quarta-feira, setembro 05, 2007

A fala sem consequências XI

O problema aqui é capaz de ser a própria notícia. Extraí-a do País Online. Mas parece-me um exemplo claro de fala sem consequências. Não dizer coisa com coisa. Gostava de ler o discurso completo do Ministro para saber exactamente o que ele disse. Leiam a notícia e depois encontramo-nos mais abaixo para vos dizer o que eu gostaria de saber desse discurso:

Investidos 160 milhões de dólares no primeiro trimestre

04/09/2007

Moçambique recebeu, no primeiro trimestre do ano em curso, um investimento nacional e estrangeiro de 160,8 milhões de dólares norte-americanos. No mesmo período, as exportações de bens rondaram os 564,8 milhões de dólares, segundo o ministro da Planificação e Desenvolvimento, Aiuba Cuereneia.

O governante, que falava hoje, em Maputo, durante o seminário sobre “A experiência do Programa de Apoio aos Mercados Agricolas – PAMA –, disse que estes indicadores permitem afirmar de forma inequívoca que os fundamentos da economia moçambicana são estáveis, apesar do país enfrentar, ainda, grandes desafios na luta contra a pobreza, sobretudo nas zonas rurais.

Aiuba Cuereneia reafirmou a convicção de se continuar a priorizar o desenvolvimento rural, uma vez que traduzido pela transformação social e económica e consequente elevação do bem-estar no meio rural, é o esteio fundamental do desenvolvimento global do país.

Acrescentou que sendo a agricultura uma área vulnerável a crises originadas por factores climatéricos adversos, o Estado tem estado a investir na investigação e extensão agrária, bem como em outros serviços essenciais que garantam o acesso dos agricultores a tecnologias melhoradas, aos insumos agrícolas, equipamentos e ao crédito.

Relativamente ao encontro sobre o PAMA, o titular da pasta da Planificação e Desenvolvimento destacou que o Governo tem políticas específicas de redução da pobreza que consistem no aumento da participação da mulher rural em todos os níveis de decisão, redução dos níveis actuais de incidência do HIV/SIDA e garantir a preservação e a renovação dos recursos naturais.

A primeira coisa que eu gostaria de saber é simples: o que querem dizer os números apresentados pelo Ministro? Não acredito que a sensação esteja no facto de termos recebido investimentos na ordem de 160 milhões de dólares, nem termos exportado quase 565 milhões de dólares. Estes números só começam a falar se o Ministro nos disser que proporção do potencial de investimento nacional e estrangeiro esses 160 milhões representam. Que proporção do potencial de exportação representam 565 milhões de dólares? Aí sim, já estará a falar. Até pode nos dizer em que medida é que a sua política contribuiu para lograr isso. Agora, dizer só 160 milhões e 565 milhões é fala sem consequências. É falar sem dizer nada, sobretudo quando no parágrafo seguinte ele (ou o jornalista) diz que esses indicadores permitem afirmar de forma inequívoca que... passo por cima da continuação da frase, pois não percebo a relação entre estabilidade da economia, por um lado, e existência de grandes desafios na luta contra a pobreza. Não sou economista. Sobretudo nas zonas rurais. Não percebo.

Depois vem uma confusão típica entre desenvolvimento rural e desenvolvimento agrícola. Não me parece a mesma coisa, e acho estranho que o Ministro responsável pelo desenvolvimento rural aparentemente não tenha consciência disso. Ele quer priorizar o desenvolvimento rural – depois mete uma frase com inferências bastante crípticas no meio – e acrescenta que a agricultura é uma área vulnerável a crises originadas por factores climatéricos. Duas coisas aqui. Primeiro, a confusão entre desenvolvimento rural e desenvolvimento agrícola. Há ligação, mas tem que ser exposta. Isso não se faz no texto. Segundo, não há área nenhuma vulnerável a crises originadas por factores climatéricos adversos. Isso é eximir-se de responsabilidade. A natureza acontece. As crises são o resultado da ausência de acções de prevenção por quem de direito. Entre a natureza e as “áreas” está o homem. O homem é que traduz os factores climatéricos em crise pela sua acção ou inacção. Acho que um Ministro da Planificação e do desenvolvimento rural devia saber, no mínimo, isto.

Para finalizar, a última coisa que gostaria de saber é o sentido que faz uma hipótese de trabalho realmente exposta pelo Ministro: para reduzir a pobreza é preciso aumentar a participação da mulher rural em todos os níveis de decisão, reduzir os níveis actuais de incidência do HIV/SIDA e garantir a preservação e a renovação dos recursos naturais. Alguém percebe isto? O que leva o Ministro (ou o jornalista) a supor que essas coisas vão, imperiosamente, conduzir à redução da pobreza? E reparem que o mais essencial até nem é isso. O mais essencial é saber como é que são essas políticas específicas de aumento da participação da mulher rural em todos os níveis de decisão (curiosidade: quais são estes níveis?), redução dos níveis actuais de incidência (qual é o nível ideal?) do HIV/SIDA e garantia da preservação e renovação dos recursos naturais (como?). Fala sem consequências. Exonerar? Não dá, é do Norte.

Estranho raciocínio

Espero que a nossa assessoria jurídica cybernáutica (Ilídio, Stayleir, Júlio) esteja a ler este texto para me ajudar a perceber a minha inquietação. Sublinhei as passagens que me estão a quebrar a cabeça. Extraí a notícia do País Online:

Juíz Paulino melhorará relação entre TS e PGR

04/09/2007

O presidente do Tribunal Supremo, Mário Mangaze, disse esperar que a relação entre a procuradoria-geral da República e o Tribunal Supremo melhore com a nomeação do novo PGR, Augusto Paulino.

Actualmente, segundo Mangaze, tem havido casos de divergências no acto de julgamento devido a interpretação diferenciada de leis entre os juízes adstritos ao Tribunal Supremo e os procuradores.

“O juiz Augusto Paulino, aquando do seu empossamento, afirmou que vai privilegiar o inter-relacionamento entre as instituições. Esta afirmação me parece ser uma garantia de que a relação entre os juízes e os procuradores vai melhorar”, sustentou Mangaze.

Mário Mangaze diz que as divergências indiciam um mau relacionamento entre as duas instituições. No entanto, reconhece ser uma situação “natural em todo mundo”. Esta situação acaba beneficiando os envolvidos no processo, neste caso, os arguidos, uma vez que se procurará encontrar uma sentença justa, ou seja, que no âmbito da interpretação do juiz e do procurador é a mais justa.

Sendo natural as discordâncias entre o juiz e o procurador, prosseguiu Magaze, o que conta é a maneira como são encaradas estas discordâncias pelas duas instituições e na interpretação da lei.

Mário Mangaze, que considerou Augusto Paulino a figura certa para PGR, falava esta segunda-feira, em Sofala, no âmbito do encontro que o Tribunal Supremo está a efectuar com juízes distritais de todo país.

Estão a perceber o meu problema? É assim: não está claro para mim o que o Presidente do Tribunal Supremo está a dizer. Há duas possibilidades. Primeira: está a dizer que não é bom que haja mau relacionamento entre o Tribunal Supremo e a Procuradoria Geral da República, embora isso beneficie as pessoas envolvidas em processos. Mas que se lixem, o importante é que o relacionamento esteja bom. Segunda: cuidado, o Juiz Paulino quer melhorar as relações entre o Tribunal Supremo e a Procuradoria Geral da República! Isso não vai ser bom para os envolvidos em processos. Percebem o meu problema?

Deixo para uma outra ocasião a questão de saber porque só agora é que levanta esta questão em público? Ou já a tinha levantado e não me apercebi? Também deixo para a nossa assessoria jurídica cybernáutica a questão de saber em que sentido é que “... a interpretação diferenciada de leis entre os juízes adstritos ao Tribunal Supremo e os procuradores” constitui um problema. A justiça moçambicana não possui mecanismos (recursos, etc.) para resolver esses conflitos? Já agora, que tipo de divergências é esse e em que medida é que elas resultam da qualidade da nossa formação jurídica? Será que todos os licenciados em direito seguiram o carisma do ex-PGR e nenhum sobrou para o Tribunal Supremo?

Enfim!

Exoneração

VIII

Li no Notícias de antes de ontem que a Universidade Pedagógica quer introduzir exames de admissão para os cursos inventados pelo anterior Reitor. Seria interessante analisar este tipo de exames. Qual é exactamente a sua função? É saber se os candidatos sabem o que devem saber para poderem frequentar o curso que querem frequentar? É passar um atestado de incompetência ao ensino pré-universitário, secundário e primário? Ou é simplesmente uma artimanha para limitar o ingresso sem necessariamente dizer isso? Os sociólogos da educação talvez me ajudem nisto. Não é, contudo, sobre isso que quero reflectir neste texto. O assunto é a noção de exoneração que se tornou interessante para mim na sequência da mexida na Procuradoria Geral da República.

Mencionei os exames de admissão por uma razão muito simples. Que tal se para o ingresso em cursos de ciências sociais colocassem aos candidatos a seguinte pergunta: o que é que o Presidente fez quando exonerou o Procurador Geral da República? A pergunta é estúpida, reconheço, pois a resposta óbvia seria: exonerou-o! Trata-se de uma pergunta que quase chora por uma resposta circular. E justamente isso torna a pergunta ideal para avaliar a inclinação para as ciências sociais. Nós ocupamo-nos de coisas triviais. Interessamo-nos por perguntas que, invariavelmente, dão em respostas circulares. O que fez o Presidente da República ao exonerar o Procurador Geral da República? Exonerou-o! Só isso? O que significa exonerar? Exonerar? Exonerar significa livrar alguém de uma responsabilidade qualquer, no caso, livrar o jurista Joaquim Madeira da responsabilide pela administração da justiça no País. Portanto, ao exonerar Madeira, o Presidente libertou-o dessa responsabilidade. Aliviou-o, como diríamos em Xangan.

Ou seja, continuamos na circularidade. Mas reparem que só o esforço de ir pela etimologia – ex-onerar (retirar o ônus) – começa a remeter-nos para mais aspectos da sociedade: responsabilidade; livrar alguém; alguém que livra alguém. Ainda é suficiente dizer apenas que o Presidente da República exonerou o Procurador Geral da República quando o exonerou? Não estaremos a perder uma oportunidade de apreciar devidamente a substância da nossa sociedade? Será mesmo assim tão óbvio que o que aconteceu foi apenas a exoneração? Circular não será a nossa convicção de que sabemos o que aconteceu? Não seria interessante saber o que realmente sabemos? E como o sabemos? Responsabilidade; livrar alguém; alguém que livra alguém. Que mais há aqui de interesse sociológico? O que é responsabilidade e como se constitui? Porque se liberta alguém de uma responsabilidade? Porquê esta carga valorativa? A responsabilidade é um fardo? Porquê?

Os chineses têm um provérbio segundo o qual um homem e uma mulher são três coisas: um homem, uma mulher e um casal. Quantas coisas é uma exoneração? Vamos contar: responsabilidade, autoridade para libertar outrém; alívio; desapontamento; ansiedade; meta incumprida; dificuldades; poder; ausência de mágoa (esta é do ex-PGR); ser entendido (esta também); ascensão (substituto); ascensão meteórica (Juiz Paulino); conspiração; regionalismo; má-fé; interferência política; campanha contra a honestidade; desorientação; e por aí fora. Vocês deixavam passar alguém que no exame de admissão respondesse: o Presidente da República exonerou o Procurador Geral da República ao exonerá-lo? Essa pessoa está mesmo apta para fazer um curso de ciências sociais? Uma pessoa sem imaginação? Uma pessoa que não tem o sentido estético necessário à observação do social? Uma pessoa que acha que tudo é óbvio? Uma pessoa que não imagina que haja mais por detrás do que vemos? Preciso de qualificar a última pergunta: haver mais por detrás do que vemos não significa que tudo esteja relacionado com tudo. Isso é paranoia. Teoria de conspiração. Estou a pensar numa música de Xidminguana em que ele alerta alguém contra os perigos de contração de doenças venéreas. E remata assim: um dia vais ter que fazer um penso grosso a um dos dedos do pé para poderes coxear e disfarçar a gonorreia. Lá está: será que toda a gente que coxeia por aí tem mesmo uma ferida? Ou doença venérea? E como vamos saber se ficamos apenas pelo óbvio?

IX

Eu acho que a pergunta sobre o que Chefe de Estado fez ao exonerar o PGR pode ser respondida de várias outras maneiras, nenhuma delas circular. A resposta que eu daria seria a seguinte: ele teceu um comentário sobre as nossas noções de responsabilidade e autoridade. E isso conduz, então, a mais outras perguntas, por exemplo, à pergunta de saber que noções de responsabilidade e autoridade são essas que temos. Que noções são essas? O que significa responsabilidade entre nós? E autoridade? Em que sentido é que a acção do Presidente da República documenta isso? Porque será que o acto de exonerar está ligado à responsabilidade e à autoridade? Será? Um cientista social de orientação quantitativa poderia fazer um exercício interessante. Ele poderia fazer um levantamento estatístico sobre exonerações desde a independência, construir tipologias de acordo com o sistema político, chefe de estado, pelouros mais propensos a exonerações, sexo dos “exonerados” (para o ex-PGR: proveniência regional do exonerado e do seu substituto), razões oficiais, razões especuladas, etc. Daria um estudo interessante.

Suponho que um resultado seria o número bastante baixo de exonerações para um País com uma longa e conturbada história. E aí dava para perguntar: será que somos assim tão consensuais, responsáveis e correctos? Ou haverá algo na nossa estrutura burocrática que torna esse mecanismo de auto-correcção supérfluo? O que será? Será que nós os moçambicanos sabemos algo que outros não sabem? Outro resultado seria a constatação de que não há praticamente nenhum caso de alguém que se “demitiu” (exonerou-se). Estranho. Será que estamos todos satisfeitos com o trabalho que fazemos? Com a relação que temos com os colegas, subordinados e superiores hierárquicos? Estamos todos em sintonia? Ou temos um espírito tão colegial que estamos dispostos a assumir a responsabilidade colectiva pelo falhanço individual? Ainda outro resultado – e este é mesmo curioso – seria o seguinte: as exonerações ocorrem mais com posições administrativas do que com posições políticas: reitores e, agora, PGR. O Ministro da Agricultura é a excepção que confirma apenas a regra. Mas aqui levantam-se mais perguntas: todo o Ministro e todo o Governador cumpriram a missão? Corresponderam? Ou a não renovação do mandato é a exoneração Made in Mozambique? Acho curioso.

X

Mas pouco a pouco já estamos a ver o problema que temos entre mãos. Há muito mais em questão aqui do que a simples substituição de um Procurador Geral da República mal entendido. Impõe-se uma sociologia da exoneração, ou mais adequadamente, uma sociologia da responsabilidade. Precisamos de um historial deste fenómeno. Uso propositadamente a palavra “fenómeno” para, em linha com o filósofo Stephen Toulmin, enfatizar a ideia de que se trata de um evento que precisa de ser explicado, isto é de um evento que cai fora da ordem natural das coisas. No auge da revolução não se exonerava; saneava-se. Reparem na conotação biológica: sanear. Impureza. Perigo de contaminação. Limpar. Hoje como todos estão limpos e puros já não se sanea. Exonera-se (quando isso acontece), de preferência àqueles que foram colocados por outros. Daí que o novo PGR não tenha demorado a libertar a Secretária Geral da Procuradoria da responsabilidade de gerir a instituição. Hoje, como já não há ideologia, não é possível ficar impuro. A responsabilidade é administrativa (se for) e não moral (que teria tornado necessário o saneamento). Já não há ligação entre moral e política (se é que jamais houve em qualquer que seja o lugar).

Essa sociologia da responsabilidade vai ter que passar pela análise da nossa burocracia. Qual é exactamente a função da exoneração? Corrigir defeitos burocráticos? A exoneração pode ter essa função entre nós? Quem vai restar? Ou a função é mais latente do estilo de recordar às pessoas quem manda de verdade – ou que quem manda, manda de verdade – isto é, vincar autoridade ou simplesmente fazer qualquer coisa em prol da imagem de “homem duro”? A Frelimo não brinca... Guebuza muito menos! Eis um novo slógan para as eleições que se avizinham. A exoneração é mesmo um fenómeno. Afinal, há alguém que tem noção de que as coisas funcionam ou não! Senão não exonerava. Então, quais são os critérios que usa? E os que não são exonerados, está tudo bem nos seus pelouros? O que é estar tudo bem? Qual é o ponto a partir do qual já não é possível não exonerar? Quando o “incompetente” é do Norte? Quando o “incompetente” é honesto e foi bom aluno de mestrado? Ou é quando está à espera, nos bastidores, a nova coqueluche do direito moçambicano?

Já agora, porque não fazer exames de admissão para altas posições? A pergunta mantém-se, mas ligereiramente reformulada: quando o Presidente da República te exonerar, o que estará ele a fazer? Se o candidato disser: obviamente que ele estará a exonerar-me, ele ou ela deve ser proibido de ocupar o cargo e tem que observar uma distância de 100 metros em relação a qualquer instituição de ensino superior onde se leccionem cursos de ciências sociais. Se disser: obviamente que ele estará a cobrar-me responsabilidade, ele ou ela deve também ser proibido de ocupar o cargo, pois pessoa com tão alto sentido de responsabilidade só pode ser um infiltrado. É preferível nomeá-lo reitor para caçar professores-turbos por aí. Se retorquir: obviamente que as coisas não vão chegar aí; quando me aperceber que não estou a cumprir, vou colocar o meu lugar à disposição do chefe do estado. Esse deve imediatamente ocupar o lugar. É o início do futuro de Moçambique. Não dá para sociólogo, pois não entende a mentalidade moçambicana. Mas de certeza tem respeito por si próprio. Afinal, o nosso problema, o que torna a exoneração possível e necessária, é a falta de auto-estima de muitos de nós. Ninguém entende o Presidente da República...

terça-feira, setembro 04, 2007

Mais blogues de interesse

Acrescentei os blogues de José Belmiro (Nação coragem), Ouri Pacamutondo (Mãos de Moçambique) e Elton Beirão (Vigilância Constante) à minha lista de elos por os achar interessantes.

Profissão: desenvolvidor

Havemos de chegar lá. O-lê-lê, O-lá-lá, só os desenvolvidores é que chegam lá! Como é bom saber que a minha cidade natal vai formar desenvolvidores com competências ... leiam que já nos vemos mais abaixo:

A Politécnica abre novo curso em Gaza

UM novo curso, de licenciatura em Estudos de Desenvolvimento, será aberto hoje no Instituto de Formação de Professores Eduardo Chivambo Mondlane, em Inhamissa, arredores da cidade de Xai-Xai, em Gaza, pela Universidade Politécnica - A Politécnica, em parceria com a Visão Mundial.

Maputo, Terça-Feira, 4 de Setembro de 2007:: Notícias

O curso está estruturado de modo a garantir que o licenciado em Estudos de Desenvolvimento adquira competências de natureza conceptual e técnica para intervir em processos de desenvolvimento económico e social, quer a nível local quer nacional e internacional. O acto contará com a presença do governador de Gaza, Djalma Lourenço, e do Magnífico Reitor da Politécnica, Lourenço do Rosário, assim como de representantes da Visão Mundial.

... com competências, dizia eu, aliás, os outros, “... de natureza conceptual e técnica para intervir em processos de desenvolvimento económico e social, quer a nível local quer nacional e internacional”. Meu Deus, o que quer dizer isto? Alguém me explica? Que competências de natureza conceptual e técnica são necessárias para que alguém intervenha em processos de desenvolvimento económico e social? O que são processos de desenvolvimento económico e social? E isto tudo num Instituto de Formação de Professores com o nome de um sociólogo/antropólogo! Não era melhor insistir na formação de professores que fazem mais falta? E integrar essas competências de natureza conceptual e técnica para intervir em processos de desenvolvimento económico e social na sua formação como pedagogos que vão trabalhar ao nível local?

Eu gosto do meu País pela sua criatividade. País de players, mas players com estatuto como diz o cantor Ziqo. Faltavam-nos desenvolvidores para começarmos a intervir nos processos de desenvolvimento económico e social. E logo em Xai-Xai! O-lê-lê, O-lá-lá,...

A solução

Li esta notícia curiosa no País Online:

Moçambique vai exportar 40 mil crocodilos

03/09/2007

Cerca de 40 mil crocodilos produzidos numa fazenda em Cahora Bassa, província de Tete, serão exportados para a África do Sul. O preço de cada réptil varia entre 35 a 100 dólares americanos e têm sido comercializados na Europa, América e Ásia para o fabrico de cinto, calçado, pastas, etc.

A notícia foi avançada esta tarde pela Televisão de Moçambique que entrevistou o proprietário da referida fazenda naquela província. Este explicou que através do processo artificial de incubação produz e exporta crocodilos para os continentes supracitados onde a carne e a pele são aproveitados para vários fins.

O mesmo entrevistado, de nacionalidade argentina, deu a conhecer que iniciou com o negócio no ano 2000 e actualmente conta com pouco mais de 55 mil crocodilos. Em 2006, disse ter importado 17 mil crocodilos.

Esta notícia vem numa altura em que naquele ponto do país e em outras regiões de Moçambique, os crocodilos têm sido o grande inimigo do homem e na tentativa de buscar uma solução, o Governo tem pautado pelo abate dos mesmos, pondo em risco a espécie e o ecossistema no geral (itálicos meus).

Bayano, por favor, explica-me esta composição. O que é que o jornalista quiz dizer? Que os crocodilos se tornaram problema na sequência da sua cultura pelo argentino? Ou simplesmente que a sua exportação vem no melhor momento?

Ainda sobre a incompetência

V

No texto anterior sobre a incompetência esquivei-me à tarefa de elucidar os elementos que suponho comporem uma definição útil da “competência”. Isso fica mal e não é bom. O assunto é muito importante e merece ser aprofundado. Com efeito, tenho a convicção de que uma maior concentração sobre este tipo de questões nos pode ajudar a introduzir mais racionalidade no nosso debate público. E não só. Algo me diz que esta discussão me ajuda a responder uma questão que Nando Menete me colocou há vários meses e que eu continuo com a sensação de ainda não ter respondido. Refiro-me à questão dos critérios de desempenho. Porque não associar a questão da competência com o assunto dos critérios de desempenho? Parece-me lógico e incontornável.

No fundo, porém, o verdadeiro interesse deste exercício é sociológico. Estou interessado em perceber a constituição e substância das nossas relações sociais. Competência e critérios de desempenho são importantes nisso. O que acontece quando avaliamos o desempenho de alguém é, na verdade, muito mais do que procurar saber se determinados resultados foram alcançados ou não, e porquê. Há um exercício metodológico que se esconde nessa avaliação e que devolve ao sociólogo o tecido da sociedade. Durante o fim de semana estive a ouvir música de Xidiminguana, mais especificamente o álbum Vuthu Gaza. Numa das composições, com o título a minha viola está de volta, o cantor relata um assalto de que foi vítima e durante o qual lhe roubaram a viola e o apunhalaram três vezes. A dado passo do relato Xidiminguana, naquele seu jeito característico de monólogos eivados do mais subtil sentido de observação das relações sociais, ele interpela directamente os assaltantes e pergunta-lhes o seguinte: “se vocês me tivessem morto, como é que iam dizer isso à minha mulher Paulina?”. E ainda: “Teriam ido à esquadra dizer à polícia que vocês é que me mataram?”.

Repeti a música algumas vezes para me certificar do que estava a ouvir. É evidente que nenhuma dessas perguntas é directamente relevante para qualquer assaltante que se preze. O assaltante está-se nas tintas para a mulher da sua vítima. Está-se nas tintas, também, para a esquadra da polícia. Agora, como é que um indivíduo tão lúcido e perspicaz como Xidiminguana pode ter a ideia de sugerir esse tipo de perguntas como sendo relevantes para assaltantes? Acho que a resposta a esta pergunta está na ideia de sociedade que o cantor tem. Ele tem a ideia de que uma sociedade é acima de tudo um quadro normativo. Daí decorre, provavelmente, a ideia associada de que um assaltante se afastou do quadro normativo ao qual pode ainda regressar se lhe for exposto o problema moral perante o qual ele será colocado em resultado da sua acção. Vais ter a coragem de dizer à minha mulher que tu me tiraste a vida? Podes viver na sociedade com má consciência? Podes aguentar viver em plena consciência de um acto ignóbil por ti cometido? Estás ciente das consequências que esse acto acarreta consigo?

O mais importante aqui não é a constatação de que Xidiminguana, por mais mimosas que possam ser as suas inocentes perguntas, está ultrapassado. As suas perguntas conduzem o sociólogo atento – estou a utilizar a noção de sociólogo num sentido muito lacto para abarcar todo o cidadão crítico e competente no debate – a prestar mais atenção ao tecido social. Que estrutura é que a nossa sociedade deve ter e que tipo de relações sociais devem existir nessa estrutura para que perguntas desta natureza possam fazer sentido? Reparem que este exercício tem uma afinidade muito grande com o exercício científico de formular hipóteses. Quando formulamos hipóteses não estamos apenas a mapear o caminho que nos vai levar às respostas que procuramos. Na verdade, formulamos hipóteses como forma de identificarmos o mais claramente possível as condições que devem estar reunidas para que determinados resultados se dêem.

VI

É a mesmíssima coisa com critérios de desempenho ou competência. O desafio não consiste simplesmente em produzir resultados. Isso é demasiado geral. O desafio consiste em identifcar as condições necessárias à produção dos resultados que queremos. Aqui já podemos começar a apreciar a hostilidade que alguns decisores políticos têm ao debate. Sentem-se melhor discutindo conclusões (queremos acabar com a pobreza absoluta) do que as premissas (acabando com o espírito do deixa-andar), frequentemente porque não fazem ideia de como produzir esses resultados. Criam todo o tipo de entraves ao debate das premissas e subordinam o debate público ao objectivo final (conclusão). Daí é mais fácil apelar à paciência: não critiquem agora, esperem pelos resultados, depois criticam (se houver razões para criticar). O problema, contudo, é que o momento da crítica é como o horizonte. Afasta-se à medida que progredimos no terreno. É como dizia o malogrado cantor de “la famba bicha” numa outra composição da sua autoria: obrigam-nos a pentear um careca. O debate, para ser útil, não pode ser sobre os resultados finais. Tem que ser essencialmente sobre como alcançar esses resultados.

Os quatro elementos que sugeri como fazendo parte de uma definição de competência prestam-se muito bem a esse desiderato democrático de debate. O primeiro consistia em (a) definir um espaço de intervenção que exige um conhecimento técnico e habilidades específicas. A sociedade é demasiado grande para servir como ponto de referência do âmbito de intervenção. Alías, o problema até não é ser grande. É ela ser complexa. Essa complexidade faz com que a sociedade recuse abordagens globais. Ela exige que se identifiquem contextos de relevância que clamam por um conhecimento técnico e habilidades específicas: saúde, segurança pública, trabalho, etc. Na saúde precisamos de médicos e gestores; no trabalho precisamos de juristas, economistas e gestores; na segurança pública precisamos de juristas, polícias e gestores. E por aí fora. Fazemos um corte conceitual que nos permite apreender a realidade de uma forma muito específica e restricta de modo a sermos mais coerentes na intervenção. Os ministérios que compõem o nosso executivo reflectem, portanto, a visão que se tem da nossa sociedade. Podemos discutir se essa visão faz sentido, é sensata ou útil. Aliás: temos que discutir isso. Faz, por exemplo, nos dias de hoje, ainda sentido ter um ministério para os antigos combatentes? Faz sentido separar o ministério do interior do ministério da administração estatal? Faz sentido olhar para os problemas do trabalho sem referência à acção social ou à saúde? Não há ortodoxia nisto, apenas a necessidade de debater isso. Constantemente. Para obrigar as pessoas que tiveram essa ideia a não pararem de reflectir, nem ficarem complacentes.

O segundo elemento era (b) formular o problema desse espaço de intervenção tendo em conta o contexto político geral dentro do qual ele está integrado e assume funções. Identificado o espaço de intervenção surge o grande desafio de formular o problema que deve merecer a atenção dos decisores políticos. Qual é o problema da saúde em Moçambique? É a malária? É o HIV? É o financiamento da saúde? É a cobertura nacional? O que torna este ponto difícil é a necessidade de ter o contexto político em conta e não perder de vista a função que a gestão desse espaço de intervenção deve assumir. Tenho a impressão de que a nossa governação tem muitas vezes encalhado neste ponto. Existe um problema geral que orienta a acção política. Esse problema é o subdesenvolvimento. Esse problema geral define o problema específico e chega mesmo a torná-lo supérfluo. Cada ministro vai combater o subdesenvolvimento no seu sector. Uma vez lá, as tarefas vão surgindo ao sabor da elaboração de estratégias nacionais de não-sei-quantos, muitas vezes por exigência de doadores que gostariam de saber o que os moçambicanos estão a fazer de concreto. É assim que não admira a perplexidade do Ministério do Interior perante o crime, pois para além da ideia geral de contribuir para o desenvolvimento do País poucos lá têm uma noção clara do que é preciso fazer de mais específico. Suspeito até que a proliferação de seminários e conselhos coordenadores seja resultado desta perplexidade. Na ausência de uma ideia mais concreta do problema, o melhor é fazer uma reunião para dar a entender que se está à procura desse problema. E fazer mais uma para saber porque ainda não se tem um problema. E mais outra para saber porque a segunda reunião não produziu problema. E por aí fora. O seminário parece funcional à perplexidade geral.

O terceiro elemento consistia em (c) conceber uma estrutura de intervenção ao nível do problema identificado tendo em conta os meios (humanos e materiais) necessários sem, contudo, descurar alternativas para reacção a imprevistos, factores exógenos ou mesmo a dinâmicas criadas pelo próprio desempenho. Coloquei esta ideia de forma muito complicada, o que reflecte o estágio incipiente da minha reflexão. Na verdade, a ideia é mais simples ainda. Tornou-se hábito entre nós referir-mo-nos a dificuldades em meios humanos e materiais para fazer seja o que for. Isto está ligado ao facto de as pessoas se orientarem pelo problema geral, nomeadamente o subdesenvolvimento. Com este problema estão garantidas as desculpas para o mau desempenho: falta de meios. E até faz sentido. Pobre por ser pobre. Na realidade, contudo, o que se devia exigir de todos nós era que concebéssemos uma estrutura de intervenção que nos permitisse trabalhar com os poucos meios de que dispomos. Isto ajudáva-nos, entre outras coisas, a evitar declarações como as do ex-Procurador Geral da República que em entrevista ao Notícias se vangloriava de ter aumentado o número de juízes licenciados – como se isso fosse algum feito – quando o mais importante é saber se a qualidade da justiça (independentemente do nível de formação) melhorou ou não. O resto da concepção da estrutura de intervenção tem a ver com o famoso “plano B”. O que vamos fazer se não tivermos o mínimo que necessitamos para fazer o nosso trabalho? O que vamos fazer se houver imprevistos (não é possível pensar em tudo)? O que vamos fazer se o nosso trabalho surtir efeitos e colocar-nos novos problemas?

Finalmente, o quarto elemento dizia que era necessário (d) identificar níveis institucionais, individuais e sociais de intervenção a serem concebidos como mecanismos de auto-correcção. É mais uma ideia formulada de maneira infeliz por mim. Trata-se, porém, de saber quem vai fazer o quê. Aqui está ligado um outro problema da governação moçambicana que é do âmbito da filosofia política: resolver os problemas de Moçambique é tarefa do governo de Moçambique. Daqui decorrem vários defeitos do nosso sistema político: centralização; autoritarismo; burocratismo; intransparência; intolerância. E a lista continua, de certeza. A saúde é problema do Ministério da Saúde; aos indivíduos ficam apenas reservadas aquelas tarefas que o Ministério define por defeito, à última da hora, quando já não sabe como explicar os seus próprios desaires, tipo a sociedade também tem que contribuir. A segurança é assunto do Ministério do Interior, mas quando o crime cai fora do controlo a sociedade também tem que contribuir como diz o Comandante Geral da Polícia na entrevista que concedeu ao Notícias. Só que a sociedade não participa em nenhum seminário – para além das consultas à população – nem em conselho coordenador, viagens ao exterior, capacitação, isenções disto-mais-aquilo. A sociedade é o tapete onde os dignatários limpam os sapatos antes de entrarem nos seus gabinetes onde se travam renhidos combates com a pobreza absoluta. Riqueza absoluta contra pobreza absoluta. Pobreza absoluta de ideias.

VII

Competência é ser capaz de partilhar com os outros membros da sociedade a ideia que temos dessa sociedade. E não ser ortodoxo e inflexível.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Incompetência

I

Depois de uma publicação nacional me ter atribuído uma acusação de incompetência ao governo de Guebuza afigura-se algo arriscado abordar este assunto. Vou, contudo, arriscar, pois alguns desenvolvimentos recentes na cena política nacional exigem maior clareza sobre esta noção. Infelizmente, no nosso país empregamos a palavra “incompetência” de forma muito descuidada. Entre nós é competente aquele que simplesmente é formado, autoritário e faz muito barulho. Em contrapartida, é incompetente aquele que não é formado e trabalha num sector com muitos problemas. O simples facto de os problemas persistirem é razão suficiente para rotular o timoneiro do sector de “incompetente”. Assim não dá. Precisamos de maior clareza em relação ao conceito.

A razão imediata desta reflexão é a recente exoneração do Procurador Geral da República pelo Chefe do Estado. Como observou perspicazmente Jeremias Langa do semanário “O País”, a exoneração aconteceu ainda dentro do mandato. Isso significa que o Presidente chegou à conclusão de que não era com Joaquim Madeira, o PGR exonerado, que ele ia administrar a justiça no País. A discussão em alguns sectores de opinião é se esta decisão do Presidente da República constitui um atestado de incompetência ao jurista. O próprio Joaquim Madeira levanta a questão numa pobre entrevista – a juntar-se a várias outras entrevistas pobres que ele concedeu à imprensa – ao jornal Notícias (e que Patrício Langa teve o cuidado de publicar no seu blogue para que o registo fique – ler aqui). A dado passo dessa entrevista o ex-PGR afirma: “... Agora, ouvi dizer que saí porque sou incompetente. Não sei o que é ser incompetente. Fico feliz por saber que por onde passei, quer como juiz-presidente em Tete, Inhambane e cidade de Maputo, e mesmo quando estava a estudar em Lisboa, nunca me passaram o certificado de incompetência. Quando estava a fazer o mestrado só tive elogios de professores (...)”. Se até um indivíduo que foi Procurador Geral da República durante sete anos não sabe o que é ser incompetente, então devemos mesmo ficar preocupados com a qualidade da nossa esfera pública.

É verdade que o seu argumento é retórico. No fundo ele sabe o que é ser incompetente. Nos seus próprios termos ser incompetente é não ter sido passado certificado de incompetência em Tete, Inhambane e cidade de Maputo. É ter apenas elogios de professores durante o mestrado. Estamos mal. Mais do que nunca precisamos de critérios. Sem critérios não é possível desenvolver seja o que for. Sem critérios não é possível avaliar seja o que for. Sem critérios não é possível apreciar devidamente o valor das pessoas, independentemente do seu desempenho seja onde for. O contexto estrutural dentro do qual as pessoas trabalham no nosso País é bastante problemático. Sempre que avaliamos o desempenho das pessoas devemos tê-lo em consideração. Não obstante, as pessoas avaliadas não podem usar esse contexto para se furtarem à própria responsabilidade. A entrevista do ex-PGR parece fazer isso. Curiosamente, pela sua deselegância e pela quantidade de sofismas que contém acaba dando razão ao Presidente da República. Joaquim Madeira não era a pessoa indicada para aquele lugar.

II

O que é, então, a incompetência? Acho mais conveniente tentar responder esta pergunta ao contrário: o que é a competência? Melhor ainda: o que devemos entender por “competência”? Reparem que não pretendo sugerir uma definição universal de “competência”. Deve se subentender aqui que estou à procura de uma definição de “competência” que seja útil ao debate na nossa esfera pública. Portanto, a minha pergunta é, completa, assim: o que devemos entender por competência no contexto político de Moçambique? Naturalmente que os critérios que vou sugerir aqui recuperam elementos de uma definição mais geral do conceito, pois não nos podemos permitir o luxo de termos definições particulares de conceitos tão universais como este. A insistência na particularização serve apenas o objectivo imediato de tornar o conceito operacional para o nosso contexto político. Acho importante insistir sobre este ponto.

Gostaria, então, de propôr quatro elementos para uma definição moçambicana de “competência”. Competência é saber:

a) definir um espaço de intervenção que exige um conhecimento técnico e habilidades específicas.

b) Formular o problema desse espaço de intervenção tendo em conta o contexto político geral dentro do qual ele está integrado e assume funções.

c) Conceber uma estrutura de intervenção ao nível do problema identificado tendo em conta os meios (humanos e materiais) necessários sem, contudo, descurar alternativas para reacção a imprevistos, factores exógenos ou mesmo a dinâmicas criadas pelo próprio desempenho.

d) Identificar níveis institucionais, individuais e sociais de intervenção a serem concebidos como mecanismos de auto-correcção.

Espero que isto não seja vago, pois não entendo elaborar sobre nenhum dos elementos. O único que gostaria de salientar é que estes elementos podem servir para tornar o nosso debate mais racional. Se queremos avaliar o desempenho de alguém (refiro-me, obviamente, a pessoas em posições de chefia) poderíamos ter em conta algo como o que estou a propôr aqui: Como é que a pessoa em questão definiu o espaço de intervenção? Fazia sentido? Como formulou o problema? Era uma formulação adequada e sensível ao nosso contexto político? Que estrutura de intervenção concebeu ele? Era exequível? Que níveis de intervenção identificou? Eram realísticos? É óbvio que há muitas outras perguntas que podemos colocar, perguntas essas que nos vão permitir discutir substância.

Uma resposta negativa a estas perguntas dá-nos a definição de incompetência. Portanto, incompetência não é não ser formado ou não conseguir resolver os problemas do sector. Por exemplo, a persistência do crime violento em Maputo em si não constitui atestado de incompetência para seja quem for. Incompetência, no caso do crime, é simplesmente a ausência de uma ideia útil de como abordar o problema. Continuando, incompetência não é nem mesmo ser má pessoa ou ser do Norte ou não cair nas boas graças dos “chefes”. Incompetência é não ser capaz de definir um espaço de intervenção, formular o problema desse espaço, conceber uma estrutura de intervenção e identificar níveis de intervenção. Ser bom jurista, ter sido bom aluno de mestrado, estar nas boas graças da gente de Inhambane, ser do Sul, ser carismático, honesto, íntegro e bom cristão são critérios completamente irrelevantes. Ou melhor: deviam ser completamente irrelevantes. Não vêem a propósito. Ir sete vezes ao parlamento – e não dizer nada de substancial – também não é critério de competência. Ou melhor: é irrelevante.

III

Acho que com esta clarificação já podemos começar a apreciar o problema do ponto de vista sociológico. Na verdade, suspeito que o que torna difícil a discussão política em Moçambique não seja exactamente a falta de clareza sobre a noção de incompetência – pelo menos parcialmente – mas sim as condições em que pessoas assumem responsabilidades. Essas condições são do âmbito de integridade individual e da relação de autoridade. Explico-me: A integridade individual refere-se à apreciação que cada um de nós faz de si próprio. Será que sou capaz de fazer este trabalho? Será que reúno as qualidades necessárias a esta tarefa? Será que mereço a confiança que está a ser depositada em mim? Integridade individual significa, portanto, responder estas perguntas antes de aceitar uma tarefa. A relação de autoridade já tem outro cariz. Ela exige maior amor-próprio na relação com os chefes. Quando o Presidente me convida a ser ministro de alguma coisa é porque ele vê reunidos em mim requisitos técnicos e pessoais que ele não tem (e nem precisa de ter porque ele não é superhomem), mas que precisa para levar a bom termo o mandato que o povo lhe confiou. Essa relação de dependência recíproca devia me obrigar a ter a coragem de dizer ao Presidente (ou a qualquer outro chefe) como eu acho que o trabalho pode ser feito. Agora, o Presidente que por ser Presidente tem naturalmente já uma ideia de como as coisas devem ser feitas, pode legitimamente rejeitar as minhas. Nessas circunstâncias eu devia ter a coragem de também recusar a tarefa se estiver convencido de que as condições de trabalho que me são propostas não jogam com aquilo que a minha formação técnica me diz. E isso é legítimo, não é insubordinação. Ilegítimo é aceitar tarefas pouco claras e não ter nenhum insumo próprio na definição dessas tarefas.

Há razões históricas e materiais que explicam estas condições. As materiais são por demais conhecidas: o importante é ser chefe de alguma coisa, pois aí pode se viver à custa do Estado. Não são todos os “responsáveis” que são assim, mas há entre eles muitos oportunistas desta matriz. E como sei que o facto de viver fora do País me desqualifica para comentar este aspecto, não vou insistir. Mas gostaria tanto que esses oportunistas vissem o apartamento em que vivo, o carro que conduzo e o tamanho da minha conta bancária... As razões históricas são também conhecidas, mas menos tematizadas. Quando o País ficou independente em 1975 havia falta de quadros. Era natural, naquela altura, que a questão da integridade individual e da relação de autoridade não se colocasse como se coloca agora. Toda a incumbência era uma missão/tarefa a cumprir. Recusar uma missão – não vou entrar nos antecedentes militares que são mais uma complicação – por humildade era visto como cinismo e falta de patriotismo. Perversamente, mas perfeitamente compreensível, quanto menos qualificada fosse a pessoa – do ponto de vista técnico – mais necessário era que aceitasse, pois isso era a prova de que havia algo nele que os chefes tinham visto e que era crucial ao sucesso dos objectivos pós-independência. Por modéstia aceitavam-se tarefas para as quais não se estava preparado.

A situação entretanto mudou, mas os comportamentos mantéem-se. Muitos dos que são abençoados com convites do chefe para irem ser também chefes de alguma coisa continuam a pensar que recusar – por não reunirem os requisitos ou por divergência de opinião sobre como fazer o trabalho – é falta de patriotismo. E a ilusão do “poder da Frelimo” piora as coisas, pois muitos pensam que é arriscado contrariar a “Frelimo”. Com a “Frelimo” não se brinca... E quando alguém como eu lhes diz isso, respondem dizendo “isto não é Europa!”. Claro que não é a Europa. E nunca vai ser enquanto houver mais gente assim entre nós. E Europa aqui quer dizer contexto político em que é possível manter uma discussão racional sobre o desempenho individual. Essa discussão é possível porque um bom número dos “responsáveis” é responsável porque tem sentido de integridade individual e tem uma relação de autoridade sã. E a base disso tudo é a competência, mais ou menos nos termos aqui propostos. Afinal, só quem é capaz de fazer esse exercício pode também ter interesse em se interpelar e dialogar com o chefe.

IV

Voltemos ao ex-Procurador Geral da República. Na análise que fiz ao seu informe apercebi-me de que por detrás daquele longo e intragável discurso que ele proferiu na Assembleia da República se escondia um homem honesto, bondoso e conhecedor das suas artes. Apercebi-me também, e infelizmente, que esse homem não fazia a mínima ideia da tarefa que tinha em mãos. Aquele informe bem como as suas diversas declarações à imprensa revelaram a ausência da definição de um espaço de intervenção, uma fraca capacidade de formular o problema desse espaço, uma pobre concepção da estrutura de intervenção e dificuldades gritantes de identificação de níveis de intervenção. Isso tudo sobe à superfície na entrevista que ele concedeu ao Notícias. O culpado de tudo é o regionalismo dos chefes – mas dá o exemplo de gente comum na Zambézia a quem ele promete chefe do Norte que dá chambocada... – a corrupção, a interferência do poder político, a má fé de colegas que ele próprio promoveu, etc.

Em nenhum momento da entrevista explica porque com tantas dificuldades, tanta má fé, tanta corrupção e tanta interferência do poder político ele continuava convicto de que era a pessoa mais indicada para dirigir aquela instituição. Não explica porque continuava a acreditar que poderia fazer aquilo que em sete anos não fez. Não explica porque não colocou o seu lugar à disposição do chefe – já que se tinha apercebido de que isso era iminente – como forma de fazer pressão por melhor ambiente de trabalho. De certeza que foi por patriotismo. Não, por mim, o Presidente agiu bem em exonerar este indivíduo. Mas ao próprio Presidente têm que ser também aplicados os critérios aqui discutidos, sobretudo por causa do silêncio à volta dos motivos da exoneração.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Não tem sistema

Ausência

Estive ausente durante muito tempo. Mais de um mês. Estranhamente, o país não deixou de funcionar por causa disso. Os acontecimentos não ficaram à minha espera com medo de não serem comentados. Foram acontecendo. A fala sem consequências. Por exemplo, o edil da Beira, Deviz Simango, perdeu um pouco do apreço que eu tinha pelo que dele se diz com uma resposta a despropósito a encerrar uma entrevista na edição de agosto da revista POSITIVA. Perguntaram-lhe que tipo de relacionamento tinha com a administradora da Beira e ele respondeu: não a conheço. Ponto final. Estranho. Bastante estranho. É assim que queremos mesmo construir uma democracia estável? Mesmo que ele esteja farto dos outros, o respeito pelas pessoas que o elegeram não o devia obrigar a conhecer as pessoas que, pela lei, partilham a responsabilidade pela gestão da Beira?

Mas como dizia, as coisas foram acontecendo. O direito à razão. O Comandante Geral da Polícia finalmente falou. Concedeu uma entrevista ao jornal Notícias em que parecia estar a revelar porque ficara calado todo este tempo: por não fazer a mínima ideia do problema que tem em mãos. Pelo menos a julgar pelas respostas ao jornalista. Vejam a entrevista aqui. Não deu nenhuma resposta substancial às perguntas que lhe foram colocadas. Limitou-se apenas a apelar à fé dos moçambicanos. Tenham fé que havemos de combater o crime. E desfiou teorias obscuras sobre a origem do crime. Mesmo assim, está de parabéns por ter falado. O que faz falta ao nosso país é isto mesmo: gente que fala, sobretudo, governantes com coragem para dizer porque imaginam que os problemas são como eles são. A esfera pública fica a ganhar. Nem que seja pelo facto de ficarmos a saber que deles não podemos esperar muito.

O fenómeno da bicha. Moçambique tem novo Procurador-Geral da República. Ninguém, com a honrosa excepção do Presidente da República (e do ex-PGR, esperemos), sabe porque foi exonerado. Ver este e este comentário. Não pode ter sido por incompetência porque disso já tinha dado fortes indicações aquando da explosão do paiol e do último informe ao parlamento. Incompetente seria não ser capaz de ver que aquilo eram provas de incompetência. O fenómeno da bicha: onde está o problema? Nos outros ou em nós?

Entretanto, as coisas foram acontecendo, na verdade, muito mais do que aqui referi. Os acontecimentos não entraram em greve por eu estar ausente. Não ficaram renitentes, nem foram possuídos pelo espírito do deixa-andar e mandaram às urtigas os jornalistas que precisam sempre de informação. Foram acontecendo com aquela perversidade regular com que visitam o nosso país. É a caixa de ferramentas do sociólogo. Os acontecimentos aconteceram porque nenhum de nós é seu proprietário. Nem mesmo nós os sociólogos, por mais que acreditemos firmemente na ideia de que os nossos conceitos, os nossos quadros analíticos e os nossos métodos sejam anteriores à realidade. Ninguém ainda foi dizer à realidade que ela depende dos nossos instrumentos para ser o que ela é. E como ela não sabe isso, vai acontecendo. Que pena. Mas que pena! Imaginem só que a sociedade fosse tal e qual os nossos conceitos. Imaginem! Imaginem a força que a sociologia teria. Era só dizer “o desemprego causa criminalidade” para a sociedade ficar a saber o que deve fazer e FAZÊ-LO!

É evidente que não escrevo isto apenas para lamentar a minha impotência, nem me vingar dos acontecimentos por me ignorarem. Escrevo isto para chamar a vossa atenção para as origens da sociologia. O reconhecimento de impotência está na origem da sociologia. Estou a forçar a metáfora um bocado, mas dá. Um dos grandes percursores da sociologia foi o francês Saint Simon que escandalizou a França inteira, sobretudo a nobreza, com a seguinte pergunta: o que aconteceria à França se de um dia para o outro toda a nobreza e todos os governantes morressem? Imaginem a pergunta! De um dia para o outro, o país fica sem governo e sem a sua fina flôr, o que aconteceria? Na verdade, o escândalo não foi a pergunta. O escândalo foi a resposta. Saint Simon respondeu: nada. Nadinha. Seria pior, e impensável, se de um dia para o outro o país perdesse os seus operários, agricultores, comerciantes, etc. Aí sim, haveria problemas. O país ficava, para usar linguagem tecnológica moçambicana, “sem sistema”.

Essa pergunta deu o pontapé de saída para o edifício conceitual que a sociologia tem vindo a construir desde esses tempos. Há muita sociologia por aí que não se entende sem essa pergunta. Mesmo Marx e Engels. Em certa medida, Marx e Engels não queriam construir o socialismo. Nisso só acreditaram os ideólogos mal formados da Frelimo. Marx e Engels queriam acabar com a burocracia, isto é com o Estado. O Capital e todos aqueles títulos que aprendemos nas aulas de educação política eram uma resposta à pergunta de Saint Simon: o que aconteceria se essa classe parasita desaparecesse? Mesmo Weber não faz mais nada senão isso, isto é procurar uma resposta para essa pergunta.

O nosso país dará um passo gigantesco em frente quando para além de mim – sim, é arrogância – alguém mais, sobretudo os governantes, reconhecerem que a realidade não depende muito de si. Não é niilismo, nem coisa parecida, pois os homens, na verdade, é que fazem o mundo. Mas nem todos. Muito menos aqueles que repetem isso religiosamente. Da mesma maneira que os acontecimentos não vão ficar à minha espera, o desenvolvimento e o bem-estar de Moçambique e moçambicanos não dependem de quem se arroga esse direito. Quem se arroga esse direito só pode estragar as coisas. O desenvolvimento do país e o bem estar dos moçambicanos dependem do espaço que estes últimos têm para resolverem os seus problemas. Um exemplo muito interessante do que estou a reflectir aqui é o trâfego em Maputo. Horrível, mas estranhamente funcional. Se os motoristas respeitassem as regras de trânsito na cidade, tudo parava. As regras de trânsito são apenas um quadro de orientação que permite às pessoas agirem, negociando espaços, logrando o possível, fazendo a vida. Tenho a certeza de que há mais acidentes fora da cidade – onde há menos trâfego – do que dentro dela. É um caso para reflectir.

É um desafio que a filosofia política nos lança. Aliás, são os acontecimentos. Então, cá estou de novo para me inspirar nos acontecimentos.

terça-feira, agosto 21, 2007

Inquéritos

E cá estamos nós em mais uma análise de inquérito. Reproduzo-o aqui, extraído do jornal o País Online, para chamar a vossa atenção para a formulação da pergunta e para as opções de resposta. Leiam-no:

Inquérito

Acha que as eleições provinciais irão decorrer dentro da normalidade sem intervenção dos doadores?

Sim

Não

Provavelmente

O que quer saber a pergunta? Se as eleições vão ter um decurso normal se os doadores não intervirem ou se as eleições vão ter um decurso normal sem que os doadores intervenham? E que tipo de intervenção? Como observadores? Dando dinheiro para a realização? Apoiando alguns partidos? O que é que o inquérito pretende saber?

Quanto às opções de resposta: não devia ser “não sei” no lugar de “provavelmente”? Provavelmente sim ou provavelmente não?

segunda-feira, agosto 20, 2007

A caixa de ferramentas do sociólogo

Esta é a última postagem sobre este assunto. Lamentavelmente, talvez por causa da forma errática como fui fazendo as postagens, houve pouco - ou nenhum - diálogo. Nem mesmo de quem me interpelou a este respeito... devem estar a tomar notas! Bom proveito.


Consultorias (f) – relatório final.

Muitos de nós, infelizmente, escrevemos mal. Muito mal. Não tenho nenhuma vergonha em dizer isto porque é um problema real. Tenho usado todas as oportunidades que tenho para chamar a atenção de todos os estudantes de sociologia que cruzam comigo para este problema. Há trabalhos escritos por estudantes de sociologia cuja qualidade linguística é arrepiante. Agora, é verdade que em Moçambique há muitos problemas; o ensino primário e secundário é deficiente. Os professores não são sempre os melhores; não há materiais; não há livros para as pessoas se acostumarem à palavra escrita; enfim, vivemos num contexto multi-lingue que nem sempre constitui uma vantagem. Toda a gente sabe isso e compreende também as dificuldades. Só que trabalho de qualidade é trabalho de qualidade. Quem quer realmente fazer trabalho de qualidade tem que se preocupar em superar as suas próprias lacunas. Desculpas não nos levam longe.

Por muito bem feita que for uma consultoria, se a pessoa que a fez não for capaz de produzir um relatório final legível, estamos mal. Corre o risco de deitar por água abaixo todos os ganhos feitos. O relatório final é a cereja no bolo e ao mesmo tempo uma espécie de recomendação. É a cereja porque é o lugar onde o consultor mostra tudo quanto fez. É a coroação, por assim dizer. É também uma recomendação porque é com base na plausibilidade e legibilidade do relatório que os que encomendam consultorias se sentem encorajados a voltar a depositar confiança no consultor. O relatório final é, talvez, o elemento mais crucial de toda uma consultoria.

Escusado é dizer que a pontualidade na redação e entrega deste documento constitui trunfo. Os maus hábitos da faculdade não servem: os computadores estavam ocupados; tive malária; faleceu o tio mais novo da irmã mais velha do padrinho de casamento do meu colega de serviço, etc. Isso não vai impressionar ninguém. Antes pelo contrário, só vai predispor negativamente em relação à toda a profissão de sociólogos. Isto não quer dizer que imprevistos não surjam. Infelizmente, a vida contém dessas coisas. Mas quando é assim, a obrigação do consultor é de entrar em contacto com os seus patrões e explicar a nova situação e propor novas datas realísticas. Ficar silencioso como muitos fazem com os seus trabalhos de fim de curso não ajuda, com a agravante de que se corre o risco de se não ser pago por violação do disposto no contracto.

Passemos para o menos importante. O que deve conter um relatório final? O relatório final deve conter uma exposição clara e concisa do trabalho que foi feito bem como a resposta à pergunta colocada nos termos de referência. O consultor deve indicar que informação achou necessário recolher, porquê e como o fez. Inevitávelmente, terá havido dificuldades e imprevistos na realização desse trabalho. Isso tem que ser integrado no relatório. Aqui também é preciso ter a coragem de abandonar os maus hábitos da faculdade. Não é aconselhável dizer apenas que não foi possível falar com toda a gente com a qual teria sido necessário falar; não é bom dizer apenas que algumas bibliotecas estavam fechadas; não é útil dizer que não foi possível ir ao distrito de Mopeia porque as chuvas bloquearam os acessos. Isso na faculdade ainda funciona, mas num relatório final é a receita certa para nunca mais ser convidado a fazer seja o que for. É preciso apresentar dificuldades de forma inteligente. Como é que foi contornado o problema? Como se fez para se compensar a falta da informação que devia ter sido obtida pela via falhada? Qual é o grau de fiabilidade da informação obtida por outros meios? Se o consultor tem a consciência de que as alternativas não foram tão boas, tem que o dizer. O importante quando produzimos conhecimento não é sempre reproduzir a “verdade”, mas sim a transparência do processo de obtenção da informação. É sempre mais aconselhável dizer às pessoas honestamente o que vale a informação que lhes está a ser facultada, do que ficar silencioso à espera de que ninguém note. Isso é desonesto. E faz mal à sociologia.

O consultor deve reflectir sobre o processo de recolha de material e apresentar isso aos que encomendaram o trabalho como uma lição aprendida. As instituições querem sempre aprender. Quando encomendam consultorias estão, no fundo, a participar, ainda que indirectamente, no processo de criação de um espaço público de discussão e debate de ideias. Reflectir sobre a produção do conhecimento é uma contribuição muito importante nesse sentido. Sociologia não é superstição nem magia. Em relação a isso já Carlos Serra lançou um alerta no seu decálogo. Quem ainda não leu esse documento, por favor, que o faça. É importante!

O relatório final deve conter também as conclusões a que o estudo chegou. É aqui onde o consultor responde à pergunta colocada nos termos de referência. O estudo foi encomendado pela Renamo e queria conhecer o impacto da iniciativa presidencial sobre o HIV no seio da camada juvenil? Muito bem, qual foi o impacto? Positivo, negativo ou nem uma nem outra coisa? A consultoria difere, neste aspecto, fundamentalmente de um mero trabalho académico. Enquanto que o trabalho académico continua perfeitamente legítimo, mesmo se conclui que a sua suposição inicial não se confirma, a consultoria produz resultados positivos. Positivos, isto é, no sentido de responder afirmativamente à questão central do estudo. A consultoria não é um tactear no escuro. É trabalho de alguém abalizado que sabe que pergunta colocar para poder ter a resposta certa.

Depois vêm as famosas recomendações. É aqui onde elas têm lugar, nunca num trabalho de tese como muitos ainda insistem em fazê-lo. Com base no constatado que cursos de acção é que o consultor aconselha? O que o patrão deve fazer? Aqui como em tudo o resto que o sociólogo faz, é preciso ter abertura de espírito suficiente para reconhecer várias saídas para um problema. O desafio consiste, depois, em indicar os argumentos a favor e contra cada um dos cursos de acção. Para que é que a Renamo queria saber isso? Para reagir? Muito bem, o que o nosso consultor sugere? O impacto foi positivo? Pois bem, o que a Renamo deve fazer? Pagar jornalistas para comentarem negativamente a iniciativa? Realizar uma iniciativa idêntica por parte do líder da Renamo? Apresentar uma política própria de combate ao HIV? Que fazer?

Não resisto à tentação de deixar uma “dica” extremamente importante: o consultor deve procurar, na medida do possível, “empacotar” as recomendações de maneira a deixar em aberto a continuação do seu trabalho. Cada qual tem que ganhar o seu pão...

domingo, agosto 12, 2007

A caixa de ferramentas do sociólogo

Mais uma postagem:

Consultorias (e) – termos de referência.

Não há negócio que se faça sem uma definição clara dos deveres e obrigações de cada parte. Com as consultorias é a mesma coisa. Como a própria expressão diz, os “termos de referência” são as linhas de orientação que cada parte usa para se situar em relação ao trabalho que deve ser feito. São muito importantes. Do ponto de vista jurídico, os termos de referência servem de base para o esclarecimento de eventuais conflitos. É com referência (!) ao que eles trazem disposto que quem encomenda e quem recebe uma consultoria podem discutir o cumprimento ou não do que foi acordado. Nesta reflexão, contudo, interessa-me um outro aspecto, nomeadamente a oportunidade que os termos de referência oferecem ao sociólogo para definir aquilo que ele é capaz de fazer bem.

Por mais importante e desejável que seja, uma consultoria não pode fazer tudo. Se, por exemplo, o Ministério da Agricultura gostaria de encomendar um estudo para analisar os factores sociais e culturais que, por ventura, condicionam a atitude dos moçambicanos em relação à abolição de barreiras proteccionistas no mundo, não seria sensato partir do princípio de que a consultoria fosse capaz de esgotar este tema. Ao aceitar uma consultoria, o sociólogo deve estar ciente do que é capaz de fazer, dos meios que estarão ao seu dispôr, das condições de trabalho e do estádio de conhecimento actual sobre a temática. Quem promete coisas que não é capaz de cumprir, compromete as suas próprias possibilidades de voltar a ser convidado a fazer uma consultoria como também mancha o nome de todos quantos trazem a mesma designação profissional. O sociólogo tem que ser comedido e pensar nos seus colegas.

A negociação dos termos de referência é o momento durante o qual o sociólogo tem a oportunidade de vincar o seu próprio perfil académico ao partir de uma problemática clara e bem formulada. Já vi por aí consultorias tão vastas e gerais, cuja seriedade me suscita imensas dúvidas. Normalmente, o concurso para uma consultoria tem a tendência de ser vasto e geral. Compete ao sociólogo que concorre circunscrever o tema com base nas considerações acima indicadas. Por exemplo, ao concorrer para um concurso como o sugerido mais acima sobre os factores sociais e culturais que condicionam a atitude dos moçambicanos em relação à abolição de barreiras proteccionistas o sociólogo tem que encetar vários passos. O primeiro passo consiste em formular o problema. Qual é a atitude geral dos moçambicanos face às barreiras proteccionistas? Negativa ou positiva? Será que essa atitude é influenciada por ideias que as pessoas têm do papel do Estado na economia? Donde vêm essas ideias? Vêm dum sentido profundo de legitimidade do poder político? Será que os factores sociais e culturais de que se está a falar estão de alguma forma ligados a noções de legitimidade?

O segundo passo consiste em definir uma unidade de análise e justificá-la. Faz sentido fazer o estudo à escala nacional? Será que uma região circunscrita como a Zambézia se adequa ao estudo uma vez que a agricultura é muito importante e o problema da legitimidade do Estado se coloca com muita premência lá? Em que condições é que os resultados que se obtiverem deste estudo serão aplicáveis ao resto do país e vão permitir ao Ministério da Agricultura encontrar respostas à sua inquietação? Será necessário fazer um estudo de controlo num outro sítio? O terceiro passo é mais mecânico. Que instrumentos de pesquisa vão ser utilizados? Como será feita a análise? Quanto tempo é necessário? Quais são os meios materiais e humanos necessários à realização deste trabalho? Que imprevistos é possível imaginar e que ideias podem ser propostas para os contornar?

Espero que estejam a notar aqui um aspecto de extrema importância: um concurso público para consultoria é uma espécie de trabalho de casa que uma instituição está a marcar. Os termos de referência são, de uma forma geral, a nossa resposta a esse trabalho de casa. É como quando se diz na faculdade que os estudantes devem começar a preparar os seus trabalhos de fim do curso. Já uma vez propuz temas que me interessavam pessoalmente e que teria gosto em supervisar. Alguns estudantes responderam positivamente a isso indo ler sobre o assunto e formulando projectos de fim de curso fortemente influenciados por essas leituras. É assim que deve ser. É a mesmíssima coisa com as consultorias. Vou dar um exemplo extremo para ilustrar a questão. Se o PNUD anunciasse um concurso público para a elaboração de um relatório sobre a situação de pobreza em Moçambique, seria perfeitamente legítimo fazer uma proposta de estudo sobre a pobreza na província de Gaza. Podíamos dizer que nos últimos doze meses esta província se tornou na quarta mais pobre e que, portanto, o estudo dessa dinâmica pode proporcionar elementos muito importantes para a compreensão da situação de pobreza em Moçambique. Atenção, isto é apenas um exemplo. Não creio que alguém fosse aceitar isso, mas o importante é apenas reter a ideia de que ao respondermos a um concurso público estamos, efectivamente, a circunscrever o tema e a dizer o que consideramos sensato como forma de satisfazer as preocupações dos que o lançaram.

Falta um elemento sobre o qual se tem insistido pouco, infelizmente, e que podia servir para corrigir o efeito nocivo das consultorias sobre as ciências sociais. A questão coloca-se em termos de saber quem é o dono do conhecimento produzido e o que deve acontecer a esse conhecimento. Por razões de confidencialidade – dependendo do assunto, é evidente – impõem-se cláusulas que impedem a publicação dos resultados mesmo em contextos académicos. Por uma questão de princípio e em defesa das ciências sociais, os sociólogos incumbidos de fazer uma consultoria deviam sempre procurar se livrar dessa cláusula para terem a oportunidade de discutir as suas experiências com os seus pares. Não vai ser sempre possível, mas é importante não só para a própria ciência como também para a qualidade das propostas de consultorias que hão-de vir de dentro do país. A consultoria é tanto melhor quanto mais vigoroso for o debate académico.

sexta-feira, agosto 10, 2007

O direito à razão IX

Mais uma vez o nosso direito à razão é violado. Isso obriga-me a interromper as férias. Caiu-me na caixa de correio a mensagem que transcrevo abaixo. Leiam-na e se não estiverem muito assustados encontramo-nos mais abaixo ainda:

CUIDADO!

ESTA É UMA HISTÓRIA REAL, ACONTECEU COM UMA PESSOA CONHECIDA

No domingo passado dia 5 de Agosto de 2007, uma viatuta mini bus de 15 lugares, (chapa) com destino a Manhiça ou Palmeiras, começou a carreira algures no Benfica, onde procurava passageiros com destino àquele Distrito ou outro. Durante o percurso, procurava passageiros para preencher os lugares vagos.

Na rotunda de S. Roque, o “motorista” imobilizou a viatura e o “cobrador” começou a chamar MANHIÇA, MANHIÇA, como de costume e os passageiros aflitos em chegar aos seus destinos entraram (cerca das 8h45m). O carro foi recolhendo os passageiros até que ficou quase cheio. Qual não foi o espanto! Quando um dos passageiros (o meu conhecido) chegou a Tavira, seu destino, clamou: Paragem! O “Motorista não ligou, clamou com viva voz, PARAGEM, uma vez mais, mas o motorista não acatou o pedido.

Começou a semear-se pânico no interior da viatura, porque muitos passageiros, apercebendo-se deste comportamento, exigiram ao motorista que parasse e ele uma vez mais não aceitou.

Volvidos alguns minutos, eis que um dos passageiros corajosos, apoiado pelo seu físico, saltou do seu assento e apertou o pescoço do motorista, o qual perdendo controle do carro, fez zig-zags. Na altura, circulava, no sentido contrário, um carro da polícia que, vendo o incidente tratou de inverter a marcha para ver o que estava acontecendo.

Afinal no banco da frente, os passageiros faziam parte da turma do motorista e um deles começou a disparar para o ar, mas desta vez a polícia mostrou a sua eficiência, tendo imobilizado a viatura e obrigado todos os acupantes a permanecer no carro, ao que se seguiu uma vasculha no interior da viatura. O motorista, os dois ocupantes do banco da frente e dois do banco de trás eram portadores de pistolas.

Afinal o que se passava? Era um grupo de bandidos que se dedicam à decepação de orgãos genitais para fins não esclarecidos e que se faziam passar por transportadores.

Faço este e-mail para compartilhar com todos, para que nos possamos precaver de falsos transportadores duvidosos. Procurem no mínimo ver que tipo de passageiros a viatura leva e tenham um cuidado especial com carros cujo banco frontal e traseiro é ocupado apenas por homens, pois podem ser bandidos.

Esta história é verídica, pode ser confirmada mesmo pela PRM. PREVINA-SE!

É o crime no país misturado com superstição. A plausibilidade desta história depende, como é frequente entre nós, da nossa credulidade. Não me parece improvável que haja gente à caça de orgãos genitais, gente que acredita na possibilidade de fazer remédios poderosos com esses orgãos. Infelizmente é assim entre nós. O que me perturba, contudo, é a forma como falamos uns com os outros. Ou melhor, preocupa-me a nossa ideia do que serve como critério de plausibilidade. Nesta história “verídica” o critério de plausibilidade não é proporcionado pela própria história, mas sim pela forma como ela é contada.

Assim, o primeiro aspecto a ter em conta aqui é que a nossa polícia tem que ser apresentada de outra maneira. Ao invés da ideia de ineficiência que preferimos a história exige que a imagem seja outra. Reparem que não estou a dizer que não seja possível que a nossa polícia seja de facto melhor do que a sua reputação. Estou apenas a dizer que nesta história a imagem da polícia é funcional à plausibilidade. Portanto, a polícia nota algo estranho, volta e, quase que magicamente, imobiliza uma viatura à deriva com quatro indivíduos armados, não dispara à toa, enfim, actua como deve ser. Parece incrível. Mais incrível ainda é a ideia de que a PRM pode confirmar a veracidade da história. A mesma PRM que, na nossa imaginação, não é fiável.

O segundo aspecto tem a ver com os detalhes da própria história. Estou sem palavras. Quatro indivíduos armados recolhem gente para a Manhiça. Ao longo do percurso nenhum destes malfeitores toma precauções no sentido de tornar claro aos “passageiros” que são reféns. Ficam à espera que o amigo de quem conta a história vá apertar o pescoço do motorista (salto por cima deste detalhe: porquê apertar o pescoço e não tentar travar a viatura?). Os outros passageiros entraram em pânico e exigiram que o motorista parasse. Só isso. Não foram apertar-lhe o pescoço. Entraram em pânico e exigiram que ele parasse. Não tentaram saltar do carro, partir vidros ou seja o que for. Entraram em pânico e exigiram que o motorista parasse. Voltemos aos quatro indivíduos armados que se esqueceram do que estavam a fazer na viatura. Um deles começou a disparar para o ar. Foi um dos que estavam atrás ou à frente? Porque nenhum deles foi apontar a arma ao passageiro corajoso amigo do contador da história? Os nossos bandidos são mesmo assim tão estúpidos? Quem me dera ser assaltado por eles! Quem me dera, meu Deus.

O terceiro e último aspecto é o aviso. Temos que nos prevenir. Não entrar em chapa com homens à frente e atrás! Sem comentários.

Atenção: não estou a dizer que isto não tenha acontecido. É bem provável que tenha. Se nas coisas importantes da vida não somos mais inteligentes porque iríamos ser no crime? De qualquer maneira, o que me preocupa nesta história é a forma como é contada. Devíamos exigir mais dos outros. Não devíamos deixar que o nosso quotidiano fosse preenchido por histórias de plausibilidade duvidosa. Isso é perigoso porque alguns de nós ficamos incrédulos por risco próprio. Isso não é bom.

A caixa de ferramentas do sociólogo

Já agora, coloco mais uma postagem da série interrompida.


Consultorias (d) – avaliação.

Neste texto vou ser mais técnico, sem, contudo, ser profundo. Um conselho que sempre me esqueço de dar: nenhum destes textos deve substituir a leitura de livros mais abalizados sobre as temáticas que eu, de forma muito irresponsável, abordo aqui. Quem pensar que vai ser bom sociólogo ou consultor a partir destes textos, engana-se redondamente. Nada substitui a leitura, o estudo e o trabalho árduo. Não há “sociologia em 30 dias”. Os 30 dias e muitos mais é que cabem dentro da sociologia. Ler, estudar, ler e estudar, estas são as palavras de ordem. Como exorta Carlos Serra: Duvidai e investigai. Comecem aqui mesmo, hoje, não amanhã porque como reza o velho ditado “não deixe para amanhã o que pode fazer hoje”. Esta vai, sobretudo, para aqueles que ficam meses e meses a tentar escrever um trabalho de tese de apenas 30-40 páginas! E querem ser sociólogos...

A avaliação é muito traiçoeira. É uma actividade técnica que está sujeita a vários constrangimentos de ordem política. Os que encomendam um estudo de avaliação de um projecto, por exemplo, não o fazem apenas no intuito de saber o que melhorar. Muitas vezes fazem-no porque querem argumentos “técnicos” para deixarem de financiar a coisa. O consultor que for produzir um documento a emular as virtudes desse projecto pode, nesse sentido, prestar um “mau” serviço aos seus patrões. Quem quer ser honesto, como cantam os jovens da G Profam, arrisca-se a ficar pobre. Atenção: não estou a encorajar ninguém a “produzir” resultados; estou apenas a alertar para os perigos à espreita quando recebemos a tarefa de fazer uma avaliação.

A avaliação pode ser feita:

  • no início de um projecto;
  • no meio de um projecto; e
  • no fim de um projecto.

Os termos de referência são, como é óbvio, diferentes. Uma avaliação que se faz no início de um projecto é aquilo que muitos chamam de “estudo de viabilidade”. É, na realidade, a apreciação das probabilidades de sucesso de uma determinada medida. Não é, tecnicamente falando, uma avaliação, pois esta tem muito a ver com a apreciação do grau de satisfação de certos critérios de desempenho. De qualquer maneira, é importante reter a ideia de que a avaliação das probabilidades de sucesso é um exercício perfeitamente legítimo. O problema foi bem formulado? O que é necessário para que a solução seja implementada? Os meios materiais e financeiros foram disponibilizados? (atenção: nesses meios diz-se alocados!); e as pessoas que vão fazer? Estes dados todos são necessários para que o consultor possa desenhar cenários de evolução da implementação do projecto e possa, com base neles, sugerir respostas. O estudo de viabilidade é uma coisa muito arriscada. É um pouco como o boletim meteorológico ou, para ser mais maldoso, é como uma dessas previsões que os economistas gostam de fazer. É mais certeira na explicação das razões que fizeram com que os seus prognósticos não se materializassem do que de facto em prever o futuro.

A avaliação que se faz no meio já é diferente. É um exercício técnico. Precisa de critérios claros de desempenho – aquilo que a indústria do desenvolvimento chama, curiosamente, de indicadores. Se o projecto não tem estes critérios, então trata-se de um projecto mau. Suponhamos que o Ministro do Comércio nos pede para avaliarmos a sua iniciativa de redução da incidência de acidentes de viação resultantes do consumo de bebidas alcoólicas compradas em bombas de combustível. A avaliação que se faz no meio não vai consistir em saber se já há menos acidentes; a avaliação vai consistir em saber se os passos considerados essenciais à prossecussão desse objectivo foram todos dados ou não. Por exemplo, se calhar era necessário montar um esquema de controlo das vendas nas bombas de combustível; se calhar era necessário formar pessoas para fazer esse controlo; se calhar era necessário iniciar uma campanha de sensibilização dos proprietários das bombas de combustível; etc. Avaliar no meio significa verificar se essas coisas foram feitas; se não foram feitas, porquê, e que alternativas se podem sugerir (Nando Menete: é neste sentido que uso a expressão critérios de desempenho). Ultimamente, as organizações tornaram-se flexíveis na elaboração dos seus projectos. Já não têm planos fixos. Elas têm uma estrutura flexível que lhes permite reajustar as metas de acordo com a evolução do projecto. Chamam a isso de “gestão do ciclo do projecto”. O consultor tem que ser capaz de dizer qualquer coisa sobre as metas.

Finalmente, a avaliação que se faz no fim corresponde à ideia clássica de avaliação. Este exercício pretende saber se o projecto teve sucesso ou não. E o sucesso do projecto não é algo que está na cabeça do consultor. Não é nada subjectivo. O sucesso é o alcance das metas inicialmente traçadas. Se, por exemplo, as metas da cruzada anti-álcool do Ministro do Comércio consistiam em reduzir o número de acidentes causados pelo consumo de álcool comprado em bombas de combustível em 24 por cento, então o critério de avaliação é esse: 24 por cento. Não importa se o projecto poderia ter alcançado mais. Tem sucesso quando alcança esse meta. Se a meta era apenas acabar com a venda de bebidas alcoólicas nas bombas de combustível, prontos, a meta é essa. A avaliação quer, naturalmente, também tirar lições. O que se pode aprender para o futuro? Para programas idênticos? Para a capacidade organizacional do Ministério? Que fazer agora?

Mas conforme avisei, a avaliação é um assunto político. Os que trabalham dentro de um projecto vão exagerar as dificuldades para obterem mais recursos, vão pintar de côr de rosa o projecto para evitar que seja cancelado se tiverem razões fortes para supor que essa seja a intenção dos decisores. É aqui onde as competências de um sociólogo se revelam. Na verdade, ele tem que ser capaz de apreciar a economia política de um projecto que está a ser avaliado. É só olhar para a indústria do desenvolvimento. Alguém pensa mesmo que a imagem que ela dá do nosso país corresponde verdadeiramente à nossa realidade? Ou é ela função das necessidades de reprodução dessa indústria? Há anos o Fundo Monetário Internacional andou aí com ideias de acabar com o Banco Mundial com base no argumento segundo o qual as forças de mercado iriam tomar conta de tudo. Acham que o Banco Mundial disse “sim senhor, vamos acabar com isto”? Nada disso! Começou a insistir na dimensão social do ajustamento estrutural como forma de se tornar imprescindível!

Prestemos atenção a estas coisas, são importantes.

O direito à razão VIII

Passei pelo escritório, consultei a internet e vi este atentado ao nosso direito à razão. Leiam-no, extraí-o do País Online:

Banco Mundial financia o ensino superior

05/08/2007

O Banco Mundial aprovou um crédito de quinze milhões de dólares para o Projecto do Ensino Superior em Moçambique.

Dentre várias acções o crédito irá servirá para melhoria do acesso equitativo ao ensino superior e da qualidade do ensino e aprendizagem.

Há duas coisas que não estão bem nesta notícia. A primeira é do âmbito jornalístico. Sei que é notícia breve. Mas não podiam facultar mais detalhes? O que significa a afirmação segundo a qual o Banco Mundial financia o ensino superior quando o único que nos é dado a conhecer é apenas que o crédito vai servir, entre várias acções, para a melhoria do acesso equitativo ao ensino superior e da qualidade do ensino e aprendizagem? Que mais sobra depois da melhoria da qualidade do ensino e aprendizagem? O que é acesso equitativo? Alguém sabe?

A segunda é do âmbito político. 15 milhões de dólares não é pouco. E é crédito. Crédito para uma frente bastante sensível do combate à pobreza, nomeadamente o ensino superior. Quando é que se vai instalar entre nós o hábito de submeter este tipo de coisas a um debate amplo antes de se tomarem decisões? 15 milhões é muita mola para passar para ser confiada de ânimo leve a pessoas que ainda não deram nenhuma indicação clara de saberem o querem fazer do e com o ensino superior. Não será atentado ao nosso direito à razão simplesmente supor que é suficiente apenas anunciar factos consumados? Eu acho que é.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Rectificação

Não há férias do blogue. Eu é que estou de férias. Um abraço ao Bayano, Basílio, Patrício, Jorge, Ilídio, Eugénio, Egídio, Stayleir e Rildo. Enquanto nos encontrávamos no sindicato nacional dos jornalistas para falarmos mal e bem de tudo e todos na última quarta-feira os seus blogues marcavam presença na net. Foi bom. Espero que o que decidimos não seja fala sem consequências...