sexta-feira, julho 20, 2007

A fala sem consequências X

A fala sem consequências é um fenómeno muito complicado. Ele refere-se à falta de articulação entre a fala e a prática consubstanciada num nível extremamente baixo de responsabilização política. O conceito central na fala sem consequências é a responsabilidade. A hipótese é simples: quanto mais fala sem consequências, mais irresponsabilidade e, mutatis mutandi, quanto mais responsabilidade, menos fala sem consequências. Aí está uma hipótese de trabalho para tese de licenciatura...

Um dos desafios de construção de um espaço político racional e sólido devia consistir no incremento da responsabilidade. Estrategicamente até vejo mérito em atribuir menos importância à solução imediata dos problemas do povo – que no nosso contexto fomenta o neo-patrimonialismo, a falta de iniciativa e níveis confrangedores de centralização – e, pelo contrário, dar mais destaque à promoção da responsabilidade. Se fosse conselheiro de algum político, esta é a mensagem que transmitiria. Esqueça os problemas, pense apenas na responsabilidade!

Mas não sou, por isso posso procurar conforto na cómoda posição de crítico (controverso). A partir desta posição gostaria de chamar a vossa atenção para o artigo que extraí do jornal O País Online. Leiam-no e encontramo-nos mais abaixo:

Hospital privado de Maputo vai custar 16 milhões de dólares

19/07/2007

Um hospital privado de grandes dimensões com capacidade para cerca de 220 camas será erguido na cidade de Maputo através de um investimento privado de 16 milhões de dólares. Os fundos são provenientes das empresas INVALCO e LENMED HEALTH, que vão repartir, respectivamente, 40 e 60%.

No bairro Sommershild II é onde se projecta construir o Hospital, que terá uma área total de cobertura de aproximadamente 8.500m². Assim que for aprovado o projecto pelo Conselho Municipal, a construção e equipamento vai levar aproximadamente 18 meses. Com o arranque deste projecto na capital, espera-se que as províncias possam, a longo prazo, também se beneficiar de uma unidade sanitária desta empresa.

Este empreendimento terá uma diversidade de serviços: três blocos operatórios, medicina, maternidade, obstetrícia, pediatria, ginecologia, ortopedia, cirurgia, radiografia e patologia, cuidados intensivos, blocos de consultas médicas, farmácia, morgue, serviços auxiliares e um parque de estacionamento privativo com capacidade para 100 viaturas.

A iniciativa surgiu quando, em finais de 2003, a INVALCO constatou existir um acentuado défice no tratamento de doentes que recorriam ao sector privado devido aos serviços básicos oferecidos pelas clínicas, défice de equipamento para diagnóstico dos doentes, défice de serviços especializados, sendo a África de Sul a alternativa, entre outros.

Depois de dar muitos passos para a concretização da ideia, em 2005 a INVALCO rubricou com a empresa sul-africana LENMED HEALTH uma “joint venture” que culminou com a formação da empresa. A mesma terá um conselho de administração constituído por seis pessoas, presidido por Izidora Faztudo.

Acho que estamos aqui perante o fenómeno da fala sem consequências. Empreendimentos comerciais só fazem sentido quando fazem sentido. Dito de outro modo, alguém só se predispõe a gastar 16 milhões de dólares se achar que vai tirar benefício. A não ser que seja louco. Não acredito que seja o caso, tanto mais que as pessoas que querem construir este hospital já estão a falar de alargar a coisa às outras províncias. Porque isto é fala sem consequências? Isto é fala sem consequências do ministério da saúde que depois que saímos do regime formal de partido único nunca mais apresentou ideias claras e autónomas sobre o tipo de saúde que queremos para o país. O ministério da saúde simplesmente gere fundos. Fundos dos outros. Não perde nem um minuto a pensar como estruturar a saúde no país a partir do que somos, do que existe, do que podemos fazer. Gere apenas os fundos dos outros. Portanto, estamos aqui perante uma fala sem consequências por omissão. O ministério da saúde usou a fala sem consequências por não dizer nada. E os outros, infinitamente mais espertos do que nós, vão reconhecendo as brechas, abrem-nas ainda mais e, para facilitar as coisas, criam conselhos de administração onde vão meter políticos para agilizarem o processo.

E anos a fio vamos continuar a dizer que a saúde é coisa complicada sem fundos. Vamos promover conferências nacionais de medicina tradicional. Vamos proibir clínicas privadas nos hospitais estatais. Vamos fazer rusgas e exonerar directores nacionais dentro do processo normal de organização do sector. Enfim, vamos fazer política sem ideias, criatividade e, sim é verdade, sem auto-estima. Para mim este artigo traz uma má notícia.

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