Uso e aproveitamento de habilidades (8)
A “batida” é o desperdício dos nossos recursos humanos. O facto de o nosso País estar economicamente atrasado sugere, sobretudo aos que nos querem ajudar, a ideia de que nos faltam recursos humanos capazes de explorar o potencial que a nosa terra tem. Não temos nenhum “Bill Gates”, nenhum “Garry Becker”, prémio Nobel de economia, nada. Somos uma sociedade virgem em termos de conquistas intelectuais. Poucos de nós se quedam para procurar saber se o nosso fraco desempenho intelectual se explica pelo facto de não termos, digamos, “cérebros”. Falta-nos verdadeiramente massa cinzenta? Não temos o mesmo potencial que os outros? O que torna o surgimento de um “Bill Gates” possível na América e, entre nós, quase que impossível?
Neste artigo gostava de sugerir uma outra maneira de abordarmos esta questão. Essa maneira está de algum modo relacionada com o nosso grande tema aqui, a saber a criminalidade. De facto, quando olho à minha volta e presto atenção ao que as pessoas contam e fazem constato algo deprimido que há muita coisa que faz falta no nosso País. Não obstante, nenhuma dessas coisas que nos fazem falta inclui o intelecto. O nosso País está cheio de “cérebros”, gente com muita inteligência, imaginação e engenho. O problema, contudo, é que muitos desses “cérebros” aplicam a sua massa cinzenta nos lugares errados e para as coisas que menos beneficiam a sociedade.
É só ver a astúcia que é investida numa “cabeçada”, num “esquema” ou mesmo numa “jogada”. Aquilo não é coisa de parvos. É só ver a limpeza, eficiência e sentido estratégico com que se rouba um carro, muda-se a matrícula, côr, peças-chaves e se revende ou transporta-se para um outro ponto do País ou da região. É só ver a perícia com que se desmontam faróis de um carro, rádio, arrombam-se portas, arrancam-se jóias, estudam-se os passos de alguém. Nenhuma dessas coisas é coisa de parvos. O nosso País está cheio de jovens talentosos e, o que é igualmente importante, jovens interessados em aprender e aperfeiçoar o que sabem. Têm talento, querem aprender e aperfeiçoar o que sabem e, acima de tudo, têm a ambição que os torna arrojados e destemidos. A grande pena é que esta energia toda seja criminosa.
Este é o lado sociológico da “batida”. O que faz a ocasião da “batida” é a falta de oportunidades ou mesmo a pouca atractividade do uso das nossas habilidades individuais para fins honestos. Enquanto que damos uma “cabeçada” para lesar um parceiro, montamos um esquema para instrumentalizar a intransparência burocrática a nosso favor e fazemos uma “jogada” para nos adiantarmos aos outros, com a “batida” recusamos a ideia de que existe propriedade privada no nosso País. O que existe – carros, televisores e celulares – pertence a alguém apenas temporariamente, isto é até alguém com mais força, manha e atrevimento se apropriar. É por isso que se chama de “batida”.
A “batida” é uma procura metódica. Pegamos, por exemplo, em paus e vamos batendo o capim no mato a ver se apanhamos o que procuramos. A analogia com o mato não é fortuita. O nosso meio social transformou-se nisso mesmo, o social regressou ao estado natural, a cultura ficou cancelada. Na natureza tudo é de todos, ou melhor, o primeiro a chegar é servido. Serve-se. Queremos um carro da marca tal? Procuramos na cidade. Queremos um televisor plasma? Procuramos os compradores nas lojas que os vendem. Queremos celular? Procuramos na rua, restaurantes e em carros. País de batedores. Nada é de ninguém, ou melhor, tudo é daqueles que se apropriam.
Há alguns anos fui deitar lixo nos contentores do Bairro Residencial Universitário. Na altura, ficavam por aí rapazes que se faziam ao lixo. Quando me aproximei com os sacos plásticos cheios de fruta estragada, surgiu um rapaz maior do que os outros a caminhar calmamente e a dizer aos outros que corriam já para o festim “ninguém toca nisso, é meu”. E ninguém tocou. Até me agradeceu. A lei do mais forte. O espelho do nosso País visto na perspectiva da “batida”.
A análise sociológica desta forma de crime sugere uma outra abordagem. O problema não é o assalto em si. O problema é a facilidade com que o produto do roubo pode passar de mãos. Vendem-se coisas roubadas e muitos de nós compramo-las. Trata-se de papeis de coisas roubadas e muitos de nós nas repartições facilitamos a tramitação. São os “esquemas”. Espero estar a conseguir transmitir a ideia de que o problema da criminalidade é muito complexo mesmo. A ineficiência da polícia é apenas um lado da questão e, provavelmente, um dos menos importantes. As causas – tipo pobreza, fome, etc. – também são menos interessantes. A complexidade da criminalidade reside no facto de que estamos todos envolvidos. De uma ou de outra maneira. É pena o termo “comprometido” já estar politicamente ocupado.
Sugiro a discussão dos seguintes pontos:
- qual é a relação entre moral e sociedade?
- que condições sociais propiciam o crime?
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