sexta-feira, dezembro 08, 2006

A caixa de ferramentas do sociólogo

A criminalidade: o que dizemos nós os sociólogos?

Acabo de ler na versão online do semanário “O País” a seguinte notícia:

„Justiça popular: mais um linchamento na Matola

07/12/2006

Desta vez, o cenário foi na Machava Socimol -15, na Matola, quando um jovem, cujo nome não apurámos, foi carbonizado com recurso a pneu e combustível, depois de surpreendido em flagrante delito numa residência local, na madrugada desta quinta-feira. De acordo com os populares, o malogrado fazia parte de um grupo de três criminosos que se dedica a assaltos a mão armada a residências. Populares afirmaram, no local, que os mesmos usavam a residência onde moravam para armazenar os produtos furtados. Segundo as nossas fontes, verifica-se uma fraca actuação da polícia naquela parcela do município da Matola, facto que se reflecte na crescente onda de violência. Outrossim, a casa de madeira e zinco onde o grupo se alojava foi destruída pela população irada.”

Que dizemos nós os sociólogos? Que podemos dizer? Que subsídios teóricos existem para abordar este problema? É um problema ou já é uma solução? Como podemos tornar a nossa profissão relevante e útil?

A sociologia do crime é uma área bastante especializada e que, portanto, muitas vezes não é abordada nos cursos de sociologia. Quando muito, aparece sob a capa de “sociologia do desvio”. Aqui, muitas das referências são dos anos setenta e abordam problemas da sociedade americana. Ainda que interessantes, é mesmo assim difícil extrair a sua relevância para o nosso caso.

Na sequência de debates parlamentares e linchamentos em Maputo comecei a publicar artigos no semanário Meianoite debruçando-me sobre alguns aspectos que me parecem de interesse sociológico nessa discussão. Vou, por sugestão de um participante do blogue, começar a publicar esses artigos aqui na esperança de suscitar um debate sobre como nós os sociólogos podemos abordar este problema. Reparem: como nós os sociólogos podemos abordar este problema, não o problema em si.

Enquanto preparo os artigos para esse efeito, gostaria de lançar um desafio a todos para analisarem a notícia acima. Trata-se, na verdade, de um convite à problematização da notícia. O que nos deve interpelar nessa notícia como sociólogos que somos? O que precisamos de saber para perceber essa notícia? O que é que o autor da notícia pressupõe como senso-comum? Como nos relacionamos com essa pressuposição? Estamos de acordo? Não? Porquê? Aí vai uma ajudinha: 1. “justiça popular”. Faz sentido? Pior ainda: 2. “Justiça popular e linchamento”. Alguma inquietação? 3. “Machava Socimol -15”. O que ficamos a saber sobre o meio social em que a ocorrência teve lugar? 4. “... um jovem, cujo nome não apurámos...”. Mas é conhecido como fazendo parte de um grupo de criminosos. Faz sentido ninguém conhecer o nome? 5. “... surpreendido em flagrante delito numa residência local...” Como é que alguém pode ser surpreendido numa residência de madrugada? Faz sentido, ainda mais um “criminoso”? 6. “de acordo com os populares...” Populares? Homens? Mulheres? Autores do crime? Profissão dessas pessoas? Que informação nos é dada por este substantivo? 7. “... um grupo de 3 criminosos que se dedica a assaltos a mão armada a residências”. Isto é curioso! O desgraçado estava a fazer conta própria nessa madrugada? Sem arma? 8. “... usavam a residência onde moravam para armazenar os produtos furtados”. Que tipo de residência? Que tipo de relações entretinham os 3 criminosos entre si? Será o facto de não ser comum que 3 homens (ou jovens) vivam juntos sem nenhuma relação de parentesco que levou os “populares” a suporem que se tratassem de criminosos? 9. “Segundo as nossas fontes, verifica-se uma fraca actuação da polícia naquela parcela do município da Matola, facto que se reflecte na crescente onda de violência”. Há “justiça” popular porque a polícia actua fracamente? É assim em todo o lado onde a polícia actua fracamente? Há mais crime na Machava Socimol -15 do que noutras partes de Maputo? Este bairro tem as mesmas características sociais que as outras onde também houve linchamentos? 10. “...a casa de madeira e zinco onde o grupo se alojava foi destruída pela população irada”. Quando é que uma população está “irada”? como se manifesta a “ira”? vê-se? Ah, porque já não são “populares”? o que aconteceu durante a “destruição”? queimaram ou serviram-se do que havia no interior?

Estão a ver, não é? O que é deprimente na discussão de problemas sociais na nossa sociedade é o facto de conduzirmos essas discussões com muito pouca informação. Para percebermos este caso particular precisamos de muita informação. Essa informação existe, mas não de forma sistemática e, pior do que isso, não parece haver grande interesse em usá-la para informar as nossas reflexões e acções. Aqui vai a minha sugestão: fazer sociologia do crime é suprir estas lacunas em termos de informação. Não é propôr a solução do sociólogo para o problema do crime. É dizer o que precisamos de saber para percebermos o fenómeno. É só isso. É pouco, eu sei, mas mais não me parece haver.

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