segunda-feira, junho 18, 2007

O direito à razão II

Isto é um apelo. À nossa imprensa, mas sobretudo ao jornal O País Online. Este jornal tem sido muito útil. Como por razões técnicas – incompetência pessoal – não consigo ter acesso ao Notícias online, O País assim como o Canal de Moçambique têm sido as minhas principais fontes de informação actualizada sobre o país.

O País tem sido o meu canal predilecto por me dar informação – e não apenas comentário como o Canal de Moçambique (o que não o torna menos útil!). Devo repetir, de certeza pela vigésima quantas-vezes, que frequentemente a qualidade dessa informação deixa muito a desejar. Parecem-me estar a ser violados preceitos centrais do jornalismo de dizer o quê, quem, como, quando, onde e, talvez, porquê. É uma tortura tentar decifrar algumas reportagens. Grande tortura. É um atentado ao nosso direito à razão.

Acho isto estranho, pois os cronistas deste jornal são pessoas que escrevem, na maior parte das vezes, coisas com sentido. O Jeremias Langa, a Olívia Massango e o Lázaro Mabunda escrevem coisas que revelam interesse por informação sólida. Como é que deixam passar informação que não é informação? Que contribuição querem dar à melhoria da qualidade do debate na nossa esfera pública? Porque não controlam melhor as informações que tiram? Porque se contentam com tão pouco quando eles próprios, nos seus trabalhos individuais, parecem ser mais exigentes consigo próprios?

Vejam a notícia que se segue, e que extraí do País Online, e digam-me se faz sentido. Os meus comentários continuam mais abaixo:

Académicos debatem estágio do empresariado nacional

12/06/2007

Decorreu, ontem, em Maputo, um seminário designado Estratégias para o Desenvolvimento de um Empresariado Nacional Forte: O caso do Black Economic Empowerment, durante o qual os participantes chegaram à conclusão de que Moçambique ainda não tem condições para ter um empresariado forte, que possa implementar uma estratégia semelhante ao Black Economic Empowerment, em vigor nalguns países da região austral.

De acordo com Cardoso Muendade, um dos palestrantes, o empresariado moçambicano está virado ao desenvolvimento rural: está concentrado em questões como o desenvolvimento rural.

Muendane avançou com o seu ponto de vista considerando que certa camada da sociedade moçambicana não apresenta como prioridade a riqueza individual e muita das vezes é temida, e até desencorajada.

De referir que o Black Economic Empowerment foi considerado uma estratégia de desenvolvimento económico da RSA e de integração dos negros na economia daquele país, ou seja, dos mais desfavorecidos, no tempo do Apartheid.

Estão a perceber o meu problema? O primeiro parágrafo ainda passa, à risca, pois não devo ser o único que gostaria de saber a que propósito foi feito este seminário, quem o organizou e que tipo de académicos participaram nele. Mas, prontos, passa. Já o segundo parágrafo é uma lástima autêntica e, provavelmente, um mau serviço ao pobre do tal Cardoso Muendade. O que significa que “... o empresariado moçambicano está virado ao desenvolvimento rural”? O acréscimo da nota “está concentrado em questões como o desenvolvimento rural” não clarifica nada, piora as coisas. É apenas uma repetição da primeira frase. O que é que Cardoso Muendade quiz dizer com isso? E como é que isso se encaixa com a conclusão a que se chegou de que “Moçambique ainda não tem condições para ter um empresariado forte”? Estão a perceber o meu problema? Os jornalistas entre vocês podem me ajudar a esclarecer isto? É por ser uma notícia breve?

E as coisas não terminam por aí. O terceiro parágrafo é horroroso. O que é que é temido e desencorajado? Certa camada da sociedade moçambicana ou a riqueza individual? E o que é que isto tem a ver com a conclusão segundo a qual “Moçambique ainda não tem condições para ter um empresariado forte”? O que é que Cardoso Muendane quiz dizer? Alguém esteve lá para nos dizer isso? O que me leva a reclamar aqui é que acho o argumento interessante e gostaria de saber mais. Quem é Cardoso Muendane? É economista? Jurista? Sociólogo? O que o legitima na sua fala? Competência comprovada cientificamente ou na prática? Porque é que o repórter chama a isto de “informação”? Estão a perceber?

O último parágrafo é para esquecer. Quem fica iluminado com este esclarecimento?

Não acredito que seja um problema de formação deficiente dos nossos jornalistas. Não quero acreditar. É falta de respeito para com os leitores. É agressão ao nosso direito à razão. É revoltante. Não podemos exigir fala com consequências dos nossos governantes e menos recurso ao fenómeno da bicha para, no mesmo fôlego, aceitarmos este tipo de agressões. A governação é tão boa quanto o nível crítico existente na sociedade. E o nível crítico sobe com a qualidade da informação. Esta, por sua vez, tem de ser racionalmente acessível. A notícia que estou a comentar agora não é. É simplesmente impenetrável, logo, não pode ser notícia. E se acham que estou a ser mesquinho aí vai mais uma achega: o que me preocupa é que notícias deste tipo estão na base de longas discussões e posicionamentos na nossa esfera pública. Agora façam as contas: o que estarão as pessoas a discutir? Nada. Mas discutem. É deprimente.

4 comentários:

Bayano Valy disse...

Caro Prof, espero que O País online entenda a sua preocupação. De facto, ficou muita coisa por dizer. Depois de ter lido a notícia na versão imprensa, fico com a sensação que houve uma pressa em se postar sem que os elementos básicos do jornalismo fossem no mínimo observados. Na ânsia de postar alguém acabou amputando a "verdadeira" notícia. Agora, isso levanta uma questão: quem é que postou? Se um jornalista ou um técnico de informática? Se a hipótese for a segunda, estamos perante uma situação em que a chefia do jornal se resignou das suas funções de garantir a qualidade das notícias. Há muitas perguntas que de facto ficam por responder. Também tenho reparado que as notícias online do País são muito resumidas e daí essas lacunas. Essa em particular tem pouca utilidade para quem não leu o jornal imprenso.

Vou discordar consigo no respeitante a última questão "não acredito que seja um problema de formação deficiente dos nossos jornalistas". Da outra vez que discutimos essa questão atemo-nos de que é fundamental que o jornalista tenha uma boa cultura geral. A mim me parece que seja esse o problema. Não necessariamente falta de respeito, mas não haver capacidade para discernir que aínda existe muita coisa em falta para que a estória passe. Isso leva-me a um outro ponto: quem é o jornalista? o que vejo é que qualquer indivíduo pode decidir hoje mesmo que amanhã é jornalista, o que não acontece, por exemplo, na sociologia, ou medicina. Temos, portanto, uma profissão em que muitos dos seus profissionais revêm-se como em transição, à espera de uma boa oportunidade.

Repare que o tal seminário foi, quanto a mim, sui generis no país. Não me recordo de alguma vez ter-se cobrado entradas para se assitir a uma palestra. Mas nessa cobrou-se. Isto em si constituíria notícia para mim.

Um abraço
PS: Hei-de ver se falo com o Dr Cardoso Muendane a pedí-lo a sua apresentação.

Elísio Macamo disse...

obrigado pelas clarificações. ficar-lhe-ia muito grato pelo texto, parece-me que foram abordados assuntos importantes. na verdade acho estranho que o aspecto de entradas pagas não ter sido tematizado. sobre formação ou não, creio que introduz um aspecto importante. de facto, é preciso ter capacidade para ver o que não se sabe. agora, o meu desabafo era de que quem não se preocupa em melhorar os seus próprios conhecimentos não respeita os outros, sobretudo quando a melhoria significaria a prestação de melhor serviço público.

Júlio Mutisse disse...

Há poucas semanas era tema recorrente na imprensa nacional a reforma da lei de imprensa. Na verdade o que se problematizou não foi a lei como um todo mas o aspecto particular da introdução da carteira profissional para os jornalistas.

Na minha modéstia opinião, a carteira profissional ia ajudar a separar o trigo do joio na classe jornalística nacional, na medida em que só trabalhariam como jornalistas aqueles que, verdadeiramente, estivessem habilitados para o efeito evitando a dumbanguenização da profissão...

Diz o bayano valy que "o que vejo é que qualquer indivíduo pode decidir hoje mesmo que amanhã é jornalista", seguindo a pergunta que antecede esta afirmação pergunto: serão estes jornalistas? Tenho as minhas dúvidas...

Mas talvez a pergunta essencial que nos levaria a entender este fenómeno do "vazio da notícia" nas notícias que nos são dadas a consumir é: o que é ser jornalista?

Wilkipédia refere que Jornalismo é a actividade profissional que consiste em lidar com notícias, dados factuais e divulgação de informações. Também define-se o Jornalismo como a prática de colectar, redigir, editar e publicar informações sobre eventos actuais; ao profissional desta área dá-se o nome de jornalista.

Qualquer profissão exige formação (um dos principais problemas levantados por Semedo em relação aos futebolistas nacionais é a deficiência de formação) e, em qualquer profissão, a cultura geral é importante.

Da mesma forma que só é jurista quem se formou em direito, sociologo aquele que aqueceu os bancos da escola a busca de tal título, só pode ser jornalista aquele que tenha formação na área.

Para mim o problema na notícia que comentamos e em muitas outras com o mesmo problema, pode estar na falta (não na deficiência) do binómio formação e cultura geral de quem a produziu.

A brincar tenho dito se um dia me cansar da minha profissão serei cantor ou trabalhador de um qualquer orgão de informação (jornalista não serei de certeza mas vou meter a mão no trabalho que normalmente é feito por estes)... nestas duas áreas qualquer um vai

Elísio Macamo disse...

oh, júlio, as coisas estão assim mal? porque não olhamos para os problemas do nosso jornalismo como um desafio pessoal? porque não exigimos deles melhor informação mostrando-lhes que nos estão a prestar mau serviço e que temos direito à razão? acho que dizer que o jornalista que presta má informação é mal educado ajuda um bocado.