quarta-feira, dezembro 20, 2006

A caixa de ferramentas do sociólogo

Eis o quinto texto da reflexão sobre o crime no País. Sei que não me devo queixar pelo vosso silêncio. Afinal o culpado sou eu. Fiquei tanto tempo ausente! De qualquer maneira, quem quiser discutir tem no fundo do texto algumas dicas sobre como fazê-lo.

A intransparência das relações sociais (5)


Não sei exactamente de onde vem esta expressão. Nem sei porque se usa esta expressão e não outra. Sei que não tem nada a ver com Manhembanas. É provável que seja uma referência literal ao acto de bater a cabeça de outra pessoa com a nossa própria cabeça. Neste sentido, uma “cabeçada” seria uma espécie de golpe intelectual. Dar “cabeçada” não significaria magoar alguém fisicamente, mas sim ser mais esperto do que outra pessoa. Usar a cabeça para levar a melhor sobre os outros. Esperteza, país de espertalhões.

A primeira vez que ouvi esta expressão foi quando, a pedido de um amigo, procurei por uma casa de aluguer. Para esse efeito, contactei uma agência imobiliária que imediatamente me propôs várias casas. Como o proprietário da imobiliária não tivesse tempo para me levar a ver essas casas, indicou um colega, provavelmente subalterno, para me acompanhar. Escusado será dizer que o combustível e os telefonemas ficaram por minha conta. Eu tinha que ir buscar o agente e tinha que responder aos seus “beeps”. Depois de me mostrar as casas e de eu manifestar o meu interesse por uma delas, o agente pediu-me para a partir daquele momento só falar com ele. Pediu-me para ignorar completamente o seu “chefe”.

Percebi o que estava por detrás disso quando recebi um telefonema do “chefe” a perguntar pelo seu subordinado. Durante a conversa telefónica ele confidenciou-me os seus receios. Disse-me, com efeito, que suspeitava que o subordinado lhe queria dar uma “cabeçada”. Como nunca tivesse ouvido a expressão nesse contexto, inicialmente não percebi porque um chefe receava cabeçadas do seu subordinado. Que tipo de relações laborais havia naquela “empresa”? Perante a minha incompreensão, ele explicou, trocando as coisas já em quinhentas, que receava que o subordinado lhe fosse dizer que eu não queria nenhuma das casas vistas para ele depois ficar com a comissão. Aí percebi e disse ao “chefe” que de facto eu havia manifestado interesse por uma das casas.

Devia encurtar a história, mas ela continua. A dona da casa, uma vez estabelecido o contacto com ela, também me veio pedir para dizer ao “chefe” e ao “subordinado” que eu não estava interessado na casa. Ela também queria dar “cabeçada” aos outros. País das cabeçadas. Desisti da casa, o que não impediu os “beeps” insistentes do “chefe”, do “subordinado” e da dona da casa de continuarem por vários dias. “Please call me”. “Por favor, ligue-me”. Maldita a hora que a Mcel decidiu introduzir essa facilidade. Desisti da casa, do “chefe”, do “subordinado” e da dona da casa. Alguns acharam a minha decisão estúpida, pois aí eu teria conseguido melhor negócio.

O que é então uma “cabeçada”? A forma mais simples de responder à pergunta é de dizer que uma “cabeçada” é um golpe baixo. Mas isso é vago, tanto mais que se é cabeçada não pode ser baixo. Estou a brincar. Uma “cabeçada”, vamos pela sociologia, é o partido que uma pessoa procura tirar da intransparência das suas relações com outras pessoas. Quando não está claro o contexto em que as pessoas agem, existem muitas oportunidades de desviar as coisas para rumos que beneficiam apenas uma parte. Há “cabeçadas” por todo o lado no nosso País. O empregado de loja que combina um preço baixo com o cliente, passa uma factura falsa e cobra uma margem de lucro; o empregado de mesa no restaurante que faz o mesmo. O País das cabeçadas.

Alguns vão se interrogar: não há contracto entre a agência e o locador? Entre o “chefe” e o “subordinado”? Há, mas que utilidade tem isso num País onde a máquina da justiça funciona ao seu próprio ritmo? Que utilidade tem isso num País onde a máquina da polícia precisa de ser lubrificada para se pôr em acção? E reparem: o “chefe”, o “subordinado” e a dona da casa têm quase chances iguais de lubrificarem a máquina judicial e judiciária a seu favor. A intransparência das relações sociais está justamente neste contexto mais institucional. As pessoas, deixem-me dizer isto de forma selvagem, estão entregues à sua sorte. A “cabeçada” é o único recurso de que as pessoas dispõem para domesticar o seu próprio quotidiano. E os custos são enormes, para esquecer por momentos a criminalidade.

Quem quer comprovar esta última afirmação só precisa de entrar na loja de um comerciante indiano qualquer. Nos tempos das carências nos anos oitenta o mais difícil era encontrar os produtos. Hoje, em Maputo, o mais difícil é pagar. Não me refiro à falta de dinheiro para adquirir a mercadoria. Refiro-me ao acto de pagamento, um verdadeiro labirinto com um mínimo de quatro paragens: o empregado do balcão, uma pessoa que passa a factura e outra que confirma a factura. No fundo do labirinto está um velhinho que recebe o dinheiro e dá os trocos. Tudo isto para evitar “cabeçadas”. Espero que seja retida a seguinte lição: a “cabeçada” é a manifestação das incertezas que resultam do mau funcionamento dos mecanismos formais de enquadramento das relações sociais. Sei que é complicado.

Sugiro o seguinte para discussão e reflexão:

  1. até que ponto é que o crime pode ser visto como uma relação social?
  2. de que maneira é que o crime se articula com a sociedade?

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