sexta-feira, junho 01, 2007

Um comentário oportuno

O Júlio Muthisse, jovem jurista, mandou-me o comentário que reproduzo mais abaixo. Não conseguiu colocá-lo directamente. Encontro-me neste momento longe do escritório, por isso peço que me perdoem a apresentação gráfica da reprodução. Espero que saia bem. Eis o comentário:
"Quando todos nós situados "onde se forma a opinião pública" emitirmosconscientemente "OPINIÃO" e a fazermos valer, as coisas vão, verdadeiramente, mudarem Moçambique. Quando a dita "sociedade civil" a que, supostamente, todos pertencemos (digo"supostamente" porque muitos se demitiram ou não conhecem o seu papel numa democracia como a que pretendemos construir) deixar a cómoda apatia perante o fenómeno político nacional, acredito que as coisas mudem. Quando todos nós deixarmos de ver os governantes como "chefes" e os olharmos nos olhos como nossos empregados, principescamente pagos a custa do nosso suor, da nossa contribuição para a sociedade Estado em que nos inserimos, acredito meu caro Elísio, que a cultura de responsabilização se enraizará em Moçambique.
Enquanto isso não acontecer os paióis vão explodir, ministérios queimar, bombeiros apagar fogo com baldes etc, e as pessoas continuarão (cara sem vergonha) a aparecer na TV sorridentes a anunciar progressos apenas visíveis nos papeis. Sabes porquê meu caro? Porque apesar de todo o moçambicano que acompanha os fenómenos desta terra saber e sofrer com as consequências do rebentamento do paiol (quantos de nós não albergamos tios, sobrinhos, avos etc?) por exemplo, poucos são os que levantam a voz e clamam por responsabilização e, num país que reina a catalogação, as poucas vozes que se levantam e clamam por responsabilização são, inclusive, ridicularizadas por aqueles que deviam ser os primeiros a apoiar. Sabes porquê meu caro? Porque muitos dos que estão situados "onde se forma a opinião pública" têm medo de criticar os erros políticos ou de governação porque almejam lá estar; porque pensar para muitos desses é um exercício perigoso que os pode afastar do seu objectivo. Porque pensar e expor pensamento próprio, para muitos, caiu em desuso. Porque para muitos o que interessa é dizer o que interessa é repetir chavões como se isso fosse certificado de competência. Quando formarmos uma verdadeira sociedade civil e consciencializarmo-nos do nosso papel, os cargos políticos queimarão à mesma proporção dos ministérios e paióis. As pessoas terão a dignidade de dizer basta, não consigo fazer este trabalho por isso vou embora.
Tenho dito.

2 comentários:

Elísio Macamo disse...

o jaime langa pediu-me para colocar este comentário que ele não consegue colocar aqui no blogue. ei-lo:
"Alo Júlio. O "comentário escrito por ti" é interessante, mas não é teu. Se eu te
pedisse para repitir mais três vezes, na terceira já dirias que eles têm razão, a
estrutura que lhes é dada para governar deve ser governada com seus recursos
(humanos e materiais). Mas nunca ninguem desistiu do cargo por exiguidade de
recursos. sabe porque? porque todos acharam que o seu antecessor não foi
suficientemente competente e que ele iria organizar e o sistema não lhe permite
"organizar", mas redesorganizar. Os progressos são visíveis em papeis sim, porque
são bem pensados e desenhados, mas inexequíveis no sistema. A reflexão deve ser mais
profunda meu caro amigo".

Júlio Mutisse disse...

Meu caro amigo Jaime Langa,
A escassez de recursos em Moçambique é um facto e não é de hoje. Infelizmente esta é a canção que ouvimos muitas vezes algumas das quais para justificar a inércia ou a incapacidade dos nossos gestores públicos.
O seu comentário parece induzir a ideia de que, como sociedade ou fazedores de opinião, não podemos exigir a responsabilização dos governantes, principescamente pagos com os nossos impostos, porque (coitados) não têm recursos para fazer melhor. É esta visão que fomenta a desresponsabilização dos nossos gestores públicos. É esta visão que potencia a preguiça dos nossos comentaristas no geral.
Não defendo a estruturação de uma sociedade civil que bote tudo a baixo ao mínimo erro; nem defendo a emergência de fazedores de opinião que digam mal das políticas governativas por mero desporto. Defendo a emergência de uma classe pensante que não se limite a repetir chavões políticos, que, perante a escassez de recursos de que falas, aponte (existindo) outras soluções mesmo que diversas das adoptadas pelos governantes do dia que são, afinal, nossos empregados.
Defendo a emergência de uma sociedade civil clara dos seus interesses e do seu papel na sociedade e na democracia que construímos todos os dias inclusive através deste blog.
Defendo que não nos acomodemos à justificação fácil da escassez de recursos e busquemos outras explicações para os factos do dia a dia da nossa sociedade. Pelo seu comentário, seria fácil justificar a razão porque o património do Estado não está assegurado: Escassez de recursos. Mas será que alguém já moveu algum dedo no sentido de o assegurar? Alguém se quer pensou nessa ideia algum dia?
Ultrapassando a questão da escassez de recursos e chegando a conclusão de que nunca ninguém moveu uma palha para assegurar o património estatal e que ninguém pensou nessa necessidade, detectaremos a inércia daquele a quem cabe a responsabilidade de gestão do património estatal e exigiremos dele responsabilidade.
Mas como dizia no meu comentário, isso só vai acontecer quando todos nós situados "onde se forma a opinião pública" emitirmos conscientemente "OPINIÃO" e a fazermos valer. Quando a dita "sociedade civil" a que, supostamente, todos pertencemos deixar a cómoda apatia perante o fenómeno político nacional. Quando todos nós ACREDITARMOS QUE PODEMOS INFLUENCIAR PARA AS MUDANÇAS QUE SE PRETENDEM EM MOÇAMBIQUE.
Isso vai acontecer quando nos preocuparmos em nos mostrarmos pela competência e não pela quantidade de vezes que repetimos VIVAS ou discurso oficial.
Isso vai acontecer quando pensar voltar a estar na moda.