sexta-feira, junho 29, 2007

O fenómeno da bicha IX

Li a notícia que se segue no jornal Notícias de hoje. E fiquei estarrecido perante as declarações do Ministro do Interior. Leiam a notícia e, acima de tudo, prestem atenção ao que está sublinhado. Encontramo-nos mais abaixo para falarmos sobre o fenómeno da bicha, isto é sobre a nossa incapacidade de vermos que somos parte do problema que queremos solucionar.

Combate ao crime : Guebuza destaca urgência de apetrechamento da PRM

O PRESIDENTE da República, Armando Guebuza, considera urgente reforçar a capacidade de formação e disponibilização de meios de trabalho à Polícia da República de Moçambique (PRM), acções que têm por finalidade fazer frente à onda de criminalidade que nos últimos tempos tem estado a assolar o nosso país. O Chefe do Estado fez esta observação na manhã de ontem, em Maputo, durante a vista de trabalho que efectuou ao Ministério do Interior, com o intuito de se inteirar do grau de funcionamento daquela instituição.

Maputo, Sexta-Feira, 29 de Junho de 2007:: Notícias

Falando em conferência de Imprensa, o Ministro do Interior, José Pacheco, disse que o PR recomendou, igualmente, ao pelouro para que preste maior atenção à questão da segurança da linha fronteiriça, sendo que a componente de formação humana deve priorizar esta área, com o objectivo de estancar os sistemáticos casos de violação que se têm registado.

De momento, segundo o ministro Pacheco, enquanto se aguarda por um apetrechamento em meios humanos e de trabalho à altura, o PR incentivou a corporação a não baixar os braços e prosseguir com as actividades de garantia da segurança e tranquilidade públicas.

Respondendo a algumas questões colocadas pelos jornalistas sobre o estado actual da criminalidade no país, José Pacheco classificou-o de “delitos com teor a terrorismo”, onde os criminosos não só assaltam as vítimas, assim como lhes tiram a vida. Segundo ele, este tipo de crime deixa transparecer, perante a sociedade, uma aparente apatia por parte da corporação em combater a vaga de criminalidade.

Explicou que os casos de assassinatos de parte dos elementos da Polícia da República de Moçambique reflecte exactamente o “terrorismo” que os malfeitores têm estado a semear contra as forças da lei e ordem. Por este motivo, de acordo com o governante, a Polícia irá responder, também de forma violenta, a todos aqueles que empunham armas para o cometimento de delitos.

Explicou que, como forma de procurar reprimir o crime, as forças da lei e ordem têm estado a trabalhar conjuntamente com as Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), sobretudo na capital do país, onde a onda de crime violento tende a ganhar proporções dramáticas.

Na sua visita ao Ministério do Interior, o Presidente Armando Guebuza escalou diversas unidades, com destaque para o Comando da PRM na cidade de Maputo, para onde convergiram quadros superiores do sector (...)

Acho que se o Presidente da República pretende também fragilizar o crime vai ter que encontrar timoneiros em cuja presença o crime fique com medo. As declarações do Ministro do Interior não sugerem que ele seja esse tipo de pessoa. O primeiro sublinhado é algo inofensivo, pois revela simplesmente quão profundo é o desconhecimento das verdadeiras prioridades no combate ao crime. O segundo sublinhado é sintomático: enquanto se aguarda por um apetrechamento em meios humanos e de trabalho à altura... Sonho com o dia em que o nosso Estado vai interiorizar a ideia de que o seu trabalho não é messiánico e final. Resolver problemas não é acabar com os problemas de uma vez por todas. Resolver problemas é criar condições para identificar os problemas e resolvê-los. O trabalho não começa quando se dispõe dos meios para fazer o golpe final. O trabalho é procurar sempre soluções. Enquanto se aguarda por um apetrechamento em meios humanos e de trabalho à altura devia se procurar soluções para o problema da falta de meios humanos e de trabalho e colocar-se a questão de saber o que é realmente necessário para fazer o trabalho que é preciso fazer.

Os sublinhados três e quatro são curiosos. A palavra aterrorizar não se aplica às forças de defesa e segurança ou de ordem pública. Quando se chega ao ponto de se aterrorizar a polícia, então estamos mal mesmo. Pior atestado de rendição não pode haver. Não, o problema do crime em Maputo não é de aterrorizar a polícia. Terrorismo, se terrorismo há, é contra a população indefesa, esta população que desde a independência está entregue à sua sorte sem que aqueles que têm a responsabilidade de a defender assumam responsabilidade por isso. Mas o cúmulo da rendição está no quarto sublinhado: a Polícia irá responder, também de forma violenta, a todos aqueles que empunham armas... Portanto, a Polícia vai reagir como os próprios criminosos. Numa altura em que o que está em causa é o Estado de direito e o respeito pelas normas de convivência civilizada o Ministro do Interior, acossado pelos terroristas, parece estar a sugerir uma reacção idêntica a dos criminosos: violência também terrorista. Uma situação que exige o apelo ao direito e à norma provoca uma reacção de vingança por parte do Estado. É a rendição. O crime fragilizou o Ministro do Interior.

O problema do crime em Moçambique não são os criminosos, terroristas como não. O problema do crime em Moçambique é a perplexidade do Ministério do Interior. Fenómeno da bicha elevado à não-sei-quanta potência. Estamos mal.

2 comentários:

chapa100 disse...

professor! o ministro esta precisando fazendo algumas perguntas, e bem perguntadas. tentei fazer um pequeno exercicio no meu bolg sobre a fala do ministro hoje no noticias.

Elísio Macamo disse...

fui há bocado ver e deixei um comentário. é isso mesmo.