Formular problemas
Na passada sexta-feira, dia 22 de Junho, o jornal Notícias publicou uma notícia com o título “Cerimónias pós-morte fragilizam viúvas”. O primeiro parágrafo dessa notícia resume o teor: “As normas tradicionais e as cerimónias pós-morte, que se realizam com maior intensidade nas zonas rurais do país, são apontadas como estando, neste momento, a concorrer para o aumento da vulnerabilidade das crianças órfãs e das mulheres viúvas. Tal facto verifica-se na medida em que se realizam festas prolongadas, abate-se o gado e gasta-se grande parte do património deixado pelo defunto para os seus herdeiros directos”. O jornal informa que isto é o resultado de um estudo realizado nas províncias de Gaza, Manica, Zambézia e Nampula (nos distritos do Chókwè, Báruè, Morrumbala e Ilha de Moçambique) pela ONG Save the Children da Noruega. O estudo leva o título “Nossos direitos crianças, mulheres e herança em Moçambique”.
Gostaria de ler o estudo. As conclusões a que parece ter chegado parecem-me importantes para a caracterização da nossa sociedade ou, pelo menos, para a caracterização de aspectos da nossa realidade social. Não me parecem plausíveis, embora tenha de insistir que a base das minhas reticências seja o que está contido na notícia e não o que está no próprio estudo (que ainda não li). É possível que o jornalista não tenha percebido muito bem o estudo, mas normalmente – e quando se trata de resultados de estudos – o que as pessoas percebem, independentemente das suas próprias faculdades cognitivas, diz muito sobre a própria qualidade do que ouviram. Porque as pessoas ouvem ou percebem o que ouvem ou percebem?
Seja como for, acho útil interpelar o estudo, ainda que na escuridão, sobretudo porque são feitas recomendações de grande alcance. Elas são feitas com a palha retórica a que já estamos habituados.
Por exemplo, a notícia diz o seguinte: “[A] análise daquela instituição [Save the Children] indica que muitos aspectos jurídicos e legais relativos à transmissão da herança para as crianças órfãs e vulneráveis e mulheres, cujos maridos morreram, mostram-se insuficientes ou não são aplicados no país, concretamente nas zonas abrangidas pelo estudo”. E continua “[D]ado o cenário, os pesquisadores recomendam que seja feito um desenho de estratégias contextualmente relevantes, considerando a dinâmica e multiplicidade dos valores culturais relativos á transmissão da herança, e que se capacitem os actores e instituições”. E, “[A]conselha-se ainda para a efectivação de acções de advocacia no sentido de aprimorar o quadro jurídico existente, para além de consciencializar as famílias e comunidades, tendo em conta as diferentes noções culturais que interferem nos processos de preservação dos direitos das crianças órfãs e vulneráveis no acesso à herança”. O problema, segundo o remate de Chris McIvor, representante da ONG no país, é a “expropriação de bens das crianças e da viúva depois da morte do homem”.
Este estudo constitui um desafio sociológico e é nessa perspectiva que gostaria de o analisar. Vou apenas abordar dois pontos. O primeiro ponto é breve e tem uma vertente política. É a questão de saber quem e como são definidos os nossos problemas. Não faço este reparo com o intuito de desqualificar o estudo. Quero apenas chamar a atenção para uma característica da nossa esfera pública que consiste na sua vulnerabilidade em relação a agendas alheias. O país está cheio de ONGs especializadas em certos temas e cuja razão de ser consiste justamente em tornar públicos esses temas e tornar prementes as suas soluções. Não estou a criticar.
Esses temas não precisam de ser prioritários na hierarquia de problemas a partir de pontos de vista moçambicanos, mas o tempo, os recursos e o fervor missionário de que essas ONGs dispõem pode alterar os nossos quadros normativos ao ponto de nos sentirmos obrigados a fazer qualquer coisa mesmo que em condições normais não houvesse nenhuma razão para fazer seja o que for. Insisto: não estou a criticar. Estou apenas a constatar com que paus é feita a canoa da nossa esfera pública. Estou a tentar chamar a vossa atenção para o papel deformador que a indústria da compaixão pode ter no nosso seio. Os problemas abordados são reais. Isso até nem está em questão. O que está em questão é saber quando um problema é problema para uma sociedade, quem formula esse problema e que implicações isso tem para a sociedade.
O problema político para mim é simples: a intervenção externa promove a nossa incoerência. Muitos de nós preferimos criticar o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional como os grandes diabos, mas no fundo, a acção desestabilizadora mais insidiosa é feita pelas ONGs. Tal como o BM e o FMI, elas definem problemas para se tornarem relevantes. E com campanhas, pressões aqui e acolá podem levar a nossa classe política a agir precipitadamente. Isto é, a nossa classe política pode simplesmente assimilar a posição paroquial dessas organizações e deixar de fazer aquilo que o compromisso com o povo a obriga a fazer, nomeadamente pensar os problemas de forma global. Agora estou a criticar.
Isto conduz-me ao segundo ponto sociológico. Que é breve. O representante da organização diz que se trata do problema da expropriação de bens das crianças e da viúva depois da morte do homem. Parece fazer sentido. Para ele e para a sua organização. Faz sentido para as crianças e mulheres que eles querem proteger? Faz sentido para as comunidades onde isso acontece? Faz sentido para o Estado moçambicano? “Expropriação” é um substantivo pesado e bastante normativo. É “expropriação” de dentro ou de fora? Explico-me: as crianças e mulheres têm direitos que estão a ser usurpados? Ou as próprias práticas e normas tradicionais é que não conferem nenhuns direitos às mulheres e às crianças? E a melhor maneira de abordar isso tudo é fazer o rol de coisas alistadas na notícia? E o que é necessário para fazer isso? Capacitação? Empoderamento? Participação? Pressão? Campanhas?
Já nos anos oitenta a crítica à ajuda ao desenvolvimento dizia que o grande problema deste negócio é de usar uma razão manipulativa: formula problemas para os outros e força-os a adoptar as suas próprias soluções. É grave. Aqui não estou a criticar. Nem estou a dizer que esses estudos devem parar. Estou apenas a dizer que nós cientistas sociais precisamos de prestar atenção à forma como a nossa realidade é constituída. Não somos os únicos responsáveis por isso. Só isso. Não prestar atenção a isso é mau. Aqui, sim, já estou de novo a criticar.
3 comentários:
Caro Prof, acabei de enviá-lo o estudo. A notícia do Notícias cingiu-se somente sobre o aspecto de "expropriação de bens das crianças e da viúva depois da morte do homem", que ocupa cerca de uma página em todo o estudo condensado. Talvez porque esta questão tenha sido uma das que mais "tempo de antena" teve na apresentação da pesquisa.
No referente às ONGs, há uma grande contradição, sem dúvidas. São alguns governos do Norte que promovem a "nossa incoerência" e são as ONGs do Norte que, de algum modo, lutam contra essa intervenção extravasando-a além fronteiras. Os resultados estão a vista: cada um puxa a sardinha para o seu lado.
obrigado pelo envio do documento. vou o ler com atenção. o problema da influência de outros na definição dos nossos problemas é sério. não creio que seja possível evitar isso. mas ter consciência dessa influência é importante.
na discussao sobre a mendicidade, este relatorio podia ajudar a perceber as causas do fenomeno. ainda nao li o relatorio, mas o titulo sugere conteudos interessantes, sobre vulnerabilidade dos grupos sociais como mulher e criancas.
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