Consultorias (c) – tipos
Hoje quero falar dos tipos de consultoria que há e que pode haver. Consultoria não é igual a consultoria. Há consultorias e consultorias. Não se deixem irritar com estas platitudes. Aprendi de livros que prometem riqueza às pessoas que é preciso repetir lugares-comuns do estilo “acredita nas tuas próprias capacidades e verás que vences”, “Deus não quer que desanimes”. Não sei porquê, mas essas coisas caiem sempre muito bem. Devia, se calhar, empacotar isso tudo em power-point e mandar para toda a gente registada no meu email e dizer para enviarem para mais cinco pessoas. Já que estou a falar disto, aproveito para lançar um apelo a todos: não me mandem nenhuma mensagem power-point com flores, nuvens e platitudes religiosas ou humanistas sobre a amizade e amor. Estou farto disso! Nem mesmo sobre vírus perigoso. O meu servidor encarrega-se disso.
Saí do assunto como se diz em changana. Estava a falar sobre os tipos de consultoria. Os tipos correspondem mais ao menos ao que nós sabemos fazer em sociologia. O mais comum é o que quer auscultar as atitudes, crenças e comportamentos das pessoas. Existe, inclusivamente, uma metododologia que vem já desde os anos sessenta que se chama “estudos de comportamento, atitudes e conhecimentos”. O que sabem as pessoas sobre as formas de infecção do HIV? O que pensam as pessoas sobre a prevenção? Como é a sua vida sexual? As perguntas que fazemos em qualquer questionário de pesquisa referem-se sempre a uma destas três dimensões: atitudes, crenças ou acção. As nossas lacunas em termos de conhecimento nos vários domínios da nossa vida em Moçambique fazem a cabeça girar com vertigens só de pensar na quantidade de oportunidades para consultoria. Quantas empresas não gostariam de saber o que pensam as pessoas sobre determinadas coisas? Quantas empresas não gostariam de saber a atitude das pessoas em relação a certas cores, produtos, preços, etc? Quantas empresas não gostariam de saber como as pessoas se comportam em certos domínios?
O segundo tipo é aquele que faz o levantamento sobre uma determinada problemática. Corresponde mais nitidamente àquilo que chamo de formulação de problema. Recentemente, o governo da província do Niassa lançou um concurso para um estudo de base sobre o desenvolvimento da província. Não estava bem feito, infelizmente, mas corresponde um pouco a este tipo. O que é, que opções, o que pode vir a ser? É mesmo um levantamento. Não precisa de ser à escala de uma província. Uma organização não-governamental que queira intervir na promoção de poupanças no bairro do Chamanculo B pode encomendar um levantamento de base. O consultor pode recolher informação sobre as receitas dos moradores, fontes, estabilidade, despesas, oportunidades de rendimento, padrões de consumo, etc. Com base nessa informação, a ONG pode perspectivar melhor a sua intervenção. Nesta área também há milhares de oportunidades, sobretudo nas províncias, onde o conhecimento ainda é bastante escasso. Sabe-se muito pouco sobre quase tudo quanto é necessário saber para se poderem tomar decisões sólidas com conhecimento de causa.
O terceiro tipo de consultoria é a avaliação. Insisto na ideia de que no nosso país fazemos ainda muito pouco nesta área. Normalmente, até, quem o faz são estrangeiros, muitas vezes com pouco conhecimento da realidade do nosso país. Veem por uma semana ou duas, conversam com algumas pessoas, analisam relatórios, consultam publicações e redigem o seu relatório. Desde que ficamos independentes fizemos tanta coisa. Houve programas disto mais aquilo, projecto daquele outro, iniciativa para isto, etc. Cada ministério, governo provincial, direcção estatal e todas as outras instituições que podemos imaginar já fez qualquer coisa. Como é que correu? Foi bem feito? Os recursos foram suficientes?
A falta do hábito da avaliação é um dos problemas mais graves. A título de exemplo: Tivemos uma unidade anti-corrupção que foi dirigida por uma jurista, Isabel Rupia. Essa unidade foi abolida com base no argumento segundo o qual teria sido inconstitucional. Muito bem. Entretanto, ela funcionou durante vários anos. Nos meios de comunicação de massas existe a percepção de que a decisão de abolição foi mais política do que jurídica. Não importa. O mais importante seria avaliar o trabalho que essa unidade, apesar de tudo, fez. Fez o que devia ter feito? Como? E se não o fez, porque não? Faltaram meios? Faltou vontade política? Não há corrupção? O único que me parece insensato é deixar pairar no ar a sensação de que os políticos não deixaram a unidade funcionar. Isso não basta.
Devo dizer uma palavrinha sobre o papel do sociólogo nisto tudo. Até aqui tenho vindo a falar como se o sociólogo só pudesse estar envolvido numa consultoria como líder. Não é necessariamente assim. Na verdade, o sociólogo é o indivíduo que conhece os métodos de recolha de informação. Ele pode, portanto, ficar encarregue de executar determinadas tarefas: organizar, elaborar e aplicar inquéritos, conduzir entrevistas, fazer revisão de literatura, formar os entrevistadores e analisar os resultados. O sociólogo deve saber identificar o método de recolha de informação mais apropriado para o trabalho em mãos. Cada tipo de consultoria tem as suas especificidades e o sociólogo distingue-se pela sensibilidade em relação a elas.
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