quinta-feira, junho 14, 2007

Morreu Richard Rorty

Soube ontem à noite quando lia o jornal local de antes de ontem. Richard Rorty é filósofo americano da escola do pragmatismo. Sempre o li com muito interesse, apesar de ele não ser sociólogo. A escola americana de pragmatismo sempre me fascinou e a influência que ela teve na etnometodologia e, até certo ponto, no interaccionismo simbólico, é bastante salutar.

Rorty foi grande defensor do construccionismo, mas um construccionismo inteligente, prático e sensato. Memorável, para mim, é a sua afirmação, e eu cito-a de memória, de que o mundo está aí, mas as descrições que nós fazemos dele não estão simplesmente aí. Só as descrições do mundo é que podem ser verdadeiras ou falsas. O mundo por si próprio – sem a ajuda das nossas descrições – não pode ser falso ou verdadeiro. Grande pensamento.

Tem sido a base do meu raciocínio metodológico e, quiçá, a principal legitimação para a intervenção pública que faço. Dedico esta reflexão sobre Richard Rorty ao Patrício Langa, ao Carlos Serra, ao Ilídio Macia, ao Eugénio Chimbutane, ao Bayano Valy, ao Egídio Raposo, ao Jorge Matine, ao André Cristiano José, ao Staylair Marroquim, ao Machado da Graça e, já agora também, ao Júlio Muthisse – iniciadores de blogues que leio regularmente e que, em minha opinião, procuram dar corpo à importância de interpelarmos as descrições que se fazem do mundo que habitamos. Rorty costumava dizer que não há acesso permanente à verdade, só existem os vocabulários que nós próprios criamos. É demasiado construccionista, mas pouco importa. É um reparo importante para situar a nossa intervenção e contextualizar o alcance do que cada um de nós, e à sua maneira, faz.

Não tenho a impressão de que exista a pretensão de impôr a veracidade do nosso vocabulário sobre os outros. Antes pelo contrário, fazemos aquilo que Rorty descreveu como sendo a manufactura das verdades com as nossas línguas uma vez que ninguém descobre a Verdade. Rorty era um liberal, por isso desculpem-me se não se identificam com essa filosofia política. Mas a ideia que Rorty tinha de que a liberdade é uma condição essencial para tornarmos possível todas aquelas outras coisas que gostaríamos que outros usufruíssem é central para o que fazemos nos blogues. Nenhuma língua tem privilégio e uma vez que todas as línguas são contingentes na sua origem e não são necessariamente veículos para a expressão ou representação, o nosso progresso intelectual e moral torna-se na história de metáforas cada vez mais úteis, ao invés de uma história de uma compreensão crescente de como as coisas realmente são. Não gosto da forte carga construccionista e quase relativista nesta afirmação, mas a modéstia é grande. Só quem é grande é que pode ser modesto. Ilídio, Stanley e Júlio: o direito é uma língua contingente e vocês, com as vossas reflexões, estão a ajudar-nos a decifrar as metáforas que ela contém por detrás da roupa preta dos réus e das vestes pesadas dos nossos magistrados. Eugénio: a economia é uma língua contingente e tu, com as tuas espaçadas reflexões, ajudas-nos a resistirmos ao poder disciplinar da norma naturalizada. Rorty tinha problemas com Foucault. Ele achava que ele exagerava o poder disciplinar.

Nós somos académicos e, como tal, reclamamos uma afinidade especial com a ciência. Rorty costumava também dizer que o poder persuador da ciência não vem da sua relação especial com a realidade, mas sim da sua utilidade historicamente contingente. Egídio: há outras formas de apreender o mundo e a profusão de ideias que alimentam o seu blogue são prova disso. A utilidade dessas ideias passa pelo crivo da ciência que disciplina a nossa percepção. Estou a ser quase kantiano, Patrício, tentando emular a tua resistência ao categórico. Rorty também tinha problemas com Habermas, Bayano, André e Jorge: tal como vocês que perscrutam a notícia (Bayano) e a palavra (Chapa100 e Nkhululeko), Rorty opunha-se à ideia de Habermas de que precisamos de estabelecer as regras de comunicação. Ele dizia apenas para falarmos. Devia ter incluído o José P. Teixeira aqui, pois ele tem insistido na importância de falarmos. Falar é importante.

Rorty estava bem na vida. Línguas maldosas gostam de dizer que o tipo de liberalismo que ele defendia era um liberalismo do conforto, daquele que já alcançou tudo na vida e quer defender o status quo. Carlos Serra e Machado da Graça não gostariam, de certeza absoluta, de ser incluidos no cânone do liberalismo. Mas em certa medida, através da sua crítica atenta eles lutam... não se chateiem por favor, pelo status quo: o status quo de uma sociedade fundamentalmente justa e que palpita e pulsa entre nós, mas circunstâncias de vária ordem – que eles apontam corajosamente – impedem de se materializar.

Quando cruzo, nos livros, com intelectuais do calibre de Richard Rorty, fico com raiva da pessoa que introduziu o conceito de nacionalidade nas nossas vidas. Não devia haver nacionalidades. Ou melhor: todos devíamos ser moçambicanos. Aí sim, também Rorty ficava moçambicano. Espero que o cemitério de Xai-Xai tenha um lugarzinho para ele. E não se esqueçam: o mundo está aí, mas as descrições que nós fazemos dele não estão simplesmente aí. Só as descrições do mundo é que podem ser verdadeiras ou falsas. O mundo por si próprio – sem a ajuda das nossas descrições – não pode ser falso ou verdadeiro. Só o que nós escrevemos nos nossos blogues é que pode ser falso ou verdadeiro. Moçambique não é nem uma, nem outra coisa. Moçambique é, está aí.

O jornal Notícias fala de um discurso proferido pelo ex-Presidente Chissano na Inglaterra e que Bayano Valy teve a amabilidade de me enviar. Chissano critica o auxílio ao desenvolvimento com recurso a argumentos que alguns de nós já utilizaram nestes e noutros espaços. Não sei como ele reagiu às nossas críticas na altura em que tinha que se sentar na mesa negocial com o Banco Mundial e o Fundo Monetário. Seja o que for que ele tiver sentido na altura, espero que hoje ele e os que hoje estão no poder saibam reconhecer a crítica como expressão de patriotismo. Não criticamos por querermos mal o país. Antes pelo contrário. Só quem não quer bem o país é que não critica. Nós que não combatemos directamente a pobreza absoluta somos um argumento – ao lado dos nossos argumentos – que pode reforçar a mão dos nossos governantes quando tiverem que negociar com alguns dos brutamontes que andam a desenvolver o mundo. Rorty convidou-nos a ver as coisas com ironia. Com isso ele queria apenas dizer que só quem aborda o mundo como algo contingente e procura uma identidade que o emancipa da tirania do certo, imutável e final é que tem alguma possibilidade de viver bem. Apesar de tudo.

Um abraço!

8 comentários:

stayleir marroquim disse...

Obrigado pela referência a minha pessoa.

As suas palavras, ainda que transmitindo a notícia da morte de Richard Rorty, são muito encorajadoras para aqueles que, através da crítica (construtiva), tentam tirar Moçambique do estado em que se encontra (e que dispensa comentários).

Abraço.
SM

ilídio macia disse...

Muito obrigado pela dedicatória.
A frase que se segue é da sua autoria:
"Seja o que for que ele tiver sentido na altura, espero que hoje ele e os que hoje estão no poder saibam reconhecer a crítica como expressão de patriotismo. Não criticamos por querermos mal o país. Antes pelo contrário." Maravilha! Crítica como expressão de patriotismo. Sim Senhor!

chapa100 disse...

bayete e khanimambo pela dedicatoria professor!

chapa100 disse...

no imensis, ha uma noticia da AIM, com seguinte titulo: Mozambique: NGOs Criticised Over Community Health Involvement.

e depois fazendo uma leitura ao texto do discurso do ex-presidente chissano, seria uma boa base para reflectir.

Bayano Valy disse...

Também quero ecoar o sentimento dos outros e dizer muito obrigado pela referência, e dicas. Há algunas aspectos que amiúde crossam o texto que devemos tomar em conta.

jpt disse...

agradeco a nota. e a inclusao, venia...
saudo o texto. claro que dispensa elogios, mas as saudacoes devidas ao rigor do bisturi aqui ficam.
o que nunca dispensa elogios e o vigor da ironia - estamos todos (?) de acordo

mais, malditas nacionalidades (ainda por cima essencializadas, assim naturalizadas), porventura coisas boas se tambem, decerto coisas nada se acima de tudo

e nada paradoxal com o "critica como expressao de patriotismo", so aparentemente. critica como expressao de companheirismo, coisa supra?

cumprimentos, que o comentario ja me esta a deslizar para manifesto ...

Elísio Macamo disse...

a luta continua! dependência ou pobreza absoluta, o pensamento crítico vencerá!

Patricio Langa disse...

Elísio
Obrigado por me incluíres na dedicatória.
Foi após uma apresentação do Carlos Fernandes, numa aula de José Castiano, que passei a ler Rorty. Foi realmente um grande pensador. A Editora Jean Piaget lançou há alguns anos um livro contendo o pensamento dos grandes pensadores do sec XX do qual consta Rorty.
Abs