„Índices de criminalidade abrandam na cidade de Maputo
29/12/2006
A governadora da cidade de Maputo, Rosa da Silva, considerou, quinta-feira, que os índices de criminalidade reduziram consideravelmente na cidade capital, Maputo. Segundo a governante, no que toca a ordem pública, registaram-se 7 709 crimes diversos, sendo infracções contra propriedade, num total de 5 472 e contra ordem e tranquilidade publica o número foi de 81 casos.
Da Silva referiu que estes dados, comparados aos do ano passado, indicam uma redução de 373.
As informações de Rosa da Silva entram em consonância com o discurso de balanço, proferido pelo Ministro do Interior, segundo o qual a criminalidade esta a conhecer um relativo abrandamento. Porém, as populações, tanto da cidade de Maputo, bem como de outros cantos do país acreditam que os níveis de criminalidade no país, tendem a crescer.
Em Maputo, só no ano 2006 foram saqueadas 343 viaturas contra 564 do ano passado, o que revela uma redução em 221. Foram igualmente detidos 4 696 indivíduos, sendo 95 estrangeiros, neutralizadas 94 quadrilhas de malfeitores destacando-se 27 de assaltantes a mão armada, 21 de roubo na via pública e oito especializados em furtos de viatura”.
E voltámos à estaca zero. Eis uma informação que não nos diz absolutamente nada em relação ao crime em Maputo. E é com base neste tipo de informação que queremos combater o crime... Se a reflexão que temos vindo a fazer neste espaço tem alguma utilidade, ela consiste justamente em chamar a atenção dos que se interessam pela sociologia do crime para o que precisamos de saber para podermos, de facto, abordar o problema do crime. Sabemos muito pouco e esta notícia é prova disso. Atenção: não me refiro aos méritos jornalísticos da notícia, que isso por enquanto não me interessa. Refiro-me à informação passada pela governadora da cidade de Maputo e refiro-me também aos leitores que julgarem ter percebido a notícia depois de a lerem.
O que quer dizer “... registaram-se 7709 crimes diversos...”? Trata-se dos casos que chegaram ao conhecimento da polícia? Como chegaram? Em que condições? Em que relação podemos colocar os casos conhecidos (“registados”) com os casos não conhecidos? Só depois de respondermos a estas perguntas é que podemos dizer que percebemos o sentido de “... registaram-se 7709 crimes diversos...”.
O que quer dizer “infracções contra a propriedade” e “contra ordem e tranquilidade pública”? De certeza que há uma definição jurídica destas expressões. Contudo, o que elas querem dizer? Vamos supor que “infracções contra a propriedade” incluam roubos, vandalismo e entrada sem permissão. Continua indiferente sabermos o que significa “infracções contra a propriedade”? Sabemos realmente o que isso quer dizer? O mesmo se pode dizer de “ordem e tranquilidade pública”; a diminuição do número de barracas pode influenciar esta situação...
A pior parte desta notícia, ou melhor, das declarações da governadora da cidade de Maputo, é a que diz “da Silva referiu que estes dados, comparados aos do ano passado, indicam uma redução de 373”. Espero que ela não tenha dito isto desta maneira; espero que o jornal esteja a citar mal. Se ela tiver dito isto assim mesmo, não podia ter revelado de maneira mais explícita que ela não faz parte da solução do problema do crime. É, como tantos outros que falam de forma descuidada sobre este assunto, parte do problema do crime. Para já, não faz absolutamente nenhum sentido estabelecer comparações na base de números sobre coisas que não estão desagregadas. Essa comparação não pode conter nenhuma informação. O facto de em 2005 se tiverem registado mais 20 casos de “infracções contra a propriedade” do que em 2006 não nos diz absolutamente nada, pois em 2005 pode ter havido mais casos de entrada sem permissão num determinado estabelecimento, enquanto que em 2006 houve mais assaltos. A comparação não nos diz nada, pois pode ser que a capacidade de “registar” casos tenha diminuído na cidade de Maputo. Não nos esqueçamos que há dias o comandante-geral da polícia dizia que não pode ainda fazer o balanço, pois isso leva dois ou três meses. Estamos entregues! E esse número absoluto: 373! Tem a certeza? Não foram 372? 370, talvez? Vamos supor que em 2005 tenha havido menos 300 casos de “infracções contra a propriedade” e menos 73 “contra a ordem e tranquilidade pública” contra mais 73 casos de “infracções contra a propriedade” e mais 300 “contra a ordem e tranquilidade pública” em 2006. Houve diminuição ou aumento? Não vou comentar a necessidade de percentagens; não vou comentar a necessidade de sabermos onde se registaram estes crimes todos (isto é, se a redução foi uniforme nos subúrbios e na zona central); não vou comentar o resto da informação. Deixo isso ao vosso critério.
Vou apenas desejar-vos boas saídas e entradas. E manifestar o vivo desejo de que o novo ano nos traga dirigentes com maior discernimento. Isso equivale a dizer que nós a massa crítica temos que exercer pressão sobre os que nos governam para não insultarem a nossa inteligência.
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