O problema (c)
Que quadro teórico? Esta é a grande pergunta de qualquer estudante de sociologia empenhado na elaboração da sua tese. Posso utilizar a teoria de Goffman para analisar esta problemática? Ou a teoria da exclusão social? O meu problema é não ter ainda quadro teórico, dizem alguns. A minha caixa de correio está cheia de emails com estas inquietações todas. Onde está o problema? Ah, o problema de novo! Na verdade, o quadro teórico é um problema falso. Ninguém precisa dele, ou melhor, só precisa dele – e desespera – quem não reflectiu o seu problema devidamente. Dito de outro modo, um problema bem elaborado sugere ele próprio o tal quadro teórico.
O que é um quadro teórico? Ou melhor ainda, o que é uma teoria? Uma teoria é uma maneira de ver a realidade. É uma espécie de lentes que usamos para apreender o mundo. A teoria permite-nos ver certas coisas ao mesmo tempo que nos obriga a ignorar outras. A teoria sugere-nos problemas, questões, inquietações. No nosso dia a dia, usamos teorias sem nos darmos conta. Apreendemos a realidade de uma determinada maneira. Por exemplo, muitos de nós temos a convicção de que a polícia moçambicana é corrupta. Quando temos que lidar com ela prestamos muita atenção a tudo quanto relacionamos com esse comportamento. Se a polícia de trânsito nos manda parar e constata que o nosso pisca-pisca não funciona, interessamo-nos por tudo quanto nos possa indicar se é seguro propôr um pagamento ilícito ou não. Por exemplo, se o polícia disser, em resposta a nossa surpresa ao constatarmos que o nosso pisca-pisca de facto desapareceu – alguém tirou-o enquanto jantávamos no “Mundo’s” – “estamos mal, chefe! Que fazemos?”, alguns de nós podem ver nisso uma proposta discreta para “falarmos como homens”. Começamos a olhar para os olhos do polícia, perscutamos a sua expressão, vemos se tem barriga grande ou não – normalmente, os de barriga grande são corruptos, suponho – reflectimos sobre a melhor maneira de continuar a conversa cuidadosamente para sabermos se é de facto isso que o polícia quer.
Tudo o que fazemos nessa interacção não é mais nada senão o uso de um quadro teórico para entender uma situação. Devemos, portanto, dismistificar um bocado a noção de “quadro teórico”. Temos que a abordar como a coisa mais natural deste mundo. Algumas pessoas mais espertas do que nós, ou que nos antecederam na reflexão de certos problemas, propõem-nos certas formas de abordar um problema. Não é, contudo, obrigatório ter um
“quadro teórico” sancionado pelos manuais de sociologia. Pelo que me toca, um trabalho académico que não tenha referência directa a alguma teoria sociológica é perfeitamente legítimo, desde o momento que formule o problema devidamente. O quadro teórico ajuda aos que ainda não dominam as ferramentas da sociologia a encontrar a terminologia, as questões e possíveis respostas para descrever e resolver um problema. É mais fácil usar a perspectiva que outros elaboraram do que andar eu próprio à procura da linguagem mais apropriada. Porque reinventar a pólvora?
Voltemos ao nosso exemplo da venda de bebidas alcóolicas nas bombas de combustível. Este caso pode ser abordado de várias maneiras. Posso olhar para o caso na perspectiva do desvio. Esta perspectiva parte do pressuposto segundo o qual certas pessoas se comportam de uma maneira diferente da norma. Conduzem bêbados e provocam acidentes. Sendo assim, posso colocar várias questões: Existe uma norma sobre o perfil de um bom condutor no nosso país? (que eu saiba, predomina, entre nós, a ideia de que conduzir bêbado é sinal de masculinidade; é por isso que muitos condutores regozijam quando chove em Maputo, pois assim vão “mijar” água aos peões! portar-se mal na estrada é sinal de importância). Quem estabelece essa norma? Instituições? Pessoas? Como fazem isso? Quem são os que agem conforme a norma? Porque o fazem? Na mesma linha de pensamento podia adoptar uma perspectiva oposta, nomeadamente a da rotulagem. Diria, seguindo os preceitos dessa perspectiva, que o mais importante não é de facto o comportamento de desvio, mas sim o processo através do qual se define um determinado comportamento como sendo “anormal”. Podia também adoptar uma perspectiva funcionalista. Podia dizer que o comportamento de desvio é funcional à sociedade. É dessa maneira que aprendemos a valorizar o comportamento correcto.
Podia, por oposição, usar perspectivas mais agressivas, estilo conflito. Podia me referir a algumas abordagens marxistas para dizer várias coisas: (1) a proibição obedece a uma certa economia política. Quem sabe, se calhar os donos de supermercados ou de “bottle-stores” são grandes financiadores do partido no poder e acham que as bombas de combustível estão a tirar-lhes o negócio; (2) a proibição tem como função desviar a atenção das pessoas dos verdadeiros problemas como, por exemplo, más estradas, má sinalização e falta de condições de manutenção de viaturas – porque alguém deixou entrar muitos carros do Dubai; na verdade, o problema da relação entre álcool e acidentes não é pacífico. Muitas vezes, quando a polícia chega ao local do acidente a primeira coisa que faz é ver se os condutores estavam bêbados; mas se calhar o acidente se deveu ao mau estado da estrada e não tanto à condução corajosa que resultou da bebedeira; (3) a proibição é uma forma de disciplinar a classe média moçambicana que não tem outra maneira de manifestar o seu bem-estar senão pelo consumo conspícuo de álcool em público.
O importante neste exercício todo é reter a ideia de que o “quadro teórico” limita a nossa visão ao mesmo tempo que nos permite ver certas coisas com maior clareza. As teorias não abrem as nossas cabeças. Fecham-nas. Já cruzei com pessoas que estão preparadas a morrer em defesa de uma teoria. Deixam-se envolver por ela, esquecem completamente que ela é apenas um instrumento de trabalho. As teorias não podem ser usadas de forma doentia. Elas são mesmo um instrumento de trabalho. Se não nos permitem ver bem as coisas, temos que ter a coragem de as abandonar. O mundo que apreendemos por intermédio de uma teoria é um mundo necessariamente incompleto. É o mundo de uma única perspectiva. A realidade é uma ilusão, disse uma vez Einstein. E acrescentou: Muito embora seja persistente.
A prática da sociologia é isto. O mundo está na nossa cabeça. Se queremos ver o mundo bonito, limpo e coerente temos que enfeitar, limpar e organizar as ideias da nossa cabeça. O problema da onda de crime em Maputo presta-se ao exercício de formulação de perguntas. Que perguntas podemos colocar? O que sabemos mesmo? O que pensamos apenas que sabemos? Que ligações é que podemos estabelecer entre as manifestações do crime e outros aspectos da nossa sociedade e política?
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