domingo, julho 08, 2007

Argumentar

O bom e o bom

Acabo de acompanhar o relato do jogo Desportivo-Maxaquene do Moçambola pela RM. Ouvi um dos locutores presente no local da contenda a criticar severamente a arbitragem. A dado momento da sua contestação ele rematou que “bons jogos” precisam de “bons árbitros”.

Acho que se exprimiu mal. Na verdade, o que ele queria dizer é que jogos que envolvem equipas importantes como é o caso do Desportivo e do Maxaquene precisam de árbitros consagrados capazes de garantir que a expectativa suscitada pelo facto de se tratar de duas equipas boas se confirme através de um bom jogo. Ou por outra, o “bom jogo” não é anterior ao jogo, mas pode se consumar se o árbitro for “bom”.

Acho este assunto curioso. Não sei como é que os adeptos do futebol entre nós reagem a afirmações desta natureza. Acenam com a cabeça e dizem, “sim, senhor!”? Suspeito que sim. E os sociólogos, como reagem? Acho que este tipo de afirmações proporcionam-nos documentos muito interessantes da forma como argumentamos no quotidiano. No fundo, o locutor tem razão, isto é, a sua exigência faz sentido. Mas aí está o problema. Ele tem razão porque por um grande esforço de abstração e reflexão lá conseguimos interpretar o que ele quer nos dizer. A letra da sua afirmação não nos diz o que ele quer realmente dizer. Temos que fazer um grande esforço de reflexão. As coisas começam mal logo com a própria palavra “bom” que é, de certeza, diferente nos dois casos. Quais são os critérios de “bom” em “jogo” e quais são os de “bom” em “árbitro”? Vimos mais acima que o mais provável é que ele quisesse dizer “importante” e “consagrado”, respectivamente.

Porque insisto nisto? Em parte por ser mesquinho, mas em larga medida por achar que a nossa esfera pública emperra justamente aqui. Nem tudo o que dizemos e ouvimos faz sentido. Contudo, todos nós partimos do princípio de que faz sentido. Não cultivamos o hábito de obrigar as pessoas a falarem coisa com coisa. Libertamos as pessoas dessa obrigação completando nós próprios o sentido. Acho mau. Assuntos como o crime, o grande tema agora, teriam melhor tratamento se prestássemos atenção à forma como deles falamos. Em suma: precisamos de aprender a formular problemas. É mesmo uma questão de formular problemas. Qual é o problema da arbitragem em Moçambique? Bons jogos precisam de bons árbitros? Ou o problema é que há grandes desníveis na arbitragem e que é preciso nivelar as coisas? Jogos entre equipas “grandes” devem ser arbitrados pelos melhores profissionais e os outros vão para as urtigas? Qual é o problema?

3 comentários:

Bayano Valy disse...

Caro Prof, mais uma aula brilhante de sociologia - aqui vejo a teoria a ser posta em prática. é deveras triste o que se passa no nosso caso. quando se tenta obrigar as pessoas a falarem coisa com coisa diz-se que é inveja. veja como reagem os nossos músicos (?) quando criticados ou técnicos de futebol, ou políticos, por ai fora. na verdade o exemplo que dá do comentador é apenas um dos muitos que ouvimos semana após semana. depois quando se questiona invariavelmente a resposta é de desqualificar porque "não és treinador", ou "não és jornalista desportivo". as pessoas não querem olhar para a questão levantada mas antes olhar para quem a levanta. quer dizer, as questões só têm o mérito de serem levantas por quem as faz - argumento de autoridade? mas como diz o provérbio popular água mole em pedra dura tanto bate até que fura. o que devemos fazer é continuar a bater na mesma tecla até que gradualmente a sociedade acorde para o facto de que devem ser responsáveis pelo que dizem

Elísio Macamo disse...

sim, bayano, na verdade trata-se aqui quase de uma fala sem consequências. e só podemos insistir. estou a acompanhar a vossa discussão sobre a cantora. interessante.

Bayano Valy disse...

lá isso é. virou um objecto de estudo sociológico. pena que aínda não tenhamos atingido um nível de reflexão onde cada intervenção é uma pérola de conhecimento. mas estamos a aprender.