Atomização social (7)
A sangria que se fez ao BCM, por exemplo, foi uma “jogada”. O bolo era o dinheiro do banco pertecente, é verdade, aos clientes, mas prontos, dinheiro guardado nos cofres no banco. Funcionários do banco aliados a pessoas de fora combinaram passos, estudaram-nos muito bem e aplicaram-nos na captura do dinheiro sentado preguiçosamente nos cofres. Aquilo foi uma “jogada”, pois se não tivessem sido as pessoas que hoje estão na cadeia por esse crime, teriam sido, provavelmente, outros a capturar aquele dinheiro. As pessoas envolvidas numa “jogada” praticam uma “cabeçada” ou montam um “esquema” partindo do princípio de que se não forem elas a ganharem o espólio, outras pessoas o farão. É por isso que se chama “jogada”. A analogia desportiva tem como explicação o facto de se tratar mesmo de competição, alta competição.
Os empréstimos mal parados do banco Austral foram também uma “jogada”. Se não tivessem sido as pessoas que fizeram isso, outras teriam espoliado o banco. A lógica da “jogada” é a da racionalidade do cabrito. Esta racionalidade não está no sentido literal da expressão “o cabrito come onde está amarrado”, pois isso é trivial demais. De facto, o cabrito come onde está amarrado porque não tem opção senão comer até onde a corda o deixa ir. Usada no contexto caótico da nossa selva institucional a ideia de que o cabrito come onde está amarrado significa que o cabrito come profilaticamente. Ou seja, o cabrito come não porque esteja mesmo com fome, mas sim porque se não comer o capim à vista outros cabritos hão-de vir para comer o mesmo capim. Para que isso não aconteça, o cabrito amarrado come tudo à volta.
Este é que é o espírito da “jogada”. Adiantamo-nos aos outros. Vivemos numa sociedade super-moderna habitada por indivíduos super-atomizados em constante luta pela sobrevivência e incapazes de prever as acções dos outros. Na ausência desse sentido de previsibilidade, tudo vale desde o momento que seja para benefício individual. O sentido de bem comum não é particularmente apurado. Daí que não espantem coisas tão pequenas como deitar lixo na rua, deixar os semáforos enlouquecerem, perder documentos e pastas, etc. Um dia vi alguém à tardinha com um semáforo inteiro aos ombros. Não sei para onde o levava – à reparação é que não era – mas que poderia eu fazer perante tamanho acto de vandalismo? Comunicar à polícia? E se estivesse feito com ela?
A fala popular pergunta resignada “hitaya mangala kwini?”, aonde é que vamos queixar? Com isso ela só documenta o que torna a “jogada” possível. A “jogada” não é possível porque umas pessoas são mais espertas do que as outras – País de espertalhões. A “jogada” é possível porque a noção de bem comum é bastante ténue e não existe nenhum mecanismo institucional capaz de a impôr. Assim, o que não é de “ninguém”, isto é não pertence ao João, Maria e Sebastião, não pertence mesmo a ninguém. “Sva mayeni” (é da empresa), diz a fala popular, isto é, não pertence a ninguém. Está à espera de ser capturado. É assim que a ciência política que se debruça sobre assuntos africanos fala de Estados predatórios referindo-se à classe política que se comporta como aves de rapina perante o Estado. Na verdade, a atitude rapinosa é de todos nós.
Parvo, entre nós, é aquele que não faz “jogada”. Quem quer ser parvo? Recusar meter-se numa “jogada” até pode ser perigoso do ponto de vista pessoal. “Confia em quê?” interrogam-se os colegas; “quer nos bufar?”, inquietam-se os colegas. Suspeito é aquele que diz ser íntegro. País de avesso. Com isto não estou a dar razão aos que gritam “corrupção” por tudo e por nada. Estou apenas a tentar mostrar a extensão do problema que temos no nosso País e que não se deixa reduzir aos slógans da indústria do desenvolvimento. Dizer “isto é corrupção” é a forma mais certa de perder de vista o que está realmente em jogo e o que devia merecer a nossa análise mais profunda.
A “jogada” revela a fragilidade do bem comum e a imprevisibilidade do nosso quotidiano. Sem essa noção de bem comum e sem previsibilidade no quotidiano, não é preciso ter fome e ser pobre para praticar crime. É preciso apenas ocasião. Criminosos até provarmos ter resistido a uma oportunidade. Esta é que parece ser a nossa sina.
Sugiro um debate sobre os seguintes assuntos:
- em que medida é que a relação indivíduo-sociedade se articula com o crime?
- como se pode colocar a questão de saber quais são as causas do crime de forma sociologicamente útil?
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