O crime – o que sabemos nós os sociólogos?
Pouco. Muito pouco. O pequeno exercício de reflexão que propuz na última postagem tinha como objectivo, conforme escrevi no último parágrafo, convidar-vos a reflectirem sobre o que sabemos sobre o crime. Como espero poderem ter constatado, sabemos muito pouco. A notícia que reproduzi – extraída do semanário “O País” – parte, naturalmente, do princípio de que sabemos muito mais. Não estou a criticar o jornal; estou apenas a fazer uma constatação que me parece descrever muito bem a forma como a nossa sociedade aborda a questão do crime.
A notícia está cheia de certezas. Ela não só parece partilhar o pressuposto dos “populares”, segundos os quais a pessoa linchada seria um “criminoso” como também parece estar convencida de que a chamada “justiça popular” ocorre porque, primeiro, há muita criminalidade em Maputo, e, segundo, a polícia tem uma actuação fraca. A tese que a notícia defende, e que é largamente partilhada pela nossa sociedade, é de que o linchamento é um recurso resultante da existência de muito crime e de uma polícia inoperante. Deve haver sociólogos por aí que emprestam legitimidade a esta tese com os seus títulos e que andam de canal de televisão em canal de televisão a repetir o que o senso comum acredita.
Também não estou a criticar os colegas. No fundo, até porque a tese pode estar correcta. Na verdade, não é só pelo facto de o senso-comum dizer que as pessoas roubam porque estão com fome que isso vai deixar de ser verdade; não é só pelo facto de o senso-comum crer que alguns bandidos estejam feitos com a polícia que isso vai deixar de ser verdade; enfim, não é só porque o senso-comum diz que as pessoas fazem justiça com as próprias mãos porque os tribunais são lentos ou ineficazes que isso vai deixar de ser verdade. O problema do senso-comum não é de estar enganado. O problema do senso-comum é de partir do princípio de que detém informação suficiente para tirar conclusões.
Ainda bem que o senso-comum é assim. Só isso justifica a nossa profissão. Com efeito, uma das maiores contribuições que nós os sociólogos podemos dar reside justamente na problematização do senso-comum. E isso é simples. É só, seguindo o conselho sempre válido do decano da sociologia moçambicana, Carlos Serra, desconfiar das verdades simples. Bom, na realidade, como é difícil distinguir uma verdade simples de uma verdade complexa, o meu conselho seria de desconfiar de tudo quanto cheira à verdade. E para que essa desconfiança seja construtiva temos que interpelar a verdade: será que é mesmo assim? Como é que se chegou a essa conclusão? Na base de que informação? Esta, repito, é a nossa contribuição para a sociedade. Sei que alguns acham isso pouco, mas não podemos deixar que isso seja nosso problema. É problema dos que acham ser pouco, ponto final.
Antes de aceitarmos conceder entrevistas aos meios de comunicação de massas para falarmos da criminalidade no País devíamos, primeiro de tudo, procurar saber se sabemos o suficiente. Sabemos? As perguntas que coloquei na última postagem são relevantes. Quais são as características sociais dos lugares onde houve linchamentos? O que têm eles de comum? Qual é a morfologia desses linchamentos? São todos os “populares” que lincham? Suspeito que não sejam, que se trate de uma minoria com características muito específicas; provavelmente, o grosso das pessoas “participa” apenas encorajando, gritando e, basicamente, criando um ambiente propício a essa acção. Insisto neste ponto apenas para chamar atenção para um facto muito importante. Se, por exemplo, fóssemos apurar que são duas ou três pessoas que realmente “lincham” – e que os restantes são apenas circunstantes – então para acabar com os linchamentos não seria necessário resolver o problema que muitos suspeitam estar na origem, nomeadamente a má actuação da polícia ou dos tribunais. Era só uma questão de traçar o perfil dessas pessoas e isolá-las lá onde possam “actuar”. Que tipo de crime predomina em cada meio social? Como é que esse crime contribui para tornar o quotidiano das pessoas inseguras? Aqui também abro um parênteses: dependendo do tipo de crime, a solução pode não passar necessariamente pelo reforço da polícia. Se calhar é uma questão de fortalecer a estrutura social dos bairros, proteger melhor certas coisas, etc.
Não preciso de me alongar. Achei importante repisar estes aspectos apenas para dizer que sabemos muito pouco sobre o crime na nossa sociedade. Tão pouco que de cada vez que oiço alguém a falar com toda a convicção sobre aspectos da criminalidade no nosso País abano a cabeça. Como é que dizia o filósofo Bertrand Russel? O mundo está cheio de idiotas com muitas certezas; as poucas pessoas inteligentes que tem estão cheias de dúvidas. Vamos duvidar para fazermos parte desta família ilustre!
Vou, então, começar a publicar artigos em que, juntando-me aos idiotas, também meto o meu pãozinho no prato de moelas que é a nossa esfera pública. Nesses artigos tento apresentar algumas ideias que tenho sobre a criminalidade, olhando especificamente para a relação entre o fenómeno e a nossa sociedade. É um programa de trabalho muito grande e vasto, mas pode ser que dele surjam ideias pequenas mais concretas. Se houver alguém interessado em pegar num tema e transformá-lo em trabalho de fim de curso será bem-vindo. Tem a supervisão garantida!
Sem comentários:
Enviar um comentário