Comentei aqui o incêndio no Ministério da Agricultura. Considerei a reacção do Governo como uma manifestação do que chamo de fenómeno da bicha. Alguns comentários que recebi em privado bem como a divulgaçao dos resultados do inquérito levam-me a voltar à carga sobre o assunto. Houve pessoas que perceberam que eu estivesse a acusar o Governo de incompetência. Longe de mim tamanha presunção como, aliás, uma leitura cuidadosa do texto vai mostrar.
O que sugeri no meu comentário foi que muita gente haveria de ver nesse tipo de coisas provas da incompetência do Governo e que mesmo pessoas que, como eu e apesar de tudo, têm este Governo em alta estima, teriam dificuldades em interpretar as catástrofes recentes de outra maneira. Portanto, para mim a questão da incompetência ainda não se coloca, mesmo se alguns membros do Governo parecem muito empenhados em provar que toda a gente que pensa assim tem razão.
O meu comentário tinha um outro enfoque. Era sobre a política e o que significa governar do ponto de vista político. Não tenho a certeza de que isso esteja claro para algumas pessoas, sobretudo para alguns governantes. Para mim é pura coincidência que o paiol, o tremor de terra, as cheias e, agora, o incêndio no Ministério tenham ocorrido neste mandato. Também escrevi isso aqui. Esses acontecimentos não têm, por enquanto, nada a ver com a qualidade da governação. Mas isso é um problema, pois se este Governo está de facto empenhado em transformar o país – e tudo indica que sim – então devia, em meu entender, dar tratamento político aos nossos problemas transformando-os em seus problemas. A essência da política está aí. Ela não consiste em apenas mandar nas pessoas. Consiste em assumir responsabilidades como se espera de toda a gente adulta. A sugestão que eu fazia no meu comentário era de olhar para a governação como um desafio político, e não simplesmente técnico.
Aqui não posso deixar de fazer uma observação que, como todas as coisas sinceras, vai cair mal em muitos círculos. Assumo a responsabilidade e citem-me à vontade. O Presidente Guebuza pertence a uma geração política com um outro tipo de socialização política. Isso não o desqualifica, antes pelo contrário, enche-o até de legitimidade e peso. Neste momento, só um político da sua geração e com o tipo de socialização que ele tem é que pode ter possibilidades de sucesso no esforço de transformação deste país. Não posso imaginar nenhuma das pessoas tidas como “presidenciáveis” antes das últimas eleições capaz de fazer o que é preciso fazer. Ele tem que corrigir muitas das coisas que Samora Machel estragou e Joaquim Chissano não pôde fazer devido à conjuntura especial do seu mandato. Só que ele precisa de ver essas coisas que precisam de ser feitas. Contudo, o tipo de socialização política que ele tem não me parece apropriado para o colocar nessa posição de ver. A boa vontade, que é evidente, e a legitimidade simbólica, que é muita, não vão sugerir as coisas que é preciso fazer. Então, alguém tem que lhe mostrar essas coisas.
Aí toda a responsabilidade recai sobre os que o rodeiam desde Ministros e demais assessores até aos militantes do partido. Este exército de quadros tem, em virtude da sua idade, formação e experiência existencial, uma outra perspectiva sobre o país. É sobre eles que recai a responsabilidade de agir sobre os desafios que o Presidente da República, muito habilmente (leiam esta postagem anterior minha) parece ter identificado. E essa responsabilidade é política. É política porque consiste em desenhar formas de intervenção governamental assentes no desiderato da construção do nosso Estado-Nação. A Primeira-Ministra começou a dizer coisas muito interessantes a este respeito (leia aqui) e a reflexão que ela iniciou precisa de ser aprofundada. Combater a pobreza, sugeriu a Primeira-Ministra, é tornar o país capaz de explorar as suas potencialidades. Isso é um desafio político, não é apenas técnico. Este é o tipo de reflexão que o país precisa em todas as áreas.
A divulgação dos resultados do inquérito ao incêndio revela, infelizmente, que ainda não é desta vez que se quer pegar nesses desafios políticos. Cito uma passagem da notícia veiculada pelo jornal Notícias para mostrar a dimensão do problema:
O Conselho de Ministros ‘saudou o profissionalismo e a entrega dos membros da comissão de inquérito e dos especialistas envolvidos, tendo inclusive acolhido a avaliação, conclusões e recomendações contidas na narração, as quais serão consideradas nas medidas organizativas em curso’. Instruiu ainda o MINAG a prosseguir as acções visando a normalização da vida do ministério e, em coordenação com o MOPH, a dar seguimento aos trabalhos de avaliação do edifício, com vista à sua recuperação...
Portanto, o Conselho de Ministros está a reagir como se fosse o próprio Ministério da Agricultura quando o desafio é aprender do sucedido tirando as devidas ilações políticas. Tirar ilações políticas significa, em minha opinião, fazer uma reflexão profunda e abrangente sobre a segurança das instalações públicas, medidas de controlo e meios necessários para a reacção à largura e extensão do Estado. O Ministério da Agricultura pode se ocupar da recuperação do seu edifício, mas o Conselho de Ministros podia pegar nesta oportunidade para introduzir no país medidas abrangentes e claras de abordagem deste tipo de problema. No mesmo fôlego, a definição dessas medidas iria servir para fazer o que é politicamente relevante, nomeadamente definir responsabilidades de modo a que se saiba a quem atribuir as culpas quando coisa igual vier a acontecer. Nunca governei em nenhum lado, nem mesmo dentro da minha família, mas penso que governar é isto: encontrar respostas abrangentes e preventivas. Essas respostas não vão impedir que coisas iguais não venham a acontecer no futuro, mas pelo menos vão nos permitir saber com alguma certeza porque as coisas voltaram a acontecer e o que precisamos de fazer para impedir que voltem a acontecer. E sempre assim. Não há soluções finais. Estamos sempre a trabalhar para melhorar as soluções. Os problemas não dormem nem se contentam com as soluções por nós desenhadas.
O país está a atravessar um momento muito interessante. Isso é em parte resultado do dinamismo com que o novo Governo procura abordar os problemas. Esse dinamismo está a cristalizar tensões existentes, tornar mais claros os contornos da nossa sociedade política e a pôr a descoberto os verdadeiros problemas do país. Isto é muito bom e é em abono do Governo. Agora, um Governo que é capaz de tanto devia, para levar a bom termo o trabalho que iniciou, ser capaz de estar à altura da tradução política da sua acção. O momento é auspicioso, mas alguém tem que saber ler os sinais e ter a coragem de o fazer em voz alta. Estamos todos interessados no bem-estar geral, mesmo se por vezes nos deixamos levar pelo sabor do conforto de só criticar os que estão realmente a trabalhar.
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