Lições de sociologia para leigos (5)
Instituição
Terminámos a lição anterior com um exercício. Não sei como é que o leitor se saiu, mas parto do princípio de que se saiu bem, por isso não me vou deter sobre o assunto. Se isso não o satisfaz, ainda bem. Uma coisa importante que precisa de interiorizar quando faz sociologia é que não há respostas certas ou erradas. Há apenas opiniões plausíveis ou implausíveis. Deus, ou a luta de classes para não ferir as susceptibilidades dos ateus, inventou a sociologia para ajudar as pessoas a formularem opiniões plausíveis.
Há, contudo, um aspecto da lição anterior que gostaria de recuperar para desenvolver o tema de hoje. Estávamos a falar duma senhora que é pisada dentro do “chapa”. Toda a gente sabe o que é um chapa. É um meio de transporte público de passageiros. Se é confortável ou não, isso não interessa para os nossos propósitos. Carlos Serra, o sociólogo moçambicano do Centro de Estudos Africanos, realizou em tempos com a ajuda de vários talentos da sociologia moçambicana, incluindo João Colaço, um excelente trabalho de pesquisa sobre aquilo que chamou de “mentalidade chapa-100”. É uma referência obrigatória não só para sociólogos como também para todos quantos se interessam pelo nosso quotidiano. Nesse trabalho o leitor pode encontrar até os detalhes lúridos que associa ao “chapa”, com razão, diga-se de passagem.
Interessa-nos aqui uma definição sociológica do “chapa”. Se fosse suficiente dizer que o “chapa” é um meio de transporte público não haveria nenhuma necessidade de sociologia. Por essa razão, os sociólogos, que precisam de se legitimar, preferem definir o “chapa” como uma instituição. E para dar maior seriedade científica à coisa eles dizem “instituição social”. Porque é que o “chapa” é uma instituição social? É uma instituição social porque é um lugar – com toda a sua mobilidade – caracterizado por antecipações regulares e recíprocas entre os indivíduos. O “chapa” define-se por um conjunto de actividades específicas que não ocorrem em mais nenhum lugar sob a forma como ocorrem no chapa.
Carlos Serra e a sua equipa identificaram uma “mentalidade chapa-100” que se manifesta de várias maneiras: primeiro, no tipo de pessoas que lá trabalham: motoristas, cobradores e chamadores; cada uma destas pessoas tem um comportamento específico e os utentes do chapa conhecem-no. Ser solícito e cortêz para com o passageiro não faz parte do padrão de comportamento dos “funcionários” do chapa. Até porque seria altamente desconcertante para os utentes serem bem tratados. Segundo, no tipo de linguagem que é usada: não é de bom tom, para dizer o mínimo. Terceiro, nas coisas que acontecem lá dentro: roubos, gestos indecentes – sobretudo dirigidos contra utentes do sexo feminino – falta generalizada de respeito. E por aí fora.
A identificação de instituições sociais permite ao sociólogo prosseguir com o seu trabalho de tornar explícitos os critérios que as pessoas, no seu dia a dia, empregam para dar coerência à realidade. Para facilidade de compreensão, imaginemos a realidade como um grande vazio que preenchemos com actividades regulares, estáveis, antecipáveis e recíprocas. A nossa vida do dia a dia está cheia de vários conjuntos dessas actividades: família, serviço, refeição, festa, compras, conversa, reunião, namoro, discoteca, fofoca, telenovela, etc. A cada um desses conjuntos associamos determinadas expectativas que confirmamos de cada vez que nos encontramos nesse contexto. Essas expectativas têm uma força institucional porque eliminam, à partida, tudo quanto não faça parte do que nos habituamos a esperar desses contextos.
A fofoca, por exemplo, só funciona se a pessoa de quem se está a falar não está presente. Para além disso, só é fofoca se o conteúdo do que se diz é negativo. Geralmente, a pessoa de quem se está a falar tem que ter certos atributos que são melhores do que os nossos, isto é a fofoca alimenta-se um pouco de inveja, ciúmes, despeito, etc. Ajuda também acrescentar detalhes picantes, muitas vezes confidenciais ou pura e simplesmente não verídicos. Sem esses ingredientes todos uma fofoca não pode ser fofoca, é apenas uma conversa.
Para terminar esta lição vamos falar dum uso muito específico da noção de instituição, a saber instituição total. Este conceito é da autoria dum grande sociólogo americano, Erwing Goffman, falecido em 1982. Ele aplicou o conceito para descrever coisas como manicómios, asilos ou exércitos. São lugares que se caracterizam por um conjunto de actividades específicas que têm como fim regimentar a conduta de pessoas internadas. Em reacção, as pessoas vítimas dessa regimentação desenvolvem uma cultura própria que se exprime como resistência ou conformismo. Goffman ficou internado em manicómios para fazer as suas pesquisas. Tal é o preço que os sociólogos têm que pagar pelo conhecimento que produzem.
O interesse desta noção não é imediatamente óbvio, tanto mais que na sociologia a tendência é de a aplicar a situações previstas pelo próprio Goffman: manicómios, asilos, etc. Mas a noção é extremamente útil porque pode permitir estudar vários tipos de organizações de forma bastante frutífera. A ideia central é de que há regras, por um lado, e pessoas que as devem cumprir, por outro lado. Na realidade, tudo é possível. A especificidade duma organização vem da forma específica como as pessoas que devem cumprir certas regras reagem à sua presença. O nosso parlamento, por exemplo. Existem regras, juridicamente fixadas nos estatutos, e existe uma cultura própria dos nossos deputados que resulta da forma como eles reagem a elas: a desconfiança da oposição e a arrogância do governo, os méritos intelectuais de cada deputado, as suas biografias, todos estes factores são preponderantes para dar um carácter específico ao parlamento moçambicano que o distingue do sul africano, por exemplo. A noção de instituição total pode ajudar a perceber esse tipo de organizações: um ministério, o nosso executivo, o município, a assembleia geral duma empresa, etc.
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