem e, para isso, estão dispostos a tudo. O problema deste desejo sincero, contudo, é que ele é necessariamente intolerante, totalitário e propenso à produção de instabilidade. É intolerante porque não consegue conceber a ideia de que alguém que pense de forma diferente esteja mesmo comprometido com o bem-estar de todos. Daí a profunda aversão à crítica que caracteriza a nossa esfera política. Ou estás connosco, ou então calas-te. Não é concebível querer o bem de Moçambique sem estar com aqueles que decidiram de forma independente que eles é que são os guardiões do conhecimento para o bem de Moçambique.
O desejo sincero é totalitário porque tem uma necessidade irresistível de controlar as pessoas. Tem que saber quem está connosco e quem é capaz de comprometer o fim supremo. É daí que nasce a auto-censura característica da nossa esfera pública e a tendência burocrática de orientar a acção para o que se supõe ser do interesse da “Frelimo”, mesmo que os resultados sejam ruins para Moçambique. A sensação que muitos têm no País de que não podem falar, criticar e apontar alternativas é resultado directo do totalitarismo do desejo sincero. As ideias de Marcelino dos Santos e de Mariano Matsinhe sobre a democracia fazem parte deste desejo sincero e profundo de proteger o fim supremo de possível contaminação por aqueles que estão fora da alçada disciplinar da Frelimo. Finalmente, o desejo sincero é propenso à produção de instabilidade na medida em que fomenta o cinismo e hipocrisia em relação ao País (...). É aqui onde a cultura política se cruza com a indiferença popular para produzir desabafos no lugar de crítica social.
Mas existe uma outra resposta à questão moral. Essa resposta é gradual. Ela não está interessada nos fins invisíveis. Ela está interessada nos meios que nos levam aos fins que nos propomos. O sucesso da democracia liberal reside aqui. Embora os políticos nesse sistema também estejam interessados no bem-estar de todos e queiram que essa situação venha o mais cedo possível, eles reconhecem que o percurso é longo. Eles dão espaço à troca de ideias sobre os passos que são necessários. Ou por outra, eles não impõem limitações ao debate exigindo a identificação com não-sei-quantos como condição de participação no desenvolvimento do País (...). Enquanto que os dos fins supremos acreditam sinceramente na ideia de que as diferenças de opinião um dia vão desaparecer – razão pela qual eles apressam as coisas sufocando a crítica – os graduais abandonaram há muito essa ideia. O combate à pobreza absoluta não vale pela nirvana que ele promete, mas sim pela plausibilidade do que tem que ser feito hoje em prol desse objectivo. É hoje que isso tem que ser discutido, não quando finalmente se alcançar o fim da pobreza.
A responsabilidade política
Portanto, nós temos uma cultura política muito problemática. Enquanto não fizermos nada para alterar essa cultura política, dificilmente lograremos os objectivos que nos propusemos. Enquanto mantivermos uma cultura política radicada na ditadura do fim supremo, dificilmente seremos capazes de incluir todos os moçambicanos na nossa luta pela emancipação material. Enquanto os fins justificarem os meios, dificilmente teremos crítica social, mas sim desabafo, sinal claro de que o povo está alienado (...).
Precisamos de uma cultura política radicada no gradualismo, isto é na ideia de que as propostas políticas não valem pelo que prometem, mas sim pela sua própria plausibilidade interna e susceptibilidade de serem defendidas agora. O gradualismo significa, ou devia significar, que os políticos prestem mais atenção às consequências negativas dos seus actos hoje e não os remetam a uma contabilidade futura determinada por desejos sinceros. A crença na ideia de que o objectivo final é nobre impediu a Frelimo de ver que a legalidade é importante, a transparência imprescindível e o compromisso com o povo não é prerrogativa de ninguém em particular. Neste sentido, o gradualismo implica um maior compromisso com a separação de poderes e a valorização do político que tem ideias próprias, é capaz de as defender de forma coerente em debate público, não se socorre de nenhuma ideia de “Frelimo” para se furtar ao debate, vê no compromisso político um instrumento valioso da política – e não uma rendição ou abandono de convicções – e, acima de tudo, confia mais no juízo da esfera pública do que no dos seus colegas partidários.
Poucos foram os leitores deste artigo que se detiveram para reflectir sobre o que vem contido nesta segunda parte. A maior parte parece ter preferido ligar mais importância ao facto de eu ter recusado o rótulo de “crítica social” ao que o jovem músico fez quando na verdade, o entendimento que tenho da sociologia me obriga a ir mais longe e tentar perceber o que está realmente em questão. Sendo assim, quando alguém aparece numa discussão a pôr em questão a sociologia por alguns dos seus mais importantes representantes estarem aparentemente a promover uma maneira que eu pessoalmente acho problemática de fazer sociologia, e por essa via, comprometer todos os seus praticantes, fico preocupado. Carlos Serra, a quem a sociologia moçambicana deve muito e é uma das mentes mais brilhantes que o nosso país tem, presta um mau serviço à sociologia e à cultura académica no geral quando promove um texto tão problemático como o do jovem Custódio Duma e, sobretudo, quando não parece preocupado em ajudar esses jovens a canalizarem a frustração legítima que eles sentem para caminhos analíticos mais úteis ao fomento do nosso país.
É evidente que o jovem está irado e que o seu texto, mesmo que algumas das coisas que aponta não correspondam sempre à verdade, reproduz uma imagem do país que nos devia preocupar a todos. Mas aqui, em minha opinião, o desafio já não é de repetir com o jovem o que ele considera errado. O desafio, sobretudo para nós os cientistas sociais, é de encontrar maneiras de formular esses problemas que são apontados de uma forma que seja útil ao debate saudável de ideias na esfera pública. Isso passa pela interpelação dos termos que o jovem usa. Não vou, por enquanto, submeter o seu texto a nenhuma análise aprofundada nesta postagem – embora o possa fazer caso a discussão assim o exigir – mas é profundamente confrangedor constatar que um conceito central de toda a sua argumentação – a verdade – permanece ao longo de todo o texto na penumbra, refém, quer me parecer, de uma tese conspiratória – os governantes não querem que o povo estude porque se o fizesse havia de descobrir o que eles andam a fazer – que é evidentemente falsa, implausível e pouco útil. Os enormes problemas estruturais que temos no país bem como o jogo político normal em qualquer sociedade podem realmente ser reduzidos a uma conspiração do poder para manter o povo ignorante? No nosso país? Em qualquer país? Em qualquer momento histórico? Podem? Que um governo não reconheça a importância da educação ou que tenha prioridades erradas a esse respeito é uma coisa; que esse não-reconhecimento ou prioridades erradas sejam o resultado de um desígnio bem pensado de manter o povo na ignorância para que este não veja as coisas tal e qual elas são é outra, e bem outra. Considerar isto de crítica social é subtrair-se do convívio académico sério. Mas pior ainda é não estar aparentemente interessado em perceber porque pessoas chegam a este tipo de conclusões e o que isso significa para o nosso país.
Um texto que escreve “[V]ivemos em um país em que maioritariamente as pessoas são hipócritas”, “... na ganância pessoal dos titulares do poder furtam-se ao seu dever de negociar em benefício de todo o povo e principalmente da nação”, “... o povo ainda não é livre, porque mais de 60% não entende o que está a acontecer” e “[S]ó uma pessoa educada pode perceber a informação que lhe é trransmitida. E mesmo que não lhe seja transmitida alguma informação, por causa da educação, a pessoa sente a necessidade e uma profunda sede de receber informações” e ainda “[A] inquietação é uma característica de pessoas educadas. A educação pode ser formal, secular ou uma outra forma da que recebemos nas escolas. O que importa é que seja educação porque só assim a pessoa pode ser iluminada” assenta sobre fundamentos pouco sólidos e, por isso, e para o bem dos problemas que está a levantar, precisa de ser interpelado seriamente para além da celebração da coragem do seu autor.
Mas lá está. O verdadeiro desafio não é exactamente o texto em si, nem o seu autor. É o país que produz uma esfera pública desta qualidade. Não sei onde encontrar a explicação para este fenómeno. Um palpite é uma ideia uma vez apresentada por José P. Teixeira num debate aí pela blogosfera, durante o qual ele sugeriu a ideia de “denúncia” como um factor importante na intervenção pública moçambicana. Esta ideia parece-me interessante. Somos condescendentes em relação à fraca qualidade de uma intervenção e apressamo-nos a considerá-la crítica social só porque ela denuncia. Denunciar é o mais importante, sobretudo os males que nos assolam. Esquecemo-nos, porém, que a denúncia é apenas isso. A denúncia não é a prova. A denúncia não é o argumento. É denúncia apenas. Então, o nosso problema não é só de confundirmos desabafo com crítica social. É também de pensarmos que tudo que denuncia é plausível e auto-suficiente e não precisa de ser posto em questão. É como na superstição: A dúvida é sinal de cumplicidade.
Reparem, para terminar, que não estou a querer interferir no direito que o jovem tem de se pronunciar, nem estou a dizer que só pode intervir na esfera pública quem passou por um curso de ciências sociais. De resto, e isto prova-se todos os dias, não é por ter feito ciências sociais que alguém vai saber intervir de forma responsável no debate de ideias. Quando muito as ciências sociais, pelo menos no meu entendimento, ajudam a pessoa a ser menos arrojada nas conclusões que tira e a ter um interesse especial em submetê-las à interpelação. Mas onde quero mesmo interferir é no direito que alguns de nós que, por acidente ou mérito próprio, somos reconhecidos como referência para os que se iniciam, de deixar passar tudo só porque denuncia. Aí estamos mesmo a prestar um mau serviço à mentalidade sociológica e, consequentemente, a adiar a melhoria da qualidade da nossa esfera pública. Estamos a destruir aquilo que nós próprios semeámos. Isso é preocupante.