Os desafios da causa
A causa coloca-nos desafios. Os políticos querem a causa para agirem. Os cientistas querem a causa para continuarem a procurar a causa. Isto é, para efeitos de acção é preciso interromper a cadeia causal em algum lugar. Para efeitos de produção de conhecimento científico nenhum conhecimento é final. Os métodos de concordância e de diferença que abordei com muita brevidade na postagem anterior são úteis para a reflexão sobre causas. Mas não são finais. Por exemplo, o método da concordância que me permite determinar a causa através da identificação da circunstância que é comum a todos os casos em que o efeito ocorre pode estar enganado de várias maneiras. Por exemplo – já aflorámos isto na postagem anterior – as minhas hipóteses podem estar totalmente enganadas.
Se calhar não são circunstâncias como a responsabilidade familiar, a guerra da Renamo, as calamidades naturais e a preguiça natural das pessoas que explicam a mendicidade de crianças e idosos, mas sim a situação económica geral, a anonimidade da rua ou mesmo o potencial de criação de redes informais de solidariedade ao ar livre. Igualmente, pode ser que a combinação de factores seja determinante – por exemplo, preguiça e calamidades – para a situação de mendicidade. Mesmo o método da diferença não escapa. Recordemo-nos que segundo este método determinamos a causa através da identificação de circunstâncias comuns e do factor cuja ausência abre alas ao efeito que nos interessa explicar. Mas como é que podemos ter a certeza de que as circunstâncias são idênticas? São mesmo idênticas? Mesmo nós próprios, somos as mesmas pessoas dia após dia? Enfim, reduzimos a complexidade da realidade por risco próprio.
Não obstante, as causas constituem um desafio muito importante para as ciências sociais. Não me parece fortuito que precisamente agora haja um fervilhar de interesse pelas ciências sociais. A nossa sociedade está cada vez mais a constituir-se e a exigir um conhecimento sistemático das suas condições de possibilidade. Há processos de diferenciação social que estão a ocorrer e que precisam de não só ser descritos como também teorizados. Porque a mendicidade é um problema? Porque a falta de responsabilidade familiar é um problema? São problemas para quem? Que articulação têm esses problemas com a nossa sociedade? Em que medida é que esses problemas são mesmo sociais? Que aspectos da nossa estrutura social estão a ser postos em causa? Como é que sabemos que essa estrutura está a ser posta em causa? Que efeitos é que os remédios preconizados terão?
Pessoalmente, acho que a nossa classe política não aprecia devidamente os desafios da área social. Penso que predomina uma atitude residual que vê os problemas sociais como efeitos secundários de processos bem maiores – escrevi este texto antes de ler a entrevista recente da Primeira Ministra comentada aqui. Esses processos – a economia, por exemplo – exigem maior atenção do que os próprios problemas sociais. Daí que os problemas sociais sejam relegados a um Ministério insignificante: o da Mulher e da Acção Social. E isto parece-me um equívoco, pois os problemas sociais têm a ver com a estrutura da nossa sociedade. O nível de desenvolvimento que admiramos na Europa ocidental foi possível – nisto existe consenso – graças à colocação da questão social no centro do debate político. A introdução de segurança social na Alemanha de Bismarck no século XIX bem como os esforços de Rowntree e Beveridge na Inglaterra não só dotaram o estado de capacidade de intervenção na sociedade como também, e sobretudo, criaram um espaço político por excelência.
A política nos países mais desenvolvidos é sobre a questão social: Como financiar a saúde? Como diminuir o impacto da pobreza? Como atenuar os efeitos do desemprego? Quantos impostos cobrar para custear tudo isto? Nestes países a política não é sobre a composição do CNE, que político de que partido “se rendeu” ao partido no poder, corrupção ou custo de aluguer de helicópteros. É sobre a questão social, uma questão firmemente institucionalizada em forma de segurança social que define clara e inequivocamente quais são as obrigações do Estado e quais são as obrigações e deveres dos indivíduos. Isto, repito, cria espaço político, torna o debate político concreto e útil. Qualquer pessoa que queira confirmar o meu receio de que este tipo de considerações não seja prioridade da nossa classe política só precisa de dar uma vista de olhos à Lei de Protecção Social. Não tem, praticamente, relação com nada. A tese da Ministra é logicamente impecável, mas sintomática da fragilidade do nosso sistema político, fragilidade essa que as declarações da Primeira-Ministra – não me farto de repetir esta boa nova – começam já a atacar. Vou ver se expando isto na próxima e última postagem.
Mas até lá gostaria de deixar registadas algumas ideias sobre o papel geral das ciências sociais. A urgência dos problemas que o país tem torna-nos impacientes. Queremos ver os problemas imediatamente solucionados. Aliás, não somos os únicos a querer isso. Os governantes também e, por isso, reagem por vezes mal quando dizemos que talvez tenham visto mal o problema. Nós também reagimos mal à reacção dos governantes porque achamos que conhecemos a verdade por sermos as pessoas que dela se ocupam profissionalmente. Pensamos. É difícil fazer política num contexto assim. Igualmente, é difícil fazer ciência neste tipo de contexto. Cancelamo-nos quando nos podíamos complementar. Muita das vezes, quando alguns de nós se sentem conduzidos ao desespero por não perceberem porque os governantes resistem, por vezes, ao que nós pensamos ser o bom-senso, rendemo-nos e dizemos que o país não tem salvação possível.
Na verdade, porém, desistimos de procurar conhecer e perceber melhor o contexto dentro do qual ocorre o que tentamos explicar. Tentei mostrar aqui neste blogue com base no problema do crime que ele é apenas intratável enquanto partirmos do princípio de que sabemos tudo sobre ele. Mas esse não é o caso. Sabemos pouco. Sem conhecimento é difícil gerir uma sociedade. Que estamos nós cientistas sociais a fazer para produzir esse conhecimento? Quando um Ministro se engana é, talvez, porque ele se apoiou num conhecimento fraco. Fraco porque nós ainda não começamos a produzir o conhecimento sobre a nossa sociedade. Não é necessário que o Ministro nos diga na cara que precisa do nosso conhecimento. Quanto mais parte do nosso quotidiano for o conhecimento que produzimos, mais provável será que o Ministro se apoie nele, se mais não fosse para evitar o embaraço de se referir a cientistas que não servem para nada.
A modéstia intelectual, contudo, coloca sobre nós a obrigação de nunca fazermos depender o fomento do nosso país da aceitação dos diagnósticos que fazemos. E isto por duas razões muito simples. Primeiro, a História não é feita apenas, nem sobretudo, na base de diagnósticos correctos. O mau diagnóstico também faz a história ir para a frente. Do ponto de vista “científico” a luta que a Frelimo empreendeu contra o colonialismo português – tendo em conta a correlação de forças – estava irremediavelmente votada ao fracasso. Se Eduardo Mondlane tivesse respondido ao seu instincto intelectual e científico, teria desistido. Não o fez, para o nosso bem. Segundo, nós não nos ocupamos apenas da história ideal, mas sim do que realmente acontece. Se a política não segue o nosso conselho não há, do ponto de vista intelectual, nenhum problema, pois o que a política fizer será, igualmente, o objecto do nosso interesse científico. O desafio, para encurtar a história, é documentar a nossa sociedade.
11 comentários:
Caro Prof, obrigado por esta postagem. Penso que andamos quase todos ocupados ou sem inspiração para escrever ultimamente. Pelo que, a sua postagem vem a constituír uma lufada de ar fresco.
Bem, não tinha a pretensão de intervir, estando a espera que os cientistas sociais ou fizessem. Mas como ninguém o fez até ao momento e para que um lindo texto não passe despercebido vou tentar colocar algumas das minhas modestas cogitações.
Primeiro, quero dizer que eu esperaria um pouco antes da anunciar a boa nova da Primeira Ministra. Talvez tenha sido um tiro certeiro no meio de tantos disparados na escuridão. Eu esperaria para ver um padrão a emergir.
Segundo, quando fala do cancelamento mútuo ao invés de complementaridade toca num assunto que tem vindo a pulular a minha mente (devo dizer que é um pensamento aínda na sua fase embrionária). Vou resgatar o termo "deixa andar". Me parece que interpretamos mal o Guebuza. O que estou a notar é que o combate ao "deixa andar" significa combate a tudo quanto seja crítica ao governo. O engraçado é que este termo é muitas vez utilizado concomitantemente com o termo "auto-estima". Quero dizer, deixe de criticar e tenha auto-estima, é o que me parece ser a mensagem. E me parece este o contexto de que o Prof fala de que temos que conhecer melhor.
Terceiro, grande parte dos ministros que temos é gente bem formada. Concordo que sabemos pouco, e fundamentalmente sabemos pouco se o engano é fruto do conhecimento fraco do ministro ou se é o conhecimento de que a nossa sociedade aínda não começou a produzir um conhecimento forte que o leva a manter a sua arrogância.
Mais, devo referir que gostaria de poder ter o seu optimismo.
caro bayano, como moçambicano deve ter o meu optimismo. quem diria que depois de tantos desaires e apenas com um empate e uma vitória contra o burquina faso fosse haver tanto entusiasmo e esperança em relação à selecção? nós somos optimistas natos! as questões que levanta são pertinentes. não acho boa ideia esperarmos para ver se estamos perante um padrão. acho que é nossa obrigação participar com a nossa reflexão na formação desse padrão. acho importante apoiar os governantes discernentes. a questão do deixa-andar bem como toda a programática de guebuza ficaram reféns da nossa cultura política que encoraja a subserviência e o conformismo. é claro que temos que perceber a natureza desta cultura política. o meu argumento é de que quanto mais este tipo de conhecimento for do domínio público mais provável será que as decisões dos políticos sejam influenciadas por um conhecimento qualitativamente melhor.
Caro Prof, o optimismo face ao comportamento dos mambas radica de um facto: resultados. apareceu alguém que sabe gerir os recursos humanos à sua disposição e de repente temos uma selecção transfigurada. não que o semedo não tenha tido os mesmos jogadores à sua disposição! teve, mais não esteve à altura de os gerir. o pr disse que o empate foi bom. penso que é essa atitude de não responsabilização que faz de nós o país que somos. não estou a dizer que se devia responsabilizar ao seleccionador nacional. o que estou a dizer é que devemos começar a exigir de nós mesmos o melhor (alguém, porventura, há-de me pedir para clarificar o que é o melhor). os empates caseiros não devem ser normais. quando começarmos a sermos exigentes connosco mesmo, aí sim, estaremos a falar.
pensando melhor tenho que concordar com o que diz. que "é nossa obrigação participar com a nossa reflexão na formação desse padrão." o contrário seria desistir da luta
já está a fazer essa luta ao exigir mais do que um empate à selecção nacional. portanto, a luta continua!
professor! nao instituicionalizar a agenda social de mocambique torna o debate muito pobre na esfera publica. mesmo a agenda economica nao facilita a esfera publica para ser mais activa. por exemplo o debate sobre a taxa do lixo, ou o recente bate-boca entre instituicoes ligadas ao comercio e industria e os panificadores sobre o aumento do preco do pao.
é um autentico malabarismo tentar perceber que instrumentos nossos governantes usam para tomar certas medidas.
neste caso particular da ministra de accao social, parece-me que falta a capacidade instituicional para perceber o problema social. o campo social do idoso é bastante vasto, na sua categorizacao biologica, social e economica. o mesmo acontece com a questao da crianca. dizer que a responsabilidade é da familia e nao justificar porque nao ajuda a problematizar as intervencoes sociais. por exemplo: de que familia a ministra esta a falar? nuclear? alargada? completa? funcional? desfuncional? como caracterizamos a familia urbana? a rural? com as dinamicas sociais e economicas dos ultimos 15 anos terao afectado o papel e a estrutura da familia mocambicana? como? que relacao existe entre a responsabilidade familiar e a responsabilidade civica? etc
acredito que a ministra foi ate muito corajosa, veio mostrar a sua percepcao e do seu governo sobre os grupos sociais vulneraveis, tais como idosos e criancas. mas falta uma sistematizacao do problema. a relacao entre a moral e responsabilidade governativa é um ponto fertil para debate, mas tambem empurra-nos para um debate fora do sistema que devia produzir respostas: governacao.
caro chapa100, é esse tipo de questões que precisam de ser levantadas na esfera pública, acho. os governantes não podem saber tudo, mas com uma esfera pública atenta eles serão obrigados a marcar o passo. não creio que uma discussão científica séria retire o problema de onde ele devia ser resolvido. justamente porque uma função que temos é mesmo de reflectir as coisas ajudamos, com a nossa reflexão, a melhorar a formulação do problema.
professor! concordo que os governantes nao podem saber tudo. e nem podem. acredito que a maneira mais barata para reduzir despesas com consultorias é trazer um questao governatica ao debate na esfera publica, reduzes as despesas e promoves a partilha de risco e do conhecimento. a discussao por si so tem um valor didactico muito relevante para a producao de responsabilidade civica e intelectual.
o que pareceu na entrevista da ministra, ela parece que ja tem formulado o problema. talvez seja esta concepcao que temos do patrimonialismos versus paternalismo governativo, de que o debate publico so é importante se formulado dentro do paternalismo do estado. no caso da accao e protecao social, estamos perante o paradigma da responsabilidade social, individual, e a apropriacao pelo estado dos valores de solidariedade social e economica, como um dos pilares na politica governativa.
a apropriacao por parte do estado deste papel, requer sistemas e mecanismos eficientes. como bem sabemos muitos dos mecanismos de apoio social sao problematicos e complexos, nao so pelo nivel do impacto que tem na despesa publica, como tambem confundem o papel do estado como promotor da solidadriedade e justica social.
no caso de mocambique ate nao é esse o caso. porque partimos de uma rede de apoio social tradional, enraizada na familia e na comunidade. entao a familia nao é um agente passivo, no nosso caso. o que acho é que estamos perante um fenomeno demografico e economico-social. por exemplo se olharmos para a piramide etaria e a distribuicao da populacao activa pelos sectores de producao, notamos que ha factores estruturais que precisamos analisar cuidadosamente( uma populacao maioritarmante jovem, que significa maior mobilidade-migracao na procura de emprego por parte dos jovens, assistimos a um conflito entre=geracao no mercado do emprego, na economia urbana assistimos nos ultimos a precaridade do emprego, a emigracao rural, assistimos a despedimentos massivos da mao-obra, aquando da restruturacao da mao de obra, a maioria dos empregados com mais 40 anos foram para a reforma compulsiva ou despedidos). partirmos do prossuposto que a falta de responsabilizacao por parte da familia é motivada pela crise de valores e da moral pode ser justificavel, mas nao oferece instrumentos analiiticos que possam produzir respostas instituicionais.
outro ponto importante, teriamos que ver que esta geracao de reformados e idosos hoje, foi a geracao de ouro, aquela que encontrou ou benificiou do emprego no pos independencia na industria ferro-portuaria, agro-industrial e servicos. uma geracao que nao encontrou a precaridade do emprego, uma geracao que teve o estado como empregador e produtor de certezas sociais e economicas. e o fenomeno de desemprego para muitos da geracao de ouro é um fenomeno novo, que nao provoca desiquilibrios de adaptacao economica como tambem psico-social. e se olharmos para o nivel de crescimento demografico da populacao e a expansao do parque industrial nos ultimos 30 anos ( sem falarmos da guerra, das cheias, secas, o SIDA), encontramos fenomenos e dados que precisamos analisar com seriedade.
entao professor a ministra provocou um debate interessante mas parece-me que o ministerio de accao social anda distraido, pode nao ser por culpa propria, mas falta coordenacao na area governativa, senao vejamos, temos a ministra do trabalho puxando por reformas com a lei do trabalho, a lei de seguranca social, a reforma no INSS, agora vem com o pacote de trazer o informal para dentro do sistema de contribuinte para seguranca social, estas reformas sao economicamente imprescindiveis sem forem acompanhadas uma componente de apoio e accao social forte, e o ministerio perante esta reformas nao diz nada. nao podes atacar a flexibilidade de contratacao e despedimentos sem olhar para a componente de assistencia e protecao social, quando o emprego é o mecanismo nao so de integracao economica mas tambem social do individuo.
outro aspecto que mostra esta desccordenacao, o ministerio da saude esta querer introduzir a standardizacao de servicos de saude prestados na comunidade, acho isto fantastico, mas sem um sistema de accao e apoio social eficiente, profissionalizado, para complementar a parte curativa e de prevencao da saude nao vai funcionar. e num estado pobre como nosso precisamos de criar sistemas integrados, que evitem duplicacao de esforcos, racionalizacao de recursos, e promocao da comunidade como agente activo no tratamento pre e pos hospitalar. o sida, o tratamento anti-retroviral, pos-natal, os orfaos do sida, a ligacao escola comunidade, mostra que precisamos coordenar mesmo a nivel mais baixo de execucao publica.
entao professor estamos perante desafios, e ainda nao olhei para a componente social como profissao e ciencia.
ufa! mas é isso mesmo. interpelar, interpelar e interpelar. sem certezas, apenas palpites, hipóteses. o objectivo deve ser - devia ser, podia ser, é - ajudar a formular o problema. portanto, das suas interrogações, caro chapa100, depreendo que o problema não seja realmente dos mendigos. o problema é capaz de ser a ausência de uma articulação institucional para atacar os problemas sociais. o nosso forte é ajudar a formular melhor os problemas. espero que alguém do gabinete de estudos desse ministério esteja a ler.
professor! desculpa ter-lhe cansado com longo comentario.
cansar-me, a mim? mas que coisa! quem corre por gosto não tem tempo para saber se está cansado ou não. eu não tenho tempo, por isso corro...
entao tchova xita duma!
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